RENEGADOS


Capítulo 4


A ordem da casa




O prédio tratava-se de um lugar onde viviam alguns refugiados. Quando entramos, muitos nos olharam com cara emburrada, um até esbarrou propositalmente no Lucca para tentar causar algum conflito, mas Lucca deixou a ignorância do homem de lado e continuou a adentrar o prédio na fila que fizemos atrás de Adam.
- Aqui é um quarto vago, - disse Adam abrindo uma porta. – têm duas camas, ai vocês se virem.
- Obrigado. – agradeci e ele sorriu assentindo com a cabeça, e então ele bateu em retirada.
- Bom pessoal, é melhor do que nada, não é? – perguntei ao meu grupo em um pequeno tom de ironia. Afinal, o lugar era muito caído e ruim. Feio e fedorento. Nada agradável, exceto pela ideia de que estaríamos a salvos ali dentro e isso era o bastante.
Passamos duas semanas nos adaptando ao local. Eles administram muito bem as coisas por aqui. Comidas, banhos, afazeres e muito mais. Toda segunda, quarta e sexta, um pequeno grupo sai para treinar tiro. Armas de chumbinho são usadas para o treino. Primeiro você mira e treina sem ter nenhuma bala, ai é por conta da sua percepção. Atira sem bala vinte vezes, ai então você usa apenas uma bala de chumbinho para ver se treinou bem sua mira. Na minha primeira semana, eu quase acertei o alvo, mas na segunda eu fiz algo que meu irmão tinha me dito uma vez.
- Coloque o seu dedo no local onde você quer acertar. Depois olhe com o olho esquerdo e depois o direito. O olho que não deslocar seu dedo do seu alvo, é o seu olho de mira.
- Assim? – coloquei meu dedo embaixo do meu alvo, olhei com um olho e depois olhei com o outro. – O meu olho direito é meu olho de mira! – disse em um entusiasmo.
- Isso ai mano. – comentou meu irmão.


Aquela época era boa, a saudade que eu tinha dele era enorme, mas eu tinha que ficar tranquilo, afinal, meu irmão estava na Alpina e havia salvado nossa mãe, e isso é o mais importante.


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Fiz o que meu irmão tinha me dito no último treinamento e deu certo. Foi no alvo certinho. Inacreditável! Adam tocou meu ombro e fez que sim com a cabeça. Ele era um homem de poucas palavras, mas sempre mostrava o que estava achando da gente no meio deles e eu estava me saindo bem.
Quando era quase noite, tínhamos de voltar correndo para o prédio, pois de noite os berrantes ganhavam mais força, velocidade e agilidade. A luz do sol os afetava, os deixavam lerdos e rastejando pelas ruas a fora, mas a noite as ruas eram deles e isso ninguém questionava.
Quando chegamos ao prédio, uma confusão estava para começar. Lucca estava sentado no refeitório e o valentão que começou a implicar com ele desde o primeiro dia, o ofendia de várias formas. Ali eram proibidas brigas. Quem quer que brigue ali, era expulso sem dó e nem piedade do prédio e não teria como voltar para lá.
- E ai espanhol! Vamos, não é o cara do pedaço? – berrou o valentão que tem o nome de Thomas. Lucca continuou em silêncio, o que incomodava muito mais o Thomas e fazia com que ele implicasse mais ainda.
- Para com isso. – disse Adam. – Se eu ver você fazendo isso de novo, sabe aonde te colocarei pra dormir, não sabe? – perguntou Adam em um jeito um tanto assustador.
- Sei sim senhor. – respondeu Thomas de cabeça baixa.
Thomas saiu e Lucca agradeceu ao Adam por ter feito o que fez. Lucca falou que estava difícil de aguentar aquele cara, e que ele não parava de implicar com ele. Adam não deu muita ideia, disse que se visse briga, os dois iriam embora e que era pra relevar o estado de Thomas, afinal, está muito tempo sem suas drogas e isso é um dos resultados que ele ganha ao ficar sem elas.
- Relaxa Lucca, não vai acontecer nada cara. – falei tirando ele dali.
Infelizmente, não foi desta maneira. No dia seguinte Thomas implicou novamente com Lucca, que aguentou firme as provocações, só que a raiva foi se acumulando dentro dele e uma hora ou outra, ia explodir.
- Quer deixar ele em paz? – ordenei ao Thomas que me empurrou para longe. Devia ter passado uns cinco dias desde que Adam, disse que não queria ver briga ali no prédio, mas Thomas não parecia ligar para isso.
- Agora não da mais. – disse Lucca soltando um soco no peito de Thomas que cambaleou para trás sem entender nada.
Thomas olhou para Lucca um pouco assustado, mas logo em seguida sorriu e deu uma leve gargalhada que foi parada por outro soco de Lucca, mas agora no rosto do Thomas. Thomas ao invés de se irritar, parece ter gostado. Ria como criança e a cada


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soco que levava do Lucca era como se não o tocasse. Não parecia sentir dor ou algo do tipo, ele apenas queria aquele momento para ele e o motivo não era real. Thomas parecia maluco, até que Lucca o derrubou e socou o rosto dele, mas foi ai que houve uma reação de Thomas. Lucca parou de bater nele, pois ele só ria e mal se defendia. Lucca ficou olhando para ele sem entender a graça que ele estava achando, e então o sorriso do Thomas sumiu. Ele olhou para o Lucca com raiva, como se tivesse ficado bravo por ele ter parado de bater nele, e então, Thomas deu um soco no nariz do Lucca que caiu pra trás. Lucca se debateu de tanta dor, e um circulo de curiosos já estava formado para verem a luta. O rosto de Lucca estava todo ensanguentado por causa de seu nariz quebrado a poucos segundos. Thomas levanta e começa a chutar a barriga de Lucca que estava caído. Eu me levantei o mais rápido possível e fui tentar apartar a luta, mas Thomas era forte e me empurrou para longe novamente. Eu não podia entrar na briga para defender Lucca, pois isso poderia fazer com que eu fosse expulso dali também.

“Adam.”, pensei.

- Chame o Adam! – gritei correndo por um corredor, indo atrás de Adam. – Adam! Adam! – Ele não aparecia. Eu não o encontrava em lugar nenhum e ninguém ajudava a procurar por ele.

- Droga! – gritei pro nada. Eu ia ter que me meter na luta. Não podia abandonar o Lucca por muito mais tempo, tentei encontrar o cara que poderia ajudar mais rápido a acabar com essa briga, mas essa ideia não foi possível, então, vou partir pra agressão.

Corri por meio aos corredores que tinha ali no prédio, logo eu alcancei a briga de Lucca e Thomas, e quando eu ia chegar com a intenção de atacar primeiro, gritar depois, vi que o Adam já estava ali.

- Os dois – começou Adam gritando com eles – estão expulsos!

Lucca fica quieto e Thomas fica com as mãos na cabeça parecendo um louco.

- Ei Adam, calma! – falo para ele.


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- Quer ir junto também? – responde ele gritando comigo.
A vontade maior é dar um soco bem no meio do nariz para quebrar que nem o Thomas fez com o Lucca, mas ele é o líder do prédio, e eu quero o prédio para me refugiar dos perigos de lá de fora. Adam da às costas e segue seu caminho para – talvez – seu escritório. Ao invés de ir atrás dele para tentar convencer ele de que essa pode não ser uma boa ideia, eu vou falar com o Lucca.
- Ei cara, tudo bem ai? – pergunto mesmo sabendo que não esta nada bem. Não pelo fato do seu nariz estar quebrado, mas sim porque ele será expulso do prédio.
- Vio cómo ele ficou? – perguntou Lucca sorrindo.


- Vi sim. – respondi rindo junto com ele. Apesar de ter apanhado, Lucca só quebrou o nariz, assim que sai a procura de Adam por um lado, ele chegou pelo outro e parou a briga, então Thomas saiu na pior como deveria ter acontecido.


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Lavigne fez curativo no nariz do Lucca que reclamou um pouco de dor, porque ela teve de retirar o excesso de sangue e endireitar o nariz dele para ai então, fazer o curativo.
Jacob e Deanna estavam foram ficar com Lucca um pouco para distraí-lo. Conversaram sobre ele ter sido expulso do prédio, mas Lucca falou que não queria que eles fossem com ele.
- Não quero que vengas conmigo. – disse Lucca, falando um pouco em nossa língua. – Lá fora hay mucho peligro aquí dentro es seguro!
- Não los abandonaremos irmão! – falou Deanna contendo o choro.
- Deanna, tal vez seu irmão tiene razão. – comentou Jacob.
- ¿Cómo es eso? – perguntou Deanna fuzilando Jacob com os olhos. - Él es mi hermano, não vou abandonar ele! – Deanna se volta para o Lucca e diz. - Si quer ir, vá! Eu voy ficar com ele.
Jacob ficou um tanto sem graça, e se retirou do quarto. Eu fique de pé analisando tudo o que estava acontecendo ali. Deanna me olhava como se estivesse querendo me perguntar alguma coisa, e eu pensava em algo que eu pudesse fazer a respeito disso. Lavigne saiu em seguida do quarto e quando eu pensei em sair, ouvi uma conversa se iniciar entre Lucca e Deanna.
- Irmã, eu te amo! – diz Lucca sorrindo e acariciando o rosto de Deanna. - Mas será mejor que fique aqui com os demás.
- ¿Cómo? – pergunta Deanna sem entender.


- Não suportaria la idea de ver você morrer por causa de berrantes. – fala Lucca segurando o choro também, mas dessa vez, Deanna é quem não consegue segurar o choro.


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Eu vejo que os dois precisam ficar a sós, então resolvo sair do quarto também. Lucca está bem, seu nariz está correto de novo, Lavigne fez um ótimo trabalho. Só que o estado dele não é feliz porque esta saindo de um lugar onde para nós, pode representar o céu.
Enfim peguei o corredor e me deparei com a escada que dá acesso ao terraço. Nunca fui lá, e como à porta estava aberta, me deu uma curiosidade de conhecer o lugar. Ao subir as escadas e entrar pela porta, vejo que a noite esta muito bonita. A lua em seu perfeito lugar e brilhando como se não houvesse nada no céu além dela.
- Incrível! – sussurro para o nada.
- Estava pensando a mesma coisa.


Ou o nada criou voz, ou eu estava criando amigos imaginários. Mas esse pensamento parou assim que vi Lavigne encostada na grade que fica envolta do prédio.


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- Ah, você está aqui. – digo sorrindo.
- É, - disse Lavigne voltando os olhos para a lua. – como eles estão?
- Lucca está tranquilo até agora, – comento – o problema todo é a Deanna. Ela não quer deixar o irmão sozinho lá fora, e o Lucca não quer que ela saia daqui de dentro.
- Acha que ela vai ir? – pergunta Lavigne.
- Claro! – respondo com convicção. – Eu iria se fosse meu irmão.
- Eu também iria.
Quando ela disse que também iria, me surgiu uma quentura no peito, uma vontade deixar algo que eu não sei o que é sair, e por fim, saiu.


- Eu também iria se fosse com você. – comentei.



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Lavigne tirou seus olhos da lua e me olhou com as sobrancelhas erguidas e enfim sorriu pra mim. Seu sorriso começou apenas com os lábios esticados, mas depois abriu a boca e me mostrou um lindo sorriso, acompanhado de seus olhos que diziam muita coisa. Ela tapou a boca para não mostrar seu sorriso e voltou a olhar para a lua, que estava encantadora e eu, fiz o mesmo. Eu me debrucei na grade ao lado dela e ali, ficamos vendo uma das poucas coisas que os berrantes não poderiam tirar da gente. A lua.

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