Delírios


- Delírio

De todas as definições que os homens criaram para me descrever- bem como meus efeitos- a definição de se acreditar em algo sem embasamentos convictos e sem ao menos questionar é a que eu mais gosto. Talvez seja isso mesmo e apenas isso: eu sou o que a pessoa quer acreditar.
D.

Sinto falta do tempo em que eu apenas me preocupava em fazer meus desenhos e seguir minha banda favorita nas redes sociais. Tenho saudade de quando eu passava noites sem dormir antes de um show e de quando eu sonhava com o vocalista; era bem mais fácil viver aquele amor irreal. Hoje só penso no meu relacionamento frustrado.

Ele me amava. Me amava. Como poderia não me amar se me conquistou com um colar, me amarrou com flores e palavras doces? Como ele poderia não me amar, se me entregava cartas e lembrava-se de mim ao ler coisas de amor? Ele me amava. Amava. Agora acabou. Sem nem ao menos ter explicações, ele de distanciou.

Mesmo ao pegar em minhas mãos e encostar a cabeça em meus ombros; mesmo quando ele me olhava nos olhos e beijava-me quente e carinhosamente, ele estava perdido. A mente dele não estava aqui, não pertencia mais a este lugar, não pertencia mais a mim.

Parece que ele está indo embora e está cada vez mais longe. Eu grito silenciosamente. Quero evitar a distância, eu quero aquele misterioso olhar.  Sinto o doce toque ausente em meus cabelos e rosto.

A voz dele ecoa em minha mente. Se eu fecho os olhos, logo sou torturada e abençoada com o sorriso dele.  Em meus sonhos ele me visita e isso me faz não querer dormir. Sonhar deveria ser bom, mas é na verdade bem incômodo.

Luto contra mim mesma na tentativa de me manter acordada. Como todas às vezes, em todas as batalhas, eu me rendi ao sono e ao meu medo inconsciente.  Ao fechar os olhos eu o vi, sentado, sozinho abaixo de uma árvore.

Não me recordo bem do sonho, me esforço para saber do que se tratava, talvez eu nem devesse, mas eu quero lembrar, pois apenas nos meus sonhos ele ainda é meu. Hoje é dia de ir ao curso. Sei que vou encontrá-lo e acho que não estou preparada. Meu corpo quer de todas as maneiras estar naquele local, é o que meu coração pede e o que minha mente evita.

Arrumei minha bolsa com os cadernos e o estojo, seguindo desmotivada em direção à minha sentença. Eu sabia que algo aconteceria naquele dia, às coisas já não estavam bem á um tempo. Eu sei quando algo está diferente mesmo não sabendo exatamente o que. 

Ele já tentou me convencer de que estava tudo bem e que o problema era com ele, algo pessoal, mas eu tenho certeza que é só uma desculpa para se esquivar de explicações, de sentimentos, do problema que enfrentaríamos.

Suportar aquela situação era cada vez mais difícil e o pior era ser chamada de idiota. Como ele podia subestimar a minha capacidade de entender a situação? Ele queria que eu fosse idiota, na verdade ele tentava me convencer de que eu era assim ele sairia livre de culpa. Pensei naquilo durante todo o caminho.

Ao chegar ao curso, respirei fundo algumas vezes para conter minha vontade de chorar e aliviar o aperto que eu sentia. Senti a ansiedade aumentar, estaria ele ali?Teria ele continuado ou desistido do curso também?

Cumprimentei os colegas de sala, que estavam sentados em um banco, aliviada por não vê-lo ali no meio. Eu queria que ele nunca mais aparecesse se era para se afastar, que o fizesse de uma vez.

Conversei com a turma um pouco, eu havia esquecido o motivo pelo qual eu estava tão para baixo e tão preocupada antes de chegar ali, até ele chegar acompanhado de uma garota.

Tive vontade de xingá-lo de todos os nomes possíveis. Então era mesmo verdade que ele já não gostava mais de mim, mais do que isso, ele já havia encontrado outra pessoa. Olhei para a minha colega enraivecida, como ele tinha coragem de levar aquela menina ali? Não tinha mesmo o mínimo de respeito para comigo, sabendo que iria me magoar.

Fingi não me abalar enquanto eu conversava com minha amiga, ele cumprimentava todo mundo apresentando a tal garota. Não olhei para ele diretamente quando  ele diretamente quando  ele me cumprimentou. Acho que aquilo o incomodou, pois ele me disse “oi” chamando pelo meu nome. Chamou de um jeito frio e duro, como quem quer atenção, mas não quer admitir.

Ele me disse o nome da menina, uma tal de Vivian. Eu a cumprimentei por educação, tentando não ser fria. Ela ficou o tempo todo com ele, conversando no meio da aula. Depois do nosso intervalo ela foi embora. Sentei no meu lugar e o observei de longe, algumas vezes ele também me encarava. Aposto que ele estava rindo por dentro.

No final da aula eu guardava as minhas coisas quando ele se aproximou.

— Oi, me empresta o seu caderno?

— Não posso, está bagunçado, vou passar a limpo ainda. – respondi sem olhar para ele

— Eu passo a limpo para você. Pode me emprestar?

— Não sei. – Insisti em não olhá-lo

— O que está acontecendo?

— Nada — Respondi querendo explodir e jogar todas as ofensas que eu reprimia na cara dele.

— Não me parece nada. Porque não fala comigo?

“Porque você se afastou idiota!” Respondi mentalmente.

— Eu falo com você, só não estamos nos falando ultimamente... Talvez por falta de tempo. E eu não tenho assunto.

— Você nem olha na minha cara e quando eu tento falar com você, é sempre assim. Está fria e fechada.

— Talvez eu seja assim.

— Talvez você não seja — Retrucou — O que houve?

— Pergunta pra Vivian... Ou me responda você.

— A Vivian? O que tem ela? Eu a trouxe aqui para conhecer o curso ela é minha irmã.

“Irmã?”

Senti um misto de raiva e alívio. Mesmo assim não terminei a conversa, me despedi e andei em direção à saída. Ela podia ser a irmã dele, mas nada me tirava da cabeça que ele estava com outra e aquele cinismo todo me irritava.

Eu fiz uma escolha, nunca mais falei com ele. Nós ainda nos víamos no curso e nunca dirigi uma única palavra até o final. O tempo passou e seguimos caminhos diferentes, ele ainda habita o fundo do meu coração, mas eu finjo que não.

Teimosia. Tem um gosto amargo e é um pouco pesada, no entanto, era um gosto que faltava em minha coleção. Desde que venho experimentando sensações novas, tenho me sentido melhor, mais forte. 

D.
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