RENEGADOS


Capítulo 1


Lembranças



- Deve faltar menos de dois dias para chegarmos ao Distrito. – Disse o senhor Josias que já estava exausto de tanto caminhar.

- Espero que sim, - Disse Karen parando e se sentando. – eu não aguento mais, por favor, vamos descansar um pouco. – Pediu ao Roberto. Ele olhou para ela e virou e olhou para os outros que ali estavam. A cara de cansaço já havia se tornado nossa melhor amiga, essa expressão já estava perdendo a graça, ninguém mais perguntava um ao outro se haviam descansado o suficiente, porque nunca mais descansamos o suficiente.

- Tudo bem, mas apenas por cinco horas. – Disse Roberto.

Já haviam se passado onze meses desde que saímos daquela estação. Uma longa caminhada. Nunca pensei que o Subúrbio pudesse ser tão grande, mas era o que estava me parecendo agora. Hoje o Roberto nos deu cinco horas de descanso, e isso foi motivo de muita alegria, pois ficávamos parados por no máximo três horas. Havia berrante por toda parte e era realmente muito perigoso ficar parado por muito tempo. Mal encontramos lugares para dormir um pouco, de vez enquanto, tínhamos que dormir atrás das casas ou até mesmo, dentro de algum veículo velho e jogado por ai.

Roberto me pedia para fazer coisas inusitadas. Uma vez ou outra era ficar acordado, vigiando o local enquanto os outros dormiam. Mal sabe ele, que meu ponto mais fraco, é o sono. Por sorte, a situação em que nos encontramos parece estar me fortalecendo cada vez mais. Pois falar em fortalecer, estamos todos perdendo peso. Falta de comida, uma boa noite de sono e até mesmo água esta nos deixando assim. Sempre encontramos algo, só que não da para comermos a vontade como comeríamos em casa. E em cada casa que entravamos, era um perigo muito maior que corríamos. Pois além de a maioria estar sem eletricidade e não ter luz, nós não sabíamos se havia pessoas ou berrantes dentro delas.

O senhor Josias estava muito cansado, pois já era um senhor e precisava de descanso e boa alimentação. Lavigne cuidava dele de vez enquanto, mas era a Karen quem fazia com que ele tivesse cada dia mais força para lutar.

1


- Senhor Josias, eu prometo que trarei uma boa quantidade de comida para nós, assim que chegarmos ao Distrito. O senhor vai comer bem e ter um bom descanso. – Disse para ele, enquanto apertava sua mão. – Pode acreditar em mim.

Ele me salvou a vida uma vez, e isso vale de todas as formas. Será impossível eu pagar essa divida, então tenho de fazer por onde e ajuda-lo o máximo que eu puder. O que eu havia prometido a ele não era impossível, só precisaria de um pouco de sorte para que não houvesse tantos berrantes pelas casas do Distrito.

Karen sempre o ajudava e dividia sua própria comida com ele. Estava muito magra e toda a sua beleza negra, havia ido embora. Seu cabelo estava sujo e fedorento e suas roupas imundas, mal comia e mal dormia porque preferia ficar acordada olhando seu pai dormir.

Às vezes eu me pegava pensando no porque eu os tirei de lá? Vamos Marcos, eles sabiam se cuidar e tinham comida e um lugar para descansar e até mesmo se banhar.

Eu disse como a Karen estava, mas todos estavam parecidos, exceto pela magreza.

Roberto como o líder, sempre se cobrava mais. Ele estava com uma aparência horrível, e com todo aquele peso de nos manter seguros nas costas, não deveria estar melhor. Pelo menos agora ele tem um braço direito. Benício estava ajudando muito o Roberto a cuidar do grupo e até mesmo o Douglas ajudava bastante. Eles eram os adultos, os mais velhos e talvez por isso eu ficasse sempre do lado de fora de enfrentar o maior perigo, de vez enquanto é claro. Pois tinham vezes que era necessária minha ajuda.

Antonio, o padre, vivia orando e pedindo a Deus para nos ajudar. Antes eu achava que ele era apenas um idiota com medo do mundo de agora, mas depois de um tempo, vi que ele é o mais corajoso. Ele é um dos poucos que não perderam sua fé, e que sempre acreditava em Deus e pedia para que ele nos ajudasse e sinceramente, eu sentia que Deus realmente, nos ajudava.

Lavigne que ficou tão sentida com a morte de seu tio que era sua única família e ficou assim durante um tempo. Depois de uns quatro ou cinco meses é que ela começou a se relacionar com as pessoas, conversava e ria de novo, apesar de eu não ter conhecido ela muito tempo antes de sua depressão o que era admissível. Só depois que fiquei sabendo que o homem que havia morrido no galpão no ano anterior era seu tio, e era sua única família. Fiquei pasmo e sentido, pois além de ela mesmo ter me contado, eu fiquei com o pensamento mais fundo de que meu pai poderia estar morto. Durante todo esse tempo, eu fiquei amigo de Lavigne. Karen e o senhor Josias eram os únicos que eu confiava e conversava. Mas a Lavigne veio se aproximando lentamente, conforme sua depressão ia embora e então, começamos um elo de amizade. Discussão era sempre vindo da gente, mas nos resolvíamos no mesmo dia e então


2

continuávamos a ficar bem. Era legal ter ela como amiga. Ela me distraia e era engraçada, mas nem sempre era assim. Vira e mexe sua depressão vinha e mexia completamente com ela e era difícil de lidar com isto.
- Vamos ficar por aqui mesmo desta vez. Arranjem algum lugar por perto e descansem. Não parece ter nenhum berrante por aqui, então, descansem, mas não baixem suas guarda. – Disse Roberto.
Paramos por ali mesmo, era uma mata grande e fechada, tinham muitas árvores e bichos. Troncos caídos e galhos por qualquer parte. Então, quem que seja que estivesse por perto, poderíamos detectar sua presença por meio da natureza. O que seria fácil.
- Vamos passar pela mata o tempo todo? – Perguntei ao Roberto.
- Até chegar ao Distrito sim. Por quê? – Perguntou Roberto.
- Preciso conseguir algo para o senhor Josias comer. Ele não esta em boa condição e já faz tempo que não come direito.
- Marcos, ele precisa aguentar até o Distrito. Lá vai ser mais fácil. Há muitas casas e com certeza, mais comida, além de segurança.



3

Isso provavelmente seria verdade, o Distrito é um lugar onde tem casas de tijolos e concreto, deve ser bem mais seguro. E lá tem lugares que se vende comida, o que é bom.
Eu me sentei próximo a um tronco de uma arvore e por ali fiquei. Não era aconchegante, mas consegui um jeito confortável de me encostar e descansar ali naquele tronco. Enfiei a mão na minha mochila caçando minha espingarda, mas eu tinha por pouco, me esquecido que ela não estava mais comigo. Comecei a me lembrar de quando a Bia estava indo embora, e eu comecei a correr atrás dela. Seu pai não quis parar o carro para me ajudar a escapar. Brigou com a Bia, sua própria filha para que ela parasse de pedir isso a ele. Ele é um monstro!
Normalmente quando eu parava pra descansar, eu começava a ver cenas de coisas que eu já havia passado. Meu primeiro pensamento foi no meu pai. Ele sentado limpando a espingarda e me dizendo que era de meu avô e que iria me ensinar a caçar, mas ao contrário do que ocorreu, ele não me parecia sombrio. Ele estava sorrindo.
- Vamos Marcos, temos muito que fazer hoje. – Disse meu pai se levantando e saindo de casa.
- Ei, aonde vocês vão? – Perguntou minha mãe.
- Mãe? – Eu a abracei, e muito forte. Queria chorar, mas não via o motivo. Ela acariciou meu rosto e se virou para o meu pai.
- Vai sair sem me dar um beijo? – Perguntou minha mãe puxando meu pai pela camisa e dando um beijo nele.
Eu estava feliz. Ao sair de casa e ver como era o Subúrbio, eu pensei.
- Nossa. Esse lugar até que é bem legal.
- Falando sozinho? – Perguntou meu pai bagunçando meu cabelo. Ele sabe que eu não gosto que mexam no meu cabelo, e eu sei que ele gosta de implicar.
Fomos para a mata mais próxima e começamos a caçar. Caçar mesmo. Não berrantes, até porque eu estava em um mundo sem eles, o que era incrível. Atiramos em uns pássaros que passavam por ali e eu praticamente errava todos.
- Dobre o braço e mira com a arma acima do ombro. – Disse meu pai. Eu fiz. Dobrei meu braço e mirei com a arma acima do ombro. – Espere pelo recolchete.
BANG!
- Acertei! Acertei! Haha!
- Aê! Aprendendo a atirar, é? – Perguntou meu irmão.


4

- Mano que saudades! – Falei e o abracei. É certo que irmãos não se dão bem. Quero dizer, a maioria, e esse é também o nosso caso, mas mesmo que neguemos, nós amamos nossos irmãos, e eu automaticamente reagi desta forma. Eu o abracei forte e ele retribuiu.
- Ei cara, acabamos de almoçar, - Disse ele. – faço tanta falta em tão pouco tempo assim é? – Disse rindo.
- Ele parece que está carente hoje, Mendes. – Disse meu pai. Meu irmão se chamava Mendes. E assim que entrou para as forças armadas ele foi chamado de soldado Mendes. É que em nosso país, militares são chamados pelos seus outros nomes, exceto por alguns, e esse foi o caso do meu irmão.
De repente o cenário mudou. Eu estava no quarto da Bia, ela segurando minha mão e me levando para a varanda. Logo em seguida estávamos olhando um para o outro e sem nada dizer e em seguida, depois de um sorriso tímido, nos abraçamos e nos beijamos. O beijo era intenso e real. Tão real que eu conseguia sentir meu corpo suspirar, e logo em seguida o cenário não era mais a varanda do quarto dela e sim o quarto. Estávamos na cama dela. Eu por cima, entre suas pernas, aquele momento estava sendo mais impactante, e eu desejava saber o que ia acontecer em seguida. Não parávamos de nos beijar, e quando eu me deparei com o momento, já estávamos praticamente sem roupa. Seu corpo quente e fresco ao mesmo tempo, sua pele macia e escorregadia. Seus pelos perfeitos que faziam dela uma mulher ainda mais delicada. Seus lábios quentes e sua respiração ofegante. Seu coração batia forte e eu podia sentir isso e não parávamos de nos beijar. Era um sonho. Ela me olhava e seus olhos brilhavam, sua boca estava com um sorriso tão meigo estampado como se dissesse me beija. E eu a beijava.
- Eu te amo. – Disse ela para mim. Era uma pena, eu queria que fosse real, mas minha mente fazia questão de que eu soubesse que era um sonho, parecia que gostava de me atormentar de fazer joguinhos comigo. E eu sempre resolvia joga-lo.
- Eu também te amo. – Disse dando um selinho nela. – Muito.
- Marcos, - Disse Bia, mas agora ela estava me olhando como se algo estivesse preocupando ela. – não – E então rolou a primeira lágrima. – me – seus olhos se fecharam e seu sorriso sumiu. – deixe – eu conseguia sentir a dor que estava em seu peito. – ir.

O cenário mudou outra vez. Dessa vez eu estava desmaiado em uma rua, mal conseguia me mexer, sentia as areias que ali estavam tudo parecia tão real que quando eu tocava, eu sentia na pele. Apenas meus olhos me davam uma pequena visualização do que estava a minha frente. E a minha frente, estava o carro do pai da Bia, e ela batendo no vidro traseiro gritando por meu nome. O carro acelerava, mas ia


5

tão lento. Ela batia no vidro me olhando e chorando, e tudo em câmera lenta. Cada batida no vidro que ela dava, meu coração batia no mesmo ritmo e tempo. Cada vez que eu piscava, era um momento de dor e desespero e isso aumentava quando eu via berrantes se aproximarem e eu, sem conseguir me mexer.

E de novo o cenário mudou, e voltamos para a cama, e ela com o mesmo olhar triste e choroso, me dizendo novamente.


- Não me deixe ir.


6
Reações: