RENEGADOS


CAPÍTULO 2


A despedida de um grande amigo




- Acorda Marcos, - Disse alguém que eu ainda não sabia decifrar quem pela voz, creio que por causa do sono. – fomos cercados, faça silêncio! – Terminou de dizer em sussurro.

Tentei não me assustar e nem olhar para tudo conte canto para saber quantos berrantes havia nos cercado. Todos atrás de algumas árvores, caminhando lentamente para longe daquele local. Eu ainda não tinha visto nenhum berrante, mas me preocupei em seguir o Benício, que foi quem me acordou.

- Para! – Disse me parando atrás de uma árvore. Enquanto isso, um berrante passou a uns dez metros de distancia, mas vindo para cima da gente. Deveria ser o nosso cheiro. Não era certo, mas eu acredito que eles sabem onde tem humano pelo cheiro. Na verdade, sabem onde tem carne fresca. Ele continuava a se aproximar, lentamente e procurando pelo ar o nosso rastro. Benício era um pouco gordo, o que atrapalharia se ele chegasse muito perto. Senhor Josias estava a uns vinte metros a minha direita, enquanto o berrante vinha pela minha frente. Karen estava junto com seu pai, e ele nos olhava com pena. Parecia que estava com medo de se despedir da gente, e parecia que queria fazer alguma coisa para ajudar, mas nada poderia fazer.

Eu me agachei lentamente e peguei uma pedra. Olhei para o berrante que deveria estar a uns sete metros da gente e cada vez ia aumentando sua velocidade mediante a sua certeza de que teria algo para ele ali. Parei e respirei. Olhei e observei. Ele olhou pisou em um galho que fez um estalo, olhou para o chão e então essa foi a brecha que eu precisava. Lancei uma pedra em um tronco próximo a ele, e por pouco eu consegui acerta-lo. Quando a pedra se chocou com o tronco, fez-se um barulho. O berrante parou de olhar para o chão e parou de andar, em seguida olhou para onde vinha o barulho e então começou a andar na direção contraria.

- É agora, corre! – Falei para o Benício que começou a correr. Eu não corri, continuei ali para dar cobertura caso algo desse errado. Benício em seus passos pesados fez diversos barulhos. Estava tão desesperado que nem parecia se preocupar com isto. O berrante era um tanto burro, mas foi despertado pelos barulhos de Benício. Pior ainda foi quando ele viu Benício correndo. Começou a andar depressa, parecia ganhar mais velocidade a cada passo. Passou por mim e não me percebeu, estava focado em

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Benício e sua fuga. Os outros já não estavam mais ali, na verdade eu nem sabia onde estavam mais. Afinal, eu estava dormindo.

Benício ganhou mais velocidade e começou a sumir da minha vista. O berrante ia seguindo o caminho de Benício, mas lentamente e não traria problema para ninguém. Agora era a minha vez. Eu deveria pegar ele por trás e acerta-lo na cabeça.

Grungh!

Esse barulho surgiu de trás de mim. A tremedeira já estava em seu efeito, o meu coração precisava de uma mãozinha para não sair pela boca. Só deu tempo de eu me tacar para frente e me virar para ai então, enfrentar o bicho, mas... Com que arma?

- Merda! – Falei enquanto o berrante quase me tocava. Olhei para o chão e avistei uma pedra grande. Parecia-me bem dura então a vi como uma única e grande opção. Eu a peguei e acertei a cabeça do berrante, e em seguida ele caiu no chão, e eu em meio a desespero e medo de toca-lo, comecei a pisar em sua cabeça, até que seu crânio despedaçado me fez acreditar que ele estava definitivamente, morto.

- Uffa! – Pensei alto. Só que esse, ainda não era nem a metade dos meus problemas.

Um, dois, três, dez, doze, dezoito, vinte e três, vinte e cinco, trinta. Trinta berrantes estavam caminhando em minha direção, e todos saíram de onde o primeiro havia saído. Merda! Eu estava encrencado. Comecei então a minha corrida contra o tempo. Eu precisava me afastar deles, só que a minha frente apareciam mais, passei por uns seis berrantes em meio a uma corrida alucinante e só parei quando avistei uma casa. Bem, não era uma casa, mas era um pouco melhor que um barraco. Afinal, ainda estávamos no Subúrbio onde era comum por demais existir barracos. Entrei no barraco e rapidamente me encostei bem na porta daquele barraco para impedir que os berrantes entrassem por ali, o que infelizmente não daria muito jeito na situação.

Eu estava sozinho e desesperado. O barraco escuro e os berrantes batendo nele, quase o quebrando. Eles entrariam ali a qualquer momento, sem duvidas, e eu seria comida deles, a não ser que eu desse um jeito de sair dali depressa.

Dez minutos se passaram e então estava começando a ficar de tardinha e só pude saber disso, por causa do sol que já estava baixo e entrou uns feixes de luz no barraco. O barraco afinal estava cheio de buracos e pareciam buracos feitos por balas. Parecia que este lugar havia sido vítima de tiros. E muito tiro!

- Por que entrou aqui? – Perguntou alguém que eu não sabia, mas estava ali comigo.

- Quem é? – Perguntei assustado.




- Não interessa, você é quem me deve resposta aqui seu moleque! – Disse berrando comigo quem quer que seja que estivesse ali.


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- Se você quer realmente nos matar, pode continuar gritando. – Falei em tom baixo. Ele não me respondeu. Ficamos em silencio por quase quinze minutos, e os berrantes pareciam estar desistindo de entrar ali.

- Sua sorte é que estou impossibilitado de andar, se não, você já estaria fora da minha casa. – Falou o homem que eu ainda não sabia quem era.

- Continua quieto que é melhor. – Disse.

Passaram-se horas e o silêncio reinou ali. Eu olhava pelos buracos do barraco se dava para sair, mas os berrantes apesar de terem desistido do lugar, continuavam ali, alguns caídos, outros zanzando, mas nada de deixarem passagem livre para eu sair dali.

Aquele silêncio já estava me dando nos nervos, e ficar ali quieto, me deixava com sono. Tentei porque tentei ficar acordado, mas esse não foi o meu caso. Eu dormi e parecia ter sido por horas. Quando eu acordei, estava muito disposto, animado e pronto para uns meses de insônia. A luz encontrou aquele lugar pela primeira vez, e pela primeira vez eu vi uma janela naquele barraco.

- Puxa um barraco tendo uma janela. Interessante. – Comentei tentando puxar assunto com o homem que era dono do barraco.

- E o que isso tem haver contigo? – Perguntou ele grosseiramente.

- Nada. – Falei. – Só quis comentar sobre isso. Foi tipo um elogio.

 


Ele não disse mais nada, até que a luz foi correndo pela casa junto com o tempo, e então, ela se encontrou com o tal homem do barraco. Ele usava um boné todo preto e tinha uma barba bem grande. Seu rosto era de uma pessoa ruim, e seus olhos me davam arrepios. Observei que ele tinha um problema e que talvez, estivesse cheio de fome, sede, dor e talvez até essa fosse à causa de seu mal humor.

- Quem te fez isso? – Perguntei olhando para a mão dele que estava algemada junto à cama.

- E importa?

- Vamos... Não te fiz nada, não custa nada deixar esse mau humor de lado. – Falei e ele não me respondeu. Não adiantou de nada. – Qual o seu nome?

- Não percebeu que eu não quero papo? – Disse ele em um tom alto, que até me preocupou e me fez olhar pelos buracos para saber se algum berrante ouviu.



- Eu te ajudo a sair daí se me disser seu nome. – Propus. Ele me olhou e virou de costas para mim, como se aquilo não importasse mais.

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Passaram-se algumas horas, a luz do sol iluminava por pouco tempo aquele barraco no meio da mata e nesse momento, eu já havia voltado para dentro da escuridão e com um homem muito mal humorado para alegrar meu dia.

- Esses bichos não vão sair daqui não é? – Penso alto. Ouço o homem se mexer em sua cama e já peço desculpas, pois não queria incomoda-lo. Horas depois ele tosse e em seguida diz:

- Meu nome é Jonas... Agora me tire daqui. – Disse ele se sentando na cama e olhando por um buraco que tinha próximo a ele.

Eu me levantei e fui apalpando o chão para ver se eu encontrava a chave das algemas, ou algo que me ajudasse a tirar ele dali. Não estava encontrando nada, talvez pela escuridão ou não estivesse ali, mas eu tinha que ajuda-lo a sair dali. Não era seguro ficar preso em um barraco rodeado de berrantes.

- A chave esta ali fora. – Disse Jonas.

- Haha, que azarado você hein! – Falei rindo. Ele não sorriu, riu ou nada. Apenas me olhou com uma cara de “Você vai fazer o que disse que ia fazer.”. – Ok. – Falei engolindo seco. – Onde estão as chaves exatamente?

- Ali. – Disse ele olhando pelo buraco. Fui até onde ele estava e pude ver as chaves. No bolso de um policial... Morto!

- Agora a coisa ficou interessante.

- Anda logo, aproveita que eles não estão tão próximos. Se for rápido, você consegue sem nenhum problema.

- Só um minuto. – Falei enquanto eu ia olhando alguns buracos feitos por balas que estavam na parede. Olhei para fora e fiquei analisando por onde eu iria passar. Dois berrantes a pouco mais de cinco metros na frente da porta, três em um canto do lado direito do barraco, e cinco do lado esquerdo. Atrás eu não teria como ver, porque a única parede que não levou tiro foi a da parte de trás da casa. Olhei de novo para o policial morto, ele estava com as chaves no bolso do peito, quase caindo no chão. Seria fácil. Mas como eu não sabia o que me esperava ali atrás da casa, eu teria que arranjar algo para me precaver antes de sair.

- A arma. – Disse enquanto olhava a arma que estava agarrada na cintura do policial. Seria bem simples. Eu pegava primeiro a arma e depois a chave, o que viesse me atacar, levava bala e eu corria para dentro do barraco, sem muitos problemas. – Já volto.

- Boa sorte. – Disse Jonas. E pelo jeito irritante dele, eu não esperava que ele me desejasse sorte.

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Parei de frente para a porta antes de sair. Eu me lembrei de quando tentei salvar a Bia mesmo sabendo que ela já seria salva, também me lembrei de quando os berrantes quase me pegaram. Aquilo surtia como um trauma, mas se fosse, eu não poderia ter o luxo de tê-lo, eu tenho que conseguir aquelas chaves e salvar pelo menos alguém antes de ser morto por um berrante.

Abri a porta e me agachei os dois berrantes que estavam ali de frente para mim, não me notaram de pressa, então eu fui para trás de uma caixa d’água. Se eles me viram, acharam que não viram ou simplesmente desistiram. Os outros três que estavam do lado direito do barraco, já estavam na minha vista, só que por sorte, eles estavam de costas. O policial caído estava uns três metros de mim. Fui caminhando sorrateiramente até ele sem problemas. Peguei as chaves e coloquei no bolso e então, puxei a arma só que ela estava agarrada, para conseguir tirar, eu teria de virar o policial de costas. Olhei pra frente e os berrantes continuavam de costas para mim, olhei para o meu lado esquerdo e não havia problemas, até que então, virei para o meu lado direito, onde ficava a parte de trás do barraco e avistei um berrante caminhando para a minha direção.

- Problemas. – Pensei alto, e então, virei o policial para pegar sua arma, olhei de novo para o berrante e ele estava a uns quatro metros de mim e com uma velocidade maior, peguei a arma e apontei para ele, mirei bem, respirei fundo e dobrei os cotovelos e atirei.

CLEK! CLEK!

- MERDA! – Gritei em desespero. A arma estava sem balas e o berrante a quase um metro de mim.

- O porrete do lado dele! – Gritou Jonas pelo buraco do barraco.

Eu me ajoelhei e peguei o porrete enquanto o berrante já estava quase caindo em cima de mim. Por sorte consegui empurrar ele para trás, mas ele não caiu, o que não melhorou minha situação, já que os outros berrantes mais próximos começaram a notar a minha presença.

SPAH! SPAH! SPAH!

Dei duas pancadas na cabeça do berrante e surtiu o efeito desejado. Ele estava definitivamente, morto. Então eu me virei para começar a correr para dentro do barraco, mas assim que virei, trombei com outro berrante e atrás deste berrante, tinha outro berrante. - DROGA! – Gritei enquanto o empurrava o berrante que estava na minha frente. O de trás foi o primeiro a cair no chão, e em seguida enfiei o porrete no olho do berrante que estava na minha frente. Morreu. Outros já estavam próximos, então eu corri para

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a porta do barraco. Abri e entrei, mas alguns berrantes já haviam me alcançado, mas problema maior foi o berrante que caiu. Ele colocou a cabeça pelo lado de dentro do barraco. Eu tentava fechar a bendita porta, mas com a cabeça dele ali, não ia dar.

- Droga! Droga! – Gritava Jonas. – Me solta daqui seu moleque! Anda logo!

Eu olhei para ele com uma cara de poucos amigos. Eu estava muito irritado e sem saber o que fazer e segurando a porta impedindo os berrantes de entrar e desviando meu pé da cabeça do berrante que estava no chão, não me facilitaria em nada.

- Você pediu. – Pensei alto enquanto eu olhava a cabeça do berrante que estava me impedindo de fechar a porta. Ameacei a abrir e fechei com mais força. Nada aconteceu com o berrante que tentava devorar meu pé, mas o que estava mais próximo caiu pra trás fazendo com que os outros andassem para trás, foi ai então que eu soube o que fazer com o berrante que estava caído, me atrapalhando e querendo me devorar. Soltei a porta e dei dois passos para trás. Eu pisei próximo da cabeça do berrante e chutei com tanta força, que sua cabeça se espatifou no meu pé e me deu passagem para fechar a bendita porta.

Parei e respirei um pouco. O Jonas havia bagunçado a cama dele toda de tanto tentar se soltar daquelas algemas, mas não teve êxito algum.

- Fica calmo que eu as peguei. – Disse enquanto mostrava as chaves das algemas. Ele me olhou com um sério, mas parecia estar muito agradecido por eu ter pegado elas. E então eu o soltei e voltei para a porta, me sentei e me encostei a ela para que nenhum berrante entrasse ali.

- Obrigado... – Disse Jonas.

- Marcos. – Falei interrompendo o que ele iria me chamar. – Meu nome é Marcos.

- Muito bem Marcos, obrigado. – Disse Jonas pegando uma vela e acendendo.

- Não há de que. – Respondi encostando minha cabeça a porta e fechando os olhos.

Eu estava quase cochilando quando me toquei de uma coisa. Jonas estava algemado a sua cama, mas por quê? O que ele teria feito? Não duvidaria de nada que tivesse feito de ruim, afinal de contas, se mostrava um cara bem mal então eu não teria motivos para achar que foi um engano.

- Porque estava algemado? – Perguntei olhando diretamente nos olhos dele.

- Isso importa agora?

- Importa. Diga. Porque estava algemado?

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- Olha aqui seu moleque, - Disse enquanto se aproximava de mim e eu fiquei quieto e parado, sem nem me mover, mas não era de medo, era de cansaço e por algum motivo, eu já sabia que ele não iria fazer nada comigo acordado. – se você esta achando que só por causa do seu chute forte você virou mais homem que eu, você está é muito enganado.

Olhei para ele com uma cara de quem pouco se importava e continuei sentado e parado, até que fechei os olhos para ele ver que eu nem estava mais dando ideia pra ele. Jonas ficou mexendo em algumas coisas e depois voltou para a cama. Fiquei com os olhos meio fechado para ficar atento aos movimentos que ele estava fazendo, e com o passar da hora acabei mesmo pegando no sono.

- Isso é pra você aprender, - Disse Jonas me colocando pra fora do barraco. Eu estava dormindo como pedra, e só acordei quando senti o chão. Quando eu fui jogado ao chão pelo Jonas. – a não se fazer de machão pra cima de mim!

- O que é isso? – Perguntei me levantando e então, ele me soca o rosto que me fez cair de novo. – AI! – Soltei um grito.

- Chora marica! Hahahahahaha!

- Você ta maluco?

- Eu? Maluco? – Disse Jonas me olhando como se estivesse drogado. Eu olhei pra trás e vi os berrantes nos percebendo. Estava de noite, devia ser de madrugada, quase hora de amanhecer. Os berrantes estavam indo embora até nos ouvir.

- Eu te salvei droga! – Falei indignado.

- Oh! Meu herói! – Disse enquanto vinha pra cima de mim. – Toma isso heroizinho! – E então me socou de novo.

- Merda! – Pensei alto e então resolvi revida. Um chute no meio do peito dele, e depois pulei pra dar um soco em seu rosto. Ele cambaleou para trás, mas logo se pôs pra revidar. Veio pra cima de mim novamente, olhando dentro dos meus olhos, pude ver o quanto ele estava gostando disso e o quanto não se importava com os berrantes que em pouco tempo nos cercaria.

PUNCH! PUNCH!

Dois socos que me fizeram cair novamente. Coloquei a mão em cima da minha sobrancelha e senti o rasgado que deu. O sangue começou a escorrer na minha face. Eu não era muito de brigar, mas se eu quisesse sair vivo dessa, eu teria que dar um jeito de entrar.

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Eu me levantei e me preparei. Ele veio pra cima e só fiquei a analisar. Pude perceber lentamente seu peso. Não era gordo, mas era pesado, e por isso seu soco estava sendo forte suficiente para acabar comigo. Só que eu também percebi o quanto ele estava lento, então usei meu agilidade para acabar com ele. Primeiro ele tentou um soco no meu rosto de novo, mas consegui desviar e soquei o rosto dele. Ele de um jeito destrambelhado tentou me acertar com a outra mão, só que eu me abaixei e consegui desviar também, e em seguida acertei outro soco nele. Ele pareceu mais furioso e colocou mais força, só que ele só estava me fazendo andar para trás o que era bem pior. Eu já estava a uns três metros de distancia da porta e então comecei a atacar novamente. Desviava e socava. Eu até estava me saindo bem nisso. Só que até ele sorrir para mim. Eu tinha conseguido o fazer andar para trás, e já estávamos diante da porta do barraco, mas ele ainda queria briga e eu ainda tinha que ficar atento. Ele fingiu que ia dar um soco de esquerda, mas na verdade, deu um de direita. Ele me pegou, acertou um soco bem no meio do meu rosto, por pouco meu nariz não quebrou e o impacto por ter sido forte, me fez andar pra trás quase caindo, e então ele me golpeou na barriga tão forte, mas tão forte, que seu braço estava com sangue, mas não dele, e sim meu. Eu havia cuspido involuntariamente sangue, e muito. Parecia ter vomitado. Cai de joelhos e rapidamente me apoiei na caixa d’água que estava do meu lado. Olhei para trás e vi mais de dez berrantes vindo em nossa direção. Olhei para o Jonas e ele pareceu perceber que não ia ser nada bom ficar ali fora, mas com certeza, ele ia entrar e eu ia ficar pra ser comida de berrante, foi ai que aproveitei o momento.

Ele parecia meio sem ação por estar assustado vendo o tanto de berrantes que vinha. Olhei pra ele e então chutei bem forte e com um impulso ainda maior, no meio de seus peitos. Ele foi com força para trás e caiu do lado de dentro. Aproveitei e corri pra dentro do barraco e fiquei segurando a porta. Tudo calmo durante cinco segundos.

Grhung! Grhung! Grhung! Grhung! Grhung!

O local estava lotado de berrantes e todos pareciam fazer força na porta. Ela não ia aguentar e eu não ia conseguir segurar por muito tempo, não sem ajuda.

- Me ajuda droga! – Falei enquanto segurava a porta. – Jonas! – Gritei para ele se ligar e vim ajudar. Ele não respondeu. Eu me encostei à porta e olhei pra ele. Estava caído e parecia morto. Meus olhos encheram de lágrimas e meu coração batia cada vez mais forte. Precisava conferir se ele estava vivo ou morto.

Fui até ele com muito medo. Eu me ajoelhei do seu lado, e então aproximei minha mão de seu pulso. Com muito medo, eu peguei seu pulso. Ainda estava vivo. - Graças a Deus. – Meu coração se acalmou, e fiquei aliviado. Ouvi um barulho estranho, olhei para a porta e pude vê-la rachando. Corri até ela e coloquei toda a minha força para impedir que rachasse. Não estava adiantando, então fiz força com as costas e comecei a gritar pelo Jonas para ele acordar logo, mas não adiantava. Eu

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estava ficando desesperado e procurando uma alternativa. Comecei a chorar em silêncio, e a engolir seco. Parecia que tudo estava contra mim. Olhei a janela que tinha no barraco, e vi que o lado dela estava vazio, mas eu não teria como tirar eu e o Jonas daqui. Ele precisaria acordar, mas ele não acordava.

- Ele quis me matar... – Pensei alto. Ele quis me matar e eu aqui, querendo o salvar. A porta estava ficando muito fraca e a qualquer momento ela ia se quebrar. Olhei de novo a janela e observei que ela era vidro puro. Não tinha grade nem nada, somente um vidro. Deveria ser um buraco que o Jonas não tinha mais madeira para fechar e então colocou um vidro só pra não entrar nada por ali.

Ele começou a se mexer.

- Jonas! – Chamei, mas ele apenas estava se contorcendo de dor. Colocou a mão na cabeça e então olhei sem querer pra cabeceira da cama e vi sangue. Ele caiu e bateu a cabeça ali, por isso desmaiou. – Merda Jonas! Acorda! – Gritei.

Ele se virou mais não conseguia se levantar. Ele me olhou como se estivesse gostando daquilo. Estava me encarando e tentando me amedrontar, só que estava perdendo seu tempo, pois os berrantes atrás de mim, já tinham conseguido isso fazia mais de dez minutos.

- Está vendo o que você fez? – Gritei com ele.

Ele sorriu e se encostou a cama. Tentou levantar, mas não conseguiu. Ouvi outro barulho e olhei pra porta, estava quebrada, eu é quem estava suportando ela, se eu saísse, a porta caia. Ele me olhou com um olhar misterioso. Parecia estar ficando com medo de eu fazer alguma coisa, mas ele só teve certeza quando eu deixei as lágrimas voltarem a rolar.

- Você não vai fazer isso. – Disse ele com os olhos arregalados.

- Me desculpe. – Falei em meio ao choro. – Por favor, me desculpe! 

 


Soltei a porta e corri em direção à janela. Posicionei as mãos na cabeça e pulei de cabeça. Ela se quebrou toda e pedaços de vidro se cravaram em mim. Minha perna estava com um pedaço enorme de vidro. Eu estava muito ferido, mas tive de fazer isso. Comecei a correr pra mata, do lado contrário onde os berrantes estavam. E então parei atrás de uma árvore, e ouvi os gritos de agonia de Jonas. Eu havia deixado um homem pra morrer. Isso não era de mim. Eu estava chorando, mas tinha que ser silencioso. Meu corpo doía, meu coração doía, minha mente estava atordoada, eu nunca vivi isto, nunca fiz isto, nunca pensei nisso, até hoje.

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