“O Dever Sempre Chama”

“Mesmo quando você está em um lugar só para descansar... E o seu dever chama, você nunca relutará”.

***

Estava eu e alguns colegas de uma escola em uma estação de trem. Não estávamos lá a passeio. Pra ser mais exato, eles precisavam passar por lá e eu, em forma de espírito de lobo, estava os acompanhando e ajudando.

A estação toda destruída e desmoronava em pedaços menores enquanto pedras caiam a todo instante. Diziam que se ficasse ali por um dia, poderia se ver uma parede cair como se fosse pó de tão velho que era. Estava chovendo naquela manhã, mas o céu não estava escuro, apenas fechado e claro pela luz do sol. A chuva que caia não era forte, mas fria.

Eu os guiava para dentro da estação pela entrada da frente.

- Sigam por aqui – eu falava para o garoto em forma de espectro. - Sigam reto pelo corredor agora – eu avisava a garota que estava junto.

Os dois seguiam tranquilos. Apesar da estação feita toda de pedras estar muito molhada, o caminho estava fácil para chegar até a plataforma.

- Lobo – começou a falar a garota que apontava para frente, tirando de meus pensamentos que estavam longe.

Olhei e a passagem estava bloqueada por um grande entulho de pedras e lama. Havia ainda dois canos espirrando um pouco de água.

- Foi só pensar que estava tudo bem e já deu problema – falei em tom de risada enquanto olhava em volta. Vi mais a frente uma brecha no buraco que servia para passarem ambos. - Venham um pouco mais a frente e entrem por essa brecha que vocês estarão na plataforma, bem onde queremos – falei.

Logo eles se aproximaram. O garoto passou primeiro, e ajudou a menina que quase escorregou a subir pela pedra molhada, a descer e a seguir pela brecha até sair do outro lado. Na plataforma, não demorou muito e ouviu-se o som de trem chegando, mas não estava nos trilhos corretos. Dentro dele haviam pessoas, todas iriam fazer o mesmo "teste", incluindo os dois comigo.

- Eles também vão fazer o teste, Lobo? – perguntou-me a garota.

- Sim – respondi, e só agora estava reparando nos dois comigo. Pareciam ser irmãos. Pelo jeito que o garoto a segurava, sempre a abraçando e a acariciando, deviam ambos ter dezessete anos.

Comparando com as roupas das pessoas que estavam no outro trem, as destes dois eram bem mais simples. A garota usava uma calça simples, de cor azul clara. Ela tentava insistentemente esconder o rasgo que teimava em aparecer na altura da coxa, assim como usava o cachecol em volta do pescoço e em cima de uma jaqueta que claramente estava surrada de velha, mas sua camisa branca estava impecável. Com certeza a comprou em algum lugar recentemente e especialmente para o momento. Sapato simples. A boina em sua cabeça, grande e velha, também não parecia ser dela, mas ela as vezes a segurava com tanta firmeza enquanto andava por dentro da estação que parecia ser a coisa mais importante dela.

Rapidamente olhei para o irmão, que estava com uma calça jeans azul escura e molhada, além de suja de toda a água e barro que ele havia passado e ajudado a irmã a passar. Do jeito que ela conversava com ela, ele não ligava para isso, e nem para o fato de sua blusa e camisa estarem molhadas, mas ao menos não estavam rasgadas. Eram um pouco maiores que ele. Provavelmente suas roupas também fossem emprestadas.

O nosso trem chegou um tempo depois e não era velho. Muito pelo contrário, parecia bem novo além de ser de um vermelho forte e vivo, lembrava a sangue. Logo que as portas automáticas abriram eles entraram, e eu entrei depois. O trem fechou a porta e deu partida devagar, com o puxar da velocidade. Ambos se seguraram em ferros no teto, o irmão segurando-a ainda pelo ombro enquanto o trem ia aumentando a velocidade por algum tempo até padronizar.

“Apesar deu estar lá aparentemente apenas para guia-los, os meus superiores nunca me mandam para ajudar alguém, simplesmente para ajudar, isso eu já aprendi... então por que eu estaria ali...?” eu pensava arduamente comigo.

- Olhe – Disse o garoto apontando para o lado de fora do trem, do lado contrário onde eles entraram.

- O quê? – Sai de meus pensamentos e vi o outro trem que havia passado por nós mais cedo. Era de um azul meio claro desbotado e mais pra verde. Havia muitas crianças dentro com alguns adultos instrutores. Ouvi a irmã falar com o seu irmão sobre o passado de ambos e ele a abraçou.

Puxei o assunto sobre e começamos a conversar. Ficamos conversando por algum tempo enquanto o nosso trem passava pelo outro ficando em paralelo com ele. Não demorou muito e senti o meu corpo, mesmo que não físico, estremecer.

Logo depois o trem parou de maneira abrupta.

- Vai acontecer agora o primeiro teste de vocês – falei para ambos.

Por algum motivo o ar ficou tenso e ninguém sabia o motivo. Pude ver claramente os dois se apertando.

Ambos ficavam olhando em volta.

- Qual vai ser o teste, senhor Lobo? – me perguntou o garoto.

- Não sei... – admiti.

Nesse instante o vagão inteiro tremeu uma vez e de novo, de novo. Tremeu tão forte que os dois caíram no chão mas se seguravam forte numa barra de ferro reta perto da porta.

“Como se algo ou alguém andasse na lataria lateral” Pensei comigo mesmo desconfiando de algo, mas os vagões eram a prova de som, por isso não tinha certeza.

Olhei pro lado e havia uma porta de ligação entre os vagões.

- Vou ver uma coisa, já volto – falei e entrei em transe.Aumentei a minha magia e me copiei fracamente para o vagão do lado.

Apareci e logo que meus sentidos se normalizaram e minha visão ficou nítida, ouvi e vi outras pessoas, gritando pedindo por socorro desesperadamente enquanto um demônio grande e vermelho, de longas pernas e chifres a amostra, sem pelos mas com pele escamosa e grossa que cobria todo o seu corpo, matava as pessoas dentro do vagão tranquilamente.

Meus olhos se arregalavam ao ver as enormes garras rasgar tudo e todos tranquilamente.

Sai de lá rapidamente e voltei para onde estava, pisquei e fiquei atônito.

- Então, senhor Lobo – me perguntou o garoto – O senhor parece estar pálido para um espectro.

Respirei fundo.

- Um demônio lá atrás no vagão... – falei finalmente pensando em tudo o que havia visto.

- O quê?! – falaram os dois, claramente começando a se exaltarem.

- Um demônio esta devorando todo mundo que entrou a uma estação antes de nós... – expliquei.

O óbvio no momento aconteceu. A menina começou a se desesperar, gritar e chorar, enquanto o garoto se levantou e começou a andar frenético de uma porta a outra.

Voltei para lá, agora de forma completa. Deixei-os a sós por um momento para olhar a situação do outro grupo. Eu sentia náuseas ao ver aquela situação mas não podia fazer nada. Ninguém me via ali e, prestando atenção, reparei nos detalhes.

Os olhos do demônio eram amarelos e vazio.

“Ele não enxerga...” Pensei.

O demônio atacava primeiro as pessoas que gritavam e tentavam correr pelo vagão.

“O monstro se guia pelo som e pelo exaltar das vítimas... Talvez pelo calor que emana nessas condições ele consiga ver....” Pensava, ainda com um aperto enorme dentro de mim.

Mas ele era muito rápido.

Rapidamente ele saiu de onde estava, após matar todas as pessoas de lá, e segurando-se pelo teto do vagão ia andando pela lateral. Rápido, ele veio até onde os dois que estavam comigo estava.

- Droga! – Falei e voltei para o vagão dos irmão de volta.

Em seguida a porta do vagão, bem onde os dois estavam, se abriu sozinha.

“Como isso é possível?!” Pensei de olhos arregalados de raiva e gritei rapidamente para os dois assim que vi os chifres aparecerem.

- Não se mexam! Não gritem!

E ele apareceu na porta do vagão. Parou com o casal de irmãos bem entre as suas grandes e longas pernas dobradas apoiadas no chão do vagão.

Ele parou e mexia a cabeça para os lados como se olha se para dentro, as vezes tentava farejar.

- Não grita... Não grita... – Eu repetia para ambos – Ele não consegue me ver.... – eu tentei explicar e ficava mexendo as mãos de cima para baixo para o casal, tentando evitar que olhassem para cima ou para trás para que não vissem o demônio de frente.

Olhei para a menina, que tentava não tremer se segurando no chão de olhos fechados. Lágrimas escorriam silenciosas por seu rosto, enquanto o garoto, abraçado com ela fortemente e quase imóvel, tapava sua boca, ambos de costas para o monstro, mas bem embaixo dele.

O demônio não sentiu nada e saiu, seguindo para o vagão da frente. Notei que eu estava certo, e que ele também não sentia cheiro. Rapidamente um outro trem passou, cheio de gente e também azul. O demônio saltou para ele, quebrou uma porta com o seu punho e entro no vagão. Os irmãos, notando o barulho, se viraram para trás e viram-no entrar no vagão.

As pessoas dentro, a maioria crianças, começaram a gritar. Os adultos a se desesperaram, perguntando o que era aquilo.

A menina apenas soltou as lágrimas contidas e apertou as mãos juntas enquanto o irmão mostrou os dentes de raiva, ambos apenas olhando o trem se afastar rápido sem poder fazer nada.

Respirando fundo e comecei a falar.

- Agora... Vocês estão a salvo para seguirem e irem terminar o teste de vocês – terminei.
- Mas! – quase gritou a garota, respirando e voltando a falar – Mas... e se ele voltar...? 

O seu irmão olhava pela porta aberta para ter certeza de que não havia mais nenhum demônio, aliviado.

- Vocês vão estar a salvo – falei e logo emendei enquanto olhava o outro trem se afastar mais – Caso apareçam outros, basta ficarem um pouco em silêncio e imóveis.

Nesse instante o trem tomou ignição e começou a se movimentar novamente, aos poucos pegando velocidade. Fui para a porta aberta e vi outro trem de cor azul mais desbotado se aproximando.

- Pessoal... – Me voltei para os dois que se seguravam na barra de ferro, mas agora de forma firme – Vocês estarão seguros assim que chegarem na próxima cidade e não precisam mais de mim. – Terminei de falar e o nosso trem deu uma guinada na velocidade ficando novamente em paralelo com outro trem ao lado.

- O que o senhor vai fazer? – perguntou a garota.

- Vou tentar resolver o problema que esse monstro está criando – respondi para ela, observando que ela tirava a boina, segurando-a bem apertado junto do peito dela, deixando o cabelo solto.

- Se cuide, senhor Lobo – me agradeceu ela e logo emendou – E obrigado por nos escoltar para chegarmos ao nosso destino final...

- Muito obrigado mesmo – falou o irmão dela, também agradecido e mais calmo.

Ouvi a garota soluçar.

- Você está bem? – perguntamos eu e o seu irmão juntamente.

- Sim... – respondeu ela para nós e foi sentar-se.

O trem começou a curvar-se para a esquerda e rapidamente me segurei no ferro de cima, balancei forte até pegar velocidade e impulso e saltei para o outro trem que seguia reto, acenando de dentro do trem para ambos.

O vagão estava vazio, e me bateu uma tristeza por deixá-los sozinhos.

- Se cuidem... – falei.

Olhei para fora pela outra porta. Por estar em forma de espirito era fácil, além de divertido. Reparei que os três trilhos faziam caminhos diferentes. O meu seguiria reto e pelo meio, enquanto o do demônio foi para um desvio a direita. Voltei para a porta que estava e olhei para frente do vagão que já estava diminuindo para parar no ponto final, numa pequena vila. Quando o trem estacionou, praticamente no meio da vila, eu desci por uma pequena escada que levava até o chão que estava molhado e barrento.

Era uma vila simples, bem simples. Tinha uma fonte que estava ligada e jorrando água do topo. Era bonita e ficava na frente do trem estacionado, as ruas eram asfaltadas, apesar da saída do trem ter sido no barro.
“Meu tênis sujou com o barro?” Percebi. Olhei em volta enquanto andava e tinha igreja, universidade e escola, mas não vi carros, apenas charretes.

- Curioso... – comentei comigo mesmo enquanto andava.

As pessoas conseguiam me ver naquele local, mas nenhuma se importou comigo lá. Não entendi o porquê, mas realmente eu estava lá muito visível.

Enquanto caminhava, observei uma escola por onde entrava pela garagem, além da casa, muito simples, estava coberta por plantas e trepadeiras. Havia algumas flores molhadas mas simplesmente por falta de sol.
O céu permanecia fechado.

Acabei por entrar na escola. 

Passagens apertadas.

Enquanto eu caminhava pelos corredores, eu via vários alunos fazendo um teste.

- Seria esse o teste que os dois foram fazer...? – perguntei comigo mesmo.

- Felipe – Parei ao ouvir a voz de um homem chamando pelo meu exato nome.

Me virei e era um professor que estava parado na porta de uma sala com um sorriso de aprovação mas faceiro.

- Ei, você está atrasado para a substituição do teste, meu caro – me disse ele sorrindo e entrando na sala, pedindo que eu o acompanha-se.

Voltei e entrei logo depois dele e comecei a olhar o teste dos outros. Eram sobre o demônio de antes, mas, em questões de respostas, bastava assinalar verdadeiro ou falso, com uma simples gravura dele.

“Queria ver como essas pobres crianças reagiriam ao ver ele pessoalmente...” Pensei e parei assim que cheguei na mesa do professor.

- Então – começou ele, e meus olhos se puxaram para prestar atenção. – Como você vai fazer a prova também? – me perguntou ele, me olhando agora por cima de seus óculos de leitura e redondos.

“Aqueles olhos... azuis e cheio de segredos” pensei comigo até parar atônito e de boca aberta.

Estava tendo uma visão:

“O demônio iria voltar dentro de um trem vermelho, destruir a vila e todos os moradores, não iria sobrar nada na vila a não ser lembranças”.

Pisquei voltando a respirar e olhando para o professor a minha frente, lhe respondendo meio abrupto.
- Não vou fazer professor – respondi lhe dando as costas com pressa. – E licença. – Falei já saindo mas não antes de virar meus olhos para ele e ver que ele sorria para mim, e anotava algo em seu bloco de papel amarelo.

Corri para a rua e vi uma moto estacionada. Uma ideia me passou pela mente. Cheguei nela, era grande e preta além de nova, gritei para o professor que iria pegá-la. Tive certeza que era dele, já subindo, ligando-a e saindo em disparada em direção aos trilhos do trem enquanto pensava arduamente.

O demônio vai devorar a vila inteira por algum motivo, não posso deixar...

E acelero pelas ruas até chegar nos trilhos.

A moto salta, balança e treme junto ao andar sobre os trilhos e seguir na direção contraria ao que o trem viria. Não demorou muito e eu vi o trem vindo em minha direção, vermelho e rápido.

“Lá está... Vou impedi-lo antes dele chegar na vila.” Decidi acelerando a moto ao máximo que podia.
Soltei uma das mãos do guidão e olhei para o trem. Coloquei dois dedos na testa e fechei rapidamente os olhos e os abri, estavam vermelhos. Apontei os dois dedos para o vagão e movi-os para o lado direito.

O trem virou junto e descarrilhou.

Começou a tombar, e empinei a moto ficando com apenas a roda de trás encostando no chão e seguindo. Em fração de segundos, levantei a outra roda do chão, sai de cima dela segurando-a e puxei para junto de mim. Empurrei-a com uma força brutal. A moto inteira levantou no ar em direção ao trem. Ao se chocarem, explodiu, fazendo o trem desacelerar ligeiramente ainda longe. Pedaços da moto voaram para os lados pegando fogo.

Eu ofegava um pouco. Fazia algum tempo que eu não fazia esse tipo de coisa. Sorri um pouco, satisfeito, enquanto eu olhava o trem pegar fogo.

Uma voz narrou ao meu ouvido.

“Mas ele pegou o trem errado” Pude ouvir uma risada simples mas notável no final, alguém rindo da situação.

Vindo lá trás, o outro trem em outro trilho que não estava bloqueado, com o monstro.


Fiquei parado, e minha espada apareceu. Meus olhos tornaram-se vermelhos enquanto eu aguardava a luta começar.
Reações: