Sedução
Capítulo 19
Great Falls, Montana 2010
1

“Passos apresados.
O túnel parecia não ter fim. Meu coração estava acelerado e aumentava mais a cada nova passada na correria.
O frio era assustador, o vento soprava e aquilo parecia rasgar minha pele. Eu estava com roupas muito curtas.
Alguém me perseguia. Quem?
De repente paro e tudo vêm a minha mente.
É um sonho.”

2

Meus olhos começavam a abrirem-se vagarosamente, adaptando-se as luzes fracas do ambiente, passara a noite inteira tendo repetidas vezes o sonho com Sawl, era como se ele estivesse implantado dentro da minha cabeça.
As formas distorciam-se ao meu redor, estava muito cansada, e mesmo tentando acordar o sono me puxava de volta ao ato de dormir, mas eu não queria, voltar a ter o mesmo sonho novamente, já seria insuportável demais.
Manchas loiras reluzentes vagavam a minha frente, tentei manter o foco, até conseguir vislumbrar os olhos azuis de Mikael cravados em minhas reações, seu cabelo havia perdido o tom negro e agora eram de um tom dourado como “ouro”.
- Mikael – tentei falar, resmungando. Era como se estivesse acabando de sair de uma batalha de vida ou morte em meio ao nada. Fui dormir com a intenção de descansar e tentar esquecer, e acabo me desgastando ainda mais.
 - Xiiu! – fez ele, com um dedo sobre os lábios, que em minha visão pareciam-me trêmulos.
Depois das revelações feitas no dia anterior, Vic e Asta simplesmente se recusaram a prosseguir com qualquer assunto que fosse, antes que Mikael pudesse retornar.
“ – Mas e se ele não conseguir se livrar de Sawl?” – perguntei a Vic posteriormente.
“ – Não se preocupe com isso” – retorquiu ela imediatamente.
“ – Como não devo criar preocupação? Nós saímos do colégio e ele estava debaixo de um enorme entulho de telhas, tijolos e...”
“ – Nós não podemos eliminar uns aos outros enquanto estivermos na Haled, somos imortais uns para os outros, podemos nos machucar, ferir-nos gravemente, mas matar... é impossível.
Um chumaço de cabelo cai a frente de meus olhos, tento apoiar-me na cama, ficar um pouco mais ereta sentada de frente para Mikael.
Eu talvez lhe devesse mais explicações do que ele para mim.
Coloquei o chumaço de cabelo para traz e tentei encara-lo por alguns instantes, mas era algo complicado, sentia vergonha, sentia-me fraca e indefesa, uma presa fácil. 
- Está tudo bem com você? Teve perturbações durante toda a noite – questionou.
- Tive sonhos repetidos com Sawl, era como sonha estar delirando sendo que, eu estava em delírio de verdade.
- Deve ser efeito do veneno.
“Veneno” – aquela palavra cravou-se em minha garganta que ardeu ao local da mordida sugadora.
- Veneno? Mas, que veneno?
- Há muitas coisas para serem explicadas Amy, sua vida era uma caixa de presentes surpresa, onde você poderia girar a maçaneta e sair dela um palhaço, ou, uma bruxa para lhe assustar. Sinceramente durante tudo o que você viveu, me parece que os personagens foram sendo trocados a cada dia, e hoje você pode rodar e encontrar um anjo, ou se deparar com um demônio.
- Eu preciso saber Mikael, não suporto mais esse suspense ao meu redor, minha vida não é nenhum joginho ou filme de terror, para aparecerem heróis e vilões a todo momento, do nada, e por isso simplesmente ficar.
- Amy – começou ele, em um tom de voz calmo, porem agonizante – você é filha de um anjo com uma mortal, há vinte anos atrás sua mãe conheceu Martir, um poderoso chefe dos esquadrões celestes que estava em missão na Haled, ele se deixou levar pelos desejos da carne, e com isso... – sua voz ia falhando aos poucos.
- E com isso eu acabei nascendo – sintetizei.
- Sim – afirmou ele – uma nephilim, se isso fosse a alguns séculos atrás, a ordem seria mata-la imediatamente, mas isso não ocorreu. Martir implorou aos arcanjos que não a eliminassem.
- E qual seria o motivo pelo qual eles iriam querer me eliminar?
- Se abrir esse livro – ele apontou para o grosso volume que havia pegado na biblioteca, que agora repousava no canto direito de minha cama – ele lhe dirá que os nephilim eram seres dotados de grande poder, e realmente são, porém que com esse poder e seu nível de inteligência elevado, eles desafiavam o poder dos arcanjos, e isso ameaçava a ordem na terra e a política celeste. Mas, a verdade é que, os nephilim eram seres que nasciam com uma alma muito poderosa, valendo centenas de milhares de vezes mais que uma alma humana.
Meus olhos acompanhavam os movimentos dos lábios de Mikael, hipnotizada, tentando absorver o máximo de informações possíveis, apesar de estar extremamente exausta.
- Por volta do século X antes de Cristo, surgiram os vampiros, obcecados em possuir almas e com isso ascender do inferno para a terra, começaram a vir em gigantescos grupos, até que algum deles acabou descobrindo o valor dos nephilim, e daí deu-se o inicio de uma caçada. Quantos mais nephilim mortos, mais demônios conseguiam cruzar os portais das dimensões. Os arcanjos não tiveram outra escolha a não ser eliminar todos os nephilim da face da terra.
“Desde então, sempre que um  nephilim aparecia, tínhamos a obrigação de mata-lo imediatamente. Pois, tornou-se de nosso conhecimento que mais uma morte nephilim potente seria suficiente para libertar todo o Sheol. O poder de um turbilhão de almas capaz de saciar todos, até mesmo a Lúcifer.”
- Mas se é algo tão grave, não consigo compreender o por que me manteriam viva, acredito que a interseção de meu pai por maior que fosse, não seria o suficiente para convencê-los a deixar-me viva.
- Isso – aludiu ele – exatamente. Mas, seu pai é descendente direto do Arcanjo Rafael, o que lhe garante um peso maior, e ele deu ao anjos uma proposta que seria considerável.
- Que proposta?
- Você viveria, na condição de que desde o seu primeiro suspiro você seria vigiada por um anjo especial, um anjo da guarda que estaria presente durante toda sua vida.
Olhei para ele, incrédula. Será que eu estava realmente pensando corretamente?
- Sim – disse ele, ao ver a dúvida em meus olhos – esse anjo sou eu.
Minha boca ficou entreaberta com ar se surpresa. Mikael me acompanhou por toda a minha vida.
- Sempre estive próximo de você, cuidando de você, lhe protegendo. Era a minha missão. Até que os arcanjos pediram para que houvesse uma maior integração, que uma aproximação mais efetiva fosse realizada, pois sua maior idade estava próxima, e quando a atingisse, você deveria saber toda a verdade e aprender tudo o que tinha para aprender.
“Não se frustre achando que era uma enganada, você iria saber a verdade, mas dentro de seu prazo correto, antes disso, seria uma heresia. Pois, a história lhe caberia como loucura, e a partir de então nosso contato ficaria mais distante e incompleto.”
“O problema foi quando ao tentar me aproximar mais de você, acabei me apaixonando e deixando os princípios de minha missão de lado para poder se deixar levar pelos desejos e ânsias do amor.”
“Quando percebi que isso estava fugindo de meu controle, e que comprometeria não só apenas a missão, mas você de forma direta, fiz o que fiz, e afastei-me, foi então onde Vic veio para me substituir no papel de vigia-la de perto.”
“Desde então eu me mantinha distante, observando como antes, mantendo-me como uma sombra.”
- Vic veio para substituí-lo?
- Sim. Apesar de achar uma escolha num tanto precipitada, pois Vic não possuía o nível de experiência que eu, alias o dela é bem inferior.
- AH! Meu Deus! – exclamei, surpresa. As informações tentavam fixar-se em minha mente conturbada.
- Quando seu aniversário de dezoitos anos se aproximou, eu tomei a intenção de tentar uma reaproximação, pois, você necessitaria de todo apoio e proteção possível nesse momento.
- Mikael – o nome dele pareceu despencar de minha boca – desculpe-me, eu...
- Não tem o que se desculpar, você estava sobre o efeito de sedução de um vampiro, você jamais me escutaria, nem a mim nem a ninguém. E eu que fui o mais tolo, por demorar tanto para descobrir que Sawl era um demônio apossado de um corpo humano.
- Você não poderia simplesmente sentir?
- Não, não conseguimos identificar uns aos outros. Somos bloqueados.
- E como ele conseguiu descobrir que eu era um nephilim?
- O porque de ele estar lhe mantendo em controle é algo que ainda estou raciocinando para tentar entender, mas ele só descobriu que você era uma nephilim ontem, seu cheiro, o poder de sua presença a denunciou.
- Mas então seu ataque falhou, ele não me matou. Pelos menos não na primeira tentativa.
- Errado, ele conseguiu o que queria.
- E o que era?
- Injetar o veneno dele em você.   
- Mas e agora o que? Ele irá fazer como em uma dessas séries de vampiros na TV, vai vir me matar enquanto o veneno ainda esta em mim e tornar-me uma morta-viva.
- Ele iniciou um ritual, o vampirismo não se passa assim tão simplesmente, isso é um artifício dos demônios, e não dos humanos, aqueles que são utilizados como alimento sempre morrem. Mas quando o vampiro resolve injetar seu veneno, é porque ele resolveu voltar ao inferno.
- Como assim voltar ao inferno?
- Uma vez que o veneno é injetado, só assim o vampiro pode transferir o vampirismo para um mortal, e só sob esta condição ele retorna ao Sheol.
- Então como eu disse, agora ele vai vir me matar.
- Não exatamente.
- Hã? – retorqui, incompreensiva.
- Para que o ritual se encerre ele não pode matar você, nem ele, nem ninguém, não diretamente... pelo menos...
- O que você quer dizer.
- Ele utilizará da sedução para que você morra da forma que o ritual requere.
- Que forma?
- Suicídio!




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