RENEGADOS


CAPÍTULO 5


Quando acordei, havia uma arma apontada na minha cabeça. Na verdade, era a minha arma. A espingarda que meu pai me deu, estava prestes a acertar minha cabeça. Pensar que ali seria meu fim estava fácil. Surpreendente era não morrer naquela situação.
- Ainda bem que acordou, - disse o homem da foto. Ele era alto e antes poderia ter sido forte, mas agora, é velho e toda a sua antiga massa muscular está caída, está frouxa. – precisamos conversar sério.
- Ei, pai! – disse a menina da foto, aquela criança que agora, era uma mulher. – Pare com isso, assim você vai assustar o garoto. – comentou pegando a arma da mão do pai dela, e me ajudando a me levantar.
- Obrigado. – disse eu.
- Nada não. – disse ela tentando mostrar que eu podia confiar nela. – Olhe, não ligue para o meu pai não. Ele sofreu muito com a perda da minha mãe e agora está assim, não confia em ninguém mais.
- Acho que até entendo ele. Ver sua esposa sendo devorada por um berrante deve... – Droga, que indelicado que fui. Como assim “Ver sua esposa sendo devorada por um berrante...”, isso não é coisa que se faz há uma família que perdeu um ente querido.
- Não, não, isso não seria tão ruim como foi. Meu pai não acredita nas pessoas porque ele ajudou um rapaz quando o primeiro berrante apareceu, e esse mesmo rapaz que foi ajudado pelo meu pai, matou minha mãe... Por nada! – Disse a menina da foto que estava quase chorando.
- Ei, calma, calma! – Disse abraçando ela. – Fique tranquila que não sou como esse monstro.
- Ai meu Deus, me desculpe! – Disse ela secando as lágrimas e se soltando de mim. – Olhe, esqueça o que eu disse agora. – Disse sorrindo.
- Ah, claro.
- Prazer, meu nome é Karen. – Disse ela estendendo a mão para mim.

- Marcos! – Respondi apertando a mão dela instantaneamente.


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Ela me serviu um pão passado na manteiga e um copo de café. Eu não era fã de café, mas do jeito que as coisas andavam, era preferível aproveitar cada coisa que se recebesse. O pai dela parecia mais tranquilo, porém, não me mostrava um sorriso. Apenas fazia que sim ou que não com a cabeça, mas fora isso não se mostrava um problema. Terminei de tomar café e então o pai da Karen, o senhor Josias pela primeira vez, conversou comigo.
- Você quase nos matou ontem, você sabia? – Disse ele me olhando com um ar desafiante.
- É, acho que sim.
- O que pensou que iria fazer com uma espingarda em uma noite no Subúrbio? – Perguntou o senhor Josias.
- Não sei, eu...
- Se você atirasse você poderia até matar o que estava na sua frente, mas ia ser morto pelas centenas que viriam atrás de você, por causa do barulho que o SEU tiro ia causar! – Disse o senhor Josias, se levantando lentamente de sua cadeira e indo para fora do barraco.
- Droga, como eu não pensei nisto? – Me perguntei em um sussurro.
Era uma incrível verdade o que o senhor Josias havia me dito. Não seria difícil matar o berrante que estava me ameaçando, mas o barulho do meu tiro ia atrair os outros berrantes até mim, ocasionalmente, me matando. Já era claro, na verdade, pela força do sol, deveria ser umas dez horas da manhã. Dormi bastante pelo visto. Sai do barraco e o lado de fora estava tranquilo. Pessoas andando pela rua, de um lado para o outro, como em um dia qualquer. Ok eram pouquíssimas pessoas, mas já era alguma coisa. Não vou dizer que eles não pareciam atentos a qualquer movimento estranho, porque seria mentira, mas era bom de ver pessoas andando pela rua de novo, isso fazia o Subúrbio ganhar vida de novo.
- O povo já esta começando a ganhar confiança de novo, pena que isso é um erro. – Disse o senhor Josias.
- Como assim um erro?
- Veja quantas pessoas você vê na rua agora?
- Cinco.
- Um só berrante é capaz de acabar com mais de dez pessoas de uma só vez.
- Como o senhor tem tanta certeza?
- Porque eu vi um fazer isso com os meus próprios olhos. – Disse o senhor Josias caminhando para cima de uma rocha e ficando na ponta dela. – Minha mulher morreu para um dessa espécie.
- O que? Ué, mas a Karen havia me dito que...
- Sim! – Disse o senhor Josias me interrompendo. – Ela não sabe o que aconteceu de fato, e nem quero que ela saiba. Ela ainda é muito jovem e tem esperança disso aqui acabar.


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- Não entendo. – Disse chegando mais perto dele.
- Na segunda-feira foi quando o primeiro berrante apareceu. Tinha um homem que estava fugindo dele, então eu o gritei e chamei-o para vir para cá. Esse homem veio para minha casa e o berrante foi embora. Correndo atrás de quem estivesse na rua e matando um por um deles. Esse homem estava todo arranhado e com uma mordida na canela. Minha mulher o ajudou, colocou curativo e deu algumas ervas e sopas para que ele tomasse. Ele se recuperou e na quarta-feira de manhã, quando ele acordou, ele reclamou de estar sentindo muita fome, e minutos depois estava destroçando minha mulher, e comendo a carne dela como se fosse tudo muito normal.
- Nossa! Senhor Josias, me desculpe, eu...
- Então foi isso o que aconteceu pai? – Perguntou Karen me interrompendo. Seu rosto era plena tristeza. Eu não podia entender seus sentimentos, mas conseguia sentir que ela estava agonizando de dor. Seu coração deveria ter sido destroçado depois de uma notícia dessas. Está certo que ela sabia que a mãe havia morrido por um homem que seu pai ajudou, mas saber como foi à morte. Saber que sua mãe entrou em desespero e morreu talvez pela própria dor. Eu esperava que ela se recuperasse rápido, mas isso não era tão fácil de acontecer. E nem deveria ser, pois é de alguém muito importante que estamos falando.
Um pouco mais tarde, depois de um pão na manteiga e um café que estava começando a criar gosto, o senhor Josias me olhou com cara de quem havia dito uma história, mas que essa história era o motivo de ele não me querer ali. Não é que ele não confiava em ninguém, à questão era que ele não queria confiar. Não queria se dar ao luxo outra vez e talvez perder sua filha, o seu único amor.
Eu estava preocupado com essa ideia, e preferi esperar que ele dissesse que era para eu ir embora, pois já estava escurecendo e pensei que pelo menos ele poderia me deixar passar uma noite seguro.
O silêncio no início da noite era total. Não havia nenhum som de passos, nenhum som de berrante ou qualquer barulho. Não tinha! Olhei por um buraco do barraco e só vai à poeira que o vento carregava para todos os lados. As ruas estreitas do Subúrbio estavam totalmente vazias.
Deveria ser quase nove horas quando resolvi ligar para a Bia, quem sabe saber como ela estava e talvez conversar um pouco. Pois tínhamos passado por um momento no qual, nunca havíamos passado.
- Bia! Tudo bem? – Disse em um tom bem baixo, pois não queria que o senhor Josias ou a Karen ouvisse que eu estava no telefone.
- Tudo sim... – Respondeu de um jeito triste. Parecia não estar contente com algo.
- Houve alguma coisa?
- Não. Mar...


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BANG! BANG!
- Bia! O que foi isso? – Perguntei elevando minha voz. – Bia? BIA! BIIIAA!

Ela não me respondia, o celular dela ainda estava ligado e com a minha ligação rolando. Chamei novamente pelo nome dela e tentei ouvir algo. Até que ouvi um grito, e me parecia o dela. Entrei em desespero. Ou não, pois já sai levantando como louco e indo na direção da minha espingarda. Karen me olhou com medo, achou que eu ia fazer algo com eles quando me viu com a espingarda na mão, só que eu nem estava me preocupando com o que ela deveria estar pensando, eu queria encontrar a Bia a salva. E só!
Abri a porta do barraco e comecei a correr na direção da onde a Bia estava. Logo me deparei com um berrante indo na mesma direção que eu, mas com toda a certeza ele iria vir pra cima de mim assim que me notasse.
Dito e feito, ele virou a cabeça e me viu, e então virou seu corpo para mim e começou a correr. Não hesitei em atirar. Acertei um bem no seu crânio. Pensei até em como eu era bom com isso. Atirar, nunca havia pensado que iria ter de fazer isso. Sempre pensei em coisas ruins que pudessem acontecer no meu cotidiano, mas usar arma não estava nesses pensamentos. E matar berrante, muito menos!
Eu já estava perto da esquina do lugar onde ela estava. De onde eu vinha correndo, conseguia ver a parte de cima do terraço. O pequeno e único prédio aqui no Subúrbio. Eu estava cansado já, mas o medo parecia anestesiar isso de mim e minhas energias não parecia mais se esgotar. Talvez fosse a esperança se mostrando para mim. Talvez ela quisesse me mostrar algo que eu nunca tinha visto.
Quando cheguei à esquina e entrei na rua do prédio onde a Bia estava, vi algo horrível. O lugar estava cercado por berrantes quebrando as janelas e tentando entrar por elas. A porta da frente estava quase caindo, eu podia perceber isso. Eles eram tão famintos por carne humana que desejavam mais que os outros, e assim faziam a burrice de competir quem entraria primeiro pelas janelas. Era uma difícil competição, mas se eu ficasse ali parado, só assistindo, eles iam me perceberem e largariam a casa por mim. Eu me escondi atrás de um carro velho e acabado. Estava todo quebrado, talvez antes desse apocalipse todo ele fosse novo, ou seminovo. Eu tinha de arranjar um jeito de tirar a Bia de lá de dentro. Ela deveria estar em desespero. Na verdade, se me recordo bem, ela tinha gritado, será que algum berrante entrou?
- Droga! – Falei e dessa vez não foi nada baixo e nem discreto, ainda mais depois de eu ter socado a porta do carro.
Um berrante olhou para trás, talvez tivesse ouvido meu barulho, mas antes que ele viesse procurar por mim, um helicóptero começou a sobrevoar sobre o pequeno prédio. Pequeno, porém largo, eu não podia me esquecer disso. O helicóptero pousou sobre o prédio. Os berrantes se ouriçaram mais e só então os seguranças do pai da Bia apareceram nas janelas e começaram a atirar nos berrantes do lado de fora.


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Pelo que eu estava analisando, os berrantes não eram burros. Só não ligavam um para o outro. Alguns deles devem ter conseguido entrar no prédio, e talvez até matado alguém lá dentro. Talvez fosse por isso que a Bia gritou. Ela eu duvidava um pouco que estava mal, em perigo com certeza, mas ela não teria sido vítima assim tão fácil. Eu tinha de me aproximar e tentar entrar de alguma forma. Talvez eu não esteja descrevendo como estava me sentindo tão bem, mas posso dizer que o medo tomava conta de mim, mas a coragem gritava pelo nome da Bia. Eu estava chorando só de pensar que a Bia poderia morrer ali, mas eu chorava com mais força quando eu me colocava de pé pra enfrentar esses monstros só pra eu ver o lindo sorriso dela outra vez.
- Deus, me ajude! – Falei enquanto levantava e corria na direção dos berrantes. Eles ainda estavam mais preocupados com a casa e agora com o helicóptero também, que nem tinham percebido que eu estava indo atrás deles. Mas o que acham que eu iria fazer? Enfrenta-los? Não mesmo, eram mais de vinte ali. Eu morreria fácil. É que próximo ao apartamento tinha um corredor que só da para passar uma pessoa por vez. Ali é só um canto de uma construção de uma casa que sobrou. Então corri até lá e passei por ele. Entrar em um beco, que só uma pessoa consegue passar, é uma ideia um tanto doida de se fazer quando esta se fugindo de berrantes. Quando estava chegando do outro lado, um berrante passou, mas não me olhou, então continuei andando bem devagar, até que então ele mostra a cara. Dou um pulo de susto, e paro. Ele se enfia no pequeno beco e vem atrás de mim. Eu na mesma hora recuo, mas quando olho para trás, tem outro berrante vindo à minha direção. Olho para cima e nada. Ouço o helicóptero levantar voo e então minhas esperanças acaba. Saco minha espingarda, viro a cara de dou um tiro na testa do berrante que esta na minha frente. Na mesma hora eu o taco no chão e passo por cima dele, correndo para sair daquele beco. Quando finalmente saio, vejo que alguns berrantes estão olhando o helicóptero alçar voo, mas que outros já estão caçando o lugar de onde veio o tiro disparado por mim.



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