O Casamento – Parte 3 – Final

“Aquela bela casa, aquele belo convite, a belíssima senhora Marietta... E o futuro que não espera para chegar...”

Havia muitos campos, todos cheios de um gramado aparentemente alto e bem verde. Nessa época do ano a natureza está cheia de força e vida.

Tirando algumas poucas árvores que eram vistas em cima de algumas planícies, praticamente não havia árvore nenhuma. Fechei os olhos enquanto voava pelo céu de nuvens brancas e baixas, eu estava na altura das mesmas. Aquele cheiro de gramado tão forte e um pouco adocicado que subia me fazia sentir uma alegria interminável no meu peito. Mas logo que o cheiro mudou para algo mais salgado e o ar ficou frio, abri meus olhos preocupado e observei o local que eu sobrevoava agora com mais lentidão.

Parecia um pântano comum, e o céu acima de mim agora estava fechado e cinzento com ventos mais gélidos. De fato eu estava me aproximando da residência da velha senhora, mas o local havia mudado muito mesmo desde a última vez que eu a vi. Antigamente este local era uma floresta úmida, não um pântano em si, e apesar da umidade, o sol atravessava todos os locais para tocar a terra que manter até as menores plantas fortes. Agora apenas vejo algumas árvores troncudas em meio a essa água escura que segue para o lado em direção a algum lugar.

Não demorou muito e avistei o portal de entrada de carruagens logo a frente. Desci o voo até próximo do chão. Fechei um pouco asas enquanto as batia e voava por entre os vários portais de pedra polida e branca, que na verdade estavam tomados por ervas trepadeiras e daninhas nas bases. A própria grama estava bem mais alta, não deveria ser podada há meses.

Rapidamente atravessei-os e cheguei a um espaçoso local onde estava a fonte circular, com água esverdeada e parada, pois a própria fonte estava desligada e já havia ervas trepadeiras subindo pela base e vários galhos adentrando a água. Alcei voo e desci tranquilamente na porta do casarão que um dia já fora da mais polida brancura em suas paredes. Levantei a mão para tocar a porta e a mesma se abriu.

- Meu amigo... – disse o marido de dona Marietta, senhor Lorenzo – dando alguns passos firmes em minha direção e me dando um abraço caloroso.

- Olá... – tentei dizer seu nome mas não consegui devido ao abraço apertado. Instantes depois ele me soltou e pude observar a senhora logo atrás dele. Rapidamente ele deu passagem a ela.

- Senhor lobo... – Me cumprimentou ela como uma dama, pegando em seu vestido branco e muito bem decorado com algumas joias e se agachando sem muita dificuldade. – É um prazer ver que você chegou tão rápido – Terminou de dizer ela com um belo sorriso encantador no rosto enquanto saía de dentro do casarão com o braço dado ao seu marido.

- Ó boa tarde senhor Felipe – ouvi a voz de uma mulher que apareceu dentro da casa.

Era a mesma moça que estava com a sua filha, a daminha de honra, que me levou o convite.

- Boa tarde moças – respondi com clara educação e um sorriso de volta enquanto me virava para fora e via o casal andando vagarosamente os degraus da pequena escadaria até uma carruagem que apareceu atrás de mim sem que eu percebesse, e sem condutor.

Não consegui conter um sentimento de tristeza e felicidade que me encheu por dentro e fui ajudar o casal a caminhar tranquilamente até a entrada da carruagem.

- Vou sentir saudades de vocês dois... – acabei falando e limpando o rosto com a mão livre enquanto continuava a falar – Não os verei tão cedo de novo, não é?

A senhora Marietta deu um longe suspirar e sorriu de volta para mim, enquanto era abraçada pelo seu marido.

- Vamos nos encontrar de novo... Mas no seu mundo dessa vez, garoto-lobo – me respondeu ela com risinhos meigos naquele rosto já marcado pela idade e simpático ao mesmo tempo.

Tão logo ambos haviam entrado na carruagem e eu havia fechado a pequena porta de madeira, as grandes rodas de maneira do veículo começaram a mexer e a girar lentamente, fazendo-o se mover ao redor da fonte.

Prestes a completar a volta, quando o casal passou por mim, a daminha de honra correu de dentro da casa com um cesto simples cheio de pétalas e as jogou no ar no mesmo instante foram levadas para o alto pelo vento, e abaixo das rodas de madeira formou-se um caminho dourado parecido com uma estrada simples de pedra, por onde a carruagem começou a ganhar velocidade e subiu em direção ao céu com as pétalas em volta.

Eu que estava no chão, com o rosto molhado em lágrimas de felicidade, fui desperto de meus pensamentos quando a moça pôs um binóculo a minha frente.

- A senhora Marietta queria que você olhasse por esse binóculo depois que ela e seu marido partissem, meu jovem. – disse-me ela entregando a mim o objeto.

- Entendo... – respondi, pegando o objeto e o colocando em meus olhos. Olhei o jardim por ele, e logo a visão do jardim havia mudado para a visão de uma avenida que passava em frente com muitos carros e ônibus, além de pessoas que passavam nos cantos e arredores. O binóculo mostrava o futuro.

Movi a visão mais para perto de mim, e pude ver que o local iria ficar abandonado e mudaria muito mais drasticamente do que estava já.

Novamente mudei a visão para a fachada do casarão do casal e eu não via nada de casa, apenas céu cinza, e quando abaixei e girei um pouco, pude ver que o espaço da casa sumiria e daria lugar a apenas uma praça com alguns brinquedos um pouco mal cuidados.

Tirei o binóculo de meu rosto e novamente chorei de tristeza.

- Senhor lobo... Está tudo bem? O que vai acontecer com a casa da vovó e do vovô? Pra onde eles foram? – me perguntou a pequena daminha que logo recebeu uma repreensão de sua mãe.

Me agachei e limpei o rosto.

- Eu vi, que a casa deles vai mudar muito... Muito mesmo, e que aqui, vão ter coisas legais para crianças brincarem um dia – respondi a menina bagunçando o cabelo liso dele, que logo reclamou para que eu parasse enquanto voltava a falar. – E o vovô e a sua vovó foram para um lugar muito bonito, onde eles vão ficar muito felizes. – respondi com um sorriso no rosto.

Logo a menina entrou na casa correndo e falando com sua mãe.

- Mãe, vou me trocar pra gente ir embora, está bem?

- Está bem – respondeu a moça a sua filha que assim que sumiu de sua vista se virou para mim me olhando e perguntou: – É verdade isso?

- É sim – respondi a ela mas logo emendei – Apenas não contei como vai ficar esse lugar inteiro um dia... mas é a verdade sim, e os dois vão renascer algum dia no meu mundo... afinal, eles já estão aqui descansando faz muito tempo.

- Verdade... – respondeu a moça que lentamente fez um agradecimento se curvando e levantou, falando: – Obrigado por tudo, por cuidar deles, e conhecer eles, jovem... a gente vai se ver de novo?

- Um dia, com certeza vamos – respondi a ela com um sorriso enquanto sumia daquele mundo, despertando de mais uma noite, onde eu escolhi, sempre, cuidar de quem cuidou de mim.

***

Acordei num dia frio e lembrando de tudo o que houve a noite.

- Aquele Jhonathan... Abusado – sai da cama reclamando mas feliz por tudo o que houve.
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