Coming of age de Daniel Ribeiro aposta (e ganha) na sensibilidade.


Depois de mais de dois anos de espera, "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" finalmente estreou nos cinemas. Que o drama adolescente foi foco de muita expectativa, todos sabemos; desde o lançamento do curta que lhe deu origem, "Eu Não Quero Voltar Sozinho", o filme de Daniel Ribeiro tem sido aguardado num nível quase fanático por fãs do original e por cinéfilos de maneira geral também. É fácil entender o porquê: a sensibilidade do curta encantou diversos espectadores e o filme veio com a difícil missão de prosseguir com a delicadeza original em uma trama completa de 100 minutos. E conseguiu? Claro que sim. "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" é um dos filmes mais doces e encantadores dos últimos tempos, conseguindo capturar toda a aura de juventude e descobrimento da adolescência. 

A trama já é conhecida: "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" acompanha a história de Leonardo, um adolescente cego. Tímido, Leonardo tem apenas a companhia de sua amiga Giovana, e tem que enfrentar as dificuldades impostas por seus pais superprotetores e pelos colegas agressivos. Diante de tudo isto, Leo decide que quer fazer intercâmbio, prometendo mudar de país e começar uma nova vida, onde não será incomodado com as mazelas do passado. Um dia, porém, Gabriel, um novo aluno, chega na classe. Este é o ponto de partida para a jornada de Leo, descobrindo novos sentimentos e redescobrindo sua maneira de ver o mundo.

"Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" não é um "filme gay". O foco não é bem a homossexualidade, muito menos a deficiência de Leonardo, mas sim o amadurecimento dos personagens em encontrarem-se diante de várias experiências da adolescência. A descoberta da homossexualidade e a deficiência são apenas detalhes neste processo, que têm algum impacto na vida de Leonardo e na maneira como ele passa pelas situações que todos nós passamos em nossa juventude: o primeiro beijo (e toda a expectativa gerada em torno dele, considerando até mesmo as fantasias mais inocentes), a descoberta da sexualidade, a timidez inicial, a primeira festa com os amigos, o protecionismo dos pais e até mesmo os momentos menos gloriosos em relação ao que fazemos quando estamos sozinhos. Quantos de nós não passamos por tudo isto? Quantos de nós não sofremos com as expectativas da adolescência? É impossível não se identificar com as experiências do trio protagonista, independentemente da opção sexual do espectador. As situações passadas na tela são universais, e esta é a maior vitória do filme: a capacidade de trazer os espectadores para dentro das cenas e fazê-los se emocionarem com o clima de nostalgia.

E tudo isso graças à direção e roteiro simples, delicados e impecáveis de Daniel Ribeiro, conseguindo com tal simplicidade transformar as cenas mais comuns em grandes experiências emocionais - como, por exemplo, as cenas na festa, aproximadamente na metade do filme, que demonstram um trabalho artístico estarrecedor da montagem, das atuações e da roteirização, conseguindo arrancar os mais diversos sentimentos em pouco mais de cinco minutos. No meio de tantos filmes dramáticos retratados com muito peso e muito exagero sentimental, "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" impacta justamente por seguir um caminho muito mais suave, mais doce e muitíssimo sincero quanto às suas emoções. É muito mais fácil e mais prazeroso se emocionar com as palavras e cenas simples, mas sempre muito poderosas do filme, conseguindo arrancar sorrisos e levar nosso coração ao chão em questão de segundos - literalmente, segundos. "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" é um filme realista e incrivelmente doce, incrivelmente memorável, incrivelmente tocante e comovente.

Uma surpresa no filme foi a presença de um senso de humor leve e criativo, coisa que não estava presente no curta essencialmente dramático. As cenas de comédia são incrivelmente engraçadas, arrancando gargalhadas do cinema inteiro, contribuindo para o clima de leveza e suavidade do filme. Outra surpresa foi a verossimilhança, um elemento que também faltava no curta, que apostava exageradamente na inocência infantil e por isso acabava esquecendo que seus protagonistas eram quase adultos. Novamente, o realismo do filme é estarrecedor, tanto em cenas de conflito quanto nos diálogos mais doces, conseguindo desviar da tentação de se transformar numa obra exagerada. Isso sem contar a belíssima trilha sonora, que vai desde "Vagalumes Cegos", de Cícero, até "Spiegel im Spiegel", de Arvo Pärt, com destaque para a banda Belle & Sebastian, importantíssima para a trama.

As atuações são um espetáculo à parte, uma vez que tanto o elenco jovem quanto o mais velho estão ótimos em cena. Não há uma única performance fora do padrão de excelência; todas estão em perfeita harmonia e conseguem destaque mesmo em papéis muito secundários. A interpretação de Ghilherme Lobo no papel de Leonardo merece destaque especial por conseguir não só transmitir todas as nuances de um personagem cego, como também todas as emoções necessárias sem o auxílio da expressão dos olhos. Com esta performance, Lobo dá um show num papel extremamente difícil, especialmente por que o próprio Lobo não é cego, e demonstra que vai longe na carreira de ator. Fabio Audi também impressiona, conseguindo com muita facilidade e suavidade demonstrar a confusão de Gabriel, numa das tramas mais ousadas e bem construídas do filme: seu personagem é um jovem que sabe sobre sua sexualidade, mas ainda demonstra receios quanto a ela, diferentemente de Leo, que está se descobrindo aos poucos; neste contraste genial, Fabio Audi não precisa dizer uma única palavra para transmitir toda a confusão e as dúvidas de Gabriel, conseguindo uma interpretação forte em diversas cenas apenas com o olhar. E Tess Amorim, que completa o trio protagonista, também merece muitos aplausos; mesmo tendo pouco destaque no curta, aqui ela ganha espaço e demonstra um talento absurdo. Estes três atores são grandes talentos, e é absolutamente necessário manter um olho aberto para seus trabalhos futuros; não é exagero falar que os três podem se tornar gigantes no futuro. Deve-se atentar também para o desenvolvimento e construção psicológica de cada personagem - um dos aspectos mais encantadores e perfeitamente elaborados do filme, tanto da parte da criação, por Daniel Ribeiro, quanto da interpretação, pelo trio de atores. 

Entretanto, mesmo com todas suas vitórias, o filme não é perfeito. No meio de tantas tramas paralelas, a história do intercâmbio acaba perdida e é esquecida depois de certo ponto. A questão do bullying, apesar de muito bem retratada, torna-se caricata com o subdesenvolvimento dos personagens praticantes, transformando-os em meros "vilões", sem uma personalidade ou o que quer que seja para eles. Mas, honestamente, a sensibilidade do filme como um todo faz-nos esquecer destes problemas, fazendo-os passar por falhas menores, daquele tipo que mal têm impacto na nossa impressão final do filme.

Com mais nuances do que o curta e ainda melhor que o mesmo, expandindo sua história e corrigindo seus erros, "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" é uma ode aos tempos da juventude e da adolescência, certamente destinado a se tornar um clássico do gênero. Um dos melhores dramas adolescentes dos últimos anos, o filme ganha ao caminhar dentre o cinema alternativo e comercial, conseguindo agradar ambos os públicos, divertindo e inspirando reflexões na mesma medida. Sim, em determinados momentos, o filme investe em lugares comuns do gênero, mas, com tanta sensibilidade, os clichês se transformam em algo novo, inexplicável em palavras: um sentimento genuíno que persiste conosco muito além do fim da sessão. Doce, sincero, suave e delicado, "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho" faz valer a longa viagem até o cinema alternativo mais próximo para ver uma, duas, três vezes. Quando o filme terminou, olhei para trás e vi que o cinema inteiro estava sorrindo, sem uma única exceção. Isso basta para resumir a força de "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho".

Nota: 9,5/10

Esta crítica foi publicada originalmente por Yuri Costa e divulgada através da parceria entre os sites Histórias & Besteiras e Loggado.

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