Sedução
Capítulo 17
1

O ar gélido soprava cruelmente em minha face, a cidade de Great Falls seguia pequena e embranqueça abaixo de mim.
Os olhos de Vic se mantinham fixos a frente, atenciosos para tudo o que acontecia e alertas para a possibilidade de haver perigo. 
Baixo, bem distante, avistei minha casa.
- O.K. Vamos descer agora – avisou-me Vic.
Ela primeiramente parou no ponto onde estava, exatamente abaixo da calçada de minha casa, em seguida, levitou vagarosamente para o chão.
A cada centímetro mais próximo parecia sentir-me mais segura, não fosse pelo fato de avistar um homem negro e trajado de preto, enorme, parado bem a frente da porta de minha casa.
Me revirei nos braços de Vic em sinal de espanto.
- Tudo bem – disse ela – ele é nosso amigo, está de nosso lado.
Imediatamente tentei acalmar meus nervos aflitos, talvez eu estivesse em mais sinal de alerta do que Vic.
- Que bom. Já chegaram – falou o homem negro e forte.
- Amy, este é Asta – falou Vic, apresentando o gigante a minha frente e recolhendo as asas que sumiram instantaneamente em suas costas – ele é um de nosso melhores anjos de guerra, está aqui para ajudar-nos com sua segurança.
- E você? – questionei – Como tudo isso aconteceu? Eu estou completamente perdida aqui.
- Por favor, precisamos que você tenha calma para que possa entender o que esta por vir – afirmou.
- É melhor que entremos primeiro – opinou Asta.
- Sim. Verdade – disse Vic.
Asta aproximou-se da porta e simplesmente girou o trinco. A porta se abriu. Minha mãe provavelmente não estava em casa.
- Mas... Como você...? – eu ainda sentia dificuldade em gesticular perguntas rápidas.
- Sua mãe não está em casa, e sinceramente, abrir portas não é um problema para nós.



2

Minha bolsa pesava muito, só então lembrei-me do livro enorme que havia pego na biblioteca. As palavras da velha bibliotecária, sobre os nephilim, ecoavam em minha mente.
“Anjos?” – sim, eles eram reais. E a instantes atrás estava voando nos braços de um deles.
- Melhor tirar essa bolsa – sugeriu Vic.
- Eu já ia fazer isso – puxei as alças dos ombros e joguei-a sobre a mesinha de centro da sala. Sentei no sofá e tentei relaxa meu corpo, mas isso era impossível, meus músculos permaneciam tensos, duros.
- Agora – exigi – alguém, não importa quem – olhei para Vic e em seguida para o gigante escorado na escada – pode começar a explicar o que está acontecendo aqui?
Vic já estava preste abrir a boca quando Asta a advertiu.
- Não seria melhor esperar que Mikael retorne? – questionou.
- Sim, ele é o mais indicado para fazer isso. Porém, creio que eu tenha que começar com as explicações por aqui.
- AH! Que bom – aludi.
- Sawlver Cristopen é um vampiro. Vampiros são seres humanos que tiveram seus corpos tomados por um demônio.
- Demônio? – retorqui.
- Sim. A milhares de anos terrestres, quando Lúcifer foi expulso do paraíso por Miguel e os demais arcanjos, como você devidamente sabe, terça parte dos celestes estavam a seu favor, e por isso, também desceram ao Sheol...
- Ao Inferno, para ser mais preciso – interveio Asta, com medo que eu não compreendesse o linguajar usado por Vic. Eu realmente não saberia o que significava essa palavra. E o agradeci mentalmente por aquilo.
- E então – falou Vic, com ar furioso por ter sido interrompida – Esses anjos assim como no céu, no inferno, criaram suas castas para se dividir e se organizarem. Um demônio só poderia deixar o inferno e voltar aos céus ou a Haled , o plano terreno – sobreveio-se Vic – uma vez que para Lúcifer, esse tivesse lhe dado o número de almas suficiente.
- Número de almas? – retorqui. O que ela queria dizer com isso?
- O mundo esta infestado de tudo o que é mal e podre, é missão dos demônios procurar os corruptos entre os bons e leva-los ao inferno.
- Só que, os demônios descobriram um jeito mais fácil de conseguir suas almas, e leva-las ao Sheol para Lúcifer – interveio Asta.
- Vampiros?
- Exatamente – afirmou Vic.
- Todos aqueles que um vampiro elimina ficam ligados ao demônio em seu interior, assim sendo, não importa se a alma é pura ou corrupta. Ele a toma para si.
- Amor, também.
Meus ouvidos doeram ao captar aquelas palavras.
- Francamente Asta – aborreceu-se Vic.
- Ora. É a mais pura verdade, entre os seres existentes no mundo, os demônios são os que possuem o amor mais intenso. E por esse amor, cometem loucuras. Muitos demônios não vieram a terra pelo fato de quererem completar sua cota com algumas décadas mortais, muitos, através dos portais do Sheol, se apaixonam por humanos, tomaram a forma desses seres para poder ter o amor de quem eles cobiçavam.
- Está me dizendo que Sawlver me espionava do inferno até se apaixonar por mim e de alguma forma vir para cá e se infiltrar na minha vida? – questionei, isso era irônico.
- Não- disse Vic, secamente.
Aquilo atingiu meu peito como uma lança direta, queria que aquela fosse realmente a resposta, mas quando a ouvi, parecia que só apenas a afirmativa “sim” era que faria sentido.
Minha face se abriu em chamas evidentes de desespero.
- Eu conheci Sawl, na Haled, a muitos anos atrás, quando ele tinha recentemente chegado aqui.
Vic encarava o chão, era como se não acreditasse nas próprias palavras.
O sangramento no pescoço e no pulso já haviam parado, quase cicatrizado. Aquilo era impossível, aquele nível de regeneração, mas estava acontecendo, e eu estava assustada comigo mesma.
- Em torno de um século atrás eu topei em uma ronda nessa cidade, em busca de demônios vampiros, com Sawl e Maryanne. O grande amor que o trouxe até o plano terreno.
- Nossa! – bradou Asta, - não era você que criticava o amor dos demônios?
- Ora! Deixe disso Asta, por favor!
Meus lábios se mantinham em uma linha séria, meus olhos fuzilavam o chão, inertes.
“Fui completamente enganada” – pensava.
- Não se deixe abater por isso Amy, você nunca se apaixonou por ele de verdade, nunca o amou de verdade. Era tudo um truque, os vampiros possuem um poder de sedução que cega os humanos. É um dom capaz de fazer coisas inacreditáveis com os seus pensamentos, com sua vida, até mesmo com seus princípios, opiniões e ações.
- Mikael! – berrei.
Tudo voltou ao sentido para mim naquele instante. Era como se por dias eu tivesse passado na frente de um espelho onde só conseguia ver a mim mesma e mais nada. Naquele momento eu sabia a verdade e tinha nojo de Sawlver. E sabia, tinha a certeza, que nunca havia deixado de amar Mikael, e agora, todas as palavras que havia proferido contra ele voltavam-se contra mim.
- Por favor Amy, acalme-se. A culpa não foi sua – dizia Vic.
Abri-me em um choro profundo e lamentável, como eu pudera ter deixado que as coisas caminhassem para aquilo, mesmo que não gostasse mais de Mikael, mas, como poderia ter tido a coragem de dizer a ele o que eu disse?
Minhas mãos escondiam minha face, o medo e o desespero invadiam minha alma.
- Mas, por que a mim? Por que Sawl estava me perseguindo?
- Inicialmente, talvez por amor, de verdade – Asta tentou dar uma ênfase a palavra “verdade” – mas hoje, foi tudo puro marketing.
- Como assim? – questionei.
- Você possui uma alma poderosa Amy, o desejo de qualquer imortal. Você é uma Nephilim, e atualmente, os da sua espécie para eles ganharam um valor descomunal, sua alma... sua alma... – titubeava Vic.
- Pode libertar todo o inferno! – exclamou Asta, de uma vez.



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