Capítulo 5 – Uivo Distante



Diante de Henri, Saulo não conseguia mover-se. Metamorfoseado em um gigantesco lobisomem de pelagem marrom, Henri Volmort havia revelado sua maldição. Ele era um lobisomem. Fera sanguinária que chegava ao nível de força de um vampiro. Grande e imponente, Henri manteve-se rosnando e exibindo os dentes pontiagudos para o primo. Paralisado pelo medo e pelo receio de mover-se e perder um dos membros num golpe do monstro, Saulo tentou manter o controle e não se desesperar, mas ele nunca havia visto um lobisomem. Na verdade, nem desconfiava que eles existissem. Tomado de um momento de calma, Saulo começou a mover os lábios devagar, escolhendo as palavras que iria usar para falar com Henri, pois parecia que ele o entendia.

- Henri, precisa se acalmar – disse Saulo vagarosamente.

Ainda raivoso, Henri soltou um uivo gutural e ficou encarando Saulo.

- Precisa de acalmar, Henri.

Aos poucos o lobisomem foi parando de rosnar. A vampira, escondida, continuou respirando pouco e receosa de espiar o que estava acontecendo.

- Acalme-se – repetiu Saulo.

A fera agachou-se e o corpo foi diminuindo de tamanho. Com um ganido, em alguns instantes Henri voltou ao normal. Ele estava nu, e caiu deitado no piso de mármore da sala da Mansão. O homem tossia e se contorcia no chão.

- Me desculpe, Saulo – disse Henri, quase num sussurro.

- Tudo bem, primo. Agora está tudo bem.

- Eu não consigo controlar sempre esse instinto animal.

Saulo pegou um robe no quarto e deu para o primo vestir.

- Eu estou com medo, primo.

- Faz muito tempo que você se transforma? – perguntou Saulo.

Henri vestiu o robe e se sentou no sofá. Ele estava muito suado e seu corpo estava vermelho, da mesma maneira que seus nervos e tendões. O homem que há pouco virara lobo, agora tremia e suava.

- Não.

Saulo estranho achando que Henri não tivesse nascido com a maldição.

- Então, me diga, quanto tempo faz? – indagou Saulo.

- Alguns meses. Eu mesmo quis isso. Eu fui atrás da transformação, foi a busca pelo poder, Saulo. E agora estou jurado de morte. Eles estão atrás de mim, querem me prender e me condenar.

Os dois estavam sentados no sofá e falavam quase em sussurro.

- Quem está atrás de você?

- Todos. A maioria da minha espécie.

- Os lobisomens querem te prender e te matar? – perguntou Saulo, bem confuso.

- Isso. Eu não tenho linhagem, a Corte dos Lobos Reais está me caçando. Como fizeram com todos os Lobos Impuros – explicou Henri.

- O que são os Lobos Impuros?

- Pessoas que não nasceram lobisomens e não tem a linhagem deles, ou que não forem transformadas em rituais oficiais realizados por eles. Eles aniquilam os Lobos Impuros, desde que a raça dos lobisomens existe. Por isso muitos não sabem da existência deles. Eles vivem vidas normais, tem treinamento para saberem se transformar e não saem por aí mordendo todo mundo.

- Ele tem uma espécie de controle.

- O Lobo Sombrio está me caçando. Não sei por que, parece que faço parte de alguma família especial ou algo assim.

Saulo olhou para os lados e tentou disfarçar. Não poderia revelar tudo ao seu primo tão facilmente, as consequências poderiam ser drásticas.

- Quem é essa tal Lobo Sombrio?

- Um dos lobisomens mais antigos e temíveis de todos os tempos – respondeu Henri. – E ele quer acabar comigo. Parece que o sobrenome Volmort é uma das maiores causas disso, e eu não entendo.

- Como você conseguiu se tornar um lobisomem?

- Gangues de Lobos. Eles se escondem em vielas e becos, e transformam quem os paga bem. Os que eu paguei, agora estão dizimados. A Corte pegou todos. Acho que apenas um sobreviveu, e eu não sei o paradeiro dele.

- E qual o motivo disso tudo, Henri?

- Eu queria poder, só não sabia que seria assim - disse Henri.

- Foi muita burrice da sua parte.

- Tudo bem então, eu vou embora então – berrou Henri irritado, se levantando rápido do sofá, e logo depois desabando de volta, devido a uma pontada forte que sentiu na cabeça.

- Não seja radical, Henri – disse Saulo. – Continue aqui.

- É duro lidar com isso. Não pense que é fácil.

- Olha, Henri, tem tantas coisas que queria te falar, porém eu não po...

- Espera! – interrompeu Henri.

O homem de robe se levantou e ficou em silêncio encarando a parede, como se esperasse que alguma coisa acontecesse.

- Tem algo ruim se aproximando, eu não sei o que é – anunciou o lobisomem. Adaga ouvia tudo do segundo andar.

- O que está se aproximando? – perguntou Saulo, aflito.

- Algo ruim. Eu sinto.

Um momento de silêncio irrompeu na sala, enquanto os dois esperavam em pé, encarando paredes e janelas, aguardando o próximo acontecimento. Algo no peito de Henri parecia gritar: “Perigo! Perigo!”, como uma luzinha vermelha acesa. Saulo cansou de esperar e resolveu quebrar o silêncio:

- Olha Henri, eu não acho que...

Um enorme barulho de algum objeto se chocando contra a janela e estilhaçando seus vidros ecoou na sala. O tal “objeto” era um homem ágil e de estatura mediana, que quebrara a janela ao dar um mortal em direção a ela, destruindo-a completamente. O homem caiu em pé após o salto, em meio aos enormes cacos de vidro que caíram no chão da sala.

Ele tinha cabelos negros e olhos amarelos. As roupas pareciam antigas e no olhar ele trazia uma expressão fria e predatória. Olhando nos olhos de Henri, o estranho avançou pra cima dele como um lobo, e o estranho era realmente um lobo. Sem contorções ou urros, o homem de olhos amarelos uivou na sala e começou a tirar as roupas. Lentamente, seu corpo foi crescendo e uma pelagem negra cresceu no corpo nu do homem, que agora tinha duplicado de tamanho. O nariz deu lugar ao focinho e as orelhas pontudas completaram o monstro. A enorme cauda ficava sendo balançada enquanto ele encarava seus oponentes.

A transformação tinha sido rápida e eficiente. Deveria estar há anos fazendo aquilo.

O lobisomem de pelos negros e olhos amarelos resolveu investir contra os primos Volmort.

Saltando sobre Saulo com as garras apontadas para seu rosto, o lobisomem negro caiu no chão, ao ver que Saulo se desviava agilmente de seu golpe. Como num instinto, Henri começou a gritar e suas mãos fortes pressionavam sua própria cabeça, parecendo cultivar uma fúria interna. Em poucos instantes, Henri crescia e se transformava novamente na fera, rasgando o robe.

O lobisomem negro se levantou agilmente e cravou suas garras no peito de Henri, colocando-o caído no chão, já metamorfoseado em lobisomem. Henri rosnou e tentou se soltar da imobilização, exalando raiva de seus olhos vermelho-sangue. Saulo levantou-se e correu em direção ao escritório, enquanto Henri era totalmente imobilizado pelo lobo de olhos amarelos.

Saulo abriu a velha porta de madeira do cômodo, e apalpando o assoalho de madeira escura, parecia procurar por algo.

Enfim acho a alça e a puxou, uma espécie de vão se abriu e ele tirou uma maleta as pressas lá de dentro. Uma arma potente de matar vampiros.

“É disso que eu preciso”, sussurrou Saulo para si mesmo.

Mesmo sabendo que era um lobisomem e não um vampiro, Saulo recarregou a arma ligeiramente e voltou pra sala com ela nos ombros. Ela era semelhante a uma bazuca, e pesava bastante.

Henri, ainda preso pelas garras do lobo negro, olhou de soslaio para Saulo e o viu com a arma na mão. O lobo de olhos amarelos virou-se também e mostrou seus dentes para Saulo ao vê-lo pronto pra lutar. Ao ver que o lobisomem negro se concentrava em seu primo, Henri se aproveitou da distração e derrubou seu oponente.

Assustado com o golpe de Henri, o lobisomem negro pulou novamente sobre ele e os dois lobos se engalfinharam na sala, derrubando tudo que lhes vinha pela frente, destruindo móveis e objetos e rolando pelo ambiente. Saulo havia preparado a arma, mas poderia acabar acertando seu primo caso eles não se separassem.

Engatinhando de volta para o quarto, Adaga se trancou no cômodo e não quis mais ver a briga. Só de ouvir os barulhos dos dois lobos brigando ele ficara apavorada de ter sua presença percebida. Uma vez ela ouvira que os lobisomens podiam sentir o cheiro dos vampiros, e ela não entendia como Henri não havia a farejado. Talvez fosse pelo fato de ele ter sido transformado há pouco tempo.

Saulo se afastou um pouco esperando que os lobisomens se separassem. Entre mordidas, arranhadas e pancadas, os dois lobos combatiam um ao outro vorazmente.

O lobo da pelagem negra brigava melhor, e tinha certa vantagem sobre Henri. Parecia ser um lobisomem antigo, da linhagem pura, que normalmente tinha pelagem negra e olhos amarelos, diferente de Henri, um recém-transformado de olhos vermelhos e pelagem marrom, que ainda não tinha experiência.

- Você é forte – disse o lobo negro, e logo após cravou os dentes no pescoço de Henri, que ganiu e deu uma patada no peito do combatente, ainda rolando pelo chão com ele.

- Pra você ver que os impuros também são da sua raça – berrou Henri. E Saulo ao ouvir constatou o quanto era estranho ouvir lobisomens falarem, dada a suas características de ser quase um animal completo, com pouquíssimos traços humanos.

- Nunca! Vocês, impuros serão extintos! – urrou o lobo negro.

- Esse é o tal Lobo Sombrio? – gritou Saulo.

Henri empurrou o lobo negro e ele saiu rolando pela sala. O inimigo se levantou e pareceu rir da pergunta de Saulo, que apontou a arma pra ele.

- Lobo Sombrio? – zombou o lobisomem negro. – Se ele estivesse aqui, vocês dois já estariam mortos e com as cabeças penduradas em estacas de madeira.

- Então quem é você?! – esbravejou Henri, em pé sobre as duas patas colossais.

- Eu sou uma espécie de mensageiro, e eu vim levar você até a Corte.

- Então vai voltar de patas vazias, seu cão imundo – berrou Saulo.

- Pois eu já penso que você não vai voltar – disse Henri.

Com um golpe certeiro, Henri pulou sobre o pescoço de seu inimigo e cravou seus dentes pontiagudos na garganta do lobo negro. O lobo se debateu e Henri enfiou seus dentes mais fundo ainda. Enfim, o lobo caiu para o lado, sem vida.

Henri soltou seu pescoço e seus olhos pareciam brilhar. A boca, cheia de sangue, de um azul-escuro, denotava que o lobo negro realmente pertencia a linhagem dos lobisomens de sangue-puro.

Saulo entendia que Henri era mais forte por ser da Família Volmort. Ele entendia por que a Corte dos Lobos queria tanto sua morte, mas ele não poderia revelar a Henri no momento.

Voltando ao normal e com muitos arranhões e feridas, Henri foi apoiado por Saulo e se sentou no que tinha restado do sofá. Vestiu o robe e ficou meio confuso, ainda sujo do sangue azul.

- Precisamos limpar essa bagunça – disse Saulo.

Saulo ia largando a arma quando o lobo negro se reanimou, vendo que Henri tinha voltado ao normal. Ao dar um salto para cima dos primos, Saulo virou a arma e descarregou-a totalmente no torso do lobisomem. O lobo caiu novamente, e desta vez, Saulo atirou mais algumas vezes, para ver se ele tinha morrido mesmo. As balas de prata tinham funcionado.

- Será que a Anastasia ouviu algo? – indagou Henri.

- O quarto do Adrian tem isolamento acústico, acho que ela foi dormir, vamos arrumar isso – respondeu Saulo.

Os primos deram início à limpeza da sala, sem saber o que os aguardava.



***

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O novato correu apressado até os aposentos do homem.

Entrou sem bater na porta e o encontrou sentado na enorme cama luxuosa. Ele tinha uma expressão fria e parecia chocado. Os cabelos negros e longos caíam ao longo de seu corpo e ele usava uma túnica de dormir.

- Senhor, tenho más notícias – disse o rapazinho.

- Eu já sei de tudo – disse o homem de cabelos compridos.

A luz que entrava pelo quarto revelava as poucas rugas que o homem tinha. Sua expressão séria denotava tragédia.

- Sabe, do seu irmão?

- Sei. E eu vou cuidar disso tudo – respondeu o homem.

- Senhor, devo dizer que...

- Basta! Não preciso de conselhos agora! Quem esse impuro pensa que é? Eu mesmo vou atrás dele. Ele vai finalmente conhecer o Lobo Sombrio, quem eu sei que ele tanto teme. Os pesadelos dele acabaram de se tornar realidade – berrou Lobo Sombrio, levantando da cama e ajeitando os enormes cabelos negros.

Lobo Sombrio queria vingança.

Iriam Henri e os irmãos Volmort sobreviverem ao ataque de um dos lobisomens mais poderosos?

Continua...

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