Desastre Natural

“Uma visão. Foi tudo o que tive antes de ser intimido de ver o que aconteceria a minha terra... Sem poder impedir... Sem chance para nada...”

O vento estava forte e frio na minha última noite nesta cidade, como humano, como Lobo protetor dela. Eu estava sentado no chão do meu quarto, era quase meia-noite e todos dormiam profundamente. A coberta que eu estava usando, grande e escura, com estrelas e luas minguantes desenhadas, me cobria todo o corpo encolhido. Minhas lágrimas não paravam de cair de meus olhos e molhar o chão de madeira.

Eles não demoraram a chegar.

- Você é o.... Lobo? – perguntou um jovem homem sem camisa, com um pano branco caindo da cintura para baixo, amarrado no meio por outro pano azul. Seu corpo moreno e bem desenhado me fez olhar para ele por algum tempo admirando-o mais do que as belas asas brancas e reluzentes sem que eu respondesse.

- É ele sim – respondeu outro, jovem garoto, mas este mais velho, já com barba e um corpo mais branco. Também havia um bracelete dourado no seu braço direito. A roupa que ele usava era a mesma do outro, porém as asas reluziam mais amareladas. A do outro era de um tom mais azul.

- Vamos? – me perguntou o mais branco com o rosto não sério, mas que também não demonstrava nenhum sentimento. – Por favor – insistiu ele após um tempo de silêncio com ambos me olhando.

- Senhor... Lobo? – chamou o jovem que estava claramente mais chateado.

- Tenho alguma outra opção? – respondi me levantando sozinho e mostrando o meu rosto claramente molhado das lágrimas que haviam caído do meu rosto sem parar, e ainda não haviam parado, por mais que não estivesse fazendo nenhum som de choro.

Ambos abriram as asas e eu logo também abri as minhas, que reluziam em azul como as do mais jovem. Percebi que o jovem me fitava surpreso e, como eu não estava feliz, fui grosso.

- O que está me olhando? – perguntei de maneira seca.

- Nada... desculpe – falou ele constrangido e logo me olhou nos olhos e falou novamente. – Eu só não esperava que o senhor fosse um Lobo... muito menos com asas.

- É o que todos dizem – respondeu o outro sem olhar para mim.

***

Eu havia tido uma visão naquela manhã.

Eu acordei e não senti nada. Simplesmente nada. Abri a janela de meu quarto e o sol brilhava fosco, o vento não passava, nem a sua filha, brisa. 

Não ouvi nenhum pássaro cantar ou algum inseto voar.

Tudo parecia cinza.

Havia apenas os barulhos dos motores dos carros que passavam pela rua apressados, o cheiro da gasolina sendo queimada e soltando aquela fumaça quase preta, se não fosse preta, que com certeza mataria muitos.

- Lobo – ouvi uma voz feminina e olhei para o lado. Vi uma mulher bela, de rosto liso e esbranquiçado, o seu vestido rosa claro cheirava a flores e em seus pés, grama verde brotava.

- A senhora é.... – não consegui concluir a frase enquanto observava ela caminhar em minha direção. Cada passo trazendo cor, a essa visão quase sem vida, trazendo a vida de volta até ela parar do lado de fora da grade que me separava dela.

Eu dentro de meu quarto, onde a única iluminação fosca vinha do sol e não adentrava o quarto. Ela do lado de fora, cheia de vida e cor.

- Decidimos deixar esse mundo de vez – começou ela a falar em um tom triste. – Resistimos o quanto pudemos, o quanto aguentamos... – Vi seus olhos se encherem de lágrimas –, mas todos acharam melhor ir embora daqui... Assim como os espíritos dos Ventos, da terra, da água e do fogo...

Meus olhos se arregalaram de espanto enquanto ela continuava a falar.

- Todos os seres vivos que estavam aqui decidiram o mesmo... os únicos que ficaram, foram aqueles que decidiram ficar até o final... Com os humanos que amam... – terminou ela.

Meu coração bateu forte e sem que eu percebesse, já estava do lado de fora do quarto, correndo pelo caminho estreito entre a minha casa e a parede procurando pelo meu cachorro, sem sucesso. Num piscar de olhos, ela apareceu novamente em minha frente, agora com a visão cinza e panorâmica dos prédios, estrada e construções a frente, enquanto as árvores que haviam estavam cinza também, sem vida, sem brilho. Apenas madeira sem vida.

- Lobo... você não está permitido a ficar neste mundo... – fez uma pausa. – Nem você, nem o seu cachorro, nem alguns outros valorosos seres e humanos que vivem aqui. Por isso, serão levados por enviados de anjos... – Falou-me com um sorriso simples. – Nos perdoe por tê-lo trazido novamente a essa terra...

***

Senti duas mãos em meus ombros e fui puxado de minha visão de volta para a realidade escura da noite e sem sentidos da noite. Quando percebi, eram eles novamente.

- Vamos...? – perguntou novamente o jovem mais velho, mas agora em um tom de preocupação enquanto me olhava.

- O senhor realmente ama esta terra não é....? – perguntou o mais jovem.

- Sim... – respondi prontamente e respirando fundo. – Quero ver o que vai acontecer antes de ir embora... – falei olhando-os com meus olhos cansados.

Após se entre olharem o veredito rápido e simples.

- Está bem – me respondeu o mais velho que em um piscar de olhos me levou ao alto da cidade. Era uma visão panorâmica enorme, podia-se ver a quilômetros de distância.

- Lá vem... – disse o mais novo olhando para bem longe, muito longe, um tornado girando e girando em direção a cidade grande.

Rapidamente o vento mudou de calmo para brusco e forte, sem piedade nenhuma. Ambos olharam para o lado do mar. Com o coração batendo forte dentro do meu peito, virei o rosto.

Uma tromba d’agua se aproximava pelo lado do mar.

- Ah! – um grito feminino chegou aos meus ouvidos vindo de baixo.

Uma garotinha que segurava firme as mãos de sua mãe, corriam sem destino no sentido contrário de ambos os tornados.

Em segundos, um microonibus da cidade, descontrolado, era empurrado em direção a elas e outras pessoas. Rápido como o vento os acertou e os gritos de muitos pararam, e de outros aumentaram.

Minha cabeça baixou sem o meu consentimento e novamente voltei a chorar.

- Vamos embora… – falou o jovem mais velho me levanto para alto em direção a lua até sumirmos e a lua ser encoberta pelas nuvens negras do tornado.

Com certeza não é preciso dizer que houve muitas mortes injustas, de inocentes, crianças e idosos nesse dia. Mas quem era eu para julgar uma decisão que não cabia a mim tomar? Simplesmente fui levado para não ver o que iria acontecer, mesmo sabendo de todos os acontecimentos. Após milênios de tortura, as pessoas pagaram o preço por usar e abusar daquilo que lhes mantinham vivos... Não é por que não vi com meus olhos, que não senti todos aqueles sentimentos.

“Depois deste dia, não só para a cidade que eu morava, mas para todo o planeta que eu nasci e cresci até a minha idade atual, nada foi a mesma coisa... a humanidade que ficou para pagar por tudo que havia feito deveria ter aprendido a lição que havia agora, sido dada pela “mãe” de todos... Mas não... Não aprenderam... E então o Observador Solitário foi mandado para guiar o que sobrou neste mundo”.

CONTOS DE UM LOBO NA CIDADE VOLTA NA PRÓXIMA TEMPORADA!
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