Capítulo 2


Eu estive completamente preenchida nos últimos dois anos, em todos os sentidos.  É evidente que ainda sinto falta de Elisa, no começo foi bastante lastimoso, mas com o tempo Nicholas se encarregou de me manter completamente focada em seus olhos. Era incrível a maneira que ele me reconquistava todos os dias pela manhã, ele me fazia sentir-se como em nosso primeiro encontro por simplesmente olhar em meus olhos e proferir o “eu te amo” mais ardiloso. Ele simplesmente ainda me deixava louca.

Apesar de estarmos juntos há apenas dois anos, fazia tempo que não passava sequer uma noite em casa e por conta disso resolvi que hoje tomaria café com papai e Alfred. Combinamos na cafeteria da Dona Rose, situada no centro de Truly mesmo.  Depois de despedir-me de Nicholas, desci até a garagem e acionei o portão do prédio pelo interfone. Sr. Carlos, o porteiro, abriu rapidamente o portão e então sai em direção ao centro da cidade. Não me demorei muito, pois o trafego estava relativamente tranquilo. Papai e Alfred já se encontravam à minha espera.

─ Alexis!

Papai falou alto e em bom tom. Caminhei apressada em sua direção e abracei-o demoradamente, em seguida cumprimentei Alfred. Sentamos a mesa e então começamos a conversar.

─ Primeiro, falem de vocês, quero saber como estão sem mim...

─ Ah, estamos bem, superamos o seu sequestro. Afinal, o que o Nicholas fez foi basicamente isso. − Brincou Alfred

─ Concordo em gênero e grau, Alfred. Esse Nicholas levou nossa menininha para longe.

─ Ah, papai, não é pra tanto... Eu estou morando a apenas alguns quilômetros de casa!

─ Sorte dele é que é um bom garoto... ─ Comentou Alfred

─ E tem cuidado bem de você, olha só, fazia tempo que não via esse sorriso cheio de vida em seu rosto! ─ Completou papai

─ É de certa forma Nicholas tem me feito muitíssimo bem desde que nos conhecemos.

Permanecemos conversando por mais alguns minutos até que papai teve de se retirar, segundo ele, tinha algumas coisas para resolver. Alfred e eu resolvemos pedir logo nossa bebida.

─ Dona Rose, eu quero um cappuccino de canela... ─ Pedi em alta voz. A mesma anotou nossos pedidos do balcão mesmo.

─ Cappuccino de canela... Sabia que era uma das bebidas preferidas de sua mãe?

Voltei-me para Alfred e assustei-me ao notar que começara a falar de mamãe depois de tanto tempo. Eu não sabia muito sobre ela, inclusive que gostava de cappuccino de canela.

─ Não... Sabe Alfred, eu nunca entendi muito bem como mamãe veio a falecer. Eu acho que já estou grande o suficiente para entender, não? Eu sei que ela não morreu simplesmente de infarto. Mamãe sempre teve uma saúde impecável...

─ Minha querida, foi preciso ocultar a verdade sobre a morte de Estela, e sim, eu imagino que o motivo tenha tirando-lhe algumas noites de sono, mas não sei se deve contar-lhe...

Assimilei aquelas palavras de reprovação e engoli a seco o pão de queijo que estava à mesa.

─ Tudo bem, qualquer dia conversamos sobre isso, agora tenho que ir. Preciso resolver algumas coisas que estão faltando no escritório.

Alfred meneou a cabeça concordando comigo e logo terminamos o café. Despedimo-nos na entrada do café e deixei dinheiro para que pegasse um táxi de volta para casa.

─ Vê se aparece mais vezes, ok? Chame Nicholas para tomar um café conosco.

─ Pode deixar Alfred!

Abracei-o e saí em direção ao estacionamento... Caminhei lentamente até o local em que meu carro estava enquanto recordava-me da vez em que eu e Nicholas nos esbarramos pela primeira vez. Suspirei com saudade e entrei no carro. Em seguida inculquei novamente com a história da morte de mamãe e decidi que iria descobrir afinal o que realmente havia acontecido. Uma hora depois estava de volta, Loren, minha secretária já havia aberto o escritório e aguardava-me com alguns projetos em mãos.

─ O que temos pra hoje? ─ Indaguei-a enquanto adentrava ao espaço.

─ Alguns jardins para fazer manutenção, uma entrevista com um Cadista[1] e uma visita marcada numa casa em Backer. Talvez não dê tempo, então já deixei o cliente ciente.

─ Obrigada, Loren, estarei em meu escritório!

Permaneci mergulhada em alguns projetos até a hora da entrevista, depois disso fui até as casas em que teria de fazer a manutenção dos jardins passando o dia inteirinho na rua. Acabei chegando tarde e para minha surpresa, Nicholas ainda não estava em casa, estranhei, mas imaginei que estivesse resolvendo algo importante, talvez.

Caminhei até o quarto organizei minhas coisas no armário e segui até o banheiro. Precisava de um banho energizante e nada melhor que um tempo longo mergulhada em alguns sais para resolver meu problema. Caminhei até a banheira e abri a torneira, derramei alguns sais, e enquanto enchia despi-me, e penteei-me fazendo um coque.

20h00min horas encarei o relógio de pulso e nada de Nicholas chegar. Eu já havia me banhado e decidido que iria esperá-lo para jantar, mas demorou tanto que acabei jantando sozinha. Pela primeira vez eu estava me sentindo entediada, há dois anos eu estaria pendurada ao telefone conversando com Elisa. Aliás, que falta ela me faz, não só nessas horas. Pensei um pouco sobre sua morte, algo que também não entendi muito bem porque aconteceu. Elisa era uma boa pessoa, morrer da maneira que se foi feito era absurdamente difícil de acreditar, ao menos fizemos um velório digno. Enquanto pensava ouvi um barulho vindo do quarto, senti minha pele enrijecer, os pelos logo arrepiaram. Constatei que era a porta do banheiro que havia batido com o vento. Fechei a janela do quarto e aproveitei para olhar a rua pela janela. E mais uma vez, nem sinal de Nicholas.

Voltei-me para a sala, tranquei a porta e sentei-me ao sofá para assistir televisão, cacei algum filme divertido, e encontrei. Deitei-me e permaneci assim com os olhos fixados na TV.




[1]  Pessoa que elabora desenhos de arquitetura e engenharia civil utilizando softwares específicos para desenho técnico.
Reações: