RENEGADOS

CAPÍTULO 6

Olhei para um lado e para outro. Vi que vinha berrante de um lado e de trás de mim. A minha frente tinha um muro bem alto, que dava para dentro do prédio. Um pouco mais ao lado pude ver uma porta de garagem e bem do lado, uma moto. Corri na direção da moto e atrás dela, bem caída, vi uma bicicleta. Pensei em montar nela, só que o tempo já era curto, os berrantes estavam vindo a poucos metros de distancia.
Quando eu ia começar a correr, a porta da garagem se abriu e um carro saiu em disparada de dentro dela, parando a centímetros de mim. Pelo susto, coloquei minhas mãos sobre o capô, olhei para dentro do carro. Um motorista de óculos escuros e cabelo jogado para trás, vestia seu terno de motorista. No banco de trás, pude ver o pai da Bia e ao lado dele, a própria Bia.
Quando ela me viu, seus olhos se encheram de lágrimas. Ela parecia pedir para que seu pai me deixasse entrar no carro. Ele gritou com ela, e ela começou a chorar. Implorava, batia no peito dele e ele apenas dizia não é um alto e grave berro, que dava para ouvir do lado de fora do carro. Em seguida ele tocou o ombro do motorista, que começou a acelerar o carro. Sai da frente e ele começou a seguir viagem. A Bia ficou olhando para mim da janela traseira. Chorando e socando o vidro do carro. Eu já nem sabia o que era perigo. Eu apenas queria dizer a ela que se acalmasse que tudo iria dar certo. De dentro do carro ela colocou uma de suas palmas no vidro, como se quisesse que eu colocasse a minha ali em cima da dela também. Automaticamente estiquei minha mão na direção dela, e então comecei a andar, e quando me dei conta, eu já estava correndo. Correndo atrás daquele carro que pegava uma reta sem nada para atrapalhar. O caminho estava limpo e livre para aquele carro que cada vez mais ganhava velocidade, e cada vez mais me deixava para trás.
Lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto e meu coração a bater forte. Minha mente criava um tipo de sonho, onde eu me encontrara com a Bia depois de toda essa tragédia e tocava a palma da mão dela com a minha. Nossos lábios nunca se tocaram, mas eu podia sentir isso como um tipo de miragem. Eu continuava correndo, correndo e correndo, até que no chão tinha algo que me fez tropeçar e cair.
Dali eu não queria mais levantar. Primeiro engatinhei e depois fui ficando de joelhos. Só então, quando o carro virou em alguma esquina distante, foi que olhei para trás. A rua era estreita, então dava a impressão de que era um exercito de berrante vindo atrás de mim, um colado no outro, trombando com o outro e empurrando um ao outro, mas na verdade devia ter quase vinte deles, pois alguns dos seguranças do pai da Bia deveria ter matado três ou quatro, por ai.
Eu me levantei e comecei a correr. Um berrante estava bem próximo de mim, que já conseguia me tocar. Ele tentava me acertar com um soco, e quando capava eu pulava para frente e chutava como um coice para trás. Outro conseguiu me tocar também e nesse, eu dei uma cotovelada. Mas o problema era que eles eram mais rápidos que eu. Por sorte tinha um 

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parque com uma gangorra nele. Passei pelo parque e quando cheguei à gangorra, pulei por cima dela e continuei a correr. Olhei rapidamente para trás e vi que alguns tropeçaram na gangorra e os outros, tropeçaram nos berrantes que caíram. Uns quatro ainda estavam na minha cola, e eu já não tinha mais ideia de como iria detê-los. O pior foi quando um berrante me puxou pela camisa, me atrasando e tirando um pouco da minha velocidade. Dei outra cotovelada e continuei a correr, mas me puxaram pela camisa outra vez, e então outro me pegou pelo braço e ai, eu já não via como correr. Virei para eles e comecei a atirar. Um, dois, três, quatro e...
- Merda! – Gritei quando minha última bala foi disparada.
Comecei a bater neles com a espingarda, mas não foi o suficiente, porque um voou em cima de mim, e quando cai, a espingarda escapou da minha mão. Soquei o rosto do berrante e logo em seguida senti um soco em cima do meu olho esquerdo. Fiquei um pouco tonto, mas pude ouvir barulho de tiro. O berrante que estava em cima de mim, caiu do meu lado com uma bala na cabeça. Eu estava querendo desmaiar, até que os tiros pararam e me senti sendo puxado. Segundos depois - eu acho - me levantaram e me levaram até um carro. Quando sentei no carro, eu simplesmente apaguei.
- Ele acordou! – Disse alguém que eu não consegui ver. Minha visão estava embaçada e meu olho esquerdo doía bastante. Deveria ser pelo soco que levei do berrante. Pude ouvir as balas assobiarem pelos meus ouvidos, pude ver que fui salvo. Mas então, como se estivesse rebobinando uma fita cassete, eu vi aquela cena voltar até aonde a Bia socava o vidro traseiro do carro de seu pai, chorando, implorando para que ele me salvasse. Para que salvasse o seu melhor amigo, e talvez, primeiro amor. Era o meu primeiro amor. Senti como se algo estivesse arranhando meu coração e a cada grito dela, era uma fisgada maior no peito. Eu berrava de tanta dor. Só então eu me lembrei de que fui salvo por alguém, mas eu não pude ver quem, mas eu precisava saber quem eram essas pessoas.
- Quem... - Disse, mas não pude completar, porque a ideia de como perguntar isso, não me vinha à cabeça.
- Você deve ser o Marcos, não é? – Perguntou algum homem com uma voz bem grossa.
- Sim, - Disse enquanto eu me sentava. Eu parecia estar em uma cama, mas ainda sentia uma grande dor no meu olho esquerdo que me fazia continuar com os dois olhos fechados. – sou eu.
- Que bom. – Disse esse homem se aproximando de mim. – Seu pai pediu para que eu buscasse você. Meu nome é Roberto.
- Sim... – Disse enquanto em seguida eu me calava e tocava com muito cuidado o meu olho.
- Seu olho está bem inchado, mas o outro não foi afetado. Um pouco de sono e você consegue ver alguma coisa a sua frente.
Uma mão delicada veio logo em seguida e ajudou a me deitar. Colocou um pano úmido com alguns gelos dentro. Eu não queria dormir com medo de sonhar com aquela cena outra vez.

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Não seria bom para mim, então forcei a ficar acordado, mas infelizmente, não consegui me manter assim por muito tempo.
Vi e revi aquela cena desesperadora acontecer novamente diante dos meus olhos, mas no sonho, eu corria até o carro e cada vez que eu o tocava, ele sumia. E só aparecia metros a minha frente. Bia continuava batendo no vidro traseiro, e então de repente, eu sentia alguém me puxando para trás. Cai, e vi um berrante socando meu rosto. Fiquei totalmente desnorteado, e apenas sentindo meu corpo se desfazer em meio a uma dor horrível. Ninguém veio me salvar. Ninguém foi me ajudar e eu continuei ali, sendo comida de berrante.
Acordei totalmente suado. Já conseguia ver alguma coisa com o meu olho direito, pois o esquerdo ainda estava ruim, mas não atrapalhava mais minha vista direita.

- Tome um pouco de água. – Ofereceu uma menina que aparentava ter a mesma idade que a minha só que com um jeito meigo que a fazia ficar mais nova a cada sorriso.
- Obrigado. – Falei e bebi a água rapidamente para supri minha cede que era grande. Meus lábios de rachados foi ao mais liso caminho que uma boca podia ter. Eu devolvi o copo, e ela perguntou se eu queria mais. Fiz que sim com a cabeça e então, mais um copo de água veio para mim. Ainda não estava satisfeito, eu queria mais, só que preferi não aceitar mais.
Ouvi um gemido do lado de fora e logo em seguida, como se fosse um novo reflexo ou instinto, eu pulei na frente da menina e peguei uma faca que tinha em cima de uma mesa. Coloquei a menina atrás de mim e fiquei esperando que algum berrante aparecesse.

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- Ei, calma! – Disse ela em um tom tranquilizador.
- Fique em silêncio, eles podem te ouvir. – Falei e então, a levei para trás da mesa e ficamos abaixados.
- Marcos, - Disse ela totalmente calma. O que era estranho. – não tem nenhum morto-vivo ai fora.
- Tem sim, não ouviu o barulho? Aquele gemido é um berrante.
- Não Marcos, é um amigo nosso que foi atacado por mortos-vivos e está muito ruim, gemendo de dor.
Quando ela me disse aquilo, a minha primeira reação foi ficar sem graça, pois fiz uma cena de filme de terror ali, e ela foi obrigada a encenar comigo. Só que era tudo errado, eu não estava pensando corretamente. Acho que viver com o perigo do lado me fez achar que qualquer coisa poderia ser um berrante, ou morto-vivo como ela denominou.
Nós nos levantamos e ela me olhando como se dissesse pra ficar tranquilo. Ela e eu caminhamos até a porta do quarto onde eu estava e pegamos um corredor, aonde chegamos a outro quarto, que era de onde vinham os gemidos. Ela abriu a porta devagar, e então foi examinar o homem que estava deitado, gemendo de dor e suando mais do que eu quando acordei. Ela olhou para mim com um olhar triste, parecia estar perdendo as esperanças ou não gostava de ver pessoas sofrendo daquele jeito. Eu já estava ficando triste com aquele momento. Eu me lembrava de possibilidades ruins, e isso não era bom.
- Ah, você já esta de pé! – Disse um homem atrás de mim.
Quando me virei, pude ver que era o Roberto. Ele me chamou para acompanha-lo até outra sala para comer. Ele me mostrou onde era o banheiro caso eu quisesse usar e onde eu poderia arrumar a minha comida. Arrumei minha comida e me sentei sozinho em uma mesa próxima a porta. Logo depois, ele veio e se juntou a mim.
- Seu pai me pediu que eu viesse te buscar como eu já havia dito dois dias atrás, - Falou Roberto, e então eu pensei. Dois dias? Dormindo? – ele quer que eu te leve até a cidade Alpina, que é para onde ele foi com Martinez.


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- E porque ele mesmo não veio me buscar?
- Bom Marcos, seu pai é um ótimo atirador e uma pessoa influente, apesar de nunca ter dito ou mostrado isso. Seu avô trabalhou em uma organização secreta, e o Martinez foi o aprendiz dele. Seu pai nunca quis entrar para o ramo, mas foi treinado juntamente com Martinez, e se tornou uma pessoa que sempre queríamos ver atuar como nosso funcionário.
- E o que isso tem haver comigo?
- Marcos, seu pai precisou ir, o motivo não me foi dado, mas eu tenho certeza de que ele foi porque era a melhor opção. Ele não te deixaria aqui com outras pessoas se não tivesse nada mais tão importante para fazer. E outra, ele confia na gente. Somos poucos, mas vamos logo chegar onde seu pai está.
Terminei de comer, realmente aquilo me caiu muito bem. Consegui tomar um banho, pois já fazia três ou quatro dias que eu não tomava um. Foi deixada uma roupa nova no quarto onde eu estava. Uma camisa branca e uma calça preta. O tênis era um simples, todo branco, o que não era uma boa ideia. Ia ficar suja rapidamente.

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Mais um dia se passou, já devia ter mais de uma semana que esse tormento havia começado. As coisas estavam piorando bastante e as boas notícias iam desaparecendo cada vez mais rápido. O nosso lar estava se acabando. Pessoas morrendo e matando, o mundo estava ganhando uma nova cara, e essa cara, era amedrontadora.
Deviam ser meio dia quando algo aconteceu. O homem que vivia gemendo, tinha parado de gemer. Isso não me incomodou no inicio, mas deveria ter se passado mais de uma hora que ele não gemia mais, e então comecei a ficar preocupado. Levantei de minha cama e fui até o quarto onde ele estava. Aquela menina estava em prantos, porém calada. Não berrava apenas se afogava em seu próprio choro. Ele estava com uma aparência horrível e com uma faca na cabeça. Justamente a faca que eu peguei para proteger ela quando achei que tinha um berrante por perto. Mas eu queria saber o motivo de ter acontecido aquilo, eu não sabia se ficava com medo da menina ou ia consola-la. Era uma decisão pela qual eu nunca havia passado.
A cabeça daquele homem tinha apenas um pouco de sangue. Não sei se ela já havia limpado, mas nem a cama onde ele esta tem sangue. Apenas uma bola, ensanguentado, que ficava envolta da faca. Olhei para fora do quarto e não vi ninguém chegando, pensei que ela tinha me ajudado a me recuperar então eu deveria fazer o mesmo por ela. Eu me ajoelhei ao lado dela e ajudei a se levantar. Ela ainda estava em prantos e fraca com isso. Eu a ajudei a sair daquele quarto, pois não era bom ela continuar ali, naquela situação.
- Se acalma, por favor! – Pedi a ela, pois eu já estava ficando desesperado.
Ela estava quase desequilibrando, e então eu a puxei e a abracei. Não sei se era o que ela precisava, mas eu sempre me senti mais seguro e mais forte com um abraço do meu pai. Eu não era o pai dela ou alguém que ela gostasse, mas devia servir pra algo. Ela chorou e chorou, até que ouvi o primeiro berro dela. Ela segurou por muito tempo, mas soltou grito bem alto que ecoou nos corredores daquele lugar. Ela se ajoelhou e eu junto a ela, fiquei ao lado dela até que alguém aparecesse. Vieram cinco pessoas. Duas mulheres e dois homens, nenhum deles eu havia visto antes. Um das mulheres entrou no quarto e quando viu, desmaiou. Por sorte, um dos homens estava ali pra segurar ela. Eu me levantei enquanto os que tinham chegado foram ajudar aquela menina. Eu não servia mais ali, então resolvi voltar ao meu quarto. Minutos depois eu só ouvi um disparo de tiro saindo de dentro daquele quarto, e em seguida, mais um grito sem fim daquela menina.
O tempo passou, o choro parou os gritos e gemidos daquele local, não parecia mais existir.
De manhã, fui acordado pelo Roberto.
- Marcos, nós vamos embora. Arrume suas coisas, trouxe uma mochila pra você, pegue o que achar necessário, roupas, comidas, água... O que quiser. – Disse Roberto. – Partimos daqui à uma hora.
Eu me levantei, ainda com sono, mas arrumei o que tinha que arrumar e em meia hora eu já estava pronto. Tinha um pastor no grupo, e ele pediu para que antes de sairmos, déssemos as mãos e orássemos. Assim foi feito. Ao meu lado estava a menina que perdeu alguém importante na noite anterior. Ela estava cheia de olheiras, com certeza não conseguiu pregar

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os olhos. E então o pastor começou a agradecer a Deus por ter nos deixado viver até então, e pediu a segurança dele para que chegássemos ao nosso destino a salvo.
Quando o pastor disse amém, todos se largaram, pegaram suas tralhas e começaram a andar. Passamos por várias portas, os cômodos não eram grandes, mas eram bastante. Até que nos subimos uma escada e vi que aquele lugar era um lugar conhecido para mim.
- Parece o galpão mestre... – Pensei alto.
- É ele mesmo. – Disse um dos homens que estava conosco.
Subimos toda a escadaria, e quando chegamos ao topo, saímos pela mesma porta que eu entrei pela primeira vez. Onde eu testei meus tiros com berrantes. Onde eu e meu pai, fizemos algo de pai e filho, pena que com berrantes, mas aquilo foi legal, porque eu estava com ele, só que agora, eu não estou mais.

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