RENEGADOS
de Lucas Gomes

Capítulo 11
A morte de um herói

As armas estavam guardadas fora do prédio, em uma cabana dentro da cerca onde os berrantes conseguiram derrubar. Lugar onde não podíamos ir sem sermos mortos. A ideia inicial era cometer o nosso suicídio enfrentando os berrantes que estavam subindo as escadas, mas nós tínhamos um pequeno tempo para buscar algo que pudesse evitar isto.

- A barra! – disse Adam apontando para uma barra de ferro que estava solta e caída no chão, a poucos metros da gente.

Corri até ela e procurei apenas olhando para todos os lados, outra coisa que pudesse nos ajudar. Isso foi um erro. Olhar para todos os lados me fez encontrar meus companheiros no outro prédio que estavam me esperando. Lavigne estava de joelhos chorando e gritando pelo meu nome, Lucca e Ellen tentava acalmar ela, mas ela não parecia dar atenção a isso.

- Lavigne, corre! – gritei fazendo com a mão, com que fossem adiante.

- MARCOS! – berrava ela em prantos.

- Nos encontraremos - falei correndo até aonde eles conseguiam me ouvir. – onde a Karen está nos esperando. – terminei de dizer, e então vi outra coisa horrível.

As pessoas que tentava pular do nosso prédio para o outro, não estavam conseguindo alcança-lo. Já tinham caído umas seis pessoas e uma conseguiu se pendurar na beirada do outro prédio, mas não estava dando altura para alcançar o terraço dele. Não estava dando certo. Não para todos.

- Adam, não está dando certo! – falei. – As pessoas estão caindo.

- E o que podemos fazer? – perguntou Adam me dando a resposta com o olhar.

Nada, pensei.

Eu só tinha aquela barra de ferro e entreguei-a ao Adam. Ele queria recusar, mas eu disse que tinha algo que poderia servir para nos ajudar. Fui até uma ponta e encontrei Jacob. Ele estava confuso e com as mãos sobre a cabeça. Eu queria dizer a ele que tentasse pular, mas com os resultados negativos que estávamos tendo eu não tinha certeza de aquela ser a melhor opção.

- Temos que pular, - disse Jacob. – certo? – perguntou aflito.

- Infelizmente eu não vejo alternativa. – disse.

- Compreendo. – disse Jacob. – Estou desesperado, mas isso é bom.

Ele se levantou e agachou fazendo um alongamento. Eu não estava entendendo nada até que sem nenhum aviso prévio, Jacob disparou em uma corrida controlada. Parecia que cada passo que ele dava era pensado, cada espaço era medido, até que então ele chegou à beira do prédio e saltou para o outro lado. Saltou não, ele voou. Foi incrível. Ele pareceu planar no ar e seguir em frente.

- Ele conseguiu. – falei para mim mesmo.

Adam e eu ficamos olhando abobados para o feito de Jacob. Ele tinha conseguido pular de um prédio para o outro. Ele trouxe em poucos minutos e em apenas um ato, que foi o de coragem, a esperança para os que ainda estavam ali. Passaram apenas dez para o outro lado, tínhamos conosco ali umas trinta pessoas.  Algumas com um desespero maior, não pensaram duas vezes e começaram a pular como se aquela fosse à única alternativa. E era.

- MARCOS! – berrou Adam enfrentando o primeiro berrante que alcançou o terraço.

Enquanto eu corria para ajuda-lo, o berrante caiu por cima dele e ficou a centímetros de mordê-lo. Por sorte não tinha muitos subindo para o terraço ainda, o que me deu tempo de fazer algo. Um novo berrante surgiu e antes que eu ajudasse o Adam eu tive que detê-lo. Peguei uma madeira que estava caída próxima ao Adam e lancei no rosto do berrante que estava vindo atacar ele. Assim que ele caiu eu esmaguei seu crânio batendo com a madeira nele.

- Marcos, ajuda aqui! – disse Adam quase não resistindo à força do berrante.

Foi então que eu usei a minha “carta na manga”. Quando eu estava em busca pelos suprimentos, na casa do meio, ou seja, a segunda casa. Eu entrei pela cozinha e encontrei uma faca. Quando eu planejei pôr fogo na casa, eu corri até a cozinha e peguei mais duas facas. Só usei duas que foi para matar os berrantes que estavam na parte de trás da casa, quando eu saí para fugir do fogo. Eu ainda tinha uma, e essa faca era especial. Ela tinha cerca de uns quarenta ou cinquenta centímetros. Pareciam aquelas facas enormes para limpar a carne de boi que ia para os açougues da cidade.

Tirei a faca de açougueiro da cintura e encravei no crânio do berrante que tentava morder o Adam. Tirei e rapidamente cortei a cabeça dele fora. Era nojento, mas ainda mais nojento era o sangue do berrante que encobria nossos rostos.

- Obrigado. – agradeceu Adam.

Eu estendi minha mão para ajudá-lo a se levantar e então nos posicionamos para enfrentar os próximos.

- Preparado? – perguntei.

- Sempre estive. – respondeu Adam em um sorriso raivoso.

Mais três berrantes surgiram e então foi a hora de atacarmos novamente. Adam partiu para cima do primeiro, bateu com a madeira no peito do berrante fazendo com que ele caísse. Eu ginguei para o segundo berrante e cortei seu pescoço da esquerda para a direita, e em seguida, cravei minha faca no lado direito do seu rosto. O terceiro veio de prontidão, então tirei a faca do crânio do segundo berrante e girei o meu corpo cortando metade do crânio do terceiro berrante. Adam havia esmagado o crânio do primeiro berrante a tempo de pegar um quarto berrante que surgiu inesperadamente. Ele deu apenas uma pancada no crânio do berrante com a madeira e conseguiu mata-lo. Foi então que eu percebi outra coisa.

- Acho que os ossos deles são frágeis. – comentei. – Deve ter pouca coisa viva dentro deles.

- Concordo. – disse Adam.

Olhei para trás e vi que faltavam apenas cinco pessoas para pular. Como os outros estavam eu não tinha como saber. Só podia ficar esperando para que tudo desse certo e que pelo menos a maioria conseguisse passar.

- Não vamos ficar aqui por muito mais tempo. – disse.

- Como assim? – perguntou Adam.

E então veio um berrante e eu o acertei com a minha faca. Outros dois berrantes surgiram, mas o de trás sem querer derrubou o da frente e os dois viraram alvos fáceis para nossos pés. Esmagamos os crânios deles com no máximo três pisadas fortes.

- Só temos a alternativa de pular cara. – falei. – Se ficarmos aqui, vamos virar comida deles.


- E como você sabe que vamos conseguir passar? – perguntou Adam, e o no mesmo momento, ouvi um grito vindo de trás. Olhei para trás e apontei para que Adam visse.

- Se ela conseguiu, porque nós não vamos conseguir também?

Ele riu e outro berrante veio, Adam estava despreparado, mas eu estava alerta. Empurrei o berrante para o lado e cravei minha faca em seu crânio. Vieram mais dois, conseguimos acabar com eles, mas em seguida veio mais um. Adam acabou com ele, só que três novos berrantes surgiram e estávamos cansados e eles já sabiam que tinha comida no terraço, agora era ali o alvo deles. Já era hora de tentar pular.

- É agora ou nunca cara. – falei.

Logo olhei para trás da escada, tinha uma caixa grande que se encaixava certinho no espaço que a escada ocupava. Se conseguíssemos tacar ela ali, conseguiríamos tempo para pegar armar um plano e chegarmos ao outro lado.

Corri até a caixa e deixei Adam sem entender nada, sozinho lutando contra os berrantes que apareciam. Eu demorei um pouco para conseguir jogar a caixa na escada, mas quando consegui, Adam entendeu tudo e deu uma gargalhada. Dois berrantes tentavam algo contra o Adam, mas eu consegui alcança-los antes que conseguissem alguma coisa. Matei um berrante e Adam o outro. A caixa estava impedindo os berrantes de subir a escada, mas não ia durar por muito tempo.

- Ei vocês, é melhor pularem logo! – gritei para o casal que estava parado na beirada do prédio.

- Muitos caíram. – disse a mulher. – Estamos com medo.

Droga, pensei.

Agora eu tinha certeza de que nem todos tinham conseguido passar. Era apenas uma chance e não podíamos desperdiçar. Era questão de vida ou morte. Olhei em busca de encontrar a Lavigne, mas ela e nem os outros estavam mais lá. Isso era bom, eles vão conseguir chegar ao ponto de encontro com a Karen, e isso era mais do que bom. Adam estava ofegante, assim como eu.

- Temos apenas uma chance cara. – comentou Adam.

- Estou sabendo. – falei rindo.

Rir ali não era por achar graça. Era por pensar no quanto ferrado nós estávamos. Nossos rostos e parte do nosso corpo já estavam sujos de sujeira e sangue. Sangue de berrante, o que era pior ainda.

Ficamos parados olhando os berrantes tentarem passar pela caixa. Aquilo parecia impossível, mas a quantidade deles aumentava e a caixa estava começando a ceder. Fiquei pensando em como eu iria conseguir atravessar para o outro lado. Fiquei pensando no meu pai, como eu queria reencontra-lo. Fiquei pensando na minha mãe e no meu irmão. Eu sentia tanto a falta deles. Sem contar na Bia, minha melhor amiga. E a Lavigne... Ela estava chorando com medo de me perder? Será que foi esse o motivo de seu choro? Karen devia estar certa, eu gosto dela, mas não é com maldade. Tenho-a como uma amiga e só. Ou será que não? Porque estou pensando nisso em meio a uma situação de vida ou morte?

Meu coração estrangulava meu peito, minha mente me traziam boas lembranças e isso me magoava. Deixava-me com medo de eu estar tendo a visão da morte chegar. Eu não queria morrer, pelo menos não ali e não dessa forma. Eu precisava fazer algo, mas esse algo eu não sabia o que era. Olhei para o Adam e ele correu para o lado direito do prédio, talvez pensasse que eu correria para lá também, mas não foi isso o que eu fiz.

- O que você está fazendo? – perguntou Adam incrédulo e olhando para mim com ar de assustado.


Pode parecer maluquice, ou talvez muita maluquice, mas eu creio que sei de algo que pudesse me fazer atravessar o prédio com um bom salto. Só que isto requer uma boa quantidade de adrenalina.

Fiquei de frente para a escada, os berrantes me olhando e ganhando mais força pela vontade de terem seu almoço logo. Seus olhos mostravam que não tinham alma, mostravam que estavam famintos e só queriam comer uma vida. Não era a carne que importava, parecia que eles eram colhedores de almas.

CLAK! CLEK! BRUM!

A caixa cedeu, a caixa quebrou e eles começaram a correr para cima de mim. Continuei parado até eles chegarem bem próximos de mim. Preparei-me para correr quando eles chegaram a poucos metros de mim, e quando estavam quase pegando minha blusa, eu comecei a correr. Meu coração estava em disparada, minhas pernas mais leves, eu estava mais leve. Minha adrenalina me ajudaria a ter um bom resultado nessa passagem. Foi então que pude ver minha mão alcançando o outro lado.

Pulei. A sensação era tranquilizante, foi questão de segundos para que metade do meu corpo caísse no terraço do prédio que nos salvaria. Acho que eu já poderia comemorar.

PAH!


- ADAM! – berrei enquanto via-o batendo contra a parede do prédio para o qual pulara, e caindo onde os berrantes o aguardavam.
Reações: