Capítulo 4 – Maldição




A Mansão dos Volmort agora tinha a presença ilustre de Henri, primo de Adrian e Saulo, que estava totalmente e secretamente atraído por Anastasia, a vampira sanguinária conhecida como Adaga, que tinha planos secretos contra Adrian e qualquer um que se colocasse no caminho da assassina.

Os quatro foram para a grande sala de estar da Mansão, e se sentaram no sofá.

- Esse casarão não mudou nada – comentou Henri.

- Quando foi a última vez que veio aqui? – perguntou Adrian.

- Deve fazer uns 6 meses. Não nos vemos desde que você começou a namorar com esta bela moça – riu Henri.

- É verdade, mas eu e ela namoramos há apenas quatro meses, e noivamos há cerca de dois meses – respondeu Adrian.

- O Zenof chega hoje? – perguntou Saulo, mudando o assunto da conversa.

- Já deve estar chegando – disse Adrian. – E quanto ao seu negócio? – perguntou se dirigindo ao primo.

- É... Eu devo cuidar disso amanhã – respondeu Henri, um pouco desconcertado.

- Entendo.

Silêncio.

- Bom, eu realmente tenho que ir à empresa. Mas fique a vontade, Henri. O Saulo e a Anastasia ficarão? – perguntou Adrian aos dois.

- Eu ficarei – disse Saulo.

- Eu posso ir com você – disse Anastasia.

- Fique amor, são apenas coisas chatas de trabalho – disse Adrian.

- Então, tudo bem.

Um calor subiu no peito de Henri ao pensar na probabilidade de ficar sozinho com Anastasia. Adrian subiu e colocou um terno preto-esverdeado, saindo em sua BMW preta.

- Eu vou dar uma volta no jardim – disse Anastasia.

- Posso acompanhá-la? – perguntou Henri prontamente.

- Olha lá, Henri – advertiu Saulo.

Henri ignorou Saulo e esperou a resposta da moça.

- Claro – respondeu ela séria.

Os dois saíram e Saulo ainda lançou um olhar de censura para o primo, que o ignorou.

Ele nem imaginava que Henri que deveria ter medo de ficar sozinho com ela, e não o contrário.

Henri e Anastasia andavam a passos lentos e despreocupados.

- Eu ouvi falar muito de você – disse Henri, puxando conversa.

- E eu de você.

- É tudo verdade – brincou Henri. Anastasia riu.

- Você é um empresário também?

- Do ramo de investimentos.

- Você cresceu com o Adrian, não é?

- Nem sempre, nos víamos em reuniões de família e coisas assim. Implicávamos muito um com o outro, e ainda fazemos isso – riu.

Saulo ficou observando os dois da porta da entrada, enquanto eles se afastavam em direção ao jardim colossal, que tinha até labirintos de hera.

- Henri não tem jeito! – bufou Saulo.

Um carro estacionou em frente à Mansão.

O homem desceu do carro sorrindo e gritando.

- Eu não acredito! – bradou o homem.

Saulo se virou e contemplou Zenof.

- Zenof! – Saulo correu e abraçou-o.

- Que saudade do caçador aprendiz – respondeu Zenof.

- Você não mudou nada, continua jovem.

- Uns fios grisalhos aqui e ali, mas a vontade de caçar nunca termina, sempre pronto!

- Vamos entrar.

Saulo e Zenof entraram na Mansão.

Henri e Anastasia continuavam o passeio pelos jardins belos e rústicos dos Volmort.

- Tenha que admitir que meu primo teve sorte em conhecê-la – disse Henri.

- Ah, obrigada – respondeu Anastasia, dando um risinho tímido. – Você não tem mesmo problemas em galantear a noiva de seu primo não é?

- Eu acho que não, caso contrário eu nem teria me oferecido para caminhar com você – respondeu ele, sem a menor inibição.

Em todos os seus 120 anos de vampira, Adaga contemplava agora um dos homens mais audaciosos e francos que já conhecera. Ele não perdia tempo mesmo. Ela apreciava essa audácia, e mesmo sendo uma vampira, ela era mulher e tinha desejos. Mas ela não queria desejar nenhum homem.

Nenhum.

- Vamos voltar, preciso comer algo – disse Anastasia, querendo se livrar dos encantos de Henri Volmort.

- Tudo bem – respondeu Henri, tocando de leve seu ombro e soltando-o. Ele tentava se controlar diante do desejo ardente que sentia pela noiva de seu primo. A maldição parecia torná-lo cada vez mais instintivo e impulsivo.



***



Saulo levou Zenof até o escritório para que pudessem conversar. Lá parecia ser o lugar de todas as conversas importantes acontecerem.

- Você está muito diferente, Saulo – comentou Zenof.

- Diferente como?

- Parece mais seguro, mais forte, mais disposto.

- E realmente estou. Eu treinei inúmeras lutas, Zenof. Aprendi línguas, conheci culturas. Eu precisava disso, e me sinto um novo homem.

- Vai voltar a caçar? – indagou Zenof.

- Estou pensando na possibilidade, amigo.

- E quanto ao seu irmão? A decisão de treiná-lo ou não é sua. Sempre cabe ao mais velho, e como seu pai não está aqui, você que deve tomá-la.

- Entendo – respondeu Saulo. – Bom, isso teremos que ver. Preciso contá-lo uma coisa, Zenof.

- Diga.

- Você faz parte dos caçadores mestiços, isso é um fato – disse Saulo. Zenof assentiu. – Então, você sabe algo sobre os poderes que alguns dos Volmort adquirem?

- Sim, eu sei, Saulo. O Adrian me contou algo sobre seu primo Henri estar aqui na Mansão.

- Sim, ele está. Mas o que tem isso?

- Conheci o pai dele. Eu estava na operação em que o Gus se enfiou naquele prédio e acabou morrendo. Gus tinha poderes de soltar rajadas super-poderosas de laser pelas palmas das mãos. Ele morreu sem necessidade. As circunstâncias de sua morte são estranhas e não havia razão pra que ele se expusesse daquele jeito.

- Então, Zenof. Meu pai me contou, na noite em que foi morto, que o Adrian que possui os poderes, e que eles se manifestarão quando ele souber da existência dos vampiros – explicou Saulo.

- Isso é maravilhoso! Ele será um poderoso, Saulo. Será um ótimo caçador.

- Não é o momento, Zenof. Vamos esperar, por enquanto. Não sei quais serão esses poderes, ele está noivo e tem uma vida tranquila. É empresário, cuida dos negócios. Não sei como ele lidaria com essa descoberta, vamos aguardar.

- Se é assim que você deseja, tudo bem – concordou Zenof.

- E quanto ao Henri? Ele é filho único, por que nunca foi treinado?

- Não sei se devo te contar.

- Claro que deve, sou um caçador, não devo ser privado dos segredos.

- Então tudo bem – disse Zenof.

- Conte.

- Pela maldição. A maioria dos caçadores conhece essa história, e está na hora de você saber, mas guarde sigilo.

- Claro, sempre.

- Um dos caçadores teve uma visão há muito tempo. Ele viu que o filho de Gus não poderia ser treinado, devido a uma maldição que ele mesmo adquiriria. Ninguém sabe o que é.

- Existem caçadores que podem prever o futuro? – indagou Saulo.

- No momento não. Existem alguns poucos com poderes aqui na Europa e na América, primos distantes de vocês, mas nenhum com um poder tão relevante.

- Entendo.

- Bom, tenho que ver o Adrian na empresa – anunciou Zenof.

Saulo conduziu Zenof e no caminho eles cruzaram com Henri e Anastasia, que pararam de andar ao vê-los.

- Henri? Como você cresceu – disse Zenof.

- Zenof? Você não envelhece não? – brincou Henri, sempre com seu bom humor.

- Esta é a noiva de Adrian, Zenof. Acho que ainda não a conhece, ela se chama Anastasia Vilanes. Anastasia este é Zenof, um amigo da família – disse Saulo.

- Muito prazer – disseram os dois apresentados.

Eles trocaram um aperto de mãos.

- Eu vou subir, com licença – falou Anastasia.

A mulher atraente subiu as escadas e Henri foi se sentar no sofá da sala.

- Bom te ver, Zenof! – disse Henri.

- Também.

- Bom trabalho, Zenof.

- Eu conheço essa moça de algum lugar.

- A Anastasia? – indagou Saulo.

- Sim, ela mesma. Se eu lembrar, te falo – respondeu Zenof.

- Tudo bem.

Zenof entrou no seu carro e partiu rumo a empresa da Família Volmort. Saulo foi até Henri, que sentado no sofá da sala, mexia no celular.

- Henri, você enlouqueceu?

- Do que você está falando, Saulo?

- Você mal chegou e já está dando em cima da noiva do Adrian – disse Saulo perplexo.

- Eu não estou fazendo isso, eu apenas quis ser educado e me ofereci para caminhar com ela, não interprete as coisas errado.

- Eu percebi o seu olhar. Aquele olhar de lobo querendo devorar a presa.

- Você está viajando, Saulo.

- Não minta pra mim, Henri, você está tentando atrair a Anastasia! – gritou Saulo.

- Não estou!

Henri começou a ficar vermelho e Saulo percebeu enquanto um de seus olhos faiscava como uma fogueira. Uma de suas mãos tremia nervosamente apoiada num dos braços do sofá de couro italiano.

- O que está havendo com você? – indagou Saulo, observando o primo.

Henri se levantou do sofá e agora seus dois olhos estavam vermelhos.

- Você me irritou! Por quê?! – berrou Henri, colocando as suas mãos em volta da cabeça.

Anastasia ouviu a discussão e se escondeu observando tudo do segundo andar.

- Henri, tente se acalmar!

Henri se jogou no chão e começou a berrar. Os olhos vermelhos brilhavam e suas mãos tremiam convulsivamente. Saulo se aproximou e tentou segurar o primo, que o empurrou e o jogou de encontro a uma mesinha que se espatifou, se quebrando como isopor. Saulo engatinhou no chão, tentando ir de encontro ao primo, que atordoado e com os olhos mudando de cor, tentava se segurar em algo para manter o equilíbrio.

- Henri, o que você é? – gritou Saulo.


Saulo pode perceber enquanto enormes caninos cresciam em Henri. O tom da pele passou de vermelha para amarronzada e seus braços começaram a se retorcer, parecendo mudar de tamanho. Os nervos e músculos pareciam se comprimir e mudar de tamanho e posição. Os pêlos dos braços se eriçaram e pêlos longos e castanhos começaram a crescer em todo o corpo de Henri. Com as garras que cresceram no lugar das unhas, o homem rasgou toda a sua roupa e jogou-a no chão. No lugar de seu rosto, se via um enorme focinho de lobo e orelhas pontudas. Uma pelagem cobria todo o seu corpo enorme e animalesco. Os olhos já estavam totalmente vermelhos e ele duas vezes maior. Uma fera se erguia no meio da sala de entrada dos Volmort.

Saulo não podia acreditar.

Henri era um Lobisomem. Essa era sua maldição.

Saulo nunca havia visto um lobisomem e não sabia o que fazer. Ele era caçador de vampiros e não de lobisomens. Anastasia observava tudo do segundo andar, quase prendendo a respiração. Em toda a sua vida, ela nunca havia visto um lobisomem, e a fama deles entre os vampiros era a mais aterrorizante possível.

O Lobisomem se levantou e mostrou os dentes pontiagudos para Saulo, rosnando raivosamente.

Não havia saída para o caçador.

A fera estava se aproximando.

Seria o fim de Saulo Volmort?



Continua...
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