Último Capítulo
Sedução
Capítulo 22
1
- Meu pai Mikael, eu quero saber tudo, agora! – meus gritos ecoavam pela sala.
- Como está a mãe dela? – escutei Vic sussurrando para um dos irmãos gêmeos.
- Está bem – disse ele de volta – mas quando percebemos o que estava se passando  por aqui, resolvemos adiar o seu despertar, é obviu.
- Eu quero que você me diga agora! – Mikael apesar de ser um anjo visivelmente fortíssimo, fechava os olhos em sinal de espanto a cada grito que eu dava – Chega de segredos e disfarces, eu preciso que me falem tudo o que é necessário.
- Amy. Seu pai está bem. Não precisa se preocupar – afirmou ele.
- Minha mãe disse-me que ele estava na Itália, eu fiquei preocupada. Ele realmente está lá?
- Sim, ele está. Foi para lá justamente para manter-se o mais longe possível de você durante esse período.
Quando li no livro que os anjos perdiam sua divindade através do pecado da carne, o obviu o que veio até mim de imediato.
Ele era mortal então, e isso me trouxe várias duvidas, assim como ler sobre os vampiros deixou-me altamente aturdida.
- Agora preciso que relaxe, ou não será possível declarar tudo aquilo que você quer saber – manifestou-se Mikael.
Sentei-me na poltrona mais próxima, afundando no estofado macio.
- Perguntas? Elas sempre ajudam a começar.
- Que tipo de vampiro é Sawlver?
Todos começaram a se entre olhar, provavelmente com indagações na cabeça como as do tipo “Ela procurou ler logo sobre isso?”.
- Ele é um Gangrel – pude sentir um silvo em minha mente.
- Pelo o que eu entendi isso é péssimo então – encarei o chão úmido da sala.
- Sim. Por isso preocupei-me logo em te entregar o colar.
- Se não o estivesse usando agora... Ele poderia estar aqui conosco. Não poderia? E nem sentiríamos sua presença.
- Exatamente. Os Gangrel são o pior tipo de vampiro, eles são os que mais se assemelham aos humanos, possuem uma capacidade de controle sobre o sangue enorme, conseguindo ficar até mesmo um mês inteiro sem se alimentar. E a metamorfose... Ele pode ser qualquer coisa, em qualquer lugar.
O forte arrepio percorreu meu corpo, alertando-me de mais esse detalhe.
- Por que sinto esses arrepios horríveis e dolorosos? – disse a ele, enquanto esfregava os braços.
- É o seu sangue. Uma reação natural eu diria, o seu corpo que é metade angélico se recusa a presença do dele.
- E mesmo assim, ainda fui capaz de ser seduzida. Todos os vampiros possuem o poder da Sedução?
- Nem todos. Os vampiros em si, para os humanos, assumem corpos sedutores, mas o poder... É preservado também somente aos Gangrel.
- Seria uma coincidência ter acabado me relacionando justamente com um do tipo? – as lágrimas desceram sobre minha face, minha vida estava passando de “terrível” para “impossível de se acreditar”.
- Eu temo que não – quem respondeu foi Vic, usando uma voz fácil e serena.
Ela se aproximou de mim e acariciou meus cabelos pondo-os para cima.
- Não chore Amy – aludiu ela – ele não vale as suas lágrimas.
Mikael desviou seu olhar para a porta de entrada, foi quase como dizer “tirem-me daqui, rápido”.
- Como eu pude ser tão tola... E... Estúpida! – esbravejei.
- Não é sua culpa Amy, você não escolheu nascer assim, não podia descobrir que Sawl era um vampiro e sair correndo dele. Nós éramos que deveríamos ter descoberto e cuidado de tudo.
- Eu estou me sentindo um brinquedo quebrado. Me tornei inútil.
- Jamais diga isso! – explodiu Mikael, sua voz entrou em um tom sério de advertência – Você tem um valor incalculável Amy, muito pelo contrario você se tornou uma mina de ouro para ele, assim como para nós, protegê-la nunca foi de tão fundamental importância como é agora.
As lágrimas continuava a molhar-me a face. Sentei no colo de Vic deixando minha cabeça encostada ao seu peito.
Silêncio!
- Anjos não tem coração?   
Mikael desvio seu olhar de volta para mim imediatamente. Senti até mesmo Vic dando um leve pulo em sinal de surpresa.
- Por que pergunta isso? – questionou ele.
- Não consigo ouvir o coração de Vic, e agora que tenho “super-ouvidos”, eu deveria até mesmo ouvi-lo melhor, certo?
Mikael deu uma guinada ao levantar-se de súbito e partiu em direção a cozinha, retornando com uma faca nas mãos.
- O que você vai fazer? – esbravejei, saindo do repouso do colo de Vic.
Ele ergueu a lâmina na altura do ombro e depois levantou a mão esquerda e desferiu um golpe contra si mesmo.
- NÃO! – berrei, assustada.
Mas nada aconteceu, não da forma como eu esperava.
A mão de Mikael exibia o corte feito pela faca, mas não havia sangue, nenhuma gota de sangue. E velozmente o corte foi de fechando, cicatrizando. 
- Anjos não possuem sangue, essa é nossa principal diferença aos vampiros. Sem sangue. Sem coração!
As palavras tinham um gosto amargo. Era quase como dizer ser incapaz de amar se fossem levadas em sentido figurado.
- Os vampiros também não! – disse Vic, deixando-me confusa.
- Vic? – Mikael fez uma cara de reprovação.
- Ué! É verdade! – ela olhava para os outros, buscando apoio em suas palavras – O coração dos vampiros também permanecem parados.
- Mas eu pude ouvir o coração daqueles dois... Eles...
- Não! Não! Não Amy – interrompeu ela – O coração deles permanecem parados, quando se transformam... Para atacar... É o único momento em  que o coração deles batem.
Meu rosto se contorceu em linhas de espanto, nojo e repugnância total.
- Eles são definitivamente monstros!
- Claro que são – afirmou Vic.
- Não tão monstros quanto não ter um coração – disse Mikael.
- Mas... O quê? – repudiou Vic – Você está defendendo eles? É isso mesmo ou eu já estou começando a ficar maluca?
- Acho que você se enturmou com os humanos demais Vic, sim já está ficando maluca. Eu não estou defendendo ninguém.
- Então o quê?
- Só não gosto de julgamentos.
- Eles não precisam de julgamentos. Estão eternamente condenados ao inferno mesmo.
- Todos devem ser julgados, por mais injustos que sejam.
- O.K. Não vou discutir sobre esse assunto com você agora.
- Ótimo – bradou Mikael.
- Certo! – falou Asta pela primeira vez durante todo o falatório – Isso foi estranho – retorquiu, olhando torto para Mikael que desviou o olhar de todos logo em seguida – mais perguntas garota?
- É claro que tenho!
- Então não perca tempo e as faça.
- O que nós vamos fazer agora? Como vai ficar a situação?
- O próximo passo é despertar sua mãe – disse Haymo.
- E fingir que nada está acontecendo? – tentei rebater.
- Precisamos sustentar a situação até que um antídoto seja desenvolvido para você, muitos acreditam que não haja  algo que possa alunar o efeito do veneno de um vampiro, mas nos estamos trabalhando com excelentes pessoas. Está tudo bem... Por enquanto – respondeu Asta.
- E até quando provavelmente terei que bancar a atriz e não sair de casa? Minha mãe vai suspeitar de alguma coisa, eu tenho certeza.
- Talvez você só precise contê-la até depois do natal, daí então acho que já devemos estar com o antídoto.
- O natal! – suspirei – E eu que pensava que teria um natal “comum” como não tenho a um bom tempo.

2

Os dias que se seguiram após meu aniversário foram os mais longos da minha vida.
Nunca um natal havia se tornado tão esperado por mim, ganhar presentes, ceia com a família e todos os demais costumes comuns da época, nada daquilo se fazia importante. A única coisa que me interessava era conseguir ficar livre de Sawlver.
Durante os dias que passei isolada dentro de casa, Mikael e os demais anjos ficavam vigiando-me ao longe. Espiando tudo o que acontecia.
Minha mãe estava desperta do sono profundo provocado pelo irmãos serafins, e agora permanecia com as memórias modificadas, ela não se lembrava de nada e tudo que importava para ela – o que me deixou até mesmo um pouco mais livre para passar mais tempo pensando e lendo o livro enorme da biblioteca – era a pequena ceia que estava a preparar para o natal.
- Sua tia Meg e suas primas estão chegando, os quartos de hospedes estão prontos? – gritava ela da cozinha, enquanto eu permanecia trancada em meu quarto.
- Sim. Está tudo pronto – a ideia de ter minhas primas histéricas por perto em um momento como esse me causava arrepios.
- Ótimo querida – continuava a falar aos berros – vou fazer algumas compras e já retorno – afirmou.
Pude ouvir seus passos na cozinha, o momento em que pegou a chave sobre o balcão, quando saiu da casa e ligou o carro.
Meus dons nephilim só aumentavam a cada dia.
Minha audição era incrível, as perspectivas que existiriam de usar óculos futuramente foram todas para o brejo.
Os nephilim – observei – não eram devidamente rápidos como anjos ou os vampiros, porém éramos bem fortes tanto quanto um deles.
O livro enorme – “A Hierarquia dos Anjos” – estava quase todo lido. Foram dias e noites de leitura constante e agora, mais da metade do volume já tinha sido assimilada por mim.
Troc!
Escutei o som da porta abrindo e antes que pensasse em analisar quem séria, vejo Mikael na porta de meu quarto.
- Sua mãe foi fazer compras novamente? – perguntou ele, escorando-se a porta do quarto e exibindo o conhecido sorriso de deboche.
- Sim – afirmei, tímida.
- Ela parece ter um dom para isso – ele caminhou em direção a minha cama enquanto falava.
Puxei o marcador de textos rosa que estava ao meu lado e fechei o livro certificando que a página estaria marcada.
- Por que veio aqui? – quis saber.
- Saber como você está ué! Minha função é protegê-la, você sabe disso – ele sentou ao meu lado e ficou me encarando.
- Posso fazer uma pergunta?
- Todas que você quiser.
- Quando nós estávamos juntos... Você... Sempre de alguma forma parecia querer me evitar. Quer dizer – tentei explicar – eu era bem assanhadinha naquela época e você... Você...
- Você quer saber se um dos motivos pelos quais me afastei de você foi estar namorando contigo?
- É... Não... Quer dizer. Mikael!Eu – o chão parecia me faltar, era complicada a pergunta que estava prestes a fazer – queria saber – dei uma nova pausa, as mãos subiram a cabeça como se eu buscasse um apoio dentro de mim mesma, os olhos dele ansiosos pelo o que estava por vir – se você me deixou também por medo de que em algum momento a gente é... Que nós...
- Acabássemos transando? – ele foi direto ao ponto.
Meu rosto ficou vermelho e olhei para o lado tentando disfarçar.
- É isso? – perguntou ele novamente.
- Sim! – disse, constrangida.
- Devo admitir que essa é uma questão complicada, mas para ser sincero e espero que você acredite em mim – ele cravou os seus olhos azuis nos meus – na época, em meio a tudo, todos os problemas, esse nunca chegou a ser um dos motivos para separar de você.
- Mas, e se acabasse acontecendo? Mikael, eu...
- Seria uma das melhores coisas da minha vida, poder ficar com você de uma forma “correta”, estaríamos mais próximos um do outro, envelheceríamos juntos.
- Você tem certeza disso?
- A única coisa ruim que vejo nisso, é que não poderia mais lhe proteger como antes. Só apenas isso.
Desviei meu olhar para baixo.
Ele buscou se aproximar mais de mim, pôs suas mãos em meus cabelos e acariciou-os, desceu os dedos até a linha do meu maxilar e ergueu minha cabeça para que o encarasse novamente.
Sua face estava bem próxima a minha. Podia sentir sua respiração sobre minha pele.
Ele começou a se aproximar mais, até que eu pudesse sentir o cheiro do perfume de rosas de suas asas escondidas por debaixo da pele.
- Eu te amo Amy – a frase parecia tão comum, tão citada e recitada em filmes, séries e livros. Mas havia meu nome nela, uma definição, eu sabia... Podia sentir o valor que aquelas palavras possuíam saindo da boca de Mikael.
“Eu te amo Amy” – resoou em minha mente. Eu também podia sentir eu o amava, e não precisava falar isso novamente.
Meus braços percorrem por cima de seus ombros e suas mãos encontraram minha cintura. Nossos lábios se uniram mais uma vez para mostrar como o amor pode resistir a tudo e a todas as provações quando se é verdadeiro.
Uma onda fria pareceu deixar meu corpo mole, como uma marionete minhas mãos tentavam inutilmente a ele. Meu coração diminuía o ritmo e as coisas ao redor pareciam sumir.
Diferente do beijo do vampiro que parecia me incendiar, o beijo de Mikael entregava-me ao delírio por liberdade.  Me sentia segura, capaz de pulas de um desfiladeiro sem ter medo de atingir o chão. Estava presa entre seus braços mas era como se estivesse correndo livremente, e amando-o.
Ele chegou mais próximo quase derrubando-me sobre a cama. Tomei forças para voltar a realidade e evitar aquilo, pus uma mão sobre seu peito e afastei-o de mim.
- É melhor pararmos por aqui – retruquei.
- Desculpe-me – disse ele – fiquei um pouco sem controle.
Do lado de fora uma buzina soava frenética.
O cheiro de perfume Frances veio até mim.
- Minha tia Meg – disse, e em seguida percebi também o desagradável – e minhas primas, arg!
- Acho que deve ir recebê-las não é isso?
- Sim! – afirmei sorrindo.
- O que vocês planejaram para hoje a noite?
- Vai me dizer que você não ouviu?
- Não exatamente – e ali estava o sorriso novamente.
- O.K. – revirei os olhos para mostrar que aquilo não tinha “colado” muito bem – vamos à missa na Catedral de St. Ann aqui perto antes da ceia. Só isso. Depois estaremos todos de volta para casa.
- Um natal bem feminino pelo visto!
- Hurum – articulei.
- Está certo – ele passou a mão sobre meus cabelos de novo – terei que passar o resto do dia fora para ir atrás do seu antídoto, mas Vic, Asta e os gêmeos estarão por perto sempre.  Tome cuidado! – advertiu.
- Está bem!
Ele me deu um beijo rápido e desapareceu do meu quarto.
Eu podia sentir que aquele dia prometia muito.

3

Ao redor da pirâmide de velas em uma das laterais da catedral, eu e minha mãe orávamos silenciosas assim como os demais.
Minha Tia e minhas primas permaneciam sentadas em um dos bancos próximos.
Ao julgar como minhas primas eram, elas até tinham mudado bastante desde nosso ultimo encontro no natal passado ainda na Flórida, tinham ficado mais dóceis e compassíveis, porem ainda apresentavam o jeito esnobe delas.
Desde o incidente com os vampiros em minha casa, o colar com a verbena nunca mais tinha saído do meu pescoço, até mesmo durante o banho eu evitava tira-lo.  
Uma mulher começou a falar ao microfone, a celebração estava prestes a começar, as pessoas voltavam para seus devidos acentos e entorno de quinze minutos depois de sucessivas falas ao microfone, o padre seguido pelos demais celebrantes entram na capela.
“In nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen!” – disse o padre, iniciando.
A Santa Missa teve inicio e pelo que notei, havia sido a primeira missa em uma boa quantidade de tempo em que eu assistia novamente. E por sinal estava muito boa.
As luzes amarelas que pendiam dos candelabros eram como estrelas fumegantes, o altar era imenso e rico em detalhes.
De repente minha visão ficou turva, as luzes dos candelabros pareciam dançar no teto, senti-me enjoada.
- Mãe – chamei baixinho.
- Sim Amy.
- Preciso ir lá fora, estou me sentindo um pouco enjoada.
- Chame uma de suas primas, não vá só.
- Não! Não! Não quero interrompe-las.
- Volte logo querida.
- Sim, assim que melhorar.
Caminhei pela lateral da capela apoiando-me nas colunas até estar do lado de fora.
O vento frio soprava cortante. Pela primeira vez era noite de natal e não havia caído ainda um floco de neve sequer, mas com aquele tempo era provável que isso logo se fizesse.
Caminhei até um banco próximo no lado direito da catedral, seguindo a rua em direção a minha casa.
Tive a grande sensação de arrependimento ao sentar no banco, minha cabeça ficou baixa, a tontura aumentou e o vomito veio involuntariamente.
Quando me ergui novamente, o mundo apagou. Tudo ficou escuro.

4

Os vultos disformes percorriam ao meu redor, gigantes imensos eram as formas que eu via através da vista turva. O chão parecia não existir.
Um apito soa em meus ouvidos, agudo e doloroso, e vai diminuindo. Conforme o som diminuía minha visão ia voltando ao normal, até que pude identificar o lugar onde estava.
“DeulpikFillds” – Era o parque de diversão que Sawl havia me levado quando nos conhecemos.
“Mas o quê eu estava fazendo ali?”
De repente escuto um estrondo no ar, o parque permanecia inativo, com todas sua luzes apagadas se revela de repente.
Todas as máquinas, luzes e brinquedos começam a funcionar, pessoas começam a aparecer e eu me vejo vestida exatamente como no dia em que fui ali a primeira vez.
Ao meu lado aparece Sawlver, trajando calça jeans escura, e uma camiseta branca que estava envolta por um casaco azul-escuro – também da mesma forma como naquele dia.
- Eu disse a você que um dia voltaríamos para dar aquela volta. Lembra?
- Eu não a lugar nenhum com você, seu estúpido idiota, você vai pagar por tudo o que fez a mim.
- Ora vamos, mas o que é isto. A grande Montanha Russa nos espera.
Ele deu um sorriso sarcástico, Sawl não conseguia mais ser sedutor com palavras, olhares ou toques, tudo o que lhe restava era a minha mente, então ele tentava implantar prazer em cada cena posta em minha mente.
- Vá para o inferno! – ordenei, tentando ser firme.
- Eu vou, mas levarei você junto.
O chão se tornou fumaça como tudo ao meu redor em um átimo.
E quando a paisagem voltou a se formar ao meu redor, eu estava sentada no banco da Montanha Russa com Sawl ao meu lado.
 - Me tire daqui seu canalha, agora! – eu não conseguia mover as mãos, estava imobilizada de alguma forma.
- É só apenas uma “role” não fique assim, será tudo bem rápido.
- Sawlver! Me liberte agora! – gritava.
- Isso não vai adiantar de nada – ele olhou para frente e a máquina começou a entrar em movimento.
- Sawlver! – comecei a berrar ainda mais alto – Socorro! Mikael! Vic! Socorro!
- Pode gritar – disse Sawl, falando ainda mais alto do que eu – eles não poderão lhe ajudar.
As lágrimas começaram a descer sobre minha face, minha garganta ardia pelos gritos. Tentei empenhar o máximo de força possível mas era como se não possuísse meus membros mais, estavam imóveis. Completamente imóveis.
O carro continuou a seguir até encontrar a descia a frente, foram quilômetros por hora de jorradas de vento.
Sawl gargalhava demoniacamente ao meu lado, e minhas lágrimas eram jogadas para trás como balas.
Foram seguidas subidas e descidas voltas e mais voltas, e quando olho para o lado ao perceber o silêncio, Sawl já não estava mais comigo, não ao meu lado, mas agora a minha frente.
Todo o tempo pareceu congelar em uma fração de segundo.
Tudo se movia lentamente, eu podia ver às mesmas lágrimas escorrendo do meu rosto e seguindo para o nada.
Sawlver permanecia a encarar-me cara a cara, uma nuvem de fumaça o rodeava.
- Venha para mim Amy, venha sentir o calor dos meus braços envolvendo o seu corpo, venha!
Meus braços ganharam movimento, mas eles não faziam o que eu queria, e sim o que ele queria.
Desceram na altura das travas de segurança do acento.
- Não! – berrei o mais alto que pude, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto banhavam-me por inteira.
Seus olhos se tornaram pura escuridão.
Fiquei com meus sentidos e pensamentos entorpecidos.
Estava mais uma vez a mercê de Sawlver Cristopen.
- Sim – disse, iludida.
- Venha para mim – dizia ele.
- Você está tão longe.
- Então chegue mais perto – pediu.
Soltei a trava de segurança do acento. Eu sabia que ele podia cuidar de mim.
- Perdoe-me Amy. Só quero que acredite que fiz isso por amor.
- Eu te amo.
- Eu sei que me ama. Queira você assumir isso ou não. Mas agora você será eternamente minha.
As lagrimas que escorriam delicadas ao vento aceleraram.
A máquina voltou ao movimento e eu também.
Meu grito foi a única coisa que pude me lembrar depois de despencar para a morte, voando direto para o solo, batendo nas grades de ferro da estrutura da montanha, vendo a lua por detrás das nuvens carregadas e círculos rápidos.
Um “Não” estupendo rompeu o espaço.
Os sentidos do meu corpo se desligavam, nem mesmo um nephilim sobreviveria a uma queda daquelas.
Porém não encontrei o chão, não provei o sabor da terra.
Morri nos braços de um anjo.
Foi na morte que encontrei a imortalidade.
De certa forma, eu poderia ser uma vampira. Mas estaria para sempre ao lado de Mikael, de agora em diante.
Se assim ele me aceitasse.

Epilogo
29 de Dezembro de 2010 – Flórida

O teto girava sem fim.
Meu corpo subia sobre o dele, nossos lábios se tocavam e nossos corpos se uniam.
Prazer era uma palavra infame para tentar explicar a sensação dada aos imortais sobre o sexo.
Ele agora podia ser meu, eu não era uma mortal, não era mais uma qualquer, o poder para mim  era como uma piscina onde podia me banhar.
Eu era uma vampira e até então talvez não tivesse sentido as necessidades de uma.
Tudo o que eu queria era estar com ele e ver o telhado girar sobre o sol caloroso da Flórida.
O resto do mundo podia explodir, que não perceberíamos o universo imensamente negro ao nosso redor.
Minhas pernas sobre as deles faziam sons sensuais, éramos como uma droga perfeita um para o outro.
Aquilo era viciante.
Senti um torpor subindo em mim, séria mais uma sensação maravilhosa daquelas?
NÃO.
DOR. Muita DOR.
Senti meu coração bater e minha respiração faltar.
- De novo não – disse Mikael, tirando-me dele – Amy!
Minha boca encheu-se de sangue, o líquido vinha a jorradas de dentro de mim.
- Amy, não desmaie, por favor.
Tentei segurar a pressão sobre minha pele, meu estomago, tudo se contraia em mim.
Até que o ar finalmente retornou.
- AH! Até que fim. Fique calma, respire.
- O que está acontecendo comigo? Alimentar. Eu preciso me alimentar.
- Não – berrou Mikael.
- O quê? – estranhei.
- Não pode!
- Mas como assim, eu preciso – corri até a geladeira, rápida como uma flecha, podia sentir o cheiro, e ali estava, bolsas de sangue tipo A+ - mais que delicia – pronunciei contente, mostrando os caninos enormes.
Suguei uma bolsa inteira.
DOR.
O torpor voltou e puis todo o sangue para fora.
- Mas o que está acontecendo? Mikael?
Ele me encarava de longe, havia perdido o brilho alegre de seus olhos.
- É o seu sangue.
- O quê?
- Ele está resistindo a transformação. Você ainda é em parte nephilim. Não vai conseguir se alimentar, seu corpo não vai permitir.
- Mas eu preciso me alimentar!
- Eu sei, estamos tentando encontrar uma saída. Mas no momento...
- No momento o quê? – não aguentava mais repetir os “o quê?”.
- Você se tornou uma bomba relógio.
- Você quer dizer que se eu não me...
- Alimentar.
- Mikael... – o silêncio foi assustador.
- Você pode morrer a qualquer momento.

fim
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