Delírios
de Cinthia David



- Sombras

Algumas pessoas se sentem bem ao passear na praia, ou quando o vento bate no rosto. Outros gostam de comer, doces, salgados, saladas. Há quem goste de magoar terceiros para sentir-se bem, há os que gostam de ajudar o próximo. Cada pessoa vive alimentada por algo, e há aqueles que não se alimentam de nada, que não enxergam motivos na vida para lutar ou ser feliz. Eu me alimento de sentimentos e devo confessar que esses últimos, às vezes são os mais interessantes, e o medo é o meu alimento favorito. Sinto-me um pouco mais forte, mas acho que ainda não tive o suficiente.
D.

Era a primeira vez que eu voltava para casa sozinha à noite, apesar dos meus dezoito anos. O cinema não era tão longe de casa, então resolvi evitar o ônibus e fui andando mesmo. Estava me sentindo livre, aliviada e alegre. As luzes alaranjadas deixavam a rua mais bonita e misteriosa.

O caminho estava vazio, e achei que não teria problema ligar o mp3 baixinho. Eu não estaria desrespeitando ninguém, já que a rua estava deserta. Coloquei para tocar uma música da minha banda favorita. Cantei durante o caminho, entusiasmada com o anúncio do show que viria á cidade; só de cogitar a possibilidade de vê-los minhas mãos já tremiam e eu sentia vontade de pular e gritar de felicidade.

Faltava apenas um quarteirão para eu chegar até em casa quando olhei para trás repentinamente com a impressão de que alguém me seguia. Analisei cada local em meu campo de visão, não havia nada ali.

Continuei andando com aquela sensação presente o tempo todo e minha casa nunca me pareceu estar tão longe. Meu coração disparou ao perceber uma movimentação do meu lado usando minha visão periférica. Assustada, olhei para o lado e mais uma vez não havia nada.

Apertei os passos, evitando correr, continuando meu caminho. Se fosse um ladrão eu não poderia deixá-lo perceber que eu sabia que ele estava me seguindo. O frio na barriga só aumentava e precisei tomar cuidado com a minha respiração que já era ofegante.

Estava a uma rua de chegar a minha casa. Quando eu olhei, uma sombra sem forma definida apareceu atrás de mim. 

Saí correndo se me preocupar se era ou não um ladrão ou qualquer outra pessoa. Eu tinha certeza que aquilo me seguia e tudo o que queria era o conforto e segurança da minha casa. Corri tão rápido que senti minhas pernas fraquejarem e quase perdi o equilíbrio algumas vezes. Olhei para trás e dessa vez havia uma sombra em forma humana. Lágrimas escorreram pelo meu rosto. Quando cheguei ao portão do prédio, fui obrigada a parar de correr para não chamar atenção, mas eu me sentia apavorada por dentro.

Passei pelo hall do prédio sem olhar para nada, só olhei para trás enquanto esperava o elevador. Quando o mesmo chegou, entrei com a cabeça baixa e o cabelo no rosto; evitei olhar para qualquer lugar novamente, fechei os olhos e só abri para ver em que andar estava. 

Eu estava quase no sexto andar,quando eu estava voltando o meu olhar para baixo novamente, vi a sombra no espelho. Parecia um animal.

A porta do elevador se abriu e levei minha mão á boca para abafar o grito. Uma sombra em forma de nuvem e gás saia pela porta da escadaria. Corri até o meu apartamento ofegante, fugindo da sombra que se aproximava cada vez mais. Fechei a porta e larguei minha bolsa no chão do quarto, tirei os sapatos, deitando debaixo do cobertor de roupa mesmo.


Dei uma última olhada ao redor do meu quarto e lá estava a sombra em forma humana novamente, que parecia sobrevoar em minha direção. Cobri a cabeça com o cobertor e cerrei os olhos chorando. Acho que adormeci. Levantei no dia seguinte jurando a mim mesma nunca mais assistir filme de terror. 
Reações: