Louca, pensei.

Depois daquela noite, nada mais foi igual. Consegui fazer com que ela desistisse de pegar a tal chave, e finalmente, foi embora para sua casa. Meu dia continuava passando e ainda era de tardinha, quase noite. Quase hora de eu sair de casa, para fazer a minha última missão.

- Quero deixar claro por meio deste vídeo, que se eu aparecer morto, você, Oscar Fragoso, braço direito do presidente deste país insolente que ilude totalmente as pessoas, com seus sermões e mentiras e fazendo tudo pela metade e nos dizendo que as coisas estão andando, será o alvo principal de toda a nação. Não te deixarei uma chance, pois se errar comigo, eu errarei com você. – falei olhando para a câmera do meu notebook. Peguei a maleta cheia de dinheiro e mostrei para a câmera e então continuei dizendo. – Essa é a maleta que o Oscar me deixou. Cheia de dinheiro e com armas, balas, bombas caseiras entre outras coisas. Isso tudo, é o que eu tenho a minha disposição para matar a pessoa que ele me deu como o meu último alvo. Seu nome, Elisabeth Bazzoni de 24 anos. Moradora de uma cidade pacata chamada Truly. Estou, infelizmente, sendo obrigado a matá-la para ter uma vida normal, novamente. Farei isto, pois se eu não fizer, serei caçado, até a morte. – dei uma pausa e peguei o meu celular. – Aqui, está toda a gravação das minhas últimas conversas feita com Oscar. Essa gravação mostrara que estou sendo forçado, e não recebi nenhuma opção para negar este assassinato. Então, terei de fazê-lo, senão eu serei o novo alvo.

Encerrei o vídeo depois de deixar rolar a gravação de toda a minha conversa com o Oscar. Preferi deixar gravado e pronto para enviar em um e-mail, daqui a três dias. Se eu estiver vivo, irei adiantar a hora para que o e-mail possa ser enviado caso ele só venha depois de três dias. Terei de fazer isso durante toda a minha vida, pois sei que não estarei mais seguro. Pelo menos, não nesse planeta.


Oscar Fragoso é o chefe da segurança nacional e o melhor amigo do presidente. Sabe de tudo e ganha poder para fazer inúmeras coisas. Poderia muito bem me trancafiar em uma cela de prisão máxima por nada, ou então, ser menos ruim e me prender dentro do país, ficando sobre total vigilância dos militares que seguem suas ordens. Sem contar nos espiões que devem ficar ao meu redor a todo minuto e talvez, eu nem saiba disso.


Fechei meu notebook e peguei minha mochila. Ela estava preparada com tudo o que eu precisaria para fazer um assassinato bem discreto. Coloquei ela nas costas, sai do meu quarto secreto e sai do meu apartamento.
 

De tardinha eu consegui finalmente, criar uma escuta no telefone da casa da Eliza. Ela conversava com alguém, e disse que iria ficar em casa por hoje, mas que era para essa tal amiga, ir para sua casa, para verem filme juntas. Era o que eu precisava. Fácil demais para ser verdade.
 
- Boa noite meu jovem! – falou um senhor que passava ao meu lado enquanto eu caminhava para o ponto de ônibus.
 
- Boa noite! – respondi rapidamente.
 
As pessoas mais velhas sempre foram mais educadas. Hoje em dia, não vemos muito disso, mas pelo menos aqui em Truly, apesar de ser uma pequena cidade, as pessoas daqui são bem educadas, inclusive os mais novos. Aqui é um bom lugar para se morar, mas não enquanto estiver novo. São poucos jovens, muito idosos. Ou pelo menos, se for vim para cá, que venha com uma família formada, porque para achar alguém aqui, é difícil.
 
Peguei o ônibus e em poucos minutos eu já havia chegado ao meu local. Não era tão longe, daria até mesmo para ir a pé, só que quanto mais movimento, melhor para um certo disfarce.
 
Centro de Truly. Cinco ou sete condomínios cheios de apartamentos. Pedi ao porteiro do condomínio onde Eliza morava, os números dos apartamentos disponíveis para venda.
 

- Uma amiga que me indicou aqui. – comentei.
 
- Ah sim. Esse condomínio é muito bom e perfeitamente seguro. Porque não agenda uma visita hoje? Ainda da tempo. – opinou o porteiro.
 

- Não meu amigo, muito obrigado, mas estou correndo contra o tempo para buscar minha noiva no aeroporto. Se eu demorar, ela é capaz de me matar. – falei sorrindo, ou melhor, menti sorrindo.
 
- Hahaha, eu te entendo. Bom, se quiser, eu peço a minha filha para lhe mostrar os apartamentos que estão disponíveis aqui, amanhã.
 
- Sua filha? – perguntei.
 
- Sim, minha pequena Eliza. – falou e sorriu em seguida. – Ela odeia que eu a chame de pequena, mas fazer o que? Para mim ela sempre será o meu bebê não é mesmo?
 

- Creio que sim. – falei em um sorriso.
 

- Olha rapaz, quando for pai, você irá entender do que estou falando. – falou e deixou o nome dela com o número do apartamento em que ela morava.
 

- Obrigado. – falei o cumprimentando e saindo em direção contrária a dele.
 

Ele é o pai da Eliza, pensei. Droga!
 

Por isso que eu odiava ser espião e agora, ainda mais ser assassino de aluguel. Por isso que eu tenho de terminar isso logo, se não, como terei uma vida normal ou ao menos, como eu tentarei ter uma? Sem saber que eu estou indo matar sua amada filha, ele me entregou tudo o que eu precisava, sem que eu pedisse nada. Em sua mente, estou indo ao aeroporto buscar minha noiva, e com certeza, sou muito simpático aos olhos dele. Nunca irá imaginar que eu fui o assassino de sua filha.

Minutos depois lá estava eu, dentro do prédio indo no apartamento vazio que ficava mais alto possível. Ao chegar na porta do apartamento 602, que ficava no sexto andar, usei um grampo para abrir a porta e com êxito eu não fui avistado por ninguém.
 
Tudo nos conformes, pensei.
 

Arma na mão, mira encaixada, mascara no rosto, olho no local onde o alvo estará a qualquer momento e aguardando.
 

Eliza surgiu na janela da sua cozinha, mas passou rápida demais. Posicionei minha arma e deixei minha mira em cima dela, respirei fundo.
 

Aguardando o momento certo, pensei. Provavelmente ela irá sair apagando a luz da cozinha, é nessa hora que eu atiro.
 


Eliza começou a fazer algo na cozinha, suponho que seja pipoca. Abriu a geladeira e ficou olhando o que havia dentro até que puxou uma coca-cola de dois litros. Pôs em cima da bancada e pegou dois copos grandes. Deveria ser para ela e sua amiga. Abriu a porta da estante e tirou uma vasilha de lá de dentro. Em seguida Eliza pegou a pipoca que só agora pude perceber, que havia sido feita em um micro-ondas, e colocou na vasilha. A escuta que eu havia colocado em sua casa, só me dava os barulhos de passos que ela fazia.

- Eliza! – falou alguém que passou pela porta entrando na cozinha. - Vai demorar muito?
 

Era Alexis Burton.
 

Droga, pensei. Não é possível que em tudo essa mulher está presente!
 

- Já estou indo, só estava colocando o refrigerante. – disse Eliza.
 

- Ah sim, - falou Alexis. – sabe... Acho que realmente gostei de ter ficado com o Nicholas hoje.
 

- Ah amiga, pela sua cara, isso é certeza absoluta! – disse Eliza enquanto ria.
 

- Não sei, o jeito dele... Me parece tão misterioso.
 

- E você nem gosta de um mistério não é mesmo? – perguntou Eliza tacando uma pipoca no rosto da Alexis.
 

Alexis ficou meia pensativa, comeu uma pipoca e se encostou na bancada. Minha mira agora estava sob sua cabeça, e meu pensamento nas suas palavras. Ela estava gostando de mim? E eu, misterioso? Nunca me mostrei alguém misterioso e sem contar que nem meu nome eu menti. Disse como me chamo verdadeiramente e nunca tivemos situações da qual ela pudesse ver algum mistério. Será que ganhou essa impressão de mim, somente por causa do que aconteceu mais cedo?
 

- Vamos, está pronta! – disse Eliza sacudindo a vasilha para espalhar o sal na pipoca.
 

Elas saíram da cozinha, Eliza desligou a luz e se foi. Eu não consegui apertar o gatilho. Ela estava na minha mira, mas fiquei paralisado. Parei e deixei minha arma no chão. Me sentei e me encostei a parede. Quando me dei por percebido, minhas mãos já estavam passando pelo meu cabelo e meu rosto. Alisei minha testa em busca de um pensamento certo, em busca de algo que pudesse me fazer a retornar a mim mesmo.
 
Alexis, pensei.
 

Peguei meu celular e procurei pelo número dela. Liguei e deixei tocar três vezes, tempo suficiente para ela ver a chamada e atender, mas antes que ela fizesse a última parte, eu desliguei o telefone. Provavelmente ela pegou o celular agora para saber quem era e ao ver meu nome, já começou a pensar no que eu queria com ela, no mesmo dia em que fomos pra cama. Agora era o momento certo.
 

Meu celular vibrou e quando olhei o visor, lá estava escrito.
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                                             Chamada de Alexis Burton
                                                  
                                                   Atender Desligar
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- Alô? – falei ao atender o celular.
 

- Oi Nicholas, - falou Alexis parecendo um tanto insegura. – você me ligou?
 

- Eu? – perguntei soltando um leve risinho.
 

- É... – parecia ainda mais insegura sobre ter me feito aquela ligação.
 

- Liguei. – pude ouvir um suspiro de alivio dela. – Quer sair comigo?
 

- Co... – antes que ela pudesse dizer algo eu a interrompi.
 

- Ás 20hrs no cine do Thaylon.

Desliguei o celular e observei o movimento que acontecia na casa da Eliza. Alexis passou pela cozinha correndo para outro cômodo, e logo voltou a cozinha dando pulinhos de alegria.
 

Louca, pensei e sorri.

Destravei minha arma, posicionei a mira na porta da cozinha novamente e quando se passou quinze minutos eu atirei. Sai do apartamento onde eu estava e fui direto para o apartamento da Eliza. Chegando lá, pude perceber o tiro que dei. Atravessou em ponto reto a janela e raspou na porta da cozinha dando um perfeito sinal de erro.


Ótimo, pensei.


Assim eu dou meu alvo eliminado. Não sei o que ocorrerá daqui para frente, mas eu não quero acabar com a vida de uma pessoa inocente. Pelo menos eu não quero mais isso. Não mesmo.
 
Eliza com certeza estava na casa da Alexis agora ajudando ela a se arrumar. Daqui a poucos minutos eu deveria me encontrar com ela no cinema. Cine do Thaylon fica no centro de Truly. Uma noite tranquila. Assim eu espero, só quero descansar a mente um pouco e poder ter uma primeira noite tranquila. Que assim seja.
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Mensagem de texto

De: Nicholas            Para: Oscar Fragoso

Último alvo eliminado

Enviar            Apagar

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Enviar. Ok.
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