Sedução
Capítulo 15

1

“Nephilim?” – eu já escutei essa palavra.
As vozes começavam a diminuir em minha mente, e agora eram silvos suaves e continuavam se desfazendo aos poucos.
Olhei para frente e encarei a árvore.
Aquilo só podia ser realmente loucura, falar
com árvores? Com certeza isso não era normal e muito menos possível.
Passei as costas de minha mão direita sobre a testa de forma descontraída buscando enxugar as gotas de suor que brotavam.
Eu poderia até buscar negar ter ouvido e falado com uma árvore, mas as dores, era impossível que não fossem reais, talvez até não fossem porque, aquele tipo de dor, nunca imaginei que uma pessoa pudesse sentir aquela quantidade dor e tudo reunido em um mesmo local.
- Amy, por favor, você está bem? – Sawl sustentava uma figura preocupada, seus lábios se mantinham em uma linha séria e seus olhos pareciam fundos e penetrantes como se buscassem a mentira em minhas expressões.
- Eu só estou um pouco preocupada.
- Preocupada? – retorquiu Sawlver – quer que eu acredite que simplesmente está preocupada?
Eu o encarei com um ar nervoso que o vez recuar, pela primeira vez minhas expressões foram capazes de convencer Sawl.
- Certo – disse, hesitante – o que está lhe preocupando exatamente, porque a dez minutos atrás você estava ótima, só por que aconteceu algum problema com os alarmes de incêndio, isso – ele ofegava – não é motivo para você ficar nervosinha.
- Nervosinha? – indaguei – mas o que é isso? Porque está falando assim? Eu só apenas disse que estou preocupada, não precisa pensar isso.
- O.K. Tudo bem – ele me soltou e começou a andar na direção contraria ao colégio – desculpa – disse, virando-se de volta para mim – mas, é que você está me deixando confuso.
- Eu! Estou confusa, bastante, tem algumas coisas particulares... – minha voz falhou.
- Particulares? – disse ele, arregalando os olhos e encarando-me como nunca – O.K.
Ele começou a andar de um lado para o outro e a coçar o queijo, como aqueles namorados irritantes tentando entender a namorada rebelde e cabeça oca.
- Não precisa agir assim, e nem se preocupar comigo, está tudo sobre controle.
- Controle?
- Mas o que? Agora vai ficar repetindo tudo o que falo como um papagaio ? – eu já estava cansada daquilo – Quer falar logo algo? Então fale – eu já estava berrando, e era incrível como ninguém ainda não tinha percebido aquilo.
- Eu só apenas estou buscando te entender Amy, um momento antes estava tudo bem, era o seu incrível aniversário – ele ergueu as mãos para cima como se tentasse demonstrar algo grandioso – e agora, parece estar com pedras nas mãos e nem um pouco satisfeita em não joga-las em mim.
- AH! Eu vou começar a joga-las se você não parar com isso.
- Certo. O que você quer que eu faça, porque, eu estou completamente perdido aqui caso você não tenha percebido.
- Simplesmente pare com isso Sawl, eu estou bem, já lhe disse, só apenas lembrei de algumas coisas e estou preocupada.
- E mais o que? Quer que eu leve o restou do dia te encarando como se nada disso tivesse acontecido e que esta tudo completamente bem? – ele continuava andando de um lado para o outro, e eu já começava a ficar tonta, então deixei de tentar acompanha-lo com os olhos desviando-os para o outro lado.
Meus braços permaneciam nervosamente cruzados acima da cintura, meu pé batendo como se estivesse acompanhando a batida de uma bateria em uma música de rock.
- Olha, faça o que você quiser, mas não vou continuar a brigar com você, não quero, não posso... porque, não consigo – meu olhar se desfragmentava em minúsculas centelhas de luz, eu estava brigando com Sawl? Isso era real? Meus movimentos pararam e comecei a encarar o chão. Fiquei ali paralisada. Em choque.
Foi como jogar um balde de água fria em mim mesma com minhas próprias palavras.
“AH! Minha Nossa!” – como eu tinha chegado a tanto?
- Sawl, me desculpa. Por favor. Eu...
- Está tudo bem – ele veio até mim, de braços estendidos, e eu corri para eles – considere isso como o meu segundo presente de hoje.
Eu comecei a chorar freneticamente, tudo estava virando de cabeça para baixo, eu tinha perdido o controle de mim mesma, brigar com Sawl? Não. Isso nunca. 
- Todos, por favor, retornem para suas salas – berrava o Diretor Michael encima da sacada – foi apenas um problema técnico, os corredores ainda têm um pouco de água, mas, suas salas estão intactas, parece que houve um pequeno dano somente no sistema do corredor principal, tudo logo estará perfeitamente normalizado, por favor, retornem todos.
Os resmungos dos alunos rompiam o ar como uma chuva forte, e aos poucos eles iam entrando e lotando novamente a Great Falls High School.
- Vamos? – perguntou Sawl – está tudo bem agora. Certo?
- Sim – ofeguei – está tudo bem.
Abracei-o mais uma vez ali, o mais forte que pude.
- O.K. Vamos entrar.

2

Os corredores ainda mantinham pequenas poças de água, porém, às faxineiras já cuidavam da limpeza.
A segunda aula de terça-feira seria de espanhol, já que a primeira aula havia ido por água abaixo, e eu também não iria mais uma vez estar disposta a uma aula de educação física, sinceramente, eu não estava nem um pouco disposta para aula nenhuma, tudo o que eu queria era que a tarde chegasse logo, que eu pudesse sair com Sawl e passarmos juntos os últimos momentos de meu aniversário.
As palavras ainda doíam em minha cabeça “Fuja! Fuja enquanto pode! Salve-se nephilim.”
Nephilim. Nephilim. Nephilim – eu conhecia essa palavra, esse nome.
Mas, minha mente não sedia a lembrança de onde. E, eu ainda estava completamente confusa em relação a ter “ouvido árvores falar”, “plumas do meu travesseiro flutuando pelo quarto” e, o sistema de incêndio, também havia sido eu? Em uma crise de ciúmes de Mikael?
“Não. Não e não” – jamais eu aceitaria isso, devia ser tudo paranoia da minha cabeça, visões estranhas ou coisa parecida, efeito colateral das fortes dores de cabeça e as demais dores. Como eu poderia aceitar disparar sistemas de incêndio e falar com árvores? E as plumas? E ciúmes do Mikael?
A única palavra que vinha a mim naquele instante era RI-DI-CU-LO.
- Buenos días clase! – disse a professora de espanhol entrando na sala.
- Buenos dias! – rompeu a sala, respondendo em coro.
Bem, eu iria ter de aturar aquilo, aquela aula e as quatro próximas. Duas de literatura, uma de matemática e uma outra de artes.
O dia do meu aniversário parecia fadado a tentar me enlouquecer, dessa vez, com o tempo que não queria passar.
- Bueno, hoy vamos a realizar el análisis de un texto complicado un poco, pero la intención es hacer que te das cuenta de cómo realmente todo ha sido el español.
As palavras pronunciadas iam e vinham em minha mente, pareciam dar voltas. Eu não estava entre os melhores em espanhol, para ser sincera, era péssima no idioma, eu era incapaz de entender uma única palavra e já começava a pensar em como passaria na prova daquele período.
Porém o espanhol parecia um pouco com o português, idioma que meu pai obrigou-me a ter algumas aulas no passado, isso facilitava um pouco o processo do entendimento, mas, um idioma é um idioma e português não era espanhol.
A professora começou a leitura do texto que era realmente complexo, mas, logo percebi que se tratava de um trecho de O Morro dos Ventos Uivantes, livro este que eu havia abandonado pela metade, mas aquele parte eu já conhecia.
“Ese viernes fue el último día del mes de buen tiempo. Al caer la tarde, el clima cambia, el viento comenzó a soplar de sur a norte y trajo la lluvia y luego aguanieve y nieve.”
 Algumas palavras pareciam ate terem sido inventadas e agregadas ao dicionário espanhol de improviso.
Pareciam destorcidas, incompreensivas, meus ouvidos doíam mais uma vez. Porém, desta vez, não era como antes, não era uma dor aguda e insuportável, em alguns momentos eu poderia jurar que aquilo parecia ser... Bom?
“Al día siguiente, apenas decir que tuvimos tres semanas de verano: la buganvilla y el azafrán ahora...”
As expressões pareciam chicotear em mim. Não eram as palavras que estavam confusas, e sim, eu que não conseguia ouvi-las corretamente, meus ouvidos estavam distorcendo tudo.
- Cállate! ¿Cómo te atreves a venir aquí esta despropósito? ¿Qué haría el señor. Linton, si te gusta escutar?
Como aquilo estava acontecendo? Eu era capaz, ou estava me tornando capaz, de compreender o que ela dizia?
A professora continuava falando espanhol, porém, a frase seguinte veio claramente a mim.
“ – Vim correndo desde o morro dos ventos uivantes... – prosseguiu após uma pausa – sem contar com as vezes que tropecei e caí; foram tantas que até perdi a conta. Dói-me o corpo todo! Mas não te assustes! Vais ter a explicação, logo que eu possa dar...”
Sim, eu queria uma explicação, pena que aquela do trecho não servisse para mim. Comecei a balançar a cabeça como se quisesse que as palavras pulassem dali de dentro para fora e não voltassem mais.
- ¿Está bien señorita Dabroven?  
- Sí. Estoy bien – espera um momento. Eu falei em espanhol?
- Mire. ¿Señorita hablar español?
- No. No es exactamente como el lenguaje en realidad no encajan... Quiero decir, yo no soy muy buena, pero puedo tratar de siempre.
- ¿No es buena? Su pronunciación es perfecta. Habla como si hubiera nacido en España.
Mais o que era aquilo? De uma hora para outra eu sou profissional em espanhol?
Fechei os olhos e tentei me concentrar, a sala inteira estava vidrada em mim, na minha estupenda apresentação como quase “nacionalizada” da Espanha e para minha expressão de tormento completo.
Quando abri os olhos novamente, os zumbidos de meus ouvidos pararam, eu já estava ficando boa na ação de controle daquilo seja lá o que fosse.
Talvez eu devesse procurar um psicólogo na manhã seguinte e começar um tratamento. Só podia ser loucura ou um alto nível de paranoia com relação a alguma coisa de minha vida nesse determinado momento.
- Não. É... Quer dizer... Eu... – as palavras no bom e velho inglês haviam voltado a mim. Comecei a titubear sem parar.
Um som agudo estridente rompeu.
“Salva pelo gongo” – pensei. Era o sinal para a troca de aulas.
- Después, yo quiero hablar un poquito más contigo. ¿Si? – indagou ela. Ainda usando o espanhol.
- O.K. – resmunguei, usando a casual forma de afirmação só para não correr o risco de dizer mais um “Si” e perder meu dialeto comum mais uma vez.
Saí correndo da sala antes que aquela mulher me impusesse mais alguma pergunta.
Subi as escadas que levavam ao próximo piso, lá encima, dirigi-me para a biblioteca onde aconteceria a aula seguinte de literatura.
A biblioteca como sempre permanecia ali com seu ar de lugar de período “colonial”, suas estantes grandes e excelentes confortadoras de livros. Um mar sem limites deles.
Os alunos se acomodavam aos poucos sentando-se em mesas próximas a bibliotecária. A professora porém ainda não tinha chegado, seria uma boa hora para fazer uma certa “pesquisa”.
Percorri as estantes procurando a que possuía a placa “N”.
“K”. “L”. “M”. “N”. Achei finalmente.
Passeie pelas prateleiras, em busca de algum livro que possuísse o título obviu.
“Nephilim”.
Porém foi um fracasso total, não encontrei nada.
- Procurando alguma coisa? Srta. – disse a uma das bibliotecárias.
Eu ainda não tinha visto aquela mulher ali. Era uma senhora de idade, que possuísse talvez os seus 50 anos. Trajava um vestido de pele comprido e espesso, óculos de armação larga e lente quadrada, seus poucos fios de cabelo pendiam irregularmente de emaranhado de presilhas.
- AH. Sim – gaguejei – Estou fazendo uma pesquisa para um trabalho teológico – menti – preciso de informações referentes a nephilins, a senhora sabe se posso encontrar algo do tipo aqui?
- Sim, sim – disse ela, ofegante – meu nome é Suzana – enquanto se apresentava seguia voltando as estantes pelas quais já tinha passado – trabalho aqui a mais de 30 anos e conheço melhor do que ninguém todos esses volumes.
- Todos eles? – questionei. Ali haviam no mínimo uns 10 mil exemplares dos mais variados assuntos. NO MÍNIMO.
- Sim – afirmou – todos eles.
Ela parou e ficou encarando as prateleiras como se fossem feitas de ouro e sua vida dependesse delas.
Voltamos então para as primeiras estantes.
“A”.
Ela entrou entre a 7ª e 8ª fileira de estantes, como se o cheiro dos livros a guiassem aonde queria ir.
- Veja. Aqui está – disse, puxando um pesado volume de capa marrom escura, parecia ate mesmo a casca de uma árvore enorme, ela assopro onde estava o título e entregou-me.
- A Hierarquia dos Anjos – li.
- Exatamente.
- Mas, o que os anjos tem em relação aos nephilim? – questionei.
- Ora – retorquiu ela – simplesmente tudo minha cara, veja – ela levou o livro ate uma mesa próxima e abriu-o bem ao meio e foliou algumas páginas para frente.
Em grandes e douradas letras que pareciam terem sidas escritas a mãos pela graça e exuberância das formas estava escrito o nome: Nephilim.
- Os nephilim – começou a dizer em seu tom calmo – eram crianças semi-imortais, filhas de anjos com humanos, abusavam de estrema beleza e graça, porém as vezes, também eram horrendas e gigantes – seus dedos percorriam as figuras que ilustravam o livro – possuíam dons sobrenaturais, como influenciar os elementos por exemplo. Os nephilim eram dotados de grande conhecimento e astucia, falavam todos os idiomas humanos e até mesmo os das plantas e animais – aquelas palavras pareciam cravar  em meu cérebro como agulhas gigantes – porém, Deus não podia deixar que existisse na terra tais criaturas, pelos mais diversos motivos, então mandou o Dilúvio, que teve como objetivo principal não só eliminar o que era de mau, mas todo o mau e de toda a espécie, nem todos os nephilim eram maus, mas, por um todos pagam.
- Então quer dizer que todos eles morreram no Dilúvio?
- Nem todos. Acreditam alguns estudiosos do assunto que entre uns e outros nephilim possuíam asas, talvez por 40 dias, alguns tenham conseguido sobreviver – ela fez uma pausa – mas, isso também não impediria que anjos novamente tivesse suas proles no novo mundo.
Ela fechou o livro com um estrondo.
- Vai leva-lo?
- Sim – afirmei – pode anotar o empréstimo.

3

O resto da manhã percorreu tranquilamente, isso tirando o fato das palavras da Sra. Suzana na biblioteca que me incomodavam furiosamente.
Quando saí da sala de artes fiquei esperando por um momento que Sawl aparecesse.
O peso dos livros já me incomodava. Então segui para o corredor principal em direção aos armários.
Quando abri a pequena porta metálica um bilhete caiu de dentro do armário e pousou aos meus pés.
Agachei-me para pegá-lo.
“Amy

Preciso falar com você a sós, urgentemente. Encontre-me na quadra poliesportiva onde temos as aulas de educação física depois do termino da última aula. Estarei lhe esperando.

Sawl”

Saí imediatamente ao seu encontro.


Reações: