O diretor de “Cisne Negro” cria um épico à moda antiga que levar os espectadores a reflexões sobre nossas vidas e sobre a natureza humana


Vou confessar: houve vezes, nos meses antes da estreia de “Noé”, que eu cheguei a duvidar de Darren Aronofsky. Quem me conhece sabe que o diretor é um dos meus cineastas favoritos de todos os tempos, e isso (pasmem!) com apenas cinco filmes no currículo! Agora seis, com “Noé”. Quatro destes cinco filmes estão entre meus favoritos, e mesmo o único que ficou de fora (“O Lutador”) ainda assim é um filmásso. Sim, duvidei. Duvidei que Aronofsky, que faz filmes tão bons justamente por ter a liberdade criativa que o cinema independente proporciona, pudesse migrar para o cinema comercial (isto é, o tipo de cinema em que se gasta US$ 100 milhões pra se fazer um filme pipoca) e ainda assim manter sua identidade e sua qualidade.

Eu não poderia estar mais errado.

“Noé” não é um filme bíblico. Como o próprio Aronofsky disse, este é “o filme bíblico menos bíblico já feito”. Qual a intenção detrás de “Noé”, então? Por que Aronofsky, um diretor que nasceu judeu e hoje se define como ateu, decidiu contar uma história da Bíblia? E por que este filme vem encantando a tantas pessoas, independente a religião?

Simples: “Noé” não é uma história sobre Deus. Aronofsky não quis contar uma história puramente religiosa. De fato, a palavra “Deus” não é dita em nenhum momento do filme. “Noé” é um filme sobre o homem, sobre a bondade e a maldade da humanidade. O filme nos leva numa reflexão sobre o coração do ser humano: será que somos todos corrompidos? Será que todos carregamos a maldade do mundo? Será que nós realmente enchemos a Terra com nossa imundice? Será que não há bondade dentro de nós? E, no processo de fazer estas perguntas, Aronofsky constrói um épico lindo e cheio de metáforas, um clássico instantâneo e poderoso. Cenas como o “nascimento do universo” – uma referência à Teoria Evolucionista e ao Big Bang –, mostrando a jornada da humanidade através dos séculos e de todas as guerras que já passamos mostram como Aronofsky é genial: “Noé” é uma história que pode se passar tanto no passado quanto no futuro, e, seja como for, demonstra o quanto a crueldade está presente na raça humana, seja no tempo que for.

Aronofsky é conhecido por sempre desafiar suas audiências: nenhum dos seus cinco primeiros filmes é fácil de assistir. “Noé” pode não ser tão complicado, nem tão desafiador, nem tão chocante quanto seus filmes anteriores. De fato, “Noé” é muito mais simples do que o resto da filmografia do diretor, quase um “Aronofsky light”. Mas isto não quer dizer que o filme seja apenas uma aventura pipoca e vazia. Além das várias metáforas e mensagens lindas, Aronofsky se preocupa em trabalhar a direção, criando um estilo que vai além da simples direção convencional de um blockbuster. As cenas de ação, particularmente a do dilúvio, são de tirar o fôlego com takes aéreos e giratórios, mostrando imagens estonteantes. Darren Aronofsky, um diretor dramático, dirige uma cena de ação melhor do que muitos Michael Bays por aí. Com isso, o roteiro também preocupou-se em criar uma atmosfera nostálgica, que lembra os épicos dos anos 1950, nos quais havia muitos diálogos e poucas, mas longas e emocionantes cenas de ação. É, portanto, um belíssimo épico à moda antiga.

O diretor também é conhecido pelo fato de que seus protagonistas são sempre obsessivos com alguma coisa – um exemplo claro disso é a Nina de “Cisne Negro”. Pois bem, Noé é provavelmente o personagem mais obsessivo da carreira de Aronofsky, numa clara crítica aos religiosos xiitas que esquecem de amar ao próximo.

As atuações também estão especialmente impactantes, com destaque para Russel Crowe no papel-título, conseguindo capturar toda a obsessão e todo o conflito moral de Noé; Jennifer Connely como sua esposa Naameh, que é responsável por uma das cenas de diálogo mais assombrosas do filme inteiro; e Emma Watson como Ila, provando o talento dramático da nossa eterna Hermione, que consegue criar momentos tristes e desesperadores.

“Noé” é uma obra de arte moderna, como não se via numa super produção há muitos anos. O épico de Darren Aronofsky não é seu melhor filme, pois tem lá suas falhas: os primeiros trinta minutos são bem arrastados e o roteiro às vezes tropeça em algumas cenas bobas. Mas, ainda assim, “Noé” é um filme artístico excelente, com cenas icônicas e impactantes que prometem deixar os espectadores pensando muito depois de saírem da sala de cinema. Alguns terão dificuldade em ver a beleza do filme, já que “Noé” não se preocupa em ser fiel à Bíblia. Mas, novamente, “Noé” não é um filme sobre Deus. Minha dica é: vejam o filme sem levar em consideração religião ou credo. Vejam o filme como uma história sobre a bondade e a maldade do ser humano; uma história sobre misericórdia, crueldade, vida, morte e amor. Absorvam cada cena. Vejam o belo épico que Darren Aronofsky criou, um filme que hoje pode até não ser completamente compreendido devido a sua nova visão em cima de um conto bíblico, mas que no futuro será um clássico venerado.

Nota: 8,5/10

PS: Caso vocês estejam se perguntando: sim, o filme criou uma explicação para os animais não terem começado a se comer dentro da Arca.

PS 2: Caso vocês assistam com atenção, podem também captar uma mensagem ambientalista, especialmente nas cenas iniciais.


PS 3: Alguns de vocês já devem ter ouvido falar dos monstros de pedra no filme. Sim, eu sei que os mais religiosos vão se sentir incomodados com esta “liberdade” em particular, mas lembrem-se que o diretor foi criado como judeu, e os monstros de pedra existem na mitologia judaica. Além disso, os monstros servem como uma grande homenagem aos efeitos especiais de stop-motion das décadas de 1970 e 1980, e a metáfora por trás desses monstros é muito bonita, então, deem uma chance.
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