RENEGADOS


Capítulo 5


Busca por suprimentos




No dia seguinte, um pouco antes de Adam por Lucca e Thomas para fora do prédio, eu fui até a sala onde ele ficava e organizava seus planos e as pessoas que ali ficavam.
- Adam. – falei batendo na porta que já estava aberta, mas quis que ele me permitisse entrar primeiro.
- Entre Marcos, - disse apontando para a cadeira. – por favor, sente-se!
Ele parecia ter acabado de tomar um banho, estava com a testa um pouco brilhosa e seus cabelos pareciam molhados. Estava focado em uma folha de papel com algumas coisas escritas e que faziam ele não desgrudar os olhos delas. Com uma mão segurava as folhas e com a outra apoiava a cabeça.
- Bom Adam, eu gostaria de te pedir um favor. – falei.
- Claro, e qual seria? – perguntou Adam ainda não me dando atenção.
- Bem, eu estive pensando, e talvez fosse melhor você deixar tanto o Lucca quanto o Thomas aqui dentro do prédio.
- Como é? – perguntou Adam finalmente me dando alguma atenção.
- Dê outra chance a eles. – pedi.
- E porque eu deveria?
- Por que... – eu não sabia o porquê ele deveria deixa-los ali. Na verdade eu não fui preparado para que ele me fizesse alguma pergunta do tipo, era só para ele dizer “Claro que dou outra chance” e pronto. – Lucca está ferido e tem família aqui dentro. Se ele for, sua família ira com ele será mais que uma perda e o Thomas, bem ele é drogado, sabe como ele é...
- Só por isso?


- Só por isso não. Olhe me desculpe, mas acho que eles merecem um castigo, só que não desta forma. Seria muito radical com alguém que não teve opção a não ser se defender de um psicopata que você hospeda aqui. – falei e dessa vez pareceu ter sido uma afronta.


35



- Olha lá como é que você fala do Thomas. Ele não é nenhum psicopata, só esta doente, e vai ficar aqui enquanto eu quiser que fique.
- Tem toda razão, ele vai ficar o tempo que você quiser. – tentei mostrar que ele tinha algum poder sobre mim, talvez desfizesse a ideia de eu tê-lo afrontado sem querer.
- Ora, não precisa ficar com medo de mim. – disse Adam. Eu não estava com medo dele, só quis deixa-lo no poder dele, para tentar quem sabe, ajudar meu amigo Lucca e por sorte, deu certo. – Pois bem, você me convenceu, eles ficam.
Eu olhei pra ele com um ar de “Nossa, você deixou?”, e então ele me disse que era uma última chance e que tinha planos para eles dois, só por isso irão ficar.
O assunto deveria terminar ali, mas Adam tinha algo para mim também. Ele queria organizar uma busca por suprimentos para o prédio, e só alguns iriam ser escolhidos para fazer isto. Ao todo, seriam cinco pessoas indo atrás de suprimentos e eu era um deles. Fui escolhido pela minha boa percepção de tiro. Adam não iria com agente, óbvio. Ele é o líder, não precisa sujar mais suas mãos com pouca coisa quando se tem um monte de gente que pode suja-las por ele. Em uma formalidade, Adam anunciou que iria dizer cinco nomes para essa busca, e que quem fosse chamado era para se preparar para sair no dia seguinte.
- Lembrando que eu escolhi vocês cinco, pelas suas qualidades demonstradas nos treinos. – começou dizendo Adam. – Eu não colocaria alguém que não sabe atirar para sair por ai afora em busca de alimentos, enquanto o perigo esta sobre vocês.
Todos olhando atentamente para os olhos de Adam. Ninguém pisca. A respiração parece ter possibilidade de ser ouvida de perto, pois o silêncio é duradouro.
- James, Patrick, Ellen, Daniel e Marcos. – anunciou Adam. – Já sabem o que fazer.
Já sabíamos mesmo. Deveríamos dormir o mais rápido possível, comer o máximo que pudéssemos e orar quantas vezes desse para que Deus protegesse nossa longa caminhada do lado de fora do prédio.
Eu não conhecia ninguém que ia nessa busca de suprimentos, e aquele não era momento para eu criar algum vinculo com eles. Preferi ir para o meu quarto e descansar o máximo possível, pois lá fora, descanso ia ser algo raro, e essa busca poderá ser rápida ou um tanto demorada.
- Ansioso? – perguntou Lavigne.
- Ansioso para ir para o lado de fora? – perguntei em um tom irônico.


- Eu sei, eu sei. Pergunta besta não é? – disse Lavigne rindo.


36



- Não é isso... – falei tentando desfazer minha ironia.
- Relaxa Marcos, eu sei que não é nenhum pouco interessante de ir lá fora outra vez.


- Já faz semanas que não sei o que é correr perigo. – digo preocupado.





- Eu sei. – diz Lavigne se aproximando e massageando meus ombros. – Se você foi escolhido para ir, é porque o Adam sabe que você é capaz de voltar de lá. Não foi isso o que ele disse?
- Foi sim. – digo suspirando com o alivio que a massagem estava me proporcionando.
- Agora você precisa descansar. – disse Lavigne parando a massagem e saindo do quarto.


- Claro. – falei para o vento.


37



Agora era só descansar e esperar. Ficar deitado em um colchão não tão confortável, mas em um lugar seguro te proporciona momentos tranquilos, só que pensar que isso não ira acontecer no dia seguinte é um tanto assustador. Viver de novo uma nova história com berrantes não era o que eu mais queria. Engraçado é que só cinco foram chamados para fazer essa busca, como cinco pessoas podem conseguir grandes coisas contra o triplo de berrantes? Ainda mais agora que estamos observando que eles estão mudando. Na luz do sol eles são totalmente fracos, mas na noite, na luz da lua eles ficam mais ágeis, mais... Inteligentes? Não importa. Temos que conseguir esses suprimentos o mais rápido possível e não temos tempo a perder.
No dia seguinte, pouco antes do sol aparecer, eu levantei. Arrumei algumas coisas e fui para a sala de reunião que era aonde o grupo ia se encontrar. Ainda era cedo, ninguém estava ali. Todos dormindo, passando o restante do tempo com as pessoas próximas a elas. O silencio predominava e aquilo era o que eu temia ter durante alguns dias do lado de fora. Isso é assustador. Quando você menos imagina eles chegam, aparecem e te devoram, e tudo isso no silencio mais tranquilo que alguém possa ter tido.
- Ainda é cedo não acha? – pergunta Adam aparecendo do nada.
- É...
- Sem sono?
- Acho que sim.
Adam continuou caminhando para algum lugar e eu me sentei no sofá. Apoiei minha cabeça no meu braço e quando eu fui ver todos já estavam ali e o sol já iluminava boa parte do prédio.
- E ai cara! – falou um dos cinco escolhidos para a busca por suprimentos.
- E ai... – Eu não sabia exatamente quem ele era, mas creio que ele sabia quem eu era e isso pra mim, já estava bom o suficiente.
- Bom dia a todos. – Disse Adam. – Bem essa busca não deve ser demorada. Pelos meus cálculos das buscas anteriores em três dias vocês já devem estar de volta.
- Vai ser moleza, haha! – comentou outro cara que eu também não sabia quem era, mas isso não durou por muito tempo. Adam nos apresentou uns aos outros antes de partimos.
- Esse é o James. – disse Adam apontando para o primeiro cara que falou comigo.


- E ai! – disse James balançando a cabeça para nós.


38



- Este é o Marcos. – disse Adam enquanto eu fazia um sinal com o polegar direito indicando “positivo”. – Essa é a Ellen. – a única mulher no grupo e ainda não sei qual a maior qualidade dela para essa busca.
- Olá meninos. – disse Ellen.
- E esses são Daniel e Patrick. – dois jovens, talvez um pouco mais velho que eu, mas algo me diz que eles não deveriam estar nessa busca.
Saímos do prédio e fomos até a cabana onde ficam todas as armas do prédio. Um arsenal incrível, cheios de munições e armas de diversos calibres e tamanhos. Cada um pegou uma arma. Ellen pegou uma pistola com um silenciador, e os outros rapazes pegaram metralhadoras barulhentas. Eu peguei uma pistola com um silenciador também, afinal, o silencio deveria ser o nosso amigo em algum momento. Barulho atrai berrante e isso não seria conveniente para agente.
- Serão barulhentos. – comenta Ellen.
- Já vi que terei de ser guarda costas de muita gente aqui. – falo enquanto ela me olha sorrindo.
- Então você é bastante experiente, não é mesmo? – pergunta ela.
- Bem... – tento falar algo, mas ela me impede.


- Não tem nem pelo no rosto, imagine experiência. – disse Ellen rindo de mim.


39




- Pois é só que pelo no rosto e nem experiência te fazem ficar vivo nos dias de hoje. – respondo e começo andar mais depressa.
Quando saímos da cerca, começamos o trabalho em silencio. Em algum canto próximo dali, tem uma cabana onde contém um carro que nós iremos pegar para nos apressarmos na busca. Andamos cerca de meia hora até a tal cabana e quando chegamos lá, o primeiro a querer pegar o carro é o Daniel.
- Vamos, me deixem dirigir essa belezinha. – disse Daniel.
O carro era um Gol bolinha da cor preta. Nada demais para um carro e muito pequeno para uma busca assim. Enfim, entramos no carro e pegamos a pista principal até o fim dela. Viramos em uma rua estreia e barrosa e continuamos com o pé na estrada.
- Tudo muito quieto. – diz Patrick.


- Está de noite, ninguém mais sai nesse horário. – comenta James. – Isso seria burrice.


40



- Então devíamos parar. – digo.
- Parar? No meio do nada? – pergunta Daniel.
- É claro. De noite eles são melhores em todos os sentidos, e o carro faz barulho e tem claridade, ou seja, chama a atenção deles. – digo. – Acho que devíamos parar até o sol nascer de novo.
- Isso é loucura! – fala Daniel.
- Loucura ou não, iremos parar o carro agora. – fala Ellen.
Ninguém me pareceu discordar a não ser o próprio Daniel. Foi então que paramos em uma barraca que ficava bem ao lado de um bar, intitulado de Bar do Zeca. O lugar era todo pinchado e porta estava aberta. Uma cadeira estava caída impossibilitando a porta de ser fechada. A casa ao lado nos parecia mais sombria ainda, só que não tinha janelas quebradas ou portas arrombadas, então, resolvemos entrar.
- Silencio. – disse Ellen. – Eu vou sozinha, se a barra estiver limpa eu chamo vocês.
- Eu vou com você. – digo e ela apenas deu de ombro.
Os outros aguardaram dentro do carro para o caso de ter alguma coisa inesperada dentro da casa ou nas redondezas, então se algo ruim acontecesse, iríamos correndo para o carro e procuraríamos outro lugar, bem distante daquele.
- Olhe pelas janelas. – sussurra Ellen.
- Já olhei. – mentira. Eu não tinha olhado nada, mas queria me mostrar tão experto quanto ela estava se mostrando.
Continuamos caminhando lentamente e em total silencio na direção da casa. Ao chegar à porta, Ellen toca levemente a maçaneta e tenta abrir para ver se esta trancada.
- Está trancada. – diz ela.
- Droga! – reclamo. – Me deixa tentar algo.
Era comum nas casas ou barracas do Subúrbio ter duas portas. Uma na frente e outra atrás. Então fui até os fundos da casa para ver se havia alguma porta e se por ventura, não estava trancada. Quando cheguei aos fundos da casa, notei que a porta também estava trancada, mas que a janela estava meio aberta. Levantei lentamente a janela e pus a cabeça para dentro. Não tinha ninguém no local.


- Que sorte. – sussurro para o vento.


41



Entro devagar pela janela e noto que estou na cozinha daquela casa. Em cima da bancada tinha uma faca que me chamou bastante a atenção. Peguei-a e ao invés de guarda-la, eu guardei minha arma. Verifiquei o banheiro e o quarto e estava tudo limpo.
- Estranho. – comento comigo mesmo. – deveria ter alguém aqui dentro.
Só que não tinha. Não havia mais ninguém ali dentro e isso era sim um pouco estranho, mas era também muito bom. Fui até a porta da frente e abri. Ellen sinalizou para os rapazes e então eles saíram do carro lentamente e caminharam para dentro da casa.
PAH!
- O que foi isso? – perguntei ficando atento.
- Droga Daniel! – grita o Patrick. – Pra que bater a porta do carro desse jeito?
- Você ta ficando maluco? – diz James para o Patrick.
- Façam silencio merda! – sussurro.
O problema não tinha começado, mas estava prestes a começar. Atrás da casa tinha um pequeno morro. Passava apenas a casa na altura. Parecia que tinham escavado aquele terreno para construírem a casa em terra baixa. Mas foi quando eu olhei lá pra cima que eu pude observar.
- Berrantes. – falei apontando para o alto do morro a nossa frente.
Daniel se assustou no mesmo instante, já que estava no campo de visão dos berrantes. Os mais próximos entraram correndo e tentando fazer o menor barulho possível, na casa. Daniel começou a correr para a casa quando os berrantes o perceberam. Não era tarde demais para ele, já que a porta da casa ficava fora da vista dos berrantes. Daniel correu até a porta da casa e eu dei passagem a ele, quando entrou, fechei a porta e ficamos e silencio absoluto.
Talvez não fosse uma boa ideia ficar ali, pois nem todos os berrantes iriam deixar o local. Era preferível fugirmos, mas para isso, teríamos de abandonar o carro, o que seria uma perda de tempo enorme para nós.


Os berrantes começaram a cercar a casa, nenhum tentou entrar pelas portas dos fundos ou até mesmo tentou a janela que ainda estava meio aberta. Alguns deviam estar procurando pelo Daniel, e isso era bom. Rodearam a casa, mas nenhum deles tentou invadi-la.


42



- Por quanto tempo você acha que vamos ficar aqui? – perguntou James em um sussurro.
Eu não respondi, mas fiz uma cara de que não iria ser rápido. Talvez um dia, dois ou até mesmo uma semana inteira. Quem é que sabe quanto tempo os berrantes ficariam ali?
Passou um dia e não conseguimos pregar os olhos. A tensão era muito grande sem contar na ansiedade de sair daquele lugar. Um berrante quebrou o vidro do banco do carona do carro, mas por sorte ele não conseguiu entrar ou ficar preso por lá. De noite nenhum deles parecera feroz ou pelo menos, não tiveram motivo algum para isso.
Mais um dia se passou e agora começamos a abrir nossas mochilas para bebermos um pouco de água e comermos alguma coisa. Racionamos bem nossos suprimentos, afinal de contas, já haviam se passado dois dias e não sabíamos o quanto ia demorar, para que saíssemos dali.
- Temos que dar um jeito. – sussurrou Patrick.
- Se você não tivesse batido a porta do carro, não estaríamos aqui agora. – disse James ao Daniel.
- É melhor todo mundo continuar em silencio. – sugeri. – Afinal de contas, eles ainda estão aqui.
Todos voltaram a se encostar-se às paredes daquela casa. Daniel dormia, James ficava olhando suas mãos, Ellen olhava o tempo todo para o teto, Patrick ficava com a cabeça enterrada entre as próprias pernas e eu analisava minha pistola e seu silenciador.
- Acho que da pra gente sair daqui. – comentei.
- Como? – perguntou Patrick tirando mostrando seu rosto.


- Amanhã nós teremos muito trabalho a fazer. – disse enquanto fechava os olhos para quem sabe, conseguir tirar ao menos uma soneca.


43


44
Reações: