Eu não podia acredi... Ou melhor, eu não me permitia assimilar que tudo aquilo estava acontecendo. Eu confesso que sempre dormi com alguns caras, mas nunca fui o tipo de mulher que se submete a uma situação dessas no primeiro encontro e pior ainda, aquilo definitivamente não era um encontro.  Tudo começou com um molho de chaves e terminou em nós dois enroscados em cima da cama.  Eu só podia estar à beira da loucura. Não que eu esteja reclamando porque sinceramente, Nicholas se tornou impossível de tirar da cabeça desde aquele maldito, ou eu deveria dizer bendito arranhão em meu retrovisor, mas eu conseguia me controlar. Não era pra tanto me deixar chega..r
 
─ AH.. − Gemi entre os dentes enquanto sentia um calor entre as pernas. Ainda me pergunto como consegui pensar em todas essas coisas diante daquele belíssimo par de orbes azuis simplesmente me levando a loucura. Mas apesar disso, tudo que eu desejava naquele momento era que um telefone ou uma campainha tocasse. Não era assim que as coisas deveriam acontecer, ou era. E talvez Deus tenha ouvido minhas preces quando em meio a gemidos de ambas as partes, pude ouvir o toque estridente de meu celular.
 
A situação acabou se tornando mais desconfortável que pensei. O clima simplesmente foi dar uma volta pelo espaço e aproveitando o momento em que o meu orgulho, e a minha querida razão estavam falando mais alto, desvencilhei-me de Nicholas e despedi-me com um selo rápido. Enrolei-me no lençol da cama e catei rapidamente minhas roupas com o intuito de encontrar meu celular. Nicholas permaneceu estático por alguns instantes, mas depois tomou suas peças de roupa e vestiu-as mais rápido do que eu, até.
 
Depois de arrumada pude perceber a tela de meu celular reluzir em baixo de meu sapato. Caminhei apressada até ambos. Era uma ligação do escritório. Eu estava atrasada e hoje o dia seria cheio demais. Ao mesmo tempo estava sendo egoísta em me arrumar em silêncio, sem ao menos dar uma satisfação para Nicholas. Talvez não fosse necessário. Repensei, uma despedida não faz mal a ninguém.
 
Caminhei a passos largos em direção a sala sendo seguida por Nicholas. Eu podia jurar que estava sentindo sua respiração ainda ofegante em minha nuca, ou estava sonhando.
 
─ Olha tudo bem se você não encontrar a chave, eu já estou atrasada mesmo, passarei num chaveiro para fazer uma nova. E sobre o que aconteceu... Se você puder fingir que tudo não passou de um... Momento de pura insanidade, eu vou agradecer. Tenho que ir!

Virei-me em direção a porta e senti sua mão direita pesar sobre meu braço. Cheguei a pensar que ele não tivesse entendido meu pedido. Mas estava enganada. Nicholas que não havia proferido nenhuma palavra desde que cheguei, puxou-me educadamente para o lado e girando a maçaneta, deu espaço novamente para que pudesse sair.
 
Sem mais delongas dei as costas e corri contra o tempo. Precisava passar no chaveiro e ir direto para o escritório. No caminho liguei para Loren, minha secretária. Pedi que ligasse para as pessoas que jantaria mais tarde e confirmasse o restaurante no centro de Truly. Chegando ao escritório, organizei os esboços que havia criado em casa semanas atrás enquanto o chaveiro tirava uma cópia de todas as portas para mim.
 
O dia passou voando e senhor, eu acho que olhei o visor de meu celular pelo menos umas cinco vezes só enquanto estava analisando as casas de alguns clientes. Eu estava impaciente. Ofereceram-me até mesmo um copo de água com açúcar. Eu estava criando expectativas demais, Nicholas não é o tipo de cara que liga no dia seguinte, ele não iria ligar no mesmo dia, pior ainda. Por longas horas esqueci-me completamente de Marc. O grande amor da minha vida que eu havia deixado para escanteio desde a chegada de Nicholas.
 
Apesar disso, agora não era hora de reviver o passado, que não era tão passado assim. Já badalava 19 horas da noite. Como o dia havia passado rápido, pensei. Em uma hora eu deveria estar pronta para o jantar de negócios. Com certeza não conseguiria chegar à casa a tempo. Dirigi de volta para o escritório e me arrumei por lá mesmo. Eu havia premeditado toda a construção de maneira que pudesse fazer coisas do tipo. Havia um banheiro pessoal e outro público. No pessoal, havia uma porta que dava num closet pequeno, só guardava algumas peças, maquiagem e uns pares de sapatos para ocasiões como essa.
 
Em alguns minutos estava pronta trajando um tubinho tomará que caia verde musgo, um colar simples, cabelo solto e um sobretudo bege um pouco acima do joelho. Eu tinha 15 minutos para chegar pelo menos em cima da hora. E lá estava eu dirigindo até o centro da cidade, feito louca. Por sorte meus clientes se atrasaram. O restaurante estava ameno, solicitei ao garçom que me trouxesse uma água e permaneci esperando mais alguns minutos.
 
A água chegou e os clientes não, e essa não era a única surpresa desagradável da noite. A poucos metros encontrava-se Marc, um cara que desde o dia em que o conheci me tirou todas as noites de sono possíveis, até mais do que Nicholas. Ele era perfeito. Educado, bonito, inteligente, tinha bom gosto pra praticamente tudo, menos pra mim. Ele nunca me olhou de outra maneira como a filha protegida e ingênua de Filipi, eu já estava na casa dos vinte e o homem me ignorava como uma adolescente que se apaixona pelo professor. Era angustiante, por vezes criei situações propícias a um beijo, um beijo que fosse. E ele desconversava, pigarreava, fugia e agora estava bem ali, na mesa de nº 6 acariciando a face de outro homem. Ele podia ser casado... Eu superaria com mais facilidade, mas isso foi quase uma traição. Alguns segundos encarando sua mesa e deparo-me com Marc sorrindo, e acenando em minha direção como cumprimento. Sempre tão educado, bonito, gentil... E agora não era mais para o meu bico. Terrível. Sorri com os olhos e voltei o olhar desolado e desconsolado para a taça de água que já havia terminado.
 
Ainda pensativa, respirei fundo e dei-me conta de que chovia um pouco. A janela ao meu lado respingada de gotículas anunciava a chegada do inverno chuvoso. O vidro estava um pouco embaçado e permitia que fizesse alguns desenhos... Ergui o dedo indicador, tirei a luva e rabisquei um coração partido. Ri de mim mesma e passei a mão em cima limpando a besteira que havia acabado de fazer. Através da janela, pude ver um homem bem parecido com Nicholas e mesmo com a decepção de ainda pouco, senti meu coração bater descompassado de um jeito que eu nunca vi. Forcei a vista em direção ao homem e frustrei-me ao perceber que não era, elevei minhas mãos até a cabeça e espalmei-a repetindo o mantra: Você está louca, louca, louca.
 
E assim, mergulhada em meus devaneios não percebi que meu celular tocava, era Loren. Parece que uma geada estava chegando a cidade de meus clientes e estava quase impossível de sair na rua. Chamei pelo mesmo garçom e pedi o que eles tivessem de melhor na cozinha. Nada melhor do que afogar as mágoas comendo. Levei algumas horas para saborear o jantar solitário e depois segui para casa.
 
Eu estava exausta e apesar disso não conseguia pregar os olhos, o dia havia sido longo e cheio de emoções para uma cabeça, e um coração só.Talvez um chá fosse capaz de amenizar a situação. 

Depois de preparada para dormir, caminhei até o corredor e procurei Alfred com os olhos, se bem o conheço com certeza ainda está acordado dando ordens por todo o lado. Chamei por seu nome e o vi aparecer ao fim da escada.

─ Senhorita Burton?

─ Alfred, sem formalidades, por favor. Hoje o dia foi longo, deliciei-me com um belo de um jantar solitário e agora apesar do cansaço não consigo pregar o olho. Você pode pedir a Dorinha que faça um chá para mim?

─ Claro Aléx, na verdade eu mesmo tomarei a liberdade de fazer. Dora já deve estar no décimo sono.

─ Tudo bem, mas prometa-me que depois disso irá para cama, certo?

Percebi um sorriso brotar nos lábios de Alfred. Em seguida meneou a cabeça e saiu para fazer-me o chá. Enquanto voltei para o quarto, desfiz a cama e deite-me a sua espera. Aguardei por alguns minutos e logo ouvi um barulho, era Alfred batendo na porta carregando um aroma irresistível dentro da caneca.

─ É de camomila, para que tenha uma noite e um dia tranquilo!

─ Ah, Alfred, obrigada! Você sempre tão atencioso mais presente do que papai.

─ Seu pai é tão ocupado quanto você. Sendo assim vou tratar de preparar um almoço para vocês um dia em que estiverem disponíveis.

─ Ah, só você mesmo, espero que consiga essa proeza! Agora vá descansar boa noite.

─ Boa noite Senhorita.
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