Capítulo 4


Depois de algum tempo cuja quantia não sabia com precisão, pude sentir-me sendo carregada até algum lugar. Sempre tive o sono bastante leve e ainda que não possuísse, havia se tornado impossível não distinguir o calor dos braços de Nicholas. Notei também que havia feito à barba, agradeci mentalmente e voltei a dormir entrelaçada em seus braços.

A manhã chegou sereníssima, levantei-me primeiro como de costume e selei a bochecha de Nicholas sem que acordasse. Era sábado, eu havia decidido que não trabalharia. Desmarquei meus compromissos e decidi que iria cuidar de mim, mas não sem antes saber por que Nick havia dado as caras tão tarde em casa. Caminhei para o banheiro sem fazer muito barulho, olhei-me no espelho rapidamente e respirei fundo. Logo me despi e adentrei ao Box, sentia a água morna escorrer em minha pele como uma massagem. Depois de ensaboar-me permaneci debaixo do chuveiro com o braço apoiado na parede escondendo a face como quem pensava na vida.

Percebi que estava demorando demais e então fechei o chuveiro. Sequei minhas madeixas no banheiro mesmo e segui até o closet enrolada na toalha. Escolhi uma roupa bem light e ajeitei-me rapidamente para dar tempo de preparar o café.

Ao passar pela sala deslizei a mão no rack que se encontrava o som da casa e selecionei uma sequência de músicas. A primeira era Brand New Me...

It's been a while, I'm not who I was before. You look surprised, your words don't burn me anymore. Been meaning to tell you, but I guess it's clear to see, Don't be mad, it's just the brand new kind of me...

Coloquei a música não muito alta, embora o suficiente para que pudesse ouvir da cozinha sem que Nicholas acordasse. Segui até ela e danei a preparar algumas panquecas, fiz café, suco e mais algumas coisinhas. O apartamento de Nicholas não era do tipo familiar, então não havia uma mesa de jantar grande, era diferente do que eu estava acostumada, mas eu estava gostando dessa maneira de viver. O café era servido num balcão, o mesmo que dividia a sala e a cozinha americana.

Organizei as coisas e andei até o quarto para ver se já havia acordado. A cama estava vazia e amarrotada. Nicholas só podia estar no banheiro. E estava...

− Amor, o café está pronto, ok?

Aproximei-me da porta do banheiro e avisei-o.

− Já estou indo, Alexis, faz um favor pra mim?

− Sim?

− Pega a toalha pra mim?

− Ok!

Dirigi-me até o closet e procurei com os olhos a repartição do armário onde ficavam as toalhas. Equilibrei-me na ponta do pé e apoiei a mão esquerda na porta de correr. Enquanto puxava uma toalha de dentro do guarda-roupa, acabei por me desequilibrar e escorregar caindo dentro dele. Cai sentada e bati as costas no fundo do armário, ouvi um barulho como se algo estivesse desencaixando. Ao virar-me para ver o que era Nicholas apareceu.

− Se eu soubesse que causaria tanto estrago não lhe teria pedido para pegar...

Ao ouvir aquelas palavras logo demonstrei minha irritação através de um olhar nada admirável. Levantei-me ignorando sua ajuda e entreguei-lhe a tolha em mãos.

− Aproveita que gosta de fazer tudo sozinho, como chegar tarde da noite em casa e pegar a toalha, e toma café sozinho também!

Olhei-o rapidamente de soslaio antes de sair do closet e pude perceber sua irritação ao jogar a toalha de volta no guarda roupa. Ele estava enrolado na minha e eu não havia percebido.

Dirigi-me até a sala e peguei as chaves do carro em cima da mesa de centro, sai do apartamento com tanta pressa que acabei esquecendo o celular. Eu não sabia exatamente para onde iria agora que minha única amiga estava morta. Não que eu não tivesse outras pessoas para conversar, mas sobre o Nicholas, deveria ser somente a Eliza.

Vaguei pela cidade até me encontrar de frente para o Café de Dona Rose. Adentrei ao local, já havia algumas pessoas como sempre. Procurei-a com os olhos e não a vi, no mínimo deveria estar na cozinha preparando uns de seus deliciosos macarons.

Alguns passos a mais e me vi diante do balcão, lá estava um rapaz diferente do que eu estava acostumada a ver naquela cidade. Pele alva, até demais, olhos azuis e madeixas em tom claro. Possuía uma singela barba que por incrível que pareça eu havia gostado. Depois de analisá-lo completamente percebi que estava encarando-o a menos que 5 minutos. Senti minha bochecha esquentar por tamanha vergonha e para quebrar o gelo resolvi fazer meu pedido rapidamente.

− Quatro Macarons variados e um suco de laranja, ok?

− Anotado!

Voltei-me para as mesas e sentei em uma bem próxima a janela. Aguardei-me apenas alguns minutos mais e logo vi Dona Rose sair da cozinha com uma bandeja repleta de Macarons. Senti minha boca encher d’água. Meus olhos no mínimo estavam reluzentes, pois ela logo veio em minha direção acompanhada do balconista que havia anotado meus pedidos.

− Alexis, meu amor, o que faz aqui sozinha?

Indagou-me enquanto colocava sobre a mesa o copo de suco e o prato com Macarons.

− Tivemos um estresse essa manhã e resolvi deixá-lo pensar em um bom pedido de desculpas para mim.

Respondi em tom sério e logo depois soltei uma risada.

− Ah, logo se entenderão, Nicholas é um bom garoto.

− É...

Respondi enquanto inclinava o rosto em direção ao rapaz que lhe acompanhava e antes que pudesse lhe perguntar, ela mesma comunicou-me de que era seu filho que havia acabado de chegar da Austrália. Meu coração logo apertou, já imaginava o que iria me pedir.

− Alexis, quero que leve meu filho Dilan para conhecer a cidade, por favor, eu não tenho tempo. Você sabe... Não quero meu garoto nas mãos de nenhuma dessas meninas daqui que não sejam de sua confiança.

Engoli a seco seu discurso, eu sabia que isso não ia dar certo, mas me propus a ajudar.

− Tudo bem, Rose, eu o levo agora se quiser.

− Magina, termine seu café. Dilan ainda tem que me ajudar com algumas coisas aqui na loja.

− Tudo bem então depois do almoço eu passo aqui, tudo bem pra você Dilan?

E então o rapaz que ainda não havia pronunciado uma palavra sorriu com os olhos e finalmente falou.

− Claro, sem problemas!

Rose e Dilan dirigiram-se de volta para a cozinha, e eu permaneci terminando de tomar meu café. Alguns minutos depois, o chamei para que pudesse pagar pelos Macarons e o suco.

Entreguei-lhe o dinheiro trocado e levantei-me para partir, antes de sair lembrei-o de que mais tarde voltaria para que pudesse levá-lo para conhecer a cidade. Já do lado de fora do estabelecimento respirei fundo por pensar que já teria de voltar para casa. Mas não tinha outra escolha, tinha que preparar o almoço...

Depois de alguns minutos estava de volta ao apartamento, antes de abrir a porta percebi um silêncio angustiante. Girei a fechadura e abri-a lentamente como quem procurava por algo sem passar a ideia. Quando entrei completamente assustei-me ao ver Nicholas preparando o almoço. Deixei as chaves em cima da mesa e decidi não interrompe-lo.

− Como foi o café?

Fui enquadrada por tal pergunta de maneira ríspida. Senti um calafrio, mas não deixei transparecer.

− Ótimo, conheci até o filho da Dona Rose. Dilan, o nome dele... - Comentei.

− Quantos anos ele tem? 5?

− Não, sabe que eu não sei? Mas depois eu te falo, mais tarde iremos sair.

Pude ouvir a faca bater no fundo da pia. Os pelos de meus braços logo se arrepiaram, minha respiração ficou ofegante e por um segundo fiquei com medo do que ele poderia fazer.

− Vão sair?

Indagou-me outra vez.

− Sim, eu o levarei para conhecer a cidade...



Sai andando pelo apartamento enquanto respondia a todas as suas perguntas ao mesmo tempo. Eu definitivamente havia o estressado. Verifiquei o fundo do closet e estava intacto, decidi não mexer nele agora. O almoço mais pareceu um enterro, só se ouvia o barulho dos talheres baterem no prato e a música que deixei tocando até sair.

Depois de almoçar ajudei-o com a louça, dirigi-me até o banheiro escovei os dentes e fiz uma maquiagem leve. Pude ouvir um barulho no quarto...

− Alexis?

− Oi Nicholas...

− Você vai mesmo?



Encarei o espelho e respondi-o pela terceira vez.

− Vou Nicholas, já disse, que droga!

Acabei me exaltando e ao sair do quarto Nicholas surpreendeu-me segurando meu pulso, e pressionando seu corpo contra parede do quarto.

− Não grite...

Sussurrou perto de meu lóbulo mordiscando-o levemente. Pude sentir um formigamento estrondoso percorrer minhas entranhas e antes que pudesse falar envolvemo-nos em um beijo intenso, silencioso e lúgubre.
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