RENEGADOS
de Lucas Gomes

Capítulo 12

A dor de uma derrota
Final de temporada


- Anda Marcos, pegue minha mão! – disse Jacob aparecendo e me puxando pelo braço.

- ADAM! – berrei com os olhos cheios de lágrimas.

- Vem Marcos, não temos muito tempo. – falou Jacob conseguindo me puxar para o terraço.

Fiquei ali no terraço praticamente deitado. Jacob me sacudia algumas vezes para que eu pudesse andar logo e sair dali, mas eu não conseguia. Olhei pela beirada do terraço e vi o Adam caído, esparramado e sendo comida dos berrantes. Ele estava de olhos fechados e não aparentava sentir nada. Eu torcia para que ele tivesse morrido com a queda, para não ter o risco de ter tido uma morte lenta e horripilante. Só ali eu vi o quanto os berrantes eram perigosos e o quanto nós éramos frágeis.

- Vamos Marcos, anda logo! – disse Jacob tentando me levantar.

Não adiantava mais ficar ali, pensando em como o Adam morreu, logo depois de se mostrar tão amigo com os outros. Eu me levantei e corri juntamente com o Jacob para as escadas do prédio. Descemos para o andar debaixo e fomos para o lado onde a construção não havia sido terminada.

- Será que não tem passagem melhor? – perguntei.

- Não vejo ninguém por aqui, isso é um sinal de que eles conseguiram sair vivos. – falou Jacob.

Continuamos caminhando, mas agora procurávamos atrás das portas que encontrávamos, algum caminho seguro que nos levasse ao andar debaixo. Ficamos uns dez minutos procurando e não encontramos nada, até que vimos um buraco no chão, próximo ao banheiro, que talvez fosse à única opção para conseguirmos descer.

- Pronto, agora só falta mais um andar. – disse Jacob.

Eu não estava com muitas ideias de ficar conversando, Jacob parecia assustado, mas falava bastante. Eu não conseguia ficar desta forma, só cabia a eu ficar o ouvindo tagarelar em meus ouvidos.

Eu estava com muita sede e nem havia percebido, e foi só eu pensar nisso que a fome surgiu me destruindo por completo. Fiz uma autoanalise e percebi que eu deveria ter perdido uns quilinhos, o que não me agradava nem um pouco.

Encontramos finalmente a saída daquele prédio e logo de cara, ficamos a vista dos berrantes, que por sorte, estavam do outro lado da cerca, que era bem mais grossa e parecia muito mais resistente que a outra. Atravessamos a rua e seguimos em direção à estrada de lama do pico.

Meu Deus, pensei.

Eu estava sentindo uma dor insuportável. Talvez fosse pelo fato do sangue estar esfriando, mas minhas pernas simplesmente travaram. Desabei no asfalto quente sem conseguir nem mesmo me sentar.

- Câimbra essa hora? – ironizou Jacob.


Deixei minha perna esticada e me sentei esperando que a câimbra passasse logo. Não demorou muito para que percebêssemos que o nosso pessoal, não estava tão longe.

- Acho que já estou melhor. – falei me levantando, mas eu preferia continuar ali, ou quem sabe ter errado o salto e morrido junto com o Adam, porque o pior parecia estar por vim.

Olhamos para o final da rua e nossos olhos nos enganaram. O sorriso ao ver o nosso grupo vindo correndo em nossa direção foi sublime, mas a questão do “porque eles estão correndo?” acabou com a nossa alegria.
Ellen e Lavigne vinham correndo na frente de todos os outros. Deanna e Lucca vinham logo em seguida e James vinha por último. Atrás de todos eles, tinham uns dez ou doze berrantes correndo e tropeçando para cima deles.

- Droga, isso não acaba nunca? – perguntou Jacob levando as mãos à cabeça.

Corremos na direção deles, para quem sabe ajuda-los com alguma coisa. Afinal de contas, eu tinha minha faca e isso já era algo de bom. James levantou a mão direita mostrando que tinha uma com ele também, e então procurei alguma coisa pelo chão. Uma pedra enorme e um pedaço de madeira jogado, dando sopa para quem passasse por eles.

- Jacob, pega a madeira ali na sua frente! – gritei para ele.

Jacob pegou a madeira e acelerou o passo. Eu peguei a pedra que estava no chão e deixei minha faca bem posicionada na cintura para ser utilizada a qualquer momento.

- Vão para trás de mim! – falei e me posicionei na frente do meu grupo, com apenas James e Jacob enfrentando os demais berrantes.

James derrubou o primeiro berrante com facilidade e o segundo também não apresentou dificuldades, mas quando terceiro veio junto com o quarto berrante, Jacob teve que abrir a sua passagem para ajudar o James. Eu peguei o quarto berrante, mas o quinto que tentou atacar o Jacob pelas costas, ganhou minha atenção por um segundo, tempo suficiente para o sexto berrante passar por mim e tentar atacar o meu grupo. James se levantou e pegou o sexto e eu não podia sair dali porque o sétimo berrante vinha para cima de mim. Jacob saiu em disparada atrás do sexto berrante, o que me tranquilizou um pouco.

- AAAH! – berrou Deanna.

Acertei o oitavo berrante com uma facada no olho direito e me virei rapidamente para ver o que havia acontecido. Deanna estava caída e por cima dela estava o Jacob com o berrante mastigando seu pescoço. Ele ainda conseguiu fazer força com a madeira contra a cabeça do berrante, esmagando-o com dificuldade.
James me gritou e então eu voltei a me concentrar nos berrantes que estavam a nossa frente, mas um grupo enorme de novos berrantes vinha a nossa frente.

- Recua! – gritei.

Recuamos até o nosso grupo e vimos que não tinha mais jeito. Jacob infelizmente já estava pálido e com certeza, ele estava morto. Deanna soluçava de tanto chorar e Lucca não parecia tão diferente. James deu uma tapa no meu ombro e indicou com a cabeça que tínhamos trabalho a fazer.

Lavigne e Ellen levaram Lucca para um canto fora do alcance do sol. Deanna ficou ali parada com o corpo de Jacob, enquanto eu e James corríamos para cima dos berrantes. Aquilo sim era suicídio.

- MARCOS! – berrou Lavigne de longe.

Infelizmente a situação não me deixava pensar nela. A situação só fazia com que eu pensasse em como não morrer tão lento. Eu estava quase enfiando a faca na minha própria cabeça quando ouvimos uma buzina de longe.

- O que é aquilo? – perguntou James.


Aquilo era um caminhão, e pelos óculos do motorista, eu pude notar que era sem sombras de duvidas o Roberto, com a Karen ao seu lado.

- É a nossa carona. – respondi em um sorriso. – Pessoal! Vamos embora! – gritei para os outros.

Roberto passou por cima de muitos berrantes e eu e James apenas finalizamos o trabalho, só que mais estavam atrás da gente e parecia que tinham inúmeros berrantes na nossa direção.

- Lucca, aguenta firma cara, nossa carona chegou. – falei apoiando ele no meu ombro.

Roberto parou o caminhão e a Karen saiu correndo apontando para a parte traseira do caminhão. Corremos para lá e ela abriu a porta traseira do caminhão e então vimos os outros lá dentro. Benício e o senhor Josias. Entramos e o Roberto deu a meia volta com o caminhão, mas ainda faltavam dois.

A traseira do caminhão agora estava apontando para onde Deanna estava ajoelhada e chorando em cima do Jacob. James estava correndo até ela para tentar trazê-la o mais rápido possível, mas isso não pôde acontecer.

Deanna não queria vir e os berrantes se aproximaram o bastante para que a porta aberta fosse considerada altamente perigosa.

Quando a Deanna finalmente se levantou já era tarde demais e o Roberto começou a andar com o caminhão deixando os dois para trás. James vinha correndo para nós, só que teve de parar, pois os berrantes iam o alcançar com facilidade se ele continuasse. Ele me gritou inúmeras vezes pedindo socorro e que eu não o abandonasse, mas eu não podia fazer nada. O herói havia morrido tentando pular o prédio e seu nome não era Marcos e sim Adam.

Algumas horas se passaram e então as coisas pareciam estar se acalmando. Lavigne cuidava do Lucca e a Ellen estava conversando com o senhor Josias, procurando saber se ele estava realmente bem ou não. Benício ficava me olhando com os olhos cheios de lágrimas até que disse:

- Me desculpe Marcos. – falou Benício. – Principalmente por ter acreditado que você estava morto.

- Não se preocupe com isso. Teve todos os motivos para achar isso. – falei sorrindo para ele mesmo que eu não estivesse com vontade.

Abaixei a minha cabeça e fiquei pensando nas poucas horas que passamos e no tanto que aconteceu. Adam, alguém que se transformou em um amigo em poucos minutos, morreu. Jacob que era alguém de confiança e que me ajudou a sair do prédio, que me colocou nos eixos e me fez acordar, estava morto. Deanna que sempre nos fazia sorrir e acreditava em nós, provavelmente morta. James, outra pessoa que se transformou em um amigo meu na busca por suprimentos e que ganhou minha confiança, estava provavelmente morto.

Todos mortos, pensei.

Eu estava dormindo, quando comecei a sentir meu rosto dando calafrios e então percebi que era a mão de alguém que estava alisando o meu rosto.

- Oi. – disse Lavigne.

- Oi. – respondi.

Ela me abraçou e então toda a dor, toda a sensibilidade, todo o amor, todos os momentos de felicidades e todas as memórias que eu tinha dos meus amigos que deixamos para trás, veio à tona. Eu comecei a chorar e não conseguia mais parar. Lavigne alisava a minha nuca e as minhas costas, mas em momento algum deixou de me abraçar com força. Quando eu parei de chorar, a Lavigne me olhou nos olhos e disse:

- Todos aqui sabem como você está. – começou. – Não pela dor que sentiram, mas pela dor que você está sentindo e está mostrando sentir. – eu não deveria gostar disso, mas ela sempre quebrava os meus pensamentos negativos com algo que me fazia me sentir melhor. – Só que nós queremos que você saiba que nós estamos aqui para você. Assim como queremos que você esteja aqui para nós.

Então ela abaixou a cabeça e disse em um sussurro:

- Nós te amamos, - levantou os olhos e encontrou os meus. – e eu também.

Consegui cair no sono novamente e só acordei com o Roberto gritando do banco do motorista.

- Estamos chegando a um lugar onde vocês vão saber pela primeira vez, o que é segurança! – gritou Roberto em uma longa comemoração.


Eu não acreditava mais em lugares seguros. Para mim assim como todo sistema é falho, toda cerca tende a cair. E nós fomos derrotados hoje, na verdade, estrangulados pelos berrantes. Nós perdemos, mas se ainda havia esperança, eu tinha que buscar por elas, não somente por mim, mas pelos que estão ao meu redor.

CONTINUA NA PRÓXIMA TEMPORADA
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