Capítulo 2 – Sanguinária e cruel







Não houve nada que Zenof ou Saulo puderam fazer. Ben já não respirava. Com todo o seu sangue sugado pela vampira conhecida como Adaga, a missão foi abortada por Zenof, que estava inconsolável. Saulo se jogou no chão do apartamento e segurou seu pai nos braços, enquanto as lágrimas caíam sobre ele. Ele era um caçador, deveria ser forte, mas acabara de perder o seu mestre, o seu guia, o seu querido e corajoso pai.


- Eu vou atrás dela – anunciou Zenof. 


Eles ainda se encontravam no ambiente da tal festa eletrônica e ninguém nem ao menos dava atenção aos caçadores. Melhor assim.


- Não, Zenof. Meu pai acabou de morrer.


- Por isso mesmo!


- Vamos deixar para pegá-la em outra ocasião. Agora só restam eu e meu irmão, preciso cuidar dele.


- Mas sou eu que vou atrás de vampira! – rebateu Zenof.


- Não vá, Zenof! Você também é importante, precisará nos ajudar agora que meu pai se foi – Saulo se abaixou sobre o corpo do pai e voltou a chorar.


- Vamos levá-lo então – disse Zenof solenemente.


O caçador mestiço debruçou-se sobre o velho caçador e o carregou em seus braços. Ele e Saulo saltaram da janela do apartamento usando as botas de propulsão, e em minutos caminhavam pelas ruas de Moscou, indo em direção ao terreno onde Zenof havia pousado o helicóptero dos caçadores.


Zenof colocou Ben atrás, junto com Saulo, que o manteve em seus braços, e ele guiou o helicóptero até um mini-aeroporto particular dos Volmort, de onde pegaram um avião até a Mansão Volmort, situada entre dois países europeus.


O avião pousou no gigantesco terreno dos Volmort, e o corpo de Ben foi deixado dentro do veículo, enquanto Zenof fazia ligações e preparava tudo para o enterro no dia seguinte. O coração de Saulo se dilacerava.


Adrian percebeu toda a movimentação e levantou de sua cama. Viu o avião parado no jardim colossal e resolveu ir ver o que estava acontecendo. Ele tinha cabelos loiros, levemente compridos e olhos amendoados. Com 16 anos ainda, o adolescente confuso sentia um pressentimento ruim em seu peito.


- O que aconteceu? – gritou Adrian para seu irmão, que aflito rodava em círculos sobre a grama.


Saulo encarou o irmão e seu olhar se perdeu, sem saber o que dizer.


- Saulo?!


- Adrian, precisamos conv...


- Me diga logo, Saulo!


- Bom, o papai – disse Saulo vagarosamente.


- O que tem ele?


- Ele foi atacado.


- Atacado?! – os olhos amendoados de Adrian ficaram arregalados.


- Sim.


- Como?


- Estávamos caçando na floresta, um leopardo o atacou – mentiu Saulo, pois Adrian não poderia saber a verdade.


- Por que você não o defendeu? Onde está ele?


- Estávamos separados. Cada um caçava numa extremidade.


- Onde está o papai? – indagou Adrian.


- Ele morreu, Adrian. Não resistiu.


Os olhos de Adrian se umedeceram e o chão pareceu fugir debaixo dos seus pés. Como uma sombra que se apossasse de seu corpo. Para Saulo, a mentira tinha funcionado bem. Adrian não poderia saber da existência dos vampiros. Era cedo para que seu poder se manifestasse.


Os dois irmãos se abraçaram.


No dia seguinte foi o enterro de Benjamin Volmort, pai do inteligente Saulo Volmort e do explosivo Adrian Volmort. Empresário bem-sucedido e rico do ramo das decorações e caçador de vampiros há mais de 30 anos. Entre os presentes no velório do caçador, estavam inúmeros membros da Família Volmort, caçadores mestiços de várias partes do mundo e centenas de funcionários de suas empresas, além de seus amigos íntimos. A cerimônia foi lotada e várias homenagens foram feitas. Os filhos resolveram não falar. Foi muito parecido com o enterro da mãe deles, há mais de 10 anos. Eles nunca souberam a causa da morte da mãe.


O enterro terminou e Adrian e Saulo voltaram para a Mansão, sendo levados por Zenof, que dirigia a BMW preta dos Volmort, entre as dezenas de carros de luxo que ficavam na garagem da família.


Zenof estacionou o carro e os três desceram.


- Entre Zenof – disse Saulo.


Adrian subiu para o seu quarto e os dois caçadores foram ao escritório enorme da Mansão, para conversarem.


- O que pretende fazer, Saulo?


- Eu não sei, Zenof. Não quero mais caçar.


- Mas e quanto à vampira?


- No momento não consigo pensar em vingança.


- Você vai abandonar a tradição de sua família? – indagou Zenof.


- Por um momento sim. Preciso que cuide de tudo.


- Cuidar de tudo? Você está pensando em se mandar?


- Eu quero viajar, Zenof. Treinar, meditar, conhecer o mundo. Adrian precisa de alguém que o guie. Ele é muito inteligente, e deverá comandar a empresa. Eu não sirvo para os negócios, amigo. Eu pretendo voltar a caçar em breve.


- Tudo bem, Saulo. Se é assim que você deseja – respondeu Zenof. – Eu trabalho na empresa há mais de 20 anos, mas no momento estou aqui como amigo. Eu posso ajudar seu irmão, sim.


- Obrigado, Zenof. Eu partirei semana que vem. Não sei quanto tempo ficarei fora, mas eu voltarei. 


Os dois se abraçaram e Saulo seguiu seu rumo, deixando os negócios da família nas mãos de Adrian e Zenof.






***






Sete anos se passaram.


Os sete anos correram rápido e a maioria das coisas correu como esperado.


Depois da partida de Saulo, Adrian foi treinado e preparado por Zenof para cuidar dos negócios da Família Volmort.


Ele cresceu e se tornou um homem poderoso, ambicioso e muito desejado pelas mulheres, por sua beleza e charme. Ainda usava os cabelos loiros grandes e rebeldes, num tom dourado e selvagem.


Saulo viajou por países europeus, asiáticos, africanos e americanos. Em sua jornada, aprendeu diversas línguas, formas de luta, de auto-defesa e de concentração. Estava cada dia mais forte. A viagem tinha sido mais demorada do que ele esperava e a cada novo país visitado, um novo cartão-postal chegava a Mansão dos Volmort, onde Adrian vivia, cercado de bajuladores e empregados.


Zenof basicamente tinha criado um monstro. Cada dia com mais desejos e fome por poder, o Império dos Volmort crescia com voracidade e sem limites, devido ao empreendedorismo assustador de Adrian, que era considerado uma celebridade.


Num dia de outono, um último cartão-postal chegou à Mansão. 


Saulo iria retornar para seu lar.


- Olha só Zenof! – bradou Adrian indo de encontro a Zenof, na sala de estar da Mansão. Ele vestia um terno elegante e se preparava pra ir à empresa.


- Diga, Adrian – disse Zenof. Alguns fios de cabelo grisalhos se misturavam a cabeleira negra do caçador mestiço.


- Chegou um postal do Saulo, ele disse que está voltando.


- Quando?


- Provavelmente amanhã. No mesmo dia que minha noiva virá pra cá.


Adrian era mulherengo, mas há alguns meses havia conhecido uma linda mulher. Abandonou a vida de galanteador e se dedicou a moça mais linda que ele já tinha visto. E estava totalmente apaixonado por ela.


- Interessante – comentou Zenof.


- O que foi?


- Coincidência.


- Vamos Zenof, vamos para a empresa.


Adrian teve um dia atarefado e estressante. Os negócios cresciam, sua fortuna se acumulava cada vez mais. A noite chegou e Adrian recebeu uma ligação de sua noiva. Ela chegaria no dia seguinte.


Anastasia desligou o telefone e foi dormir. No dia seguinte, um helicóptero enviado por Adrian, seu noivo, iria pegá-la no centro de sua cidade. Ela não dormiu.






***






Adrian acordou cedo e se preparou. Colocou um terno cinza e esperou sua noiva na frente da colossal Mansão Volmort. O casarão tinha três andares e era realmente gigantesco e imponente.


O carro azul-marinho chegou alguns instantes depois, e o motorista ajudou a moça de olhos castanhos a descer do veículo. Adrian foi de encontro a ela e beijou-a ardentemente na boca. Ela segurou em seus cabelos dourados com força e soltou um suspiro.


- Anastasia – disse ele nos ouvidos dela.


- Adrian, meu amor – respondeu ela.


- Como você está?


- Muito bem, melhor agora.


- Vamos entrar, meu bem.


O motorista carregou as malas de Anastasia e deixou-as no grande salão de entrada da Mansão. Adrian lhe deu uma gorjeta e ele saiu feliz.


- O meu irmão chega hoje, querida.


- O Saulo?


- Isso. Ele está viajando há tanto tempo, faz quase sete anos – disse Adrian.


- Quanto tempo – respondeu Anastasia surpresa.


- Eu o culpei um pouco pela morte do nosso pai, mas espero que isso passe. Afinal, já se passou muito tempo.


- É verdade.


Anastasia umedeceu os lábios e seu perfume veio até as narinas de Adrian. Um enorme desejo se apoderou dele e eles começaram a se beijar, ofegantes.


Um carro buzinou em frente à Mansão.


- É o Saulo – anunciou Adrian se levantando e correndo para a porta da frente.


Saulo saiu do táxi. Vestia um terno preto sem gravata. Estava com os cabelos castanhos desgrenhados e a barba por fazer. Estava sem óculos e havia mudado muito, estava muito mais forte e robusto. Mas Adrian também havia ganhado muitos músculos, maiores que os de Saulo.


- Caramba! – exclamou Saulo. – Você está um homem!


- O tempo passa irmãozinho – riu Adrian.


Os dois se abraçaram e perceberam o quanto estavam mudados.


- Eu não imaginaria. E os negócios? – indagou Saulo.


- Triplicar seria uma palavra pequena perto da grandiosidade do nosso Império. E as viagens?


- Definir como maravilhosas seria pouco.


Os dois riram.


- Vamos entrar, quero que conheça minha noiva – falou Adrian normalmente, como se tivesse sem ver o irmão há apenas algumas horas.


Os dois adentraram na Mansão e Saulo contemplou a bela imagem que era Anastasia Vilanes.


- Este é meu irmão Saulo. Saulo, esta é Anastasia, minha noiva – apresentou Adrian.


Saulo apertou a mão doce e macia de Anastasia, reparando em sua pele alva e seus cabelos pretos e lisos. Ela se vestia de forma elegante e sensual. E estranhamente, ele sentiu que a conhecia de algum lugar.


- Eu preciso falar com você, Saulo. Vamos até o escritório. Você não se importa, não é querida? – disse Adrian.


- Não, tudo bem – Anastasia sorriu.


Os dois se dirigiram para o escritório e Anastasia permaneceu sozinha na sala. A mulher correu para o banheiro e pegou o celular.


Depois de tirar as lentes e colocá-las sobre a pia, admirando-se com a própria imagem e revelando os olhos vermelhos, Anastasia discou alguns números e esperou.


- Alô?


- Sollomon, é a Adaga. Preciso falar com o Nakamura.


- Mestre Nakamura você quis dizer – respondeu Sollomon.


- Que seja – replicou Anastasia.


- Alô?


- Mestre Nakamura, o irmão dele acabou de chegar. Ele pode me reconhecer, esqueceu que eu matei o pai deles há alguns anos? Ben, o caçador.


- Continue sua missão, Adaga – respondeu o vampiro japonês. – Nós já gastamos meses nisso fazendo você conquistar o empresário, filho do Volmort. Não desperdice essa chance.


- Eu que o conquistei, eu gastei meses, não vocês.


- Não importa, continue a missão, você precisa se casar com esse milionário, precisamos desse dinheiro – replicou Nakamura.


- E essas lentes incomodam.


- Você já está usando-as há tempo suficiente. Não me incomode se não for algo importante. Adeus Adaga.


Nakamura desligou o telefone.


Era ela. A vampira sanguinária que matara Ben na noite da caçada. Era ela a noiva de Adrian, e Saulo não havia a reconhecido. E ela planejava algo terrível contra a Família de Caçadores. Seria o início do fim dos Volmort?




Continua...



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