Delírios
de Cinthia David


- Fanipulação

Ela era uma explosão energética, um misto de exaltação, alegria, medo e insegurança. Sua criatividade me encantava. Acho que encontrei um tesouro, pessoas com forte imaginação são raras e sem dúvida, preciosas para mim (pois são mais fáceis de entrar na mente). Achei interessante o que vi na mente dela: sombras... Medo e alegria. Era o que eu precisava principalmente alegria.
D.

Acordei assustada naquela manhã; meses haviam se passado e eu continuava sonhando com aquele filme maldito. Alonguei-me e olhei o calendário e hora, e fui tomada por uma imensa alegria. Finalmente chegou o dia em que eu veria o meu amor, a melhor banda, com o melhor cantor do mundo todo.

Tomei banho rápido e me troquei, peguei um lanche e mais algumas coisas para comer e fui para o show. Corri do ponto de ônibus até a gigantesca fila pulando, enquanto os outros fãs cantavam as músicas antigas – as minhas favoritas – da banda.

Nunca conversei tanto como naquele dia. Não gosto de conversar com desconhecidos, mas quando se está em uma fila e tem o dia todo pela frente, até que é uma boa ideia. As pessoas na fila tinham baralho e fiquei jogando com eles por uma hora.

Diversos carros pretos passaram pela gente, isso fez com que vários fãs - principalmente garotas - corressem atrás deles na tentativa de ver a banda. Senti meu nível de adrenalina aumentar quando pulei a grade da fila e corri atrás do último carro que apareceu.

O carro parou e eu fitei o vidro com o coração batendo em ritmo muito acelerado. Tive a impressão de ver o vocalista dentro daquele carro, soltei um grito sentindo meu coração saltar e o arrepio interno aumentar. Tive uma vertigem rápida, minha vista embaçou e precisei me apoiar no carro. Quase pedi ajuda pra pessoa que estava do meu lado, mas não havia ninguém. Estranho, porque eu tinha certeza que havia.

Voltei para a fila, embaixo da cabana de lona e guarda-chuva que havíamos montado. O tempo estava mudando e era certeza que choveria mais cedo ou mais tarde. De onde eu estava sentada, embaixo da cabana eu conseguia ver o vidro que dava para o lado interno da casa de show. Gostei das imagens refletidas nele das pessoas na fila e olhei várias vezes. Na última vez, o baterista e o vocalista da banda olhavam para fora sorrindo.

— Michael, Anne olhem lá!— exclamei apontando para o vidro.

— Não vejo nada. O que foi?— perguntou Anne.

Pisquei confusa ao olhar para o vidro e não vê-los mais.

— Carter e Jason estavam ali — expliquei confusa e chateada.

— Não vejo nada — insistiram.

Ouvi alguém reclamar que eu só estava querendo atenção, mas não discuti, eu os vi e já estava feliz embora pudesse estar apenas imaginando.
***
A curiosidade aguçada e a confusão nela me excitavam, eu ainda não havia me alimentado de todas as maneiras necessárias, mas eu estava adorando a brincadeira. A energia que vinha dela era diferente havia milhares de pessoas ali naquele dia, porém, o misto de sentimentos nela gerava uma energia doce, uma onda energética intensa e contínua; quanto mais confusa ela ficava mais daquela energia doce eu recebia.
D.

***

Minha ansiedade crescia cada vez mais, pois os portões tinham sido abertos. Corri para conseguir um bom lugar à frente do palco. Eu ainda tremia e queria sentar, mas estava bem na frente e não poderia. Passei os olhos por toda a estrutura gigante do palco, desde os instrumentos até a passagem do backstage. Acho que o tempo voou e eu me distrai, pois consegui vê-los entrar no palco mesmo com as luzes da platéia apagadas.

Gritos eufóricos tomaram conta do local enquanto a guitarra fazia a introdução. As pessoas já pulavam tão Aldo que parecia que o chão iria desmoronar; todos cantavam a música em coro. O vocalista parou no canto do palco, bem na minha frente. Ele balançava o cabelo longo enquanto cantava o refrão. Meu coração acelerou, eu nunca entenderia como ele podia ser tão perfeito.

***

O amor adolescente, como é engraçado e extremamente útil para os meus propósitos. Do alto do palco eu fui contagiado com aquela energia, mas eu queria mais. Queria principalmente dela. Apontei para o vocalista da anda e logo em seguida, para o chakra frontal da garota...
D.

***

No final da música ele tirou os óculos escuros, fitou a platéia e sorriu... Sorriu para mim. Senti o mundo parar. O show foi perfeito, me senti em outro mundo, outra dimensão durante àquelas horas. Sai do local extasiada, nada depois daquele show parecia fazer sentido e eu só queria que o tempo voltasse.

Encontrei Michael e Anne na saída e conversamos um pouco sobre como foi o momento até eles irem pegar o ônibus.

— Bem, estamos indo. — Disse Anne me abraçando

Retribui o abraço sentindo-me feliz por dividir tudo aquilo com alguém. Fechei meus olhos para me concentrar no abraço sincero e quando abri, vi Carter passar por entre duas colunas do estacionamento.

— Você vem com a gente?— Michael perguntou

— Ah, não. Podem ir. Adiciono vocês no facebook depois.

Despedi-me apressada e corri em direção as colunas, olhei ao redor delas desesperada, eu precisava vê-lo. Andei em direção ao carro preto, olhei pelos vidros, não tinha ninguém. Virei-me para ir embora e vi Carter perto do elevador. Corri até ele, a porta já estava se fechando, ele sorriu e me mandou um beijo. Fiquei ali parada, não sei por quanto tempo, repassei a cena na cabeça milhares de vezes.

***

Fantasia, que gosto peculiar... Observei a garota parada na frente do elevador pela última vez naquele dia. Tenho certeza que eu a verei novamente, quando necessário.
D.
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