Capítulo 3 – Atração



Adrian conduziu Saulo até o escritório da Mansão, para falar a sós com o irmão. Depois de sete anos separados, os irmãos Volmort tinham muitas frases guardadas um para o outro. Anastasia, nome pelo qual Adaga atendia no seu disfarce, enquanto preparava sua armadilha, voltou para a sala depois de telefonar para umas das cabeças que arquitetara o plano maligno.

Saulo encarava Adrian e admirava o homem imponente e poderoso que ele havia se tornado.

- Então... O que você me diz? – indagou Adrian, esboçando um sorriso.

- Sobre? – disse Saulo, sentando-se numa das poltronas.

- No final das contas, eu fiz bem?

- Se eu tivesse que definir em uma palavra, seria orgulho – respondeu Saulo de modo sério.

Adrian sorriu e tudo pareceu se tornar leve naquele ambiente. Sem pressões, sem ressentimentos, sem culpas. Saulo sorriu também.

- Eu sempre quis ser como você – confessou Adrian.

- Atrapalhado? Inconsequente?

- Por que acha que é assim?

- Não salvei o nosso pai, e abandonei você para esquecer a minha própria dor. Fui egoísta, meu irmão.

- Não foi não. Eu te entendo, e até te culpei um pouco. Não foi o certo. Sei que deveríamos ter nos mantido juntos, mas passou. Vamos seguir em frente, Saulo – disse Adrian.

- Me perdoa – pediu Saulo.

- Não há o que perdoar, está tudo certo. Eu amadureci melhor sem você aqui. Foi bom, meu irmão – replicou Adrian.

Saulo se levantou e os irmãos Volmort se abraçaram. Havia tanto que Saulo queria dizer. Sobre os poderes, os vampiros, as caçadas.

Mas não era o momento.

O celular de Adrian tocou.

- Pode ser importante – justificou-se o caçula.

Saulo assentiu.

- Adrian Volmort – atendeu.

- Adri, aqui é o Henri.

- E aí, primo!

Era Henri, primo de Saulo e Adrian. Filho do tal tio Gus, que já havia morrido há muitos anos pelas mãos dos sugadores de sangue japoneses.

- Eu estou indo resolver alguns negócios perto da Mansão, referentes à minha empresa – disse Henri. – Serão alguns dias, umas poucas reuniões e apresentações. Estou fechando um grande negócio, teria algum problema se eu me hospedasse na Mansão?

- Claro que não, Henri. Venha sim! Não vai acreditar, o Saulo voltou.

- Mas que notícia maravilhosa – comentou o sempre educado Henri. – Eu chego amanhã de manhãzinha. Vou com meu Audi.

Assim como todos os membros da Família Volmort, Henri também era rico. Dono de uma empresa de investimentos, o primo de Adrian e Saulo era um jovem carismático e muito persistente, o que o tornava muito desejado entre as mulheres. Fazia parte do cobiçado time de solteiros requisitados da Família Volmort. Henri era elegante e sagaz.

Adrian desligou o telefone e comunicou a notícia ao irmão. A última vez que Saulo vira seu primo, deveria fazer quase 10 anos. Como Henri era um pouco mais velho que Adrian, ele ainda era um adolescente quando Saulo o vira.

- Será bom reencontrá-lo – disse Saulo.

- Eu e o Henri saímos muito quando eu alcancei a maioridade. Noites divertidíssimas, sempre conhecíamos belas mulheres – riu Adrian.

- O ruim é que você nunca saberá se foram atraídas pela beleza ou pelo dinheiro – ironizou Adrian.

- Isso não importa, não ligo pro que elas pensam. Bem, isso foi antes da Anastasia, agora o Henri sai sozinho. É bom que ele irá conhecê-la.

- Ou roubá-la de você – riu Saulo.

Ambos riram.



***



À noite, um jantar fino foi servido em homenagem a Saulo. Os três brindaram e Adrian fez um discurso, apenas para Saulo e Anastasia, o que o irmão mais velho julgava desnecessário. Era o velho gênio festeiro de Ben se manifestando em seu filho mais novo.

- E quanto a Zenof? – indagou Saulo.

- Volta amanhã, viajou pra resolver assuntos da empresa – disse Adrian, cortando sua carne.

- Entendo.

- O seu quarto continua do mesmo jeito, só que sem poeira – riu Adrian, colocando um pedaço de carne na boca.

Saulo deu um sorriso e Anastasia sorriu.

Depois do jantar, Saulo subiu para seu quarto e Adrian e Anastasia para o antigo salão de música, que agora era o quarto de Adrian, espaçoso e luxuoso.

- Vamos nos divertir – disse Adrian maliciosamente, entrando com a noiva no quarto.

Anastasia assentiu e lhe lançou um olhar sensual, enchendo duas taças de vinho e dando uma delas a Adrian, inserindo um pozinho suspeito na taça dele, sem que ele percebesse.

O homem desmaiou no segundo gole. Anastasia tirou suas roupas, trancou a porta do quarto e pulou pela janela do quarto, quase que flutuando sobre o ar.

A vampira correu numa velocidade sobre-humana para o bosque que circundava a Mansão dos Volmort. Entre as árvores, sob total escuridão, retirou as lentes e as guardou para que pudesse enxergar melhor. Depois, tirou o vestido, revelando uma roupa preta e colada ao corpo, cheia de acessórios e equipamentos.

Com um botão, Adaga ativou uma espécie de colete de jato que a impulsionou, fazendo-a pairar sobre o ar.

Depois de 20 minutos de um vôo veloz como jato, chegou a um pequeno castelo que se mantinha sobre uma colina. O castelo parecia abandonado e as árvores em volta dele o mantinham escondido.

Adaga bateu freneticamente quatro vezes no enorme portão de madeira, e ele foi aberto por um negro forte e de quase dois metros de altura. Era Sollomon, um vampiro africano de mais de 150 anos.

- Veio incomodar novamente o mestre? – disse o vampiro, numa voz cavernosa e assustadora.

- Vim trazer detalhes sobre a missão – rebateu Adaga, sem ser intimidada pelo gigante.

- Mestre, a vampira deseja vê-lo – gritou Sollomon.

O vampiro japonês se encontrava no pequeno ambiente. Era um dos cômodos do castelo despercebido. O velho usava um traje antigo japonês, cujas bainhas tocavam o chão. A vestimenta era púrpura e sua barba trançada chegava até sua cintura, quase ultrapassando a trança comprida de seu cabelo grisalho. O vampiro tinha mais de 600 anos. Ele se vestia de forma milenar, diferente do vampiro negro, que usava calça jeans, tênis, camiseta e óculos-escuro.

- Adaga, o que faz aqui? – indagou Mestre Nakamura, de forma plácida e branda.

- O primo deles, vai chegar amanhã. São três caçadores contra uma e não se esqueça que qualquer um deles pode ter poderes.

- Um caçador – corrigiu Nakamura.

- Como assim um? – indagou Adaga, perplexa. Ela estava com os cabelos negros soltos e os olhos vermelhos brilhantes.

- O seu noivo não sabe sobre nossa existência. Nunca obteve treinamento, nem sabe que vampiros existem – explicou o japonês.

- E o primo deles?

- O pai dele morreu há muito tempo, ele nunca foi treinado. Nenhum dos caçadores manifestou desejo de treiná-lo.

- Por quê?

- Um dos antigos caçadores da Família Volmort, com poderes de visão, teve uma visão do futuro sobre o filho do Gus, que é esse tal Henri que você fala – explicou Nakamura.

- Que visão?

- Que ele iria adquirir uma maldição sobre a vida dele e nunca poderia caçar.

- Está dizendo que ele pode ser um vampiro? – perguntou Adaga.

- Não necessariamente um vampiro.

- Tudo bem, mas e quanto ao filho mais velho do Ben?

- É com ele que você deve se preocupar. Não deixe que ele te reconheça – advertiu Nakamura.

- Entendi.

- Não se esqueça, Adaga. Se você hoje em dia pode circular a luz do dia, e possui calor no seu corpo, você deve isso a mim. E precisa pagar sua dívida com os Nakamura. Nós somos o futuro, e ele já começou.

Adaga lançou um olhar sério para Nakamura e ele continuou.

- Você precisa dessa vacina toda semana, e só nós podemos dá-la a você. As vantagens de ser uma agente de nossa organização são as maiores possíveis. Não queira regressar ao tempo que você vivia escondida da luz do Sol. Continue na sua missão, case-se com Adrian Volmort e consiga seu dinheiro. Você será muito recompensada caso obtenha êxito – disse Nakamura calmamente.

Adaga prestou uma continência irônica e se foi do castelo.

Depois dos 20 minutos de vôo, pousou no bosque e vestiu seu vestido novamente, colocando as lentes e planando de volta ao quarto de Adrian.

Deitou-se ao lado de seu falso noivo e permaneceu de olhos abertos até o amanhecer.

Vampiros nunca dormem mesmo.



***



O dia amanheceu em tons pastéis e entre aromas de um belo café da manhã. Adrian acordou um pouco zonzo e viu que dormia abraçado com Anastasia. A mulher se virou e encarou seu noivo. Ela estava com fome e se segurou pra não pular em seu pescoço e sugar todo o seu sangue.

- Eu não me lembro muito da noite anterior – queixou-se Adrian, ao ver-se apenas de cueca.

- Você bebeu muito uísque, mas até que fez um bom trabalho – mentiu Anastasia.

O empresário sorriu e se levantou para tomar café.

Ao descer as escadas, deu de cara com Saulo de pijama, indo tomar café.

- Só falta esses pijamas serem de coelhinhos – riu Adrian.

Saulo virou-se e o encarou com ironia.

- Só não estou de cueca em respeito a sua noiva. Eu sempre andei de cueca por aqui – disse Saulo, rindo.

- Sempre assustando os empregados – riu Adrian, vestindo seu robe e descendo as escadas. Anastasia vinha atrás, de cabelos soltos, short jeans, chinelo e uma camiseta branca. Estava simples e sensual, com aquele ar sedutor que sempre carregava.

O Audi deslizou na entrada da Mansão. O veículo era imponente, ousado e cheio de energia, não tanto quanto seu dono. O carro adentrou nos portões colossais da Mansão, freando sonoramente exatamente em frente à escada da entrada, fazendo os três fixarem o olhar nele, através da porta de madeira aberta.

- Exibido – disse Adrian entre os dentes.

Uma curiosidade interessante sobre Henri cresceu em Anastasia.

A porta do carro se abriu e de lá saiu o filho do tio Gus.

Alto e elegante, Henri usava um terno preto quase azul, gravata rosa listrada e óculos- escuro. Ele era branco, porém levemente bronzeado. Os cabelos castanhos estavam penteados para o lado e ele com certeza havia andado malhando. Um sorriso cínico e dominador preencheu a face de Henri Volmort ao ver seus primos.

- Nossa, eu fiquei muito mais bonito que vocês – riu o recém-chegado.

- Talvez depois de uma cirurgia plástica – riu Adrian.

- Gostava mais quando você se trancava no seu quarto para ler seus livros sobre fadas – zombou Saulo.

- Era mitologia – disse Henri. – E essa época já passou! Credo, Adrian! Corta esse cabelo de uma vez por todas, você vai se casar em breve! Não precisa ficar parecendo o Thor dos Vingadores – os três riram e Henri abraçou seus primos.

- Quanto tempo, hein – disse Henri para Saulo.

- Tempo demais.

- Henri, esta é minha noiva Anastasia Vilanes.

A vampira sensual entrou no campo de visão de Henri, e o homem confiante e exibido que estava ali desapareceu, dando lugar a um Henri sem palavras diante da bela visão que era Anastasia.

Os dois ficaram alguns instantes sem encarando, antes de Henri finalmente se aproximar e apertar sua mão doce.

Sutilmente, uma corrente estranha foi sentida pelos dois após o toque físico.

- Muito prazer – balbuciou o empresário.

- O prazer é meu – retribuiu Anastasia.

- Ficou sem palavras? – riu Adrian. – Eu disse que ela era linda de morrer!

- Vamos entrar – disse Saulo.

Henri seguiu Anastasia e os primos e entrou na Mansão.

Tomado de um desejo irreversível e totalmente atraído pela vampira, Henri decidiu que iria ter aquela mulher de qualquer maneira, e um instinto irracional e animal tomava conta de suas ações, planejando tudo a sua maneira.

Iria Henri resistir à atração que o invadira e não se aproximar da vampira?

Qual seria a maldição dele?

Continua...

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