CAPÍTULO 12


MORTE




Não sei quanto tempo os fantasmas iriam persistir, não sei quando tempo eu iria resistir, mas minhas forças já não eram totalmente maiores do que eles tinham, disso eu tinha certeza. Minha vida acabaria a qualquer momento, era só fechar os olhos e dizer “estou morta”. Eles estariam à postos, para me levar ao inferno.


Dois dias depois, Melanie acordou, e sorriu ao ver Mike ao lado da cama onde estava.
- Até que enfim. Pensei que não voltaria tão rápido.
- Sou forte, lembra? – ela sorriu. – Nada me derruba.
Eles se beijaram. Ela estava muito bem, recuperada do ataque que teve na noite que chegou à casa de Rodolfo. O remédio pareceu fazer um ótimo efeito, porque estava com muita disposição e livre de qualquer dor.
O calendário na cozinha anunciava o dia 18 de agosto. Faltavam poucos dias para o aniversário de Melanie, mas resolveu que iria deixar passar em silêncio. Não queria festas, apenas seria um dia como os outros. Qualquer comemoração agora faria com que ela se sentisse menos à vontade. Ainda precisava se desculpar com Rodolfo, por ter dado preocupação a ele nesses dois dias.
O café da manhã estava servido quando chegaram à cozinha. Rodolfo havia saído, e deixado um bilhete em cima da mesa com os dizeres:
Precisei dar uma saída, voltarei daqui um dia. Qualquer coisa que precisarem, é só seguir as instruções que deixarei logo abaixo. Divirtam-se.
Rodolfo
- Ele é louco? – Melanie sentou-se ao lado de Mike.
- Por quê?

- Sair para ficar fora e deixar eu e você aqui, e se formos dois assaltantes? Não cairia bem ele ser tão bom enquanto a gente rouba tudo o que tem de comida e bebida e sairmos como se nada tivesse acontecido.


- É por isso mesmo. – Mike sorriu. – Ele confia em nós dois, por isso está sendo tão generoso. Vai por mim, o Rodolfo é daquelas pessoas que se apegam fácil a outras.


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- Deu para perceber. – disse ela, relembrando o olhar interessado e o sorriso que ele dera quando a cumprimentou.
Após comerem e lavarem as louças, eles foram para o quarto. Mike tirou a camisa e deitou-se na cama, enquanto Melanie sentou ao lado dele. Ela ficou um tempo olhando para o chão, o que fez Mike perguntar:
- O que está pensando?
- Nada... – ela balançou os ombros.
- Alguma coisa está preocupando você, não está?
Melanie olhou para ele, os olhos marejados de lágrimas. Mike aproximou-se e deitou-a na cama, colocando seu braço embaixo da cabeça dela.
- O que está acontecendo com você? Tem certeza que está se sentindo segura comigo?
- Estou, Mike, é bom estar com você, mas às vezes penso que talvez não mereço toda essa felicidade, esse amor... Fico me julgando muito, e acho que não nasci para ser uma pessoa com uma vida tranquila. Durante esse tempo todo, imaginei um futuro em que havia eu e você, mas aí me vinha um ponto de interrogação, porque nem eu sei o quanto quero que meu futuro seja. Não sei se ele será bom, ou mal.
- Por que esse pensamento? Se está feliz comigo, não deveria pensar nessas coisas. O nosso futuro será muito bom, penso em construir uma família com você, ter filhos... – ele passou a mãos nos cabelos dela. – Não entende o quanto amo você, Melanie?
Ela não respondeu. Queria ser sincera com Mike, dizer que não adiantaria em nada continuar algo que sabia que mais cedo ou mais tarde terminaria. Por mais que quisesse ficar o resto da sua vida com ele, não podia, porque ele não sabia o que ela estava passando, os constantes episódios de tormento que vinha tendo. Se soubesse, iria querer se intrometer, e ela não iria suportar isso.
- O que sou para você, realmente? – Mike olhou-a fixamente. Se fosse para acabar, que fosse ali mesmo. Amava-a incontrolavelmente, não poderia viver sem ela, mas se não podiam ficar juntos, não iria insistir.
Ambos ficaram em silêncio, o peso da pergunta se dissolvendo no ar. Melanie, então, respondeu, em voz baixa:
- Você é a minha fraqueza, Mike.

Aquelas palavras o deixaram com a absoluta certeza de que ela o amava verdadeiramente. No fundo já esperava por essa resposta.


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À tarde, eles saíram da casa para conhecerem os arredores. Ficaram surpresos em encontrar um riacho na parte superior do precipício, e resolveram entrar nele, para se refrescarem.
Ficaram a maior parte do dia lá, até que o sol começou a se esconder, para dar lugar ao anoitecer. Voltaram para a casa, tomaram banho, e se arrumaram para o jantar. Enquanto esperava a comida esquentar, Mike chamou Melanie para sentar-se no tapete da sala, diante de uma lareira. Ele abraçou-a e disse:
- Você merece saber de umas coisas que não pude dizer assim que nos conhecemos. Coisas que para construir um relacionamento, precisam necessariamente serem ditas, mas não tive coragem e tranquilidade para lhe contar.
- É sobre o que você fez para ser internado? – arriscou ela.
- O que pensaram que eu estava fazendo. – corrigiu ele, afirmando com a cabeça. – Acho que não posso mais esconder de você, mas quero que fique só entre nós dois.





- É claro, não vou contar para mais ninguém.
Mike se preparou para contar, um pouco mais calmo e menos hesitante do que nas várias vezes que lhe foi perguntado sobre esse assunto.
- Minha irmã, Amanda, tinha um namorado chamado Jefferson. Ele era usuário de drogas, mas ela não sabia disso, achava que ele fosse perfeito só porque uma amiga dela apresentou-o a ela. Quando ela soube, a primeira pessoa da família para quem contou isso fui eu, e dei conselhos para ela, disse para terminar com ele, que o namoro não iria durar, mas ela não me ouviu, quer dizer, ouviu só de momento, depois continuou com ele às escondidas. O que eu não sabia, também, era que ele, nos dias em que estava sob o efeito das drogas, participava de rachas com os amigos, e num dia, convidou a Amanda para assistir. A minha irmã é muito irresponsável, e acabou entrando no carro. Nesse dia, o Jefferson perdeu o controle do carro, bateu em um poste e o vidro da frente quebrou, e uma lasca daquele vidro perfurou o pescoço da Amanda. Foi morte instantânea.

Melanie franziu as sobrancelhas. Vendo Mike agora, jamais imaginava que ele teria uma irmã irresponsável o bastante para se envolver com rachas com um namorado drogado.
- Meus pais prepararam o enterro, o Jefferson foi preso, e eu entrei em estado de choque. Amanda era a minha única irmã, e com a morte dela, sabia que meus pais iriam de alguma forma me culpar, querendo exigir demais de mim. Mas, no velório, quando me aproximei do caixão aberto, de repente vi o espírito da Amanda saindo do corpo dela. Naquele instante, fiquei um pouco assustado, é claro, pensei que ela estivesse morta, mas o espírito ainda estava lá, mesmo depois do acidente. Não havia ninguém ali


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que pudesse ver o que estava acontecendo, estava chegando a hora do enterro. Quando me virei para sair dali, minha irmã falou comigo.
            - Mike, ajude-me. Sei que fui irresponsável para não confiar em você, mas me arrependi, e não quero deixar tristeza e mágoas para vocês. Prometo dar mais valor à minha vida, se você me ajudar a voltar.
            - Espere um pouco. – Melanie tentava entender aquela história. – Sua irmã, que estava morta, repentinamente despertou como espírito e pediu a sua ajuda, para voltar a viver?
           - Exatamente. Parece loucura, mas não é, se você estivesse lá, talvez visse o quanto era fantástico e ao mesmo tempo impossível. Mas a Amanda estava decidida mesmo a voltar.
           

Amanda estendeu a mão para Mike, que hesitou. Ela estava no corpo espiritual, como iria poder segurar a mão dela? Obviamente iria atravessá-la.

Quando aproximou-se e estendeu a mão para a dela, sentiu um leve arrepio. Inesperadamente, pôde sentir os dedos se fechando nos seus, e sua cabeça começou a girar, ele estava sendo puxado por algo, e por um momento resistiu para aquilo parar, fechando os olhos.

Ao abrir novamente os olhos, assustou-se. Estava parado numa avenida, e não havia ninguém ali para ele perguntar o que estava acontecendo. De repente, ouviu várias pessoas rindo e gritando.

- Isso, acaba com ele!

- Faça o melhor que pode, conto com você!

- Vamos lá!

E o ronco de motores de automóveis fez com que ele olhasse um lado ao outro da avenida, procurando a origem do ruído.

No segundo depois, dois carros passaram velozes por ele, e de relance, viu Amanda num dos carros, com a cabeça para fora da janela.

Só então entendeu o que deveria fazer. Correu atrás dos carros, a tempo de ver um deles batendo num poste, e gritou, ofegante:

- AMANDA, SAIA DO CARRO!

Parou ao lado da porta em que a irmã estava, e abriu-a rapidamente, tirando o corpo inerte de lá.

- Vai ficar tudo bem, calma. – sussurrou, o coração disparado.



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            E numa fração de segundo depois, o vidro da frente do carro quebrou, atingindo em cheio o banco em que Amanda estava anteriormente.
            - Quando voltei para onde estava acontecendo o velório, tudo tinha mudado, minha irmã estava viva, na minha frente, e para a minha surpresa, o Richard também estava lá.
            - Richard? 

O que é que ele foi fazer no velório da sua irmã? Vocês se conheciam antes de você ser internado?

- Ele era um velho amigo do meu pai. – respondeu Mike, sentindo nojo de cada palavra que dizia. Nunca gostou de Richard, porque ele sempre cobiçava o dinheiro que o pai tinha. – E quando viu a minha irmã viva e eu falando para ela que deu tudo certo, na mesma hora saiu para contar para quem quisesse que eu estivesse louco. Por mais que vissem a Amanda viva, meus pais também não acreditaram sequer numa palavra minha, me mandaram para a clínica no mesmo dia, em companhia daquele desgraçado.

- Por isso que ele afirmava que você era descontrolado e todas aquelas coisas... – Melanie compreendeu. – Assistiu e foi o principal responsável por você ter sido internado, que medíocre...

- É, eu sabia que ele não prestava mesmo. Me fez perder dois anos da minha vida naquele lugar infernal, sem ter notícias dos meus pais e da Amanda. Mas, como você mesma viu uma vez, eu o chamei de descontrolado também, o que ele procurava esconder de todos, até do diretor. Tudo aconteceu numa das primeiras noites que eu estava lá, e resolvi andar um pouco, na época em que comecei a desenhar o mapa. O Richard estava na biblioteca, e assim que entrei lá, flagrei-o falando sozinho, no fim de uma conversa imaginária.


            - Farei o que for necessário para compensar o meu erro, juro. Não sou fraco para desistir, e estou fazendo um acordo com você que vai durar por muito tempo.
          
- No dia seguinte, dei umas indiretas nele, e ele pediu para que eu não contasse a ninguém, mas retruquei, dizendo para ele me deixar em paz, e assim foi, até que conheci você. Não sei por que de repente cismou comigo, ele e o diretor.

Melanie ficou alguns minutos em silêncio, absorvendo as revelações de Mike. O passado dele era tão ou chegava próximo do dela, intenso. Desconfianças, traições, perdas... Tudo isso dividiram, de certa forma. A única coisa que os diferenciava era que ela não tinha uma irmã. Aliás, seu passado obscuro foi afetado por esse fato também. O buraco que havia em seu peito, aberto há dez anos, jamais seria fechado, a não ser que tivesse um futuro e uma esperança de que nunca mais iria ter sofrimentos.

Ao fim da conversa, ambos foram para a cozinha, onde jantaram em silêncio, trocando olhares vez ou outra.



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Depois da refeição, voltaram à sala, e ele a obrigou a jogar uma partida de xadrez. Sem saída, ela aceitou. Durante a hora seguinte, jogaram animadamente, com duas vitórias dele e uma vitória dela.

Às nove da noite, deitados na cama, despiram-se e fizeram sexo. Melanie sentiu o prazer sendo levado para as veias de seu corpo, à medida que eles se movimentavam lentamente. O duplo orgasmo demorou apenas meia hora para acontecer, e quando terminaram, estavam exaustos, e logo dormiram.

… … …

Melanie acordou repentinamente, quatro horas depois. Mike estava virado de costas para ela, ainda dormindo.

Ela sentou-se na cama, passou as mãos no rosto e olhou pela janela a lua crescente e as estrelas no céu. Levantou-se devagar, tomando cuidado para não acordar Mike, e foi até a mochila que estava enroscada em um prego na parede. Tirou de lá a roupa preta que lavara naquele dia, vestiu-a e calçou a bota.

Saiu do quarto, agradecendo a si mesma por ter deixado a porta encostada, e atravessou a sala, passou pela cozinha e hesitou com as mãos na maçaneta da porta.

           O que você está fazendo? É madrugada ainda, volte a dormir!, disse uma voz interior, mas a ignorou. Seu desejo era de sair da casa, e assim fez.

Ao pisar na areia do deserto, Melanie sentiu como se estivesse andando em um tipo de objeto maciço, pois o salto da bota chegava a afundar, quase a prendendo ali. Os seis passos que deu lentamente, a levaram para a beira do precipício.

Ela estava lá, de alguma forma. Seu corpo lhe dizia que finalmente iria se livrar de tudo e de todos. A brisa suave do vento tocou-lhe os cabelos, uma sensação de estar só a envolveu, e sua respiração foi se tornando mais calma. Não havia ninguém ali, ela poderia fazer o que queria e ninguém iria presenciar, apenas a encontrariam no dia seguinte ou nunca, o que preferia.

Por que escolheu estar ali, à beira de um precipício, sozinha, e com a certeza de que morrer seria de fato a solução de tudo o que a atormentava? Sinceramente nunca conseguiu entender porque nascera, e consequentemente tomar aquela decisão que colocaria fim na sua essência de viver. Estar à beira de um precipício era muito melhor do que segurar um revólver e estar com o dedo no gatilho. Não iria doer, não ia sofrer. A morte seria rápida e indolor.

Por um momento, vieram-lhe lembranças de quando era criança, mimada pelos pais. A inocência sempre fora sua principal razão para ser uma boa pessoa, e ser amada. Nunca reclamara disso, afinal, tinha consciência de que lhe fazia bem o simples fato de ter sido uma filha maravilhosa.



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           Melanie balançou a cabeça, afastando os pensamentos do passado. Nada a faria desistir, iria até o fim, já que estava ali. Levantou a cabeça e observou as estrelas no céu. Um sorriso apareceu em seus lábios, como se estivesse segura do que estava prestes a fazer. Mas na verdade não estava.
           Desista enquanto é tempo, disse a insistente voz interior. Não se deixe levar pelos pensamentos negativos. 
Mas será que se desistisse, sua vida mudaria? Haveria uma saída melhor?

Tentou virar para trás e andar para longe do precipício, mas seus pés não obedeceram. Talvez já estivesse pré-determinado que sua vida acabasse naquele lugar, isolado de qualquer pessoa ou animal. Como sempre foi, desde que completou dez anos de idade.

Não havia tempo a perder, se fosse para acontecer seria agora. Fechou os olhos, deu um passo para a frente e sentiu o corpo hesitar no momento mais crucial. Depois, concentrou-se em tudo o que queria fazer, e o bloqueio sumiu, fazendo assim com que mergulhasse no precipício, de encontro com a morte.

Quando seu corpo bateu com estrépito nas pedras e caiu lá embaixo, dois espectros a observaram de onde ela estava antes, enfim satisfeitos com o poder que haviam tido para persuadi-la mentalmente. E desapareceram no minuto seguinte.

… … …

Mike virou-se para o outro lado da cama, e passou a mão no lugar onde Melanie estaria. Ao perceber que ela não estava lá, acordou imediatamente.

- Melanie? – perguntou, a voz assustada.

Um corvo gritou em algum lugar por ali, fazendo seu coração disparar. Levantou-se, colocou a roupa e correu para a porta, que estava aberta. Melanie saiu da casa, pensou, saindo para a madrugada fria.




- Melanie? – chamou, olhando para um lado a outro do deserto. Não havia ninguém por perto. – Melanie, onde você está?

Como se respondessem ao seu chamado, mais corvos anunciaram suas presenças. Seus olhos observaram o precipício mais à frente. Eles estavam lá... Mas que diabos estariam fazendo? Andou pela areia, os pés descalços, e ao alcançar a beira do precipício e ver o corpo de Melanie imóvel ao fundo, gritou desesperado. Com a rápida agilidade, escalou as pedras e chegou onde o corpo estava. Abraçou a amada, dizendo:

- Melanie, você não pode estar morta, por favor, fale comigo... Por que decidiu fazer isso sem conversar comigo antes? Por favor, acorde... – Mas era tarde demais. Ela estava morta, e não havia nada que pudesse fazer, não agora. Com as lágrimas escorrendo pelo rosto, olhou para cima, onde uma escuridão escondia a lua e as estrelas, e de repente, perdeu a consciência, caindo ao lado do corpo de Melanie.





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Final da primeira temporada.








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