Capítulo 6


Depois do susto que obtive ao acordar com Nicholas gritando em meio à madrugada, eu simplesmente não consegui mais pregar os olhos e, sem ter o que fazer, aproveitei o silêncio oportuno que havia se formado depois de tê-lo tranquilizado para pensar no que ele poderia ter sonhado. Não cheguei à conclusão nenhuma, a não ser de que com certeza não foi coisa boa. Sendo assim, tornei a olhá-lo fixamente por alguns minutos e acabei ficando sonolenta. Acordei com a sensação de ter dormido apenas cinco minutos e consequentemente de mau humor. Nicholas já havia se levantado, talvez tivesse conseguido dormir direito. Quanto a mim, tudo que queria era poder afundar no colchão até pelo menos a hora em que me sentisse suficientemente descansada e disposta. Levantei-me da cama e fi-la. Em seguida dirigi-me até a cozinha percebendo Nicholas a terminar de preparar o café.

− Bom dia, amor... − Ouvi Nicholas proferir da cozinha com um jeito doce e sensual, ao mesmo tempo.

− Bom dia... Dormiu bem?

− Já tive noites melhores − afirmou enquanto virava em minha direção com uma panqueca terminada. − Está cheiroso...

− Minha especialidade, sabe? – Caçoou enquanto distribuía o café pelo balcão da cozinha.

Nicholas havia se dado o trabalho de colocar até mesmo uma flor acompanhando meu copo de suco e ela cheirava bem. Esbocei um sorriso por seu esforço e dei uma mordida numa fatia de pão com gergelim. Ele se assentou ao balcão comigo e tomamos café em silêncio. Apenas os olhos conversavam entre si. Quando terminei resolvi quebrar o gelo.

− Estive pensando em voltar para casa. Querendo ou não é lá que eu moro de verdade. – Mentira. Depois de dois anos morando com Nicholas eu já me sentia mais do que em casa, mas eu precisava voltar e descobrir tudo sobre o meu passado, e isso não dizia respeito a ele. − Minhas coisas estão lá e a única coisa que me prendia aqui era você. Agora sinto que já pode se virar.

Nicholas havia parado de comer ao ouvir-me proferir a primeira frase. Olhava-me sem entender a decisão repentina, mas mesmo assim aceitou-a.

− Tudo bem, meu amor, se você precisa voltar tudo bem.

Segurou em uma de minhas mãos e apertou-a um pouco. Sorri e em sua direção caminhei. Envolvi meus braços em seu pescoço abraçando-o por trás beijei seus cabelos e logo me voltei para a mesa. Esperei-o terminar de tomar café e lavei a louça. Em seguida dirigi-me ao quarto escolhendo uma roupa confortável para depois ir ao mercado comprar algumas coisas. A dispensa estava esvaziando e Nicholas não sabia muito como fazer para enchê-la de coisas boas para a saúde.

Eu estava saindo do box quando ouvi seu telefone tocar. Continuei me arrumando, pois sabia que ele iria atender. Não demorei muito para dar jeito em meu cabelo e logo depois que já estava com minha carteira em mãos pude ouvi-lo sem querer ao telefone. Estava um pouco alto e eu acabei ouvindo a voz de uma mulher dizendo: "Então está combinado!" Aquilo me causou estranheza, mas enrolei um pouco no quarto e depois caminhei até a sala para evitar que Nicholas achasse que eu estava ouvindo suas conversas.

Peguei as chaves do carro, despedi-me e caminhei para o elevador que levava até a garagem. O mercado não estava muito cheio, pra falar a verdade tinham poucas pessoas. Peguei um carrinho e passeei pelos setores que precisaria levar algo. Quando finalmente cheguei à parte de temperos esbarrei num homem alto e russo, que para minha surpresa e vergonha era Dilan. Corei da cabeça aos pés quando me lembrei de que devido à palhaçada que Nicholas havia feito eu o deixei esperando e nem liguei para avisar que não ia mais.

Respirei fundo e dei um sorriso amarelo em sua direção. O mesmo sorriu com os olhos e puxou assunto.

− Antes de qualquer coisa, eu estou morrendo de vergonha por ter lhe deixado esperando. Desculpe-me, foi tudo culpa do Nicholas.

− Tudo bem, ao menos consegui chegar até aqui.

− Assim eu me sinto culpada, ok?

− Essa é a intenção! − Caçoou enquanto erguia a mão direita para a prateleira de molhos.

− Olha só, pois saiba que surtiu efeito!

Dilan inclinou-se para o carrinho colocando três latas de tomate.

 − Que tal você se redimir tomando um café comigo?

− Pode ser um sorvete? Já estou tomada.

− Tudo bem.

Seguimos comprando o restante das coisas que faltavam tanto para mim quanto para ele. Dilan me contou sobre sua vida e vice versa. Ele não estava tão perdido assim, Dona Rose é que havia exagerado ou estava com segundas intenções, apesar de amar a dupla que formei com Nicholas. Dilan havia deixado sua namorada para voltar e ficar um pouco com a mãe, mas prometera a ela que voltaria logo, o que significa que ele estava apenas de passagem.

Conversamos bastante até dar minha hora. Precisava voltar para ainda arrumar as compras no armário e colocar uma lasanha para esquentar. Despedi-me de Dilan e guardei minhas coisas na mala do carro.

Cheguei ao prédio e telefonei para que Nicholas viesse me ajudar. Ele rapidamente desceu pelo elevador e foi ao meu encontro.

− Você podia ter me avisado que iria comprar tantas coisas! − Comentou Nicholas enquanto carregava mais de três sacolas.

− Eu não fazia ideia que traria tanta coisa, isso foi coisa do Dilan. Eu o encontrei e ele me deu várias dicas.



Nicholas arqueou a sobrancelha olhando em meus olhos demonstrando ciúmes pelo ocorrido, mas logo voltou sua atenção as sacolas que uma a uma foram esvaziadas. Terminamos de arrumar as compras e ainda tinha alguns minutos para colocar a lasanha no micro-ondas.

O apartamento estava silencioso como de costume. Nicholas e eu não éramos de fazer barulho. Sentamos juntos no sofá maior e nos aconchegamos para assistir ao filme “V de Vingança” que acabara de começar. Com a face apoiada em seu peito, Nicholas dedilhava o conjunto de minha coluna vertebral, num vai e vem que me desconcentrou diversas vezes.

Aninhei-me em seus braços e aspirei ao aroma refrescante exalado por sua pele. Aroma parecidíssimo com o que senti entranhado em sua jaqueta na primeira vez que nos encontramos. E pensar nisso tudo, me bateu um aperto no peito por deixá-lo sozinho... Mas eu fui egoísta demais pensando só em mim, deixando Alfred e papai aos cuidados das empregadas. Fora que eu estou disposta a descobrir tudo a respeito do meu passado, e agora que Nicholas já está habituado, nada me impede a não ser a saudade.

Desvencilhei-me de tais pensamentos ao perceber Nicholas empolgadíssimo com o filme. Suas mãos já estavam apoiadas em meu ombro e não mais me acariciavam. Fitei o relógio a minha frente e ainda faltavam alguns minutos.

− Gostando do filme, meu anjo?

Meneei a cabeça em sinal positivo, mas a verdade é que eu não havia prestado atenção nem mesmo em 50% da história. Nicholas sorriu com os olhos e beijou-me rapidamente para não perder nenhuma cena.

Permanecemos assim até que notei a luz do micro-ondas se apagar. A televisão também desligou e as poucas luzes que estavam acesas também. Nicholas e eu nos entreolhamos assustados e depois rimos um da cara do outro. Havia faltado luz e por sorte a lasanha havia cozido o suficiente.

Desligamos os aparelhos principais do apartamento e nos dirigimos até a cozinha. Preparamos o balcão e almoçamos a luz do dia. Aproveitei bastante aquele momento, de agora em diante nossas refeições não seriam tão frequentes como estávamos acostumados. Logo que terminamos limpamos a cozinha por alto e dirigimo-nos até o banheiro, um por vez. Era domingo e eu não sabia o que fazer exatamente num apartamento sem luz, então decidi começar a arrumar minha mala com o pouco que entrava pela janela. Nicholas me ajudou do modo dele, eu colocava três peças dentro da bolsa e ele tirava duas, mas depois parou de se intrometer, e deitou na cama me deixando sozinha no closet.

Terminei de arrumar tudo. Olhei para o vazio que havia ficado e engoli a seco a saudade. Arrastei as malas até a sala e voltei para o quarto. Nicholas tinha um olhar sombrio e um semblante sério. Eu quase não o reconheci. Virei-me de costas para ficar na sala quando ouvi sua voz soar rouca quase como um sussurro.

− Fica...

Voltei-me para o quarto e caminhei até a cama deitando-me ao seu lado.

− Eu vou ficar até a luz voltar, tudo bem?

Nicholas se ajeitou e me abraçou com ternura. Ele parecia tão pequeno e indefeso, mas seus braços, e corpo excitantemente definidos caracterizavam-no como um homem assustadoramente delicioso, e irresistível.

Permanecemos entrelaçados por alguns segundos mais e logo Nicholas virou-me sobre seu corpo. Suas mãos seguravam-me com força, mas ainda assim não me machucavam. Nossos corpos se comunicavam calorosamente, nossos beijos deixavam as quatro paredes a par da saudade que já sentíamos um do outro. Logo nos entregamos nos permitimos e depois adormecemos juntos. Como se fossemos apenas um.
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