Capitulo 1 – Marcas




Saulo acordou com as cutucadas de seu pai, Ben. Já era de noite. Ele cochilava apoiado na pequena mureta do terraço de um antigo prédio russo e foi despertado para que pudessem prosseguir na missão. No terraço estavam ele, seu pai e mais um dos caçadores, chamado Zenof.




No momento eles caçavam uma vampira muito perigosa e explosiva, conhecida como Adaga. Zenof tentava captar algum indício que indicasse que ela ainda estava por aquelas redondezas. O homem moreno manejava um aparelho de tamanho médio, com uma enorme tela, lembrando um radar. Ele era como o pai de Saulo, muito experiente e caçador há vários anos. Tinha a pele morena, uns 45 anos, feições sérias, um corpo musculoso e uma cicatriz reta que se estendia de sua testa até seu maxilar. Saulo o achava muito forte e habilidoso.


Era talvez a nona ou décima vez que Saulo caçava junto com o pai. Saulo era novo e ainda era aprendiz. Tinha 21 anos, usava óculos e tinha o cabelo castanho e a pele muito clara, característica de quase todos os membros da Família Volmort, que há muitos séculos caçava vampiros.

Muitos segredos eram revelados pouco a pouco aos filhos dos Volmort, pois os pais tinham receio de assustá-los. E Saulo precisava aprender. Ele era o irmão mais velho, e por enquanto, seu irmão caçula Adrian, não tinha sequer a ideia da existência de vampiros. Era novo, estava com 16 anos ainda.

Seu pai Ben era sério, porém muito carismático e simpático. Sempre querido em todas as festas ou eventos, realizados na Mansão Volmort ou não. Poucos eram os que sabiam do ofício secreto de caçar vampiros da família Volmort. Eles eram empresários do ramo de decorações, e tinham inúmeras empresas lucrativas, em vários setores do mercado. Eles eram riquíssimos.

Ben observava a cidade de Moscou, com sua iluminação noturna, do terraço do prédio, com um dos pés apoiado na pequena mureta. Era a terceira ou quarta vez que ele ia à Rússia para alguma missão. Ele vestia uma roupa bem escura, que não era bem um uniforme de caçar vampiros, mas que eles sempre usavam, pois facilitava as corridas e escaladas, e sobre ela um casaco de couro, que contrastava com seus cabelos brancos e ralos. Ben tinha 57 anos, e não se considerava velho para enfrentar a morte.

Zenof não fazia parte da família Volmort, mas era parte do time. Pertencia ao grupo dos ex-policiais e investigadores, que descobriram o esquema, e acabaram sendo seduzidos pela ideia de serem heróis e que fizeram um acordo para que pudessem caçar também.

- Ainda vai demorar um pouco, o sistema está mapeando – disse Zenof, sem tirar os olhos do aparelho.

- Tudo bem – respondeu Ben, encarando Saulo. – Preciso falar com você, filho.

Saulo se levantou e Ben o conduziu até a outra extremidade do terraço, de modo que pudesse falar com ele sem que Zenof escutasse.

- Pode dizer, pai – Saulo assumiu um tom sério.

- Sabe, quando falamos sobre os segredos, e tudo que revelei a você há alguns anos...

- O que que tem?

- Eles não acabaram. Ainda resta um segredo, e preciso revelá-lo de uma vez, pois esta noite será muito perigosa e você pode correr o risco de não saber nunca. Os caçadores mestiços – que não faziam parte da linhagem Volmort -, poucos deles sabem disso, Saulo.

- Me diga de uma vez, pai. Preciso saber.

- Nós somos diferentes, meu filho. 

- Diferentes?

- Por que acha que nossa família foi escolhida há tantos séculos para caçar vampiros?

- Eu não sei – respondeu Saulo.

- Porque nós somos poderosos. Desenvolvemos super-poderes variados. Nós somos páreo para os sugadores de sangue, pois isso fomos escolhidos. Os caçadores mestiços normalmente são fracos e só trabalham conosco pelas suas habilidades com aparelhos e armas. Eles não tem o sangue Volmort.

- Então eu tenho poderes? E por que ainda não os desenvolvi?

- Apenas um dos irmãos desenvolve. Não que você não seja forte. Você tem habilidades de percepção, agilidade e velocidade. Mas não um verdadeiro super-poder realmente extraordinário. No meu caso – Ben deu uma pausa – O meu irmão, seu tio Gus, que desenvolveu um super-poder.

- Então o Adrian que será poderoso?

- Se você não desenvolveu até hoje, sim – afirmou o pai de Saulo.

Saulo sentiu uma pontada no peito ao ouvir aquelas palavras. Sempre achou que seu irmão fosse irresponsável e mimado. Não parecia justo.

- O seu tio Gus não soube dosar seus poderes e morreu de forma estúpida – disse Ben, vendo que o rosto de Saulo empalidecia.

- Ele sempre foi inconseqüente, pai.

- Sempre – concordou Ben.

- Como ele morreu?

- Ele invadiu sozinho um covil de vampiros, no Japão, em uma de suas primeiras missões. Ele se achava auto-suficiente e não soube trabalhar em equipe. Foi uma covardia, mas de 20 vampiros contra ele. Nem mesmo seu poder de soltar rajadas de laser o salvou. Então saiba que o mais importante não são os poderes, e sim o sangue.

- O sangue? – indagou Saulo.

- Sim, meu filho. Você tem sangue de caçador. Nasceu para isso. Nosso DNA se aprimorou de século em século e fomos evoluindo. Muito mais rápido que qualquer espécie. E quando chegar a hora certa, você ajudará seu irmão com os poderes dele, caso eu não esteja aqui. Só não deixe uma coisa acontecer.

- O quê, pai?

- Não deixe que ele descubra a existência dos vampiros, ou ele surtará e poderá desenvolver os poderes rápido demais. A ignorância temporária ajuda, pra que ele não desenvolva rápido demais.

- Entendi.

Ben sorriu e lançou um olhar de confiança para seu filho, de quem se orgulhava muito.

- Eu queria que você desenvolvesse os poderes, filho. Assim como eu também queria tê-los – sussurrou Ben.

Saulo encarou o pai e sentiu sinceridade em suas palavras.

- Atenção! – gritou Zenof. – Eu a achei! Achei!

- Onde? – perguntou Ben, correndo em direção ao caçador mestiço.

Saulo também se levantou e se encaminhou a eles.

- Num apartamento antigo, dois prédios na frente desse – falou Zenof apontando na região sul.

- O que estamos esperando? Vamos logo! – gritou Saulo.

- Não seria inteligente descermos. Vamos chegar até lá por cima – disse Ben seriamente.

- Por cima? 

- Ativem a propulsão da bota – ordenou Ben.

- Eu não sabia disso.

- Nunca precisamos usar – respondeu Ben sorrindo para o filho.

Os três ativaram a propulsão das botas e Ben saiu na frente, dando um salto que lhe deu tanto impulso, que alcançou o terraço do outro prédio facilmente. Saulo e Zenof o imitaram, o segundo com menos habilidade, quase se atrapalhando.

- Não é tão difícil assim – disse Ben correndo novamente, alcançando o próximo terraço. Saulo e Zenof o seguiram. 

- É o próximo? – perguntou Ben. Zenof confirmou.

Os três saltaram. O caçador mestiço levava alguns equipamentos e armas na mochila.

- Onde ela está? – perguntou Ben.

- Dois andares abaixo.

- Vamos pela escada.

Os caçadores desceram a escada e em segundos já estavam no andar de onde a vampira se encontrava. Saulo pegou um rifle na mochila de Zenof, e Ben segurava uma arma que lançava balas pontudas de madeira. Não tinha luz alguma nos corredores do prédio e haviam várias portas.

- Qual delas? – sussurrou Saulo.

- Direita – respondeu Zenof, com o rosto iluminado pela luz do visor do aparelho. Ben acendeu uma lanterna indo na frente e eles andaram lentamente em direção a porta do apartamento.

- Certo – Ben deu uma parada e encarou os dois. – Muito cuidado, essa sanguinária se faz de vítima e já enganou muita gente. A arma dela é sua beleza, e ela é muito perigosa – sussurrou.

- Um lobo em pele de cordeiro – disse Zenof.

Ben deu dois passos e arrombou a porta do apartamento com o pé, num golpe violento. Sua força se mostrava clara e ainda jovial. Um cheiro metálico irrompeu no ar. Sangue. Ben continuou olhando pra frente e levantou o dedo indicador para que Zenof e Saulo vissem. Empunhou a arma e entrou no apartamento lentamente.

A sala estava bagunçada e com todos os móveis quebrados. Alguém se apoiava no braço do sofá, ficando entre ele e a parede. Era uma mulher e uma poça de sangue inundava o braço do sofá. Os caçadores ficaram alertas.

- Socorro – sussurrou a mulher levantando a cabeça. O cabelo não deixou com que eles vissem seu rosto. Ben apontou a arma para ela, junto com Saulo e Zenof, que agora também estava armado.

- Quem é você? – gritou Ben.

- Ela me atacou.

- Ela quem? – disse Saulo.

- Quem é você? – repetiu o pai de Saulo.

- A vampira que vocês procuram – respondeu a mulher, ainda sem mostrar a face. Ben percebeu que era ela.

- Como sabe que procuramos uma vampira? – perguntou Saulo ingenuamente.

Silêncio.

A mulher se levantou subitamente e investiu contra Ben. Ela era veloz, porém ele atirou fazendo a bala passar rente ao seu braço, provocando um gemido de dor. Ela se afastou cambaleante. Saulo e Zenof começaram a atirar e a mulher se lançou da janela. Era Adaga, a vampira sanguinária.

Os três correram até a varanda e pularam usando as botas de propulsão. O prédio deveria ter uns quatro andares, e a bota amorteceu o impacto com o solo. 

Então eles a viram correndo em direção a rua, e a seguiram tentando acompanhar sua destreza e velocidade. Não havia pedestres e chegando a calçada a mulher deu um salto em direção a outro prédio e entrou em um apartamento. Uma música eletrônica muito alta vinha dele.

Saulo se atrapalhou com as botas e acabou caindo no meio do caminho. Ben saltou para o apartamento e guardou a arma no enorme bolso interno do casaco de couro. Zenof voltou para ajudar Saulo.

Era uma festa, e estava lotada. As pessoas mal podiam se locomover no ambiente. A maioria das pessoas estava bêbada ou drogada, e quase não tinha luz. Ben foi andando entre as pessoas, observando todas com seus olhos vivos e ardentes, sempre precavido caso precisasse pegar a arma. Olhou para trás e não viu seu filho e seu amigo.

- Onde estariam eles? – indagou Ben, passando a mão em seus cabelos brancos.

Ben continuou andando entre os jovens, em meio a toda aquela bagunça. Uma moça de cabelos bem penteados e batom vermelho o observava do outro lado do salão, e os olhos delas ficavam acima de todas as cabeças que iam e vinham na frente de Ben. Ela era linda, e ele nunca havia visto uma moça que fosse tão atraente assim. Um calor subiu em seu peito e ele começou a andar na direção da mulher. Ele tentou, mas não conseguiu desviar o olhar dela. Uma luz vermelha parecia vir de dentro de seus olhos. Ela abriu um sorriso e ele pôde ver os caninhos protuberantes dela, brilhando como luzes.

Ela se aproximou como um flash e em milésimos de segundos cravava seus dentes pontiagudos no pescoço do caçador veterano. Mesmo com a dor, ele não conseguia se mover, o perfume dela o extasiava. E sentiu sua vida se esvaindo num misto de confusão e aflição.

Adaga sugou até a última gota do sangue de Ben, e quando Zenof apareceu na janela do apartamento, em meio à música alta e a mistura de cheiro de bebida e cigarro, ele viu enquanto ela limpava o sangue que escorria de sua boca e largava o corpo inerte de Ben no chão. Ela encarou Zenof por alguns instantes e desapareceu como fumaça. 

Já passava da meia-noite.


Continua...
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