Delírios
de Cinthia David


- Venda

Minha energia está acabando. Sinto-a se reduzindo a cada instante e meu tempo está curto. Do alto do prédio, encaro a calçada em busca de alguém que possa me auxiliar. Várias pessoas passam lá embaixo, algumas bem apressadas- o que torna minha leitura delas mais complicada- outras andam em ritmo normal. Ultimamente tem sido difícil encontrar o que procuro, parece que todos carregam os mesmos pesos do mundo e mesmo as que não aparentam carregar, apenas fingem. Passo meus olhos por cada cabeça, os pensamentos não são claros. Continuo varrendo em volta, sinto uma vibração diferente, ela oscila mais que as outras, parece ser leve e pesada ao mesmo tempo, é instável. Salto do alto do prédio até o mastro da bandeira que fica mais ou menos no meio do edifício eu encontrara o alvo.
D.

A cafeteira insistia em puxar a água que já não existia mais no compartimento; o barulho do ar sendo puxado remetia a um vazio profundo. André serviu-se de uma xícara de cadê sem açúcar.

— Mas que droga!— Praguejou ao sentir o líquido ferver em sua pele.

A queimadura do café ardera por toda a aquela tarde. Após limpar a sujeira que fez ao derramar parte do café na pia, ele se arrumou para ir à faculdade.

— André.

Escutou alguém chamá-lo, o rapaz olhou para os lados e para trás pensando ser o colega da republica, mas não havia mais ninguém além dele no pequeno apartamento.

O estudante abriu a porta para sair quando ouviu o telefone tocar. Mesmo irritado com a hora inapropriada, ele atendeu.

— Alô?

Ninguém respondeu. Ainda mais irritado do que já estava, pegou a caixa de remédio com violência e abriu a porta.

— André!

Escutou alguém chamá-lo claramente em um tom de voz indecifrável. Fechou a porta irritado sem olhar para trás. O caminho foi tortuoso; a quantidade de pessoas que esbarravam em André o deixava bravo. Ele era o tipo de rapaz que se cansava fácil das coisas, das pessoas, da rotina.

Enquanto esperava o ônibus, ele pegou o celular para acessar redes sociais como forma de passar o tempo. Era algo que ele fazia normalmente, embora naquele dia em especial houvesse sido uma péssima ideia. Todas aquelas postagens de pessoas fingindo felicidade, ou postando aquelas correntes de escrever frases estranhas o deixavam profundamente exausto. André só conseguia pensar em como as pessoas eram fúteis e em como o mundo ficava cada vez mais insuportável.  Ele suspirou fundo aproximadamente quatro vezes. A primeira foi pela garota que chegou ao ponto desejando um ótimo dia a todos – o que na visão dele era pura falsidade - depois foi o outdoor que estava à frente dele, que mostrava um homem exageradamente saudável anunciando a mais nova academia do bairro. No terceiro suspiro ele levou as mãos à cabeça, pressionando o crânio ao ouvir a buzina de um carro. No quarto suspiro André retirou um frasco de remédio do bolso e tomou á seco um comprido. A perturbação era visível. Ele estava extremamente estressado com o mundo em geral, nervoso com o simples fato de ter que comprar uma água. Em um surto rápido, ele rasgou sua nota de dez reais e a jogou no chão, ele odiava aquele sistema, odiava ter que gastar, odiava ter que ficar preso a aquele pedaço de papel idiota.

Uma figura exótica apareceu do outro lado da rua. Ninguém conseguia vê-lo, mas ele era onipresente. Algumas pessoas conseguiam sentir, outras ouvi-lo, mas nunca vê-lo.  O homem usava um sobretudo preto, tinha as mãos dentro do bolso, protegidas de um frio que não existia. Assemelhava-se a um fantasma, pois era possível ver os prédio através daquela figura estranha. Os olhos possuíam cor rubi e os cabelos até o ombro, pareciam ser esverdeados, talvez fosse um misto de verde escuro e preto. Ele sumiu assim que André sentou no ônibus.

O próximo surto veio em reação ao som alto do celular de um dos passageiros que ouvia um estilo de música onde as letras não o agradavam, pois não tinham conteúdo algum, e a batida lhe parecia repetitiva. Ele sentiu as mãos tremerem e os músculos da perna enfraquecerem. Ameaçou se levantar do banco e desligar o celular dos dois garotos. A raiva só crescia dentro dele quando resolveu sentar-se novamente, retirar uma venda preta do bolso e amarrá-la nos olhos. André usava aquela venda todas as vezes que sentia necessidade de se afastar do mundo. Era como ter sua própria redoma, sua própria cidade, onde só ele existia e mais ninguém. A venda foi retirada alguns minutos depois, uma parada antes do local onde ele precisaria descer.

A faculdade ainda estava longe, precisaria pegar o metrô e andar por mais cem metros. Ele não gostava do que estudava tampouco do local. André sempre achou que não era maduro o suficiente pra escolher uma profissão; pensava no que faria da vida todos os dias, lembrava-se do esforço que ele faz para chegar à faculdade e para aprender a matéria de forma a utilizá-la na vida futuramente.

Enquanto pensava o quão infeliz era o estado dele naquele dia, André se dirigiu até a plataforma para pegar o metrô, no meio do caminho foi obrigado a respirar fundo e desviar de algumas pessoas que não estavam com tanta pressa quanto ele.

Chegou à plataforma e se posicionou atrás de duas pessoas que já formavam fila. O túnel estava silencioso, o que indicava que o trem estava longe e o único barulho que se ouvia no local eram os passos apressados das pessoas.  De início, André não se incomodou com o som daqueles passos, mas depois de cinco minutos começou a ficar perturbador. O “Tac Toc” dos sapatos estavam cada vez mais altos. As duas pessoas que estava á frente deles se dirigiram a outra plataforma, André deu um passo a frente, feliz por não ter que empurrar ninguém, e duas mulheres pararam atrás dele. Estavam conversando sobre moda e rapazes. André estava prestes a ter o terceiro surto do dia e adiantou-se em por a venda antes que alguém o tirasse o sério. A fila atrás deles aumentou e logo começou o empurra-empurra. André continuava  com a venda, respirando fundo, com as mãos no bolso, segurando o impacto dos corpos o empurrando para frente.

Tudo parecia estar ok, e os empurrões pareciam ter cessado. Até André escorregar.

Ele sentiu o fim da plataforma enquanto ouvia o barulho do trem se aproximando. Sentiu o aperto no peito, e o ar parecia ter parado de abastecer os pulmões deles, o frio na barriga, que durou segundos, parecia perdurar pela eternidade. Assustado com o barulho alto do trem, retirou a venda com as mãos trêmulas e apenas teve tempo de ver tudo escurecer na frente dele. Ele abriu e fechou os olhos algumas vezes, enquanto via os vagões passarem; ele não moveu um dedo enquanto o trem todo não havia passado. O trem não parou naquela estação e as pessoas gritavam assustadas.

A figura exótica apareceu rapidamente na plataforma do outro lado e desapareceu tão rapidamente quanto da primeira vez. André se espremeu no vão entre os trilhos, enquanto o trem passava e só conseguiu respirar ao ver as pessoas curiosas olhando para ele com expressões apavoradas. 
Reações: