RENEGADOS
Capítulo 7
Reencontrando uma velha amiga

- Marcos! – berrou dois dos que estavam comigo.
Andei tranquilamente por trás da casa, ainda estava absorvendo a loucura que eu fiz. O plano poderia ser melhor, eu poderia pensar em algo que me deixasse mais em segurança do que me colocar no meio do fogo. Fiz questão de quebrar a maçaneta da porta de trás para que os berrantes não saíssem enquanto queimassem lá dentro. Foi então que teve uma parte engraçada. Eu me lembrei da cozinha e logo pensei em gás. Botijão de gás. Era muito, mas muito provável mesmo que tivesse um lá e eu estava muito perto da cozinha ainda, se explodisse naquele momento eu iria pros ares juntos com os berrantes que tostavam lá dentro. Corri o mais rápido possível por trás das casas e os outros pareceram fazer o mesmo, não sei se me viram ou não, mas percebi que os passos deles estavam bem apressados.
Droga o carro, pensei.
O carro estava bem próximo e agora não tinha mais jeito. Iríamos perdê-lo de qualquer forma. Estávamos fritos.
Quando cheguei à terceira casa pude ouvir o estrondo. O barulho ensurdecedor alcançava os meus ouvidos e me estremecia até a alma. Pulei para o lado da casa, para que ficasse ileso de qualquer destroço que voasse na minha direção.
- Patrick! – berrou Daniel.
Levantei-me dois minutos depois da explosão e fui para onde estavam os outros. Agora eu havia entendido o porquê de Daniel ter berrado o nome de Patrick.
- Não, não, não... – repetia constantemente Daniel com as mãos sobre a cabeça e os olhos cheios de lágrimas.
Patrick estava esparramado no chão, com uma lasca de madeira que muito provavelmente havia voado pra cima dele, e o acertou as suas costas e atravessou seu peito. O pior, no lado do coração. Estava morto, sem chances de despedidas ou algo parecido.

- Daniel, temos que seguir adiante, - começou Ellen tentando o acalmar. – tudo bem?

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Daniel estava muito abalado. Patrick era um dos seus amigos mais próximos, se não – talvez – o mais próximo e ele havia morrido de uma forma tão grotesca que era difícil para qualquer um aceitar. James foi até o corpo de Daniel e retirou dele a arma sem munição que estava grudada em sua cintura.
- Podemos precisar disso futuramente. – explicou James um pouco abalado, mas sem perder o tom de durão que ele tinha.
E ele estava totalmente certo. Nossas munições tinham acabado ali, mas no prédio havia muito mais, sem contar que estamos em buscar de suprimentos e munições pode fazer parte deste requesito.
- Ouviram isso? – perguntou Ellen ficando atenta e fazendo sinal para que todos fizessem silencio e ouvissem o tal barulho.
O barulho vinha de trás da sétima casa, a que ficava no centro da rua. Atrás dela tinha um matagal enorme e ele estava se movendo lentamente.
- Deve ser um berrante. – opinou Ellen.
- Pode deixar comigo. – falei.
Puxei a arma da cintura de Ellen sem nem mesmo que ela me autorizasse e fui caminhando até uma boa posição onde a visão para o mato ficasse melhor.
- Só tenho duas balas. – disse Ellen.
- Eu só preciso de uma. – confirmei.

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Eu estava tão nervoso e meu sangue tão quente que minha percepção sobre tiros parecia ter aumentado inúmeras vezes mais. Apontei para o mato esperando que o berrante aparecesse para que eu pudesse finaliza-lo com um único tiro no meio de sua cabeça. Meu braço estava estendido e muito firme mirando o local. Minha mão tão fechada sobre a arma que ela já parecia fazer parte de mim. Meus olhos tão focados no ponto em que se movia que parecia estar em câmera lenta. A raiva havia me dominado e eu achava que nada podia me acalmar naquele momento, até que o que estava se movendo no mato apareceu.
- Marcos? – disse Karen tão surpresa quanto eu.
Meus olhos se encheram de lágrimas, minha mão começou a tremer e meu braço a ficar bambo. Minha visão estava se perdendo graças às águas que transbordavam dentro de meus olhos. Estavam tão quentes que parecia sangue. Foi então que ela correu até mim e meu braço caiu deixando a arma quicar sobre o chão. Ela me abraçou e aquela sensação de esperança havia retornado a minha memória.

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- Marcos! – disse Karen me abraçando tão forte que eu fiquei sem reação.



Quem era eu? O que eu estava fazendo ali? Quais são os meus ideias? Será que ainda posso ter isso? Será que eu posso continuar sendo um humano comum, ou melhor, um adolescente com uma vida boa e dura a se trilhar?
Meus olhos não resistiram e então as lágrimas que já haviam brotado dentro de meus olhos começaram a rolar sobre meu rosto. Eu tinha amigos ainda, e eles provavelmente estavam vivos. Eu tinha um objetivo que era encontrar meu pai e minha melhor amiga. Eu criei um vínculo de amizade com outras pessoas, eu ainda confiava nas pessoas, confiei no grupo de busca que o Adam me colocou e eles confiaram em mim. Acho que ainda havia humanidade naquele início apocalíptico.
- É muito bom te ver. – disse Karen entre soluços. – Achei que tinha morrido.

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E então eu finalmente tomei conta do meu corpo, minha alma parecia estar se limpando, a abracei e toquei seus cabelos para senti-la ali comigo. Karen, tão pouco tempo, mas já havia se transformado em alguém tão importante para mim.
- É bom ver você também. – falei acariciando seu rosto.
- Não sei nem o que dizer. – falou Karen.
- Primeiro, - falei enquanto ria. – me diga como você me achou? – perguntei.
- Eu estou correndo atrás de comida para o nosso grupo. – começou Karen. – Perdemos alguns dos nossos no mesmo dia em que te perdemos. Douglas e Olivia estão mortos. Não podemos fazer nada por eles, foi tudo muito rápido Marcos.
- Se acalme. – pedi.
- É que... – começou Karen a se acalmar. – nós voltamos atrás de você.
- Voltaram? – perguntei.
- Encontramos uma cabana e vimos um corpo esparramado no chão todo ensanguentado. E junto dele estava um pedaço da blusa que você estava usando.
É mesmo, eu nem percebi, mas eu fiquei com a minha blusa um tanto rasgada. Não devo ter percebido porque logo que encontrei Lavigne ela me deu abrigo.
- Achamos que era você Marcos. – disse Karen começando a chorar novamente.
- Calma, eu estou aqui. – falei abraçando ela novamente.
- Outra que perdemos foi a Lavigne. Sinto muito Marcos, sei o quanto gostava dela. – disse Karen enxugando as lágrimas.
- Lavigne? – perguntou James.
- É, Lavigne. – começou Karen.  – Ele é meio durão com os sentimentos, mas estava tão na sua cara o quanto era apaixonado por ela. – terminou de dizer sorrindo.
- Ela está viva Karen. – falei e ela abriu os olhos em espanto. – Ela quem me salvou.
- Oh meu Deus! – berrou Karen incrédula.
O momento de felicidade da Karen a me ver e ficar sabendo que Lavigne estava viva e a salva, deixou Daniel um pouco mais triste. Afinal seu amigo havia acabado de morrer por causa de uma lasca que voava pelos ares por uma explosão que eu cometi. James deu a ideia de jogar o corpo de Patrick no fogo, mas Daniel não permitiu. Ele queria levar o corpo para o prédio, mas não tínhamos como. Nosso carro foi pelos ares.
- Eu estou de carro. – comentou Karen.

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- Carro? – perguntei surpreso.
- É, onde nós estamos dá para ter alguns carros. As ruas são mais espaçosas, não tanto, mas dá pra se virar. O Roberto fica todo feliz ao pegar o volante por algumas horas. – comentou Karen em um sorriso e um olhar sonhador.
- E como estão todos? – perguntei.
- Bem Marcos. Meu pai está se alimentando melhor e recuperando as forças. O Roberto ficou muito sentido com a sua perda, ele se sente sem um braço agora. Confiava muito em você. Benício se uniu ao padre Antônio para fazer suas orações e todas às vezes ele agradece por você ter salvado a vida dele. Pede todos os dias a Deus para cuidar de você muito bem lá em cima.
- Nossa! – exclamei.
- Pois é. – disse Karen abrindo um sorriso. – Estou ansiosa para que eles possam te ver logo.
Isso mesmo. Estava na hora de eu voltar para o meu grupo, só que tinha algo que eu deveria fazer antes de partir. Além de pegar Lavigne, Lucca, Jacob e a Deanna eu tinha que levar os suprimentos para os outros moradores do prédio. Não podia deixar tudo nas mãos do grupo que acreditou em mim quando pus um plano em jogo.
- Também estou ansioso, mas temos um serviço para terminar. – disse olhando para os outros que pareceram aliviados ao ouvirem o que eu tinha acabado de dizer.
Karen foi muito generosa, e disse que se fosse para eu voltar logo, nós podíamos pegar os suprimentos que ela havia conseguido e nos deu o carro para voltarmos de pressa para o prédio. Eu pude apenas agradecer mais e mais a ela e prometer que compensaria de alguma forma o nosso grupo pela perda de suprimentos que eles teriam agora. Karen marcou um ponto de encontro daqui a dois dias e disse que estaria juntamente com o nosso grupo nos aguardando lá para ai então, entrarmos no distrito.
Pegamos o carro em que Karen dirigia a deixamos próxima de uma estrada que daria ao ponto onde o nosso grupo estava. A vontade de ir até lá apenas para dizer “Olá, olhem para mim, estou vivo!”, era enorme, mas o pessoal no prédio deviam estar super preocupados conosco então era melhor que não.
O carro era um Honda Civic todo prateado e com alguns arranhões na carroceria, mas isso não era um problema. A porta malas estava infestada de comidas e havia remédios e algumas munições. Aquilo iria deixar Adam em êxtase de felicidade. Pedi a James que agora estava no volante, para não ter pena e acelerar tudo o que pudesse

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para chegarmos o quanto antes no prédio. Eu estava ansioso para rever meus amigos e para rever meu grupo.
- Como queiras. – disse James. – Só uma pergunta, antes que não tenha mais jeito de fazer ela.
 - Pode perguntar. – falei sem entender o que ele queria dizer.
- Quando você for se encontrar com o seu grupo, - começou James. – será que eles aceitariam mais um?
- É, - falei olhando para ele, pude perceber que minha sobrancelha estava erguida e os olhos bem abertos. – com certeza. – falei amolecendo o rosto e dando um ar de tranquilidade para ele.
- E dois? – perguntou Ellen.
- É claro, - falei sorrindo. – não temos um limite de entrada no grupo. – comentei e então os dois sorriram.

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Daniel por sua vez, continuou calado, encostado na porta do carro, tentando quem sabe, cochilar. James seguia atento e Ellen olhava pela janela do carro enquanto passávamos por estradas e mais estradas. Eu fazia o mesmo que ela, só que ficava imaginando o meu reencontro com os outros. Seria maravilhoso. E aquela história de eu ser apaixonado pela Lavigne? Não concordo com isso. Nós dois não temos nada haver.
Mentiroso, pensei e sorri.
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