O despertador tocou. Eram exatamente 7:10, e ela podia sentir os ondas de luz que difratavam por entre os espacinhos minúsculos que o black-out não cobria, vindo diretamente em seus olhos. Olhos lacrados, que ela não conseguia desgrudar. “Mais 15 segundos, mais 15…” Ela repetia como se o despertador pudesse ouvi-la. Bem, ele não podia. Então ela fez aquele mesmo gesto, de toda segunda-feira (apenas jogou uma mão contra o despertador, que espatifou-se no chão), e esperou mais 15 segundos enquanto apertava mais fortemente o travesseiro contra seu corpo.

Não tinha jeito, tinha amanhecido e não podia mudar esse fato. Logo ela passou a abrir os olhos, vagarosamente, como um colecionador que descola seu selo favorito, colado por engano no espaço errado. Respirou fundo, e levantou-se, ou melhor dizendo, arrastou-se direto ao chuveiro. Tropeçou algumas vezes... Uma, duas, três... E, se ela estava realmente acordada, não posso garantir. Mas despiu-se e girou aquele negocinho, cujo nome me escapa a memória, que liga o chuveiro.

Gotas de água quente caíram. Caíram, e fizeram-na lembrar das lágrimas da noite anterior, da tristeza que ele havia causado nela... Das palavras rudes, das traições confessadas, das sms cheias de culpa, pedidos de desculpas que ela preferiu ignorar. Mas fizeram-na lembrar, principalmente, que passara. A tristeza se fora juntamente com as lágrimas, e ela ficou feliz em sentir o cheiro doce do novo shampoo, do novo perfume… Tudo novo. Obviamente, ela borrifou o perfume mil vezes sobre si mesma (exagero, mas pelo menos sete foram). E mais cinco vezes pelo ambiente ao seu redor. Pela primeira vez em três anos ela usava a saia, e o moletom que ela tanto gostava sem se preocupar com o que ele iria dizer (que ela parecia prostituta, que isso era coisa de menina que não se dá valor, e etc, etc). Nada havia de errado, nem de muito curto, nem de muito decotado.

Saiu a fim de saciar o desejo que tinha - há exatamente dez dias - de tomar um cappuccino, e adentrou a cafeteria sentindo aquele cheiro gostoso que toda cafeteria tem. 

Ele estava lá.

Não demorou nem 15 segundos pra que ela pudesse notar. Ela o viu; e viu aquele olhar que ela tanto amava virando-se pra ela, e viu aqueles cabelos negros que ela tanto acariciava caírem com a leveza de uma pluma e contrastarem sobre a pele cor de marfim. Ela o viu; Viu tudo de que tanto gostava: as roupas largadas, os tênis vagabundos - velhos e desbotados - e até mesmo aquele suéter de cashmere que ele insistia em vestir do lado errado. Viu aqueles lábios que ela outrora beijara se abrirem para sibilar o nome dela, enquanto os olhos dele com cor de oceano - e como um oceano - se enchiam d’água. 

Sim, ela o viu. O viu e deu as costas, fez ele se sentir uma bosta, como ele passara tanto tempo a fazendo sentir... Ela o viu... E foi embora. Não queria nem por mais 15 segundos aquele panaca em sua vida.

E agora? Depois de tanto amor jogado fora, ela deixava-o a olhar pra porta marrom e opaca da cafeteria. Importante ressaltar que a história então se invertia: ele chorava, ela sorria.

Escrito pela colaboradora Bruna Vaugham. Quer fazer como ela e ter uma história sua publicada aqui? Mande um email para o Histórias e Besteiras: historiaebesteiras@gmail.com
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