Capítulo 8





Após sair com tanta pressa do apartamento de Nicholas, percebi ter esquecido as chaves de meu escritório. As roupas também, mas não me fariam falta por enquanto. Resolvi voltar e ao meio do caminho, ainda no corredor pude ouvir a conversa de alguém. Não era minha intenção escutar o que eles falavam, mas ao perceber que se tratava da voz de Nicholas e de uma mulher, que até então não consegui reconhecer, decidi não atrapalhar os dois e ouvir o que falavam até o final.

− Brigou com a namorada Nick?

− Deu pra ouvir é? 



− Ah, vai, não fica assim. Ela não te merece Nick.

Houve uma pausa, ela só podia estar jogando charme para cima dele. Admira-me não reconhecer a voz dessa cretina oxigenada.

− Você merece alguém que cuide bem de você.

− Pode deixar que vou procurar alguém melhor.

A última frase soou como um passa fora bem dado na oferecida desconhecida, já em mim foi basicamente como uma facada. Ouvir que Nicholas iria procurar por alguém melhor foi doloroso o suficiente para que eu inflasse meu peito de orgulho e não deixasse uma gota de lágrima cair. Decidi voltar para casa assim mesmo e depois Alfred buscá-las-ia para mim. Tudo que eu precisava era sentir a grama e o cheiro das flores do meu jardim. Eu só queria me sentir em casa e ter a certeza que não devia ter saído nunca de lá. 

Dei uma boa olhada ao redor do prédio em que vivi por dois anos ao lado de Nicholas, talvez fosse à última vez que eu voltaria ali. Em seguida fitei a janela principal de seu apartamento por alguns minutos e voltando a si entrei em meu carro. Respirei fundo enquanto segurava o volante com força, logo o portão se abriu e eu pude me despedir. 

Depois de correr bastante na parte asfaltada, dirigi tranquilamente pela estrada de terra que levava até a mansão de papai. Por conseguinte demoraria mais um pouco para chegar, mas aproveitei para pensar um pouco em tudo que havia acabado de acontecer... Pensar serviu como uma leve distração, que logo foi interrompida pela barulheira ocasionada por um Volvo preto que tirou um fino de mim ao passar correndo. A poeira logo subiu. Esperei ela baixar para que pudesse enxergar a estrada com mais clareza. Eu já estava perto de casa, ainda bem, pois havia ficado nervosa com todo esse alvoroço.

Chegando a entrada da casa, pude notar que o carro que havia passado por mim residia dentro de minha mansão. Saí do carro e entreguei as chaves na mão de Natan, nosso motorista particular. Caminhei pelo jardim decidida a descobrir quem era o bonitão que me havia feito comer poeira agora pouco. 

Encontrei Alfred na entrada e expliquei o motivo de minha volta repentina, inclusive pedi que buscasse minhas roupas e chaves na casa de Nicholas mais tarde. Perguntei também de quem era o Volvo preto e ele não soube dizer, apenas disse que o apressadinho estava no escritório conversando com meu pai. Acelerei o passo e encostei o rosto bem próximo à porta da sala de papai. Primeiro, o cara falou por um bom tempo. Depois ouvi papai finalmente se manifestar.

− Oscar, você tem certeza que não tem chance alguma de descobrirem que é você?

− Não senhor, estamos agindo sem deixar rastro, de maneira que ninguém perceba qualquer ligação minha com a quadrilha que tem feito esses assaltos.

− Então significa que nosso plano de distração está sendo bem sucedido?

O homem não respondeu, mas ao passar pela porta, percebi ter meneado a cabeça positivamente como sinal de resposta. 

− ALEXIS!

Ouvi meu nome soar estridentemente vindo da sala de papai. Apesar de intrigada com o que ouvi e querer pensar a respeito, não deixei de atender seu chamado.

− Sim papai! – Respondi abrindo a porta de sua sala.

− Não sabia que estava de volta.

− Pois é, papai, tive alguns problemas. Mas depois nós conversamos, não quero atrapalhar a reunião do senhor. – Falei enquanto ia me retirando.

− Espere, quero que conheça alguém.

Respirei fundo e imaginei que fosse o dono do Volvo preto, que até agora se encontrava de costas. Era alto, devia ter mais ou menos 1,80. As madeixas negras e bagunçadas eram longas até a nuca. Parecia ter o corpo escultural e era cheiroso. Como era. Logo o bendito Oscar se virou e eu não pude esconder a excitação. 

A barba falhada roçou em meu rosto rapidamente ao me cumprimentar, seu cheiro impregnava em mim de maneira voraz. 

− Muito prazer, Oscar!

− O prazer e a honra são meus, querida.

Eu sentia que ele me conhecia ou apenas estava louca por aquele charme de 1,80.

− Oscar trabalha para mim. – Comunicou papai, mal sabia ele o que eu havia ouvido, mas me fiz de desentendida.

− Mesmo? Você também é engenheiro?

Oscar pigarreou ajeitando a gravata. Eu logo soltei um sorriso de canto ao perceber o desconforto de sua parte.

− Na verdade sou corretor.

− Ah, corretor? Sei. Bom, papai, agora tenho que ir. Mesmo!

− Tudo bem, depois almoçamos juntos. Você fica pro almoço, né Oscar?

Eu estava dando as costas quando ouvi essa maldita pergunta soar entre quatro paredes. Desejei que dissesse não, mas o apressadinho disse sim. Depois de sair do escritório de papai, eu basicamente me mantive trancada no quarto até a hora do almoço. Andei pensando sobre o que ouvi e fiquei intrigada. Que eu saiba papai não tinha envolvimento com essas coisas. Ou pelo menos eu passei a vida inteira achando que não. Talvez isso explique a sua ausência. E esses assaltos? Nós não precisamos tirar nada de ninguém, nós nunca precisamos. Há algo de muito errado acontecendo e eu preciso descobrir. É óbvio que sozinha não poderá ser, até porque eu nem sei por onde começar. Preciso de um investigador, urgente! E a minha primeira vítima será Oscar, eu não engoli essa história de Corretor e eu espero que ele tenha engolido meu ar de desentendida. 

Depois de muito pensar em como faria para conseguir ajuda de alguém, fui interrompida por Alfred.

− O almoço está servido. Seu pai lhe aguarda no jardim, minha flor!

− Ah, obrigada pelo trabalho Alfred. Já estou descendo, só vou colocar uma roupa mais light. – Na verdade eu estava querendo dizer provocante. Pode parecer arriscado, mas talvez se eu me envolver com Oscar eu consiga descobrir algo. 

Baguncei o cabelo e joguei boa parte dele para o lado direito. Troquei a calça por um short. Pus um óculos escuro preto e um batom vermelho cereja. No jardim, Oscar e papai conversavam animadamente. Urrei quando ao me aproximar percebi ser a respeito da mudança de Oscar para a cidade. Papai só faltava lhe chamar de filho. Desviei a atenção ao chegar à mesa.

− Espero não ter demorado muito.

Neste momento Oscar, que se manteve fitando o jardim boa parte da conversa, desviou seu olhar para minha direção. Levemente desconcertado, tentou esconder a fraqueza voltando-se para a cadeira ao lado de ambos. Ele se levantou e a puxou para que eu pudesse sentar. Agradeci com um sorriso doce que ainda sim não o encantou por muito tempo. Logo o almoço nos foi servido. Conversamos nada mais nada menos sobre qual decoração seria feita no apartamento de Oscar, que eu não sabia exatamente onde ficava. Oscar era muito reservado, ter a oportunidade de decorar o local em que residiria seria a melhor maneira de descobrir mais coisas a seu respeito. Terminamos o almoço e papai se retirou para uma ligação.

− Então, Oscar, não é mesmo?

− Sim, senhorita!

− Você já conhece a nossa casa?

− Já.

− Sério? Nossa, eu nunca o vi por aqui.

− Com certeza foi no período em que a senhorita estava fora daqui.

− Talvez.

− Por que a desconfiança?

− Desconfiança? Que isso! Quer mais um pouco de suco? – Inclinei-me juntamente com a jarra na direção de sua taça, quando por um descuido derrubei suco em sua roupa. – Ai, me desculpa. Eu seco pra você.

Levantei-me rapidamente indo em direção a Oscar e comecei a secar parte de sua blusa, e o cós de sua calça. O mesmo não sabia o que fazer. Estava impaciente, não sabia se cuidava para que meu pai não nos visse ou se admirava meus seios praticamente roçando em sua face.

− Alexis, o que aconteceu?

− Ah, veja só papai. Derrubei suco na roupa do Oscar, estava aqui dizendo que ele podia ir até o meu quarto se banhar para tirar o doce do corpo, que o senhor lhe emprestaria uma roupa.

− Com certeza, pode ir Oscar.

− Senhor, não precisa.

− Não seja modesto, claro que precisa. Está todo molhado! 

− Tudo bem!

Oscar saiu em direção à entrada da casa e foi acompanhado por Alfred até a minha suíte. Enquanto isso aproveitei para tentar arrancar algumas coisas de papai.

− Então pai, o senhor nunca me falou do Oscar. Ele parece ser seu braço direito... 

− Ele é... Mas negócios são negócios, Alexis.

− Entendo.

− Mas e você, por que a volta?

− Nicholas recebeu uma proposta de emprego, vai ficar fora por um tempo.

− Ah, que pena.

− Nós terminamos também.

− É uma pena mesmo, ele era um bom rapaz. Filha, eu tenho que ir ao escritório resolver algumas coisas. Cuide para que não falte nada ao Oscar.

− Pode deixar!

Despedi-me de papai, sabia que essa ida ao escritório duraria uma noite fora de casa. Segui até o interior da casa e resolvi ver se Oscar precisava de alguma coisa. O mesmo já se encontrava nu dentro do Box. O vidro embaçado me permitia ainda assim um bom visual do seu corpo musculoso. Eu estava encostada na porta do banheiro quando ele se deu conta de minha presença. Sua pele de longe enrijeceu. Estava excitado. Nossos olhares se encontraram, enquanto eu conduzia meu corpo em direção a porta de vidro do Box. Coloquei a toalha pendurada e quando estava para lhe dar as costas ouvi sua voz rouca chamar meu nome.

− Alexis... 

Meu corpo arrepiou só de pensar no que ele queria.
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