Memorias, não lembranças
2 - Final

- Próxima estação ... – Falou a voz eletrônica do metrô.

O homem da bateria tocou uma vez. As lâmpadas em volta piscaram. A música que eu estava ouvindo no meu celular, era a mesma que ela estava cantando. Aquele forte de rock, do mesmo local onde nasci. Algumas pessoas naquele canto olhavam para as lâmpadas sem entender o porquê delas estarem piscando e começavam a reclamar em voz alta.

- Ah essas coisas! – reclamava uma mulher.

- Nada disso presta! – outra emendou.

- Já vem tudo quebrado! – um homem falou, entrando na discussão.

- Atenção, próxima estação ... – Falou novamente anunciando a chegada na plataforma.

Meu pelo estava eriçado, olhando aquela cena que considerei “nojenta” para qualquer ser que pudesse ver o que estava acontecendo. 

Bruscamente o vagão fez a curva que daria numa reta para entrar na plataforma. Rapidamente me segurei na barra de ferro que ficava acima, enquanto várias pessoas eram meio que jogadas para o lado, muitas quase caindo nas outras pessoas sentadas nos bancos. O homem que estava ao meu lado conversando com a moça também se segurou firme. Já a moça teve de se encostar totalmente para trás para se manter no lugar.

Na outra ponta do vagão, a mulher continuava a cantar a música que eu estava ouvindo enquanto os companheiros tocavam fortemente a guitarra.

No momento que o trem chegou na reta, eles diminuíram o tom enquanto o trem ia reduzindo a velocidade e estacionando na plataforma.

***

Do lado de fora do trem, na plataforma, algumas poucas pessoas esperavam o trem parar. A maioria com livros ou fones de ouvido. O trem parou e abriu as portas, mas não todas.

- Atenção, estação ... Se não for desembarcar, não fique na região das portas. – Anunciou a voz eletrônica.

A porta onde eu via aquelas almas não abriu.

- Mas que droga! – berrou uma mulher que estava na porta.

Mais que rápido, quem iria descer começou a se apressar para ir para a outra saída mais próxima.

De relance era possível ver uma faísca em cima da porta.

***

O motivo pelo qual a porta não abria: a mulher a estava “tocando” com a mão livre enquanto cantava um pouco mais calma.

***

Toquei ligeiramente no ombro da moça para lhe chamar a atenção e ela, me atendeu, saindo da atenção da conversa com o homem.

- Vocês não iam descer nessa estação moça? – perguntei olhando as pessoas desembarcando.

- Ah verdade! – me respondeu a moça se levantando apressada e saindo acompanhada do homem.

- Nossa ainda bem que o garoto nos avisou! – completou o homem saindo e segurando a mão da mulher. Eu fui logo atrás deles.

- Muito obrigada! – disse a moça indo com o homem que me acenou de volta.

Dei-lhes um sorriso de volta, e me vire olhando para a porta que estava travada.

***

Ela estava lá ainda, voltando a aumentar o tom de voz e novamente a luz do vagão piscou naquele canto. O sinal sonoro da porta se fez alto, avisando que iria se fechar. Eu via as pessoas que ainda estavam dentro do vagam, muitas sentadas e uma parte em pé, na área onde a porta não abria. 

Meu coração apertou de tristeza.

Novamente o sinal sonoro.

A mulher começava a subir seu tom de voz mais alto com a bateria forte tocando e começando a caminhar pelo vagão sorrindo gloriosa.

Terceiro e último sinal sonoro.

A porta começou a fechar.

Não resisti e arremessei uma pequena pedra que eu tinha comigo antes que a porta fechasse, e saí. A porta se fechou com a pedra dentro do vagão. Encarei a mulher no rosto sem olhos, feito de pura “energia ruim”.

A luz dentro do vagão onde os homens estavam com a guitarra e com a bateria queimou de vez, e o trem começou a se movimentar para frente seguindo viagem. De relance vi algumas pessoas assustadas com o repentino queimar das luzes no fundo. E o trem saiu rápido da estação.

***

Virei de costas e fui caminhando rápido para fora.

- De graça, isso não vai sair – falei comigo mesmo, aproveitando que já estava praticamente sozinho.

***


Depois de algum tempo que tinha saído da estação, eu já estava caminhando na rua, quando ouço o barulho de carros da ambulância e do bombeiro passar rapidamente pela avenida ao meu lado em direção à estação  onde eu estava.
Reações: