Delírios


- Salgada & Doce Ilusão

Embora eu goste de diversificar e experimentar sensações diferentes, eu tenho os meus alvos preferidos. Já experimentei muita energia positiva e fantasiosa. Algumas mentes são fáceis de manipular, no entanto, difíceis de manter e é por isso que estou me dirigindo para meu último alvo, o meu estilo favorito; aquele que eu acometo á loucura e o levo comigo em forma de energia vital, deste tipo de alvo não sobra nada.
D.

Caminhar na praia era realmente bom apenas quando era noite. Eu sentia meus ombros arderem, embora houvesse fugido do sol o dia inteiro. Era o segundo dia que meus amigos e eu passávamos na praia. As meninas gostavam de tomar banho de sol para voltarem queimadas, mas eu odiava.

Eu odiava tanto o calor quanto a multidão que tomava o local. Sentei-me em uma das cadeiras e tentei ler um livro enquanto as garotas torravam no sol. Infelizmente, eu não consegui ler nem um parágrafo. Aqueles olhos me fitando agoniava-me, eram tantos que eu nem sabia para onde fugir. Desviei o olhar várias vezes e  eles continuavam me perseguindo. Abaixei a cabeça e observei o movimento com o canto dos olhos. Cabeças viravam se para mim com sorrisos maldosos.

Evitei não encará-los. Eles viriam atrás de mim eu tinha certeza daquilo e era apenas uma questão de tempo. Fitei a meninas que pareciam tirar uma soneca sob o sol despreocupadas. Eu me perguntava como elas conseguiam dormir em um local daquele, sob aquele calor. Mais e mais pessoas passavam ao redor da nossa - ou melhor, minha - barraca improvisada com guarda sol e cangas.

Levantei-me irritada e caminhei até o recife que estaria cheio de água àquela altura do dia, mas não fazia mal. Tudo o que eu queria era sentar em uma pedra, sozinha. Caminhei por toda a praia, desviando de várias crianças e mulheres estiradas no chão.

Precisei colocar meus óculos de sol, pois a luz era muito intensa e machucava meus olhos. Olhei para o céu, turvo. O sol era desfocado e as nuvens para mim, nunca tinham forma, eram como borrões brancos no céu azul, tinta branca borrada na tela azul clara.

Casais andavam de mãos dadas perto do mar, sorriam felizes. Isso me fez pensar que eu nunca saberia o que era amar. Nunca fui popular, e as pessoas na escola não falavam comigo. Mesmo esse grupo com quem estou só me aguenta porque minha mãe deu um jeito para eu vir junto, o médico disse que seria bom. A realidade é que todos me acham estranha.

***

Encarei os rostos que me fitavam, eu queria saber onde eles estavam. Várias pessoas me pareciam normais lá, até que eles apareceram. Os rostos das pessoas normais me encarando se transformaram em rostos azuis escuros, com longas orelhas arredondadas e olhos amarelos. Eles estavam vindo. Sai correndo em direção ao hotel e fiquei lá até de noite. Eles não saem à noite, estou segura ao anoitecer. É por isso que voltei para a praia.

Sentei na areia observando o mar, eu não tinha muito o que fazer então só olhei a paisagem, a Lua, tão brilhante, tão sozinha.

— Oi

Pulei a ouvir uma voz do meu lado, achei que eu seria a única estranha que ficaria na praia naquela hora. Olhei para o lado e vi um rapaz, não muito alto. Ele devia ter mais ou menos o meu tamanho, então não passava de um e sessenta e cinco de altura. Possuía olhos castanhos escuros e firmes, cabelo preto brilhante e um cavanhaque pequeno.

— Oi — Respondi sem jeito

— Posso me sentar aqui? — Perguntou apontando para o lugar vago na areia ao meu lado

— Ahm... Pode.

— O que faz aqui sozinha? — Ele perguntou sentando ao eu lado e me olhando fixo nos olhos.

— Nada, estou só olhando a Lua e sendo estranha, como sempre sou.

— Estranha?

— É as pessoas não se aproximam de mim normalmente. Elas sabem que sou diferente.

— Ser diferente não é ruim. É bonito, como a Lua. Sempre solitária, com um brilho único. Bem no centro do céu onde todos podem admirá-la. — Ele disse sorrindo.

— Não é assim que as pessoas enxergam.

— Não enxergam porque são burras. Se acham melhores do que as outras, estipulam o que é ser normal e julgam quem não se encaixa naquele conceito. Você não deveria entrar nesse jogo idiota. Uma garota como você é especial, não deixe que digam o contrário.

Ele era especial, tão bonito e educado. Eu nunca havia conversado com alguém que pensasse daquela maneira antes. Eu estava cansada de ter que fugir dos homens azuis, das pessoas me acharem estranhas. Eu não sabia o nome dele, mas não importava, gostaria de ficar com ele para sempre.

— Você os vê? — Ele perguntou olhando para o mar.

— Quem? — Perguntei confusa.

— Os homens azuis.

Arregalei os olhos.

—Eu os vejo — continuou ele —, nunca tentei conversar, porque sei que eles viriam trás de mim. Mas acho que arrumei um jeito de evitar isso.

— Arrumou?

— Sim — Respondeu sem olhar para mim ainda fitando o mar.

— Você... Me protegeria deles?

— Claro — Respondeu com um largo sorriso branco, muito bonito.

— Obrigada.
— De nada.

Ficamos quietos por algum tempo, até ele finalmente falar.

— Sabe por que venho aqui à noite?

— Não.

— Porque eles não estão e porque a água é morna. — Disse tirando a camiseta e correndo até o mar. Ele se virou para mim com um sorriso ao perguntar.

— Você não vem?

Hesitei um pouco, eu não gostava de entrar na água.

— Você me protege?

— Claro que sim — disse já entrando na água.

Larguei o chinelo e corri em direção ao mar, sentindo a água em meus pés, subir até a minha canela, depois minha cintura e logo estava no meu pescoço. Era morna, como ele disse. O rapaz estava sorrindo á minha frente. Essa foi a última visão que tive dele até meus pulmões estarem cheios de água e meus olhos se fecharem.  Naquele dia eu me senti mais viva do que jamais havia sentido, mas morri afogada em minha ilusão.
  
Sonhos, Vozes, Ilusões. Todos são tomados por algum tipo de sentimento que os prende e contagiam por algum motivo, pelo menos por alguns minutos. Algumas pessoas se livram logo desses sentimentos, em outras, eles perduram. Até onde você é capaz de aguentar? Vago por aí em busca de alimento; estou em todos os lugares, em todas as pessoas, estou ao seu lado agora. Lute se for capaz. Vejo-te em breve.

D.
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