Sedução
Capítulo 16
1

Os corredores estavam desertos.
Um clima de filmes de terror parecia percorrer cada curva da Great Falls High School, o silêncio era tão profundo que o som das saídas de ar, as tubulações, o ar-condicionado, tudo parecia horripilante.
As ondas de arrepio corriam minha espinha enquanto me dirigia a quadra poliesportiva onde Sawl me esperava.
Seu bilhete pedindo para que eu o encontrasse ali havia sido muito inusitado.
“O que ele queria falar comigo ali? Ele não poderia esperar até nosso encontro a tarde? Seria alguma coisa referente a sua mãe doente, algo que, não pudesse realmente esperar?”
As indagações só apenas deixavam-me cada vez mais confusa e perdida, aquele era um dia de perdição, tudo estava perdendo o sentido.
Tentei apressar meus passos. Quanto mais rápido pudesse resolver aquilo melhor seria.
As portas-duplas da entrada cederão facilmente a um toque simples, e ali estava Sawl, parado bem ao meio da quadrada, um pouco afastado do ponto em branco que marcava o centro.
- Sawl? – chamei. Seu rosto ostentava um ar morto e seus olhos, como se estivessem afundados em um mar de negritude, encaravam o chão como se fosse devorá-lo.
- Demorou! – brandiu ele.
- Desculpe-me, mas é que... – engoli em seco, minha garganta ardia um pouco, mesmo eu não sabendo exatamente o porque – eu esperava que fosse vê-lo na saída normalmente, depois que esperei um pouco é que fui até o armário e encontrei seu recado.
Ele continuava olhando para o chão. Seus braços – seus musculosos e longos braços – pendiam ao lado de seu corpo, como cordas grossas, a coluna um pouco curva, e as pernas, eretas feito estacas de ferro.
A postura de Sawl já começava a assustar-me, assim como todas as outras situações constrangedoras daquele dia.
- Sawl. Você está me assustando, por favor, porque você me chamou aqui? O que aconteceu?
- Nada minha querida. Só apenas queria um momento a sós com você – disse, virando-se para mim, mas ainda com os olhos fixos ao chão.
- Você disse que queria tratar de algo importante... – questionei surdamente.
- E vamos. Algo muito importante, para mim e para você. Para nós – falou, em um tom de correção automática.
Ele aprumou a postura, deixando a coluna ereta e ajeitando os ombros até então curvados.
Estendeu um braço e tentou pegar algo que parecia estar em seu bolso de trás.
Quando sua mão voltou a vista, ela segurava uma linda e brilhante rosa vermelha, uma rosa de vermelho tão intenso, que suas pétalas pareciam ser feitas de diamante, e a cor abusava de um tom de sangue. Possuía um talo longo, entorno de sete centímetros, este, estava infestado de espinhos enormes, longos e afiados como agulhas de acupuntura.
O arrepio subiu da sola de meus pés até minha cabeça, onde pereceu vibrar de dor. Havia sido como um choque elétrico, aquela rosa era idêntica a encontrada no banheiro feminino na semana passada, no assassinato de Flavya.
- Onde você conseguiu isso Sawl? – murmurei, atônita.
- Uma rosa. Para você.

2

O mundo ao meu redor parecia perder a cor.
Tudo havia ganhado um tom de cinza.
Meus ouvidos se mostravam incapacitados de ouvir qualquer coisa além de murmúrios baixos que pareciam vir de Sawl, minha garganta seca ardia como se bebesse um copo de magma, a língua ficou dormente em minha boca, era impossível falar.
Um estado de nostalgia e deleite completo invadiu meus pensamentos, tudo o que importava para mim era Sawl, ali, naquele momento, como se minha vida dependesse da dele de uma forma que seria como se usássemos o mesmo coração.
Alguma coisa me prendia ao chão, não conseguia me movimentar, eu queria correr para seus braços, mas havia me tornado uma estatua, completamente a mercê da imagem vista por meus olhos.
A pele de Sawlver parecia brilhar como ouro, seus olhos agora devoravam a mim, cada linha de seu rosto, cada parte iluminada ou não de seu corpo, tendiam a encher meus pensamentos de prazer.
Nunca pensei desejar tanto uma pessoa como desejava Sawl naquele instante, era necessário tê-lo, para mim, somente para mim.
De repente o mundo só teria sentido se eu o possuísse e  meus braços e se pudesse sentir o prazer de seu toque, de seu corpo penetrando o meu, assim como  dar-lhe aquilo tudo que ele pudesse quer de mim.
As energias de meu corpo pareciam esvaziar-se, fitei a rosa em suas mãos, tão linda, tão perfeita... A audácia de um toque parecia ser o suficiente para quebrar todo o encanto. 
- Pegue-a, eu já disse, é para você – falou Sawl, em um tom vocal calmo e profundo.
- Não posso. Ela é perfeita assim, em suas mãos.
Minhas pernas cederam, ajoelhei-me perante Sawl, meus olhos não desgrudavam daquela cena de puro êxtase.
- Toque-a – convidou – garanto que seus espinhos são tão macios quanto suas pétalas – ele sorriu harmoniosamente – é para você – repetiu – vai negar um presente meu?
Ele começou a andar. Conforme cada passo que dava, meus órgãos se espremiam dentro de mim, tudo parecia funcionar somente a seu favor, se eu falava quando ele questionava era porque ele me permitia falar, uma vez que eu fechava a boca sentia-me incapaz de abri-la novamente a menos que ele mencionasse algo.
Estendeu o braço para mim com a rosa em sua mão, seu brilho refletia em meus olhos, a tentação em tocá-la era grande demais, cada célula no meu corpo ansiava para que eu a tocasse.
ERA NECESSÁRIO.
Tentei dar o toque mais suave o quanto fosse possível se dar, meus dedos percorreram a borda de uma das pétalas, o aroma que até então não havia notado, encheu meus pulmões em uma inalação profunda.
“Sedução” – era a palavra correta. Ele e Ela. Juntos. Seduziam-me. Controlavam-me. Manejavam-me. Como se fosse uma marionete.
Meus dedos desceram até o talo cheio de espinhos, eu os pressionei, queria segurá-la em minhas mãos.
Segurei-a fortemente entre meus dedos, um fio de sangue correu começando a formar uma pequena poça. Porém, não havia dor, era como sentir um tecido de veludo percorrendo pela palma de minha mão.
Sawlver fitou o sangue ali derramado, seus olhos fixos no brilho vermelho escuro que possuía.
Ele pegou minha mão e guiou para perto de si, primeiro próximo de seu peito em direção ao coração, e depois, próximo a sua boca, ele inspirou e repirou novamente.
- Nephilim – as palavras faziam sentido em minha mente, porém, eu sentia-me completamente incapaz de relacionar ou simplesmente pensar algo devidamente.
Sawl pressionou seus lábios contra meu pulso, onde uma leve marca de sangue perecia.
A forte nostalgia parecia querer transpassar meu corpo, cada ponto sensível do meu ser enlouquecia de prazer ao seu toque, meu corpo tremia, a rosa caiu no chão de forma leve e descontraída, mas em minha mente ela fez um barulho ensurdecedor e tenebroso.
Meus olhos reviravam nas orbitas, minha pele arrepiava e meus pelos se eriçavam como um gato assustado.
A única coisa que se permitia sair através de minha boca era um gemido, um grunhido ardente de prazer estupendo.
Meu corpo estava em chamas e meu coração parecia dilatar ficando maior a cada batida.
Tudo o que eu menos queria era que ele parasse com aquilo, aquela sensação, só Sawlver seria capaz de me propiciar, eu amava, o desejava, e o melhor, o tinha de verdade.
Seus lábios percorreram meu braço até próximo de meu pescoço, o local onde ele havia me beijado em meu pulso, queimava, mas, queimava de uma forma que parecia ser bom, assim como ele e todo resto naquele instante.
Um novo beijo um pouco próximo a linha de minha jugular doeu inicialmente, mas em seguida, foi tão forte, tão maravilhoso, que minha visão ficou embaçada e tudo o que ainda via era as luzes rodopiando ao meu redor.
Ele bebia meu sangue!
Mas de que isso tinha importância? Desde que ele estivesse ali, comigo, nada mas seria importante ou questionado. Eu só queria lhe dar prazer assim como ele me dava só por me tocar, só por existir.
- PARE! – exigiu uma voz, inicialmente distante.
“Não. Não pare!” – eu gritava dentro de mim mesma.
Eu pude ver os olhos de Sawl mudarem de direção, e em seguida, algo bateu nele fortemente jogando-o a metros de distancia de mim.
Automaticamente as mordidas em meu pulso e em meu pescoço começaram a doer descontroladamente.
Um grito de dor horrendo rompeu por minha garganta, as paredes, os bancos e até mesmo o piso pareceram tremer com ele.
Meus olhos permaneciam fechados em meio a dor ser controle, sem escrúpulos.
Forcei-me a abri-los, e quando o fiz, eu não sabia mais distinguir o que seria real ou imaginário. Seria algum efeito em relação a dor? Outra alucinação ou coisa parecida como mais cedo do lado de fora? Com as árvores.
Uma figura enorme se mantinha a minha frente, era humano, pelo menos fisicamente de certa forma se parecia, se não fosse pelo par de asas enormes em suas costas. Asas brancas como algodão, de onde entre uma pluma e outra alguma ganhava um certo destaque por apresentar uma cor azul penetrante.
Era Mikael – eu tinha certeza.
Seu corpo estava nu, da cintura para cima, vestindo assim apenas uma calça jeans escura. Seus cabelos estavam completamente loiros e reluzentes como fios de ouros.
Do outro lado, um ser indistinguível se movia de um nado para outro. Era horrendo, unhas enormes e afiadas, dentes caninos irregulares por toda a mandíbula esganiçada, olhos fundo e gigantescos, uma baba vermelha escorria pela boca, os ombros curvados para dentro como uma besta sem ossos, a coluna e as costela altamente visíveis e uma língua enorme que pendia limpando o chão.
Um MONSTRO – eram as únicas palavras que podiam corresponder.
- Vá embora – exigiu Mikael – deixe-a em paz, Sawlver.
“SAWLVER?” – foi como sentir as unhas daquele monstro entrando em meu cérebro. Tudo perdeu o sentido ao mesmo tempo que ganhava novamente.
- Sawl? – indaguei, chorando – Sawlver é você?
- Ele é um vampiro Amy, um demônio que se apossou de um corpo humano para viver imortalmente em meio ao prazer dos mortais e desfrutar de seu mundo.
- O que que... – as palavras não saiam de minha boca. Fiquei surda, completamente sem fala ou ação, perdi toda a noção de tempo e espaço, a partir dali eu não era mais eu, o mundo não fazia mais sentido para mim, eu era inútil, como um objeto sem vida qualquer, tudo o que podia fazer era observar, parada, como uma estatua.
O monstro grunhiu ferozmente em direção a Mikael, que simplesmente pairava no ar, levitava e não voava. Os dois se encontraram corporalmente com um baque de deixar surdo. O monstro buscava cravar suas unhas sobre o ombro de Mikael, e esse, ostentava seu peso a alguns centímetros do chão, a baba vermelha escorria e parecia grudar no piso como cola.
Aquele vermelho seria de meu sangue? – eu estava completamente incapaz de me mover, não possuía ações, permanecia em estado de choque. Não podia ver se ainda sangrava ou coisa pior.
O monstro soltou Mikael e deu um salto para trás afastando-se e em seguida investindo novamente.
Era tudo extremamente rápido, porém, de alguma forma, meus olhos eram capazes de acompanhar todos os movimentos.
O monstro pegou Mikael pelo abdômen em sua investida e levou contra a bancada, afundando-o em meio os bancos de madeira.
Mikael deu um chute certeiro que atingiu o monstro um pouco abaixo do queixo, mas com força o suficiente para joga-lo a três metros de onde estava.
Correu até seus pés, agarrou-os, jogou-o para cima e depois voltou com ele para o chão, o som de ossos quebrando enchia o ambiente, o chão rachou de forma evidente.
O mostro se retorceu e começou uma nova serie de golpes, assim como Mikael, eles iam e voltavam pela quadra, a cada vez um novo golpe com mais e mais força, o monstro se esvaia em sangue, enquanto Mikael permanecia divinamente intacto. O monstro deu uma nova reviravolta que meus olhos não puderam acompanhar, em meio segundo e ele estava atrás de Mikael, pegou suas duas asas e posse a girar com ele no meio da quadra, depois de quatro voltas, lançou para o último banco na lateral direita, onde a parede se rachou abrindo um buraco e parte do telhado cedeu com a batida.
De repente, outros dois homens enormes apareceram do nada, um de asas completamente brancas e o outro em um tom dourado que doía a vista.
Ambos pegaram o monstro entre os braços, saíram com ele em direção a parede que atravessaram deixando um buraco enorme e o chão tremendo como em um terremoto, eles agora estavam lutando em outra ala.
- Temos que ir agora – era a voz de Vic.
Ela ajoelhou-se diante de mim e me encarou, seus olhos eram de um profundo azul brilhante, como pedras de safira.
Em suas costas, um par de asas como as de Mikael, enormes e de plumagens brancas, em alguns tons azuis, pareciam abraçar-me e confortar-me.
Naquele dia, eu voltei para casa nos braços de minha melhor amiga, voando em pleno céu frio e aberto.
Eu estava nos braços de um anjo!
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