Memórias, não lembranças
Parte 1

Vários minutos depois, muitos mesmo, de eu estar indo para a minha casa na cidade, eu ainda estava no metrô. O trajeto era longo e demorado. Os dois garotos que antes faziam a minha visão brilhar de felicidade, com aquele espirito que brilha cheia de sonhos e esperanças, já haviam descido do vagam faz algum tempo e agora, e minha visão já não era tão boa.

Lá estava eu, em pé, encostado em uma porta que não iria abrir tão cedo, ouvindo boa música em meu aparelho de celular, até o trem parar numa estação cheia, lotada de gente. Todos eles se amontoarem na porta para entrar. A porta se abriu e eles se jogavam para entrar, em uma espécie de pressa misturada a desespero.

Meu nariz começou a coçar.

“Esse metrô dessa cidade... É sem dúvida o melhor lugar para se encontrar de tudo, de tudo mesmo.” Era o meu pensamento, e era a verdade.

***

Aquela fumaça negra.

Aquelas energias sujas em mistura com todo aquele ambiente fechado e em baixo da terra.

Meu nariz estava coçando e me incomodando muito com o excesso daquele energia ruim. Fui obrigado a sair da onde eu estava e ir para o fundo do vagão onde tinha menos gente.

A porta do vagão começou a fechar.

Os desesperados se jogavam para dentro, alguns quase ficam presos nas portas.

“Ridículo isso...” eu estava pensando enquanto via aquela cena.

A porta fechou. O trem voltou a andar para frente, e eu apenas olhava as pessoas amontoadas, com aquela energia ruim pairando sobre elas, e se juntando.

***

- Atchim! – acabei espirrando.

- Saúde. – Me disse um homem ao meu lado, vestido de terno e uma mulher que estava sentada em uma cadeira lendo um livro.

Os dois se olharam e sorriram um para o outro. Provável que tenham achado engraçada a situação.

- Obrigado – Respondi eu aos dois com um sorriso agradecido e feliz até.

O homem começou a puxar conversa sobre o livro que a moça estava lendo. Era um livro popular e que eu mesmo já havia tido a experiência de lê-lo. Tratava-se da história de um homem que vivia como pobre mas não o era.

Parei de dar atenção aos dois e olhei para o vidro no vagam que mostrava a estação. Faltavam três estações para eu chegar em casa. Uma das lâmpadas que ficava ao meu lado piscou e queimou.

***

Aquela energia negra, aquela fumaça, estava se espalhando.

Já havia tomado a parte oposta de onde eu estava e agora estava vindo para a minha direção. O meu brinco, que deste lado era um pequeno crista na minha orelha, levemente brilhou. “É um alerta” Pensei comigo tendo absoluta certeza.

Fiquei atento e olhando para a parte mais suja do vagão, e junto às pessoas sujas no canto, espíritos humanos negros estavam parados.

Senti o suor escorrer por baixo de meu pelo enquanto eu olhava-os.

Uma mulher sem rosto tinha cabelos compridos, negros, pretos como a energia suja.

“Droga...” Pensei comigo veemente olhando aquilo.

Junto com ela, estavam três homens iguais a ela.

“Isso não vai dar boa coisa...” continuei pensando comigo olhando-os.

A mulher sorriu me olhando e se sentou num banco feito daquela energia, e um microfone aparentemente apareceu em sua mão. Um dos homens se sentou num banco atrás da mulher e a sua frente apareceu uma bateria da mesma energia e as baquetas nas mãos, tudo preto, sem forma detalhada. Podia-se ver claramente as pessoas amontoadas ficando moles, sem forças para se manterem em pé, ou segurarem com firmeza nas barras de ferro.

Olhei para o lado e o metrô entrou rapidamente em baixo da terra.

Voltei os olhos para os humanos. Eles conversavam normalmente, o homem e a moça, e tossiram levemente enquanto eu via a energia negra envolvê-los.

Quando voltei os olhos, os outros dois homens estavam com guitarras pesadas nas mãos.


A mulher estava sorrindo e muito.
Reações: