RENEGADOS


CAPÍTULO 3


Um novo lar




Caminhei horas pela mata. A lua já pairava sobre minha visão, meu corpo cansado e ferido pediam para uma pausa a cada cinco minutos. Minha respiração ofegante, minha mente cansada. Meus pés doloridos de tanto correr e andar. Eu estava desesperado.
A mata me engolia cada vez mais. As árvores com suas folhas dançantes me davam um significado de vida, mas quando as mesmas caiam me lembravam da morte. Minha vista já estava embaçando, meu ouvido zunindo, minha perna cada vez mais dolorida. Eu estava perdendo muito sangue, morreria a qualquer momento de hemorragia.
- Marcos? – perguntou alguém próximo a mim. – Marcos! Graças a Deus eu te encontrei!
Era Lavigne, ela correu até a mim e me abraçou forte, só que um berro meu de dor foi o suficiente para que ela me largasse.
- O que houve Marcos? – perguntou ela e eu não consegui responder. – Venha, estou em um lugar que tem remédios e curativos.
- Os outros estão lá também? – pergunto meio ofegante e com a voz fraca.
- Não. – disse ela olhando para o chão enquanto me ajudava a caminhar até o tal lugar. – Eu me perdi deles. Fui tentar te ajudar e acabei sendo cercada, tive de correr para a direção contrária.
- É. Eu também. – falei enquanto tossia.
- Que bom que te encontrei Marcos.
- Obrigado... Cof! Cof! Por ter me encontrado.
Fomos caminhando em meio à escuridão pela mata, até que entramos em uma pequena vila, onde continham cinco casas. Apenas uma aparentava ter moradores, e era justamente para ela que fomos caminhando. Ao chegar lá, Lavigne me colocou em uma cama, e foi buscar remédios e curativos, ao voltar trouxe consigo três pessoas.
- Marcos, estes são Lucca, - era um rapaz alto, branco, cabelos claros e incríveis olhos azuis. – Jacob, - essa era um rapaz de tamanho normal, talvez um pouco mais baixo


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que eu, magro, cabelo um pouco grande e jogado de lado, também com cor clara e incríveis olhos azuis. – e Deanna. – também com os cabelos claros e lindos olhos azuis, era um pouco baixa e cheia de curvas.

- está bien? – perguntou Lucca, só não entendi muito bem o que ele quis dizer.

- Ah, antes que eu me esqueça. Eles são espanhóis. – comenta Lavigne.

- Espanhóis? – pergunto incrédulo.



Sim. O lugar no qual estou se chama Brasil. Não citei nada sobre isso ainda, pois não senti a necessidade já que o mundo todo se tornou um no final. Deixa-me explicar melhor. Aconteceu um tempo não muito distante, porém bem radical. O país foi dividido em três partes, podemos chama-los de distritos ou de divisão de classes. Os ricos ficam com a melhor parte, porém a menor do país. Os de classe média ocupam o maior território, e tem uma vida tranquila, mas sem ter o luxo de parar de trabalhar. A classe baixa e os que não têm classe ficam no Subúrbio como eu já havia dito. Morrem

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de fome mesmo trabalhando, alguns ainda tem sorte de ter um emprego bom que possam ter o que comer no dia a dia, só que você deve ainda estar se perguntando o porquê o país foi dividido.

Os militares fizeram uma limpeza na área onde a maioria dos assassinos, bandidos entre outros com má índole se encontravam. Todos eles se refugiaram em um canto do país depois dessa limpeza militar. As favelas foram exterminadas tendo apenas o tempo de algumas pessoas fugirem para algum lugar, e foi ai que o militarismo teve a ideia de criar esses locais, jogando agente em um canto do país que hoje é chamada de Subúrbio. O poder do país caiu na mão errada e hoje pagamos caro por isso.

- Eles estavam fazendo intercambio quando tudo isso começou e daí... – comentou Lavigne, mas logo eu a interrompi.

- Tudo bem, - sorrio enquanto termino de falar. – só que vocês estão chamando a atenção de quem está do lado de fora com as luzes acesas.

- Pois é, estamos tentando achar o local que desligue essas luzes, não há interruptores aqui. – explica Lavigne.

Enquanto isso, eu observava os espanhóis sempre se mexendo, fazendo qualquer coisa que pudesse ajudar a salvar a pele deles, enquanto eu não podia fazer exatamente nada impossibilitado em cima de uma cama.

- Tenho que me recuperar logo. – digo em um tom sério. – Não podemos perder tempo aqui, precisamos encontrar os outros e então continuar nosso caminho para a Alpina.

- Se acalma, - sugeriu Lavigne me deitando novamente. – deixe pelo menos amanhecer, afinal, tenho de cuidar dos seus ferimentos antes que volte a sangrar.

Ela tinha razão. Eu deveria me acalmar e esperar, mas naquele momento eu quis logo sair dali. Pena que fui sedado por Lavigne antes mesmo de tentar escapar daquela cama.

No dia seguinte, quando acordei, não havia ninguém no quarto comigo e eu já havia melhorado bastante. Estava só com a roupa debaixo e com dois cobertores em cima de mim. Meus machucados foram tampados e cuidados, eu parecia ter saído de dentro de uma banheira onde me lavaram muito bem porque eu estava bem limpo!

- Que horas são? – perguntei ao sair pela porta do quarto onde eu estava. O sol limpava o ar puro que rondava pela casa. Quente e abafado dava bem pra saber que era do lado de fora da casa que se encontrava este estado, mas ali dentro estava tudo calmo e fresco. Apenas Lavigne sentada no sofá e Lucca olhando pela janela estavam a minha vista.


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- Olá Marcos, - disse Lavigne se levantando enquanto olhava para mim. – parece estar bem de novo. – opinou dando um sorriso. Pela primeira vez eu o observei, seu sorriso era familiar. Amplo e bem aberto, bem parecido com o sorriso de Bia. Bia, que saudades dela.

- É já me sinto bem melhor. – Afirmei.

- Só tome cuidado com a coxa esquerda, - disse Lavigne enquanto se aproximava e tocava a parte onde eu deveria tomar cuidado.

Eu estava com um dos cobertores me cobrindo ainda, mas quando pus minha coxa direita para fora pude ver que o ferimento foi grave. Estavam com uns dezoito pontos no local.

- Como? – perguntei não acreditando, pois não havia sentido nada ali para que estivesse daquele jeito.

- Um caco de vidro perfurou bastante sua perna, e provavelmente se quebrou ai dentro, então eu tive de abrir mais ainda para poder tirar o vidro antes que infeccionasse. – explicou Lavigne.

- Atención! – disse Lucca da janela. - Al suelo! – ordenou Lucca.

Nós nos abaixamos, eu senti um pouco de dificuldade por conta do machucado. Lucca ficou aposto abaixado próximo a janela. Foram minutos de tensão, ouvimos passadas pela terra do lado de fora da casa, e em seguida passadas na frente da casa, só que havia um único problema.

- Estão muito rápidos para serem... – sussurrei para Lavigne. Ela deu de ombros e continuou abaixada, quando do nada o inesperado aconteceu.

No momento em que olhei para a porta, ela se abriu e em um berro um berrante entrou na casa. Ele era pálido, forte e alto. Tinha roupas rasgadas, porém parecia mais com algum uniforme. Ele olhou para a sua frente e depois olhou na direção do Lucca.

- Ei! – gritei para atrair a atenção dele e enquanto isso, Lucca cravava sua faca na cabeça do berrante gigante.

Ele rodopiou por um tempo, até que Lucca tirou a faca da cabeça do berrante e cravou novamente, mas desta vez no meio do crânio, enfiando toda a faca ali dentro do que talvez estivesse oco. Lucca largou o berrante e fechou por imediato à porta. Em meio a suspiros de alivio e um olhar apavorado, ele conseguiu dizer algo ainda.

- Tenemos que ir – disse Lucca nos aconselhando de que fosse melhor irmos embora.


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- Sim, devemos ir. – sussurrou Lavigne para nós aparentando um medo maior. Ela segurava minha mão com firmeza, e seu olhar era pro nada. Parecia estar alucinada com aquela cena, e talvez não estivesse pronta para ver outra daquela acontecer bem na sua frente.

Lucca deu uma leve espiada para fora, com esperança de que os outros estivessem chegando logo. E assim foi.

- Hermano! – gritava Deanna vindo correndo para a casa.

- Deanna! – respondeu em tom alto Lucca que se levantou e de prontidão, abriu a porta para que ela entrasse o mais rápido possível.

- ¿Estás bien? – pergunta Lucca que em seguida abraça ela, mas logo a solta e olha bem nos olhos, lançando a pergunta: - ¿Dónde está Jacob?

Ela por sorte, respondeu que ele estava vindo, mas que se fossemos pelo lugar que ela veio, encontraríamos com ele no caminho, e talvez, evitássemos que algo de errado acontecesse.

- Tome cuidado com a perna. – aconselha Lavigne me olhando com um jeito mais tranquilo.

- Tomarei. – falei me levantando e estendendo a mão para ela.

Todos de pé, Lucca foi a um cômodo onde eu não havia entrado, e saiu de lá com algumas armas. Eu fiquei surpreso no início, mas logo vi que era mais do que necessário termos armas em mãos. Ele da uma pistola a cada um, e fica com uma escopeta pra si mesmo. Antes de sairmos, ele nos lança um olhar e diz que atirar é o que nós não queremos, pois com o barulho do tiro estaremos chamando os berrantes para nos devorarem.

Antes de sair eu voltei ao quarto e revistei o armário que ali tinha. Peguei uma roupa nova e vesti. Era algo simples, uma camisa cinza escuro sem estampa alguma, e uma calça jeans também escuro. Calcei o primeiro calçado que vi ali e voltei para a sala onde todos estavam juntos. Foram rápido, já estavam com mochilas e equipados, eu coloquei minha nova arma na cintura e saímos da casa.

Os primeiros minutos ali fora foram calmos, nada de berrante, apenas uma caminhada até o tão esperado encontro com Jacob e meu grupo. Na verdade eu já estava perdendo a noção do tempo e não sabia mais quando dias eu estava sem eles. Eu ficava me perguntando todos os dias se eles estavam me procurando ou se estavam partindo.

Devíamos estar em um bom lugar do Subúrbio, pois ficamos surpresos ao ver algumas pessoas caminhando pela rua. Parecia que nada havia acontecido, parecia que


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estávamos acordando de um pesadelo. Perguntamos a um homem se já sabiam do que estava acontecendo e ele simplesmente riu.

- É claro que sabemos, - disse ele. – só que nesse horário fazemos o que temos de fazer o mais rápido possível, para ai então, entrarmos em nossas casas e nos preocupar com o que está acontecendo aqui fora.

Mesmo estando todos cansados, resolvemos continuar andando, pois não confiávamos que aquele lugar era seguro. Havia apenas seis casas, uma de frente para a outra. Não mostrava o lugar seguro que poderíamos pensar em parar para descansar. Continuamos a nossa caminhada e ao meu lado ficou Lucca. Ele era bem bacana apesar de ser espanhol, conseguimos criar uma base de conversa interessante. Ele me contou algumas das coisas que fazia no seu país, mas quando eu perguntei o porquê ele estava aqui, ele cortou logo o assunto. Disse que Deanna era sua irmã e que Jacob era um amigo deles de infância.

- Ella es su novia? – perguntou Lucca apontando para Lavigne.

- Não, não! – respondi instantaneamente. – Ela é só uma amiga minha. – comentei enquanto ele ria.

- Se puso nervioso cuando le pregunté si ella era su novia – falou Lucca rindo mais ainda.



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- Ah! – disse sorrindo.
Era um tanto engraçado conversar com Lucca, afinal, eu conseguia entende-lo bem e vira e mexe ele e os outros tentavam falar como nós, deixando seu idioma de lado. Deveria ser pouco mais de duas horas e ainda estávamos caminhando. Agora, ao meu lado estava Lavigne. Ela me abraçou de lado e foi andando comigo assim uma boa parte do percurso. Acho que eu sou a única pessoa que ela tem pra confiar cem por cento, mas Lucca acha que isso é algo de “compañera” como diz ele.
- Sinto falta dos outros. – comentou Lavigne.
- Eu também. – digo. – O senhor Josias precisa da gente. Precisa mais de você do que de mim na verdade. Eu ter me perdido não fará diferença, mas de você eles precisam.


- Não fale assim, - diz Lavigne me soltando. – você é tão importante quanto a mim.


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Eu não a questionei, mas eu sei que não sou nada comparado a ela. Querendo ou não, bem ou mal, ela entende um pouco de medicina e isso faz com que seja muito importante no grupo.
- ¡Hola – comentou Jacob em um tom surpreso.
Quando olhei para onde ele estava fixando seu olhar eu também me surpreendi. Um prédio com mais ou menos nove andares, bem estruturado e com uma cerca enorme ao seu redor. Avistamos mais ou menos dez berrantes se segurando na cerca, tentando abri-la de uma forma impossível. Puxamos nossas armas e apontamos para eles.
- SE ATIRAREM, MATAMOS VOCÊS! – berrou alguém de dentro da cerca.
Guardei minha arma e levantei minhas mãos. Lucca e Jacob fizeram o mesmo, as meninas não estavam com suas armas expostas então não houve problema algum nisso, no entanto não sabíamos ainda quem estava nos ameaçando de morte.
- NÃO QUEREMOS MACHUCAR NINGUÉM! – berrei de volta. – ESTAMOS APENAS PROCURANDO ABRIGO, NADA MAIS!
Em seguida, consegui ver a porta do prédio se abrir e um homem com um fuzil sair lá de dentro. Sua cintura estava coberta por facas e alicates enorme, nada muito estranho, só o bastante para nos colocar muito medo.
- Meu nome é Adam e não precisam ficar com medo, mas não tenho motivo algum em deixar vocês entrarem.
- Não? – pergunto abismado. – Já olhou a sua volta?
- São poucos, da pra se virar. – respondeu dando as costas e voltando para o prédio.


BANG!


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Antes que ele pudesse entrar, eu atirei na cabeça de um dos berrantes que ali estavam. O barulho foi um tanto alto e fez o trabalho que eu queria que fizesse. Lucca, Jacob, Deanna e Lavigne me olharam assustados. Os berrantes mais próximos começaram a caminhar na nossa direção em seus passos pesados e rastejantes. Adam continuou de costas, mas com os punhos cerrados e eu, tranquilo e com falta de juízo.
BANG! BANG!
Dei dois tiros em outro berrante. Um eu errei e o outro eu acertei. Adam se virou para mim com cara de furioso, se aproximou da cerca e olhou fixamente nos meus olhos, esperando que eu atirasse de novo.
BANG! BANG! BANG! BANG! BANG!
Cinco tiros, e dois berrantes acertados. Só ai Adam falou algo.


- O que você quer com isso? – falou apontando seu fuzil na minha direção.


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- Ser um motivo para entrar. – respondi.
- Se matando?
- Não, atraindo mais para a cerca. Ela é grande e forte, mas eles juntos, são muitos mais que isso e se eu continuar atirando, mais deles irão vir e vocês vão precisar de muito mais de nos para conter os berrantes. – respondi em um tom ameaçador.
- E se eu não deixar vocês entrarem, simplesmente irão virar a comida deles.
- São poucos por enquanto, da pra me virar. O problema é depois, quando eles alcançarem esse lugar. Eu não estarei mais aqui, só que você e seus parceiros lá dentro não vão abandonar esse lugar... Ou vão? – perguntei.
Adam ficou em silencio, outros dois berrantes estavam ficando próximo o bastante para entrarmos em alerta de perigo e atirar na cabeça deles, mas felizmente não precisamos. Os berrantes caíram com uma flecha na cabeça cada um, e Adam lançou um sorriso para mim.
- Não queremos briga... – abaixei meu tom e deixei que ele percebesse que somos nós quem está precisando dele. – Apenas queremos um lugar para enfim descansar.
- Comovente. – disse Adam. – Entrem! – falou abrindo o portão da cerca.


Estávamos a salvos, pelo menos por enquanto.


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