Sedução
Capítulo 14
1

Uma gigantesca nuvem branca era tudo que eu podia ver a minha frente, meu quarto estava completamente tomado por plumas brancas como flocos de neve. Elas pairavam no ar, imóveis, pareciam até mesmo me encarar e desfrutar de minha completa perplexidade.
Fiquei ali, paralisada, não sabia que ação tomar. Três plumas diminutas estavam bem a frente de meu nariz. Tentei pegar uma delas com a mão, mas quando a toquei, ela simplesmente caiu suave até o lençol da cama.
Tentei com as outras duas, então, O mesmo aconteceu. O resto de centenas de plumas continuavam ali, como se estivessem suspensas por fios de náilon presas ao teto.
Suspirei levemente, quase como se não quisesse movimenta-las. Pousei as mãos sobre as plumas em meu lençol, tão finas, delicadas.
O tempo estava frio, meus braços se arrepiaram ao pensar nisso. Mesmo assim, uma gota de suor desceu a minha testa.
Levantei a mão rapidamente para enxuga-la, quando o fiz, as plumas abaixo da palma de minha mão voltaram a planar no ar, subiram e rodopiaram por um instante, e depois, ficaram imóveis e suspensas como antes.
Eu arfei ferozmente.
- Meu Deus o que está acontecendo aqui? – meu coração começou a acelerar os batimentos até que fosse possível escuta-los em minhas orelhas como tambores. 
Foram três míseros segundos, mas, três segundos do mais profundo estresse, pareceram durar milênios.
- Amy, você vai se atrasar – disse minha mãe batendo na porta de meu quarto.
Eu estava mergulhada em um êxtase de tensão tão completo que dei um pulo em cima da cama sobressaltada com a batida de minha mãe na porta. 
“Mas que susto”.
Imediatamente, as plumas começaram a cair, despencando como flocos de neve, pareceu lindo por um instante, depois eu retornei ao terror da cena.
- Rápido Amy, vai perder seu café da manhã especial – ela gritava do outro lado da porta, porem, só apenas uma parte do som chagava a mim ali dentro.
- Eu... Eu... Já desço. Eu já desço – gritei, entrecortando.
- Não demore demais.
Peguei o travesseiro - ou o que sobrou dele – do meu lado e comecei a juntar as plumas, aquilo levou vários minutos, o quarto estava completamente “emplumado”.
Corri para o banheiro, escovei o dentes e tomei um bom banho quente.
Vesti – como sempre – as roupas mais espessas que eu encontrei no armário. Uma blusa branca e uma jaqueta marrom, calças jeans escuras e botas brancas.
Joguei o cabelo para trás e comecei a pentear trazendo de pouco em pouco chumaços para frente e desenrolando os nós dados pela noite. Ao final, coloquei uma tiara fina e simples e me encarei no espelho.
- Simples e bela? – pensei comigo mesma – Talvez nem tanto – arfei.
O colar que minha mãe havia me dado uma semana antes, como presente antecipado, estava acima de meu diário.
“Meu Diário” – eu realmente havia o abandonado, quase nem me lembrava mais de quando tinha sido a última vez que escrevera.
Peguei o colar, segurei em minha mão por um instante o pequeno pingente em forma de “asa”. Não um par de asas, só apenas uma “asa”, um pouco inclinada, sua sutileza ate que estressava um certo ar “angelical”. Coloquei-o e deixei bem visível por cima da blusa.
Desci as pressas, algo me dizia que minha mãe já devesse estar pensando em subir ali novamente e chamar-me.
- Como você está linda – disse ela, quando cheguei ao inicio da escada embaixo.
- Mãe – arfei – eu estou vestida como em todos os dias – protestei.
- Essa é a questão, você fica linda sempre – ela começou a andar em minha direção – Porque você é linda filha. Parabéns, Feliz aniversário.
- Obrigado mãe. Eu amo você, para sempre.
- Também te amo – ela afastou um pouco de mim, começou a olhar-e dos pés a cabeça – como você cresceu, e rápido.
- Mãe! – retorqui, tudo que me faltava era ela começar a fazer o papel de mãe careta e dizer como eu estava ficando velha. Sinceramente, não precisa lembrar a uma garota de que ela esta ficando velha – Não quer olhar meus cabelos para ver se encontra fios brancos?
Nos duas caímos na gargalhada.
Talvez as duas estivessem envelhecendo rápido demais, minha mãe com seu excesso de trabalho, e eu, com meus problemas perturbadores.
De repente um lampejo de memória me fez lembrar das plumas em meu quarto. Eu não queria preocupar minha mãe com aquilo, seria difícil de explicar e difícil de entender, nem mesmo eu estava entendendo. Como ela entenderia?
Guardei aquilo para mim mesma, talvez eu ainda simplesmente estivesse sonhando. Talvez.
Ela olhou para o colar em mim e abriu um leve sorriso.
- Simples – disse – mas belo, e ficou perfeito em você.
- Sim, eu gostei bastante.
Também lembrei dos momentos da noite passada, o colar exuberante que Sawl me dera. Meu coração se sobressaltou só em minhas memórias serem reviradas e trazerem de volta o brilho penetrante do rubi na bela rosa de prata.
Mas, era melhor deixa-la guardada ali por enquanto, sair na rua com aquilo no pescoço era uma pedido eminente de assalto, e, minha mãe também iria despejar sua série de perguntas, como se fosse me entrevistar para o jornal.
- Amy. Posso lhe fazer uma pergunta?
“Minha nossa!” – parecia que só de pensar nas perguntas elas já viam.
- É claro mãe – afirmei, dirigido-me para a mesa onde o café da manhã parecia me aguardar.
- Você está namorando?
Aquelas três palavras eram as que eu mais temia.
- Sim. Mãe.
- Mas... Com quem? Você voltou com o Mikael, ele esta aqui na cidade ouvi dizer...
- Nem pensar mãe, meu Deus.
- Por que? Ele é um garoto muito interessante, e sei que ele gosta de você e que...
- Mãe, por favor, ta?
- Então que é?
- Sawl... Quer dizer – tentei não titubear – Sawlver Cristopen, é o nome dele.
- Por acaso é aquele garoto que estava aqui outro dia? O moreno de olhar sedutor?
- Sim é ele – incrível, ela também tinha notado o olhar penetrante de Sawl. Talvez todas as meninas do colégio notassem, mas como eu perdia ou investia todo meu tempo em olhar para ele, não notasse os outros olhos nos vigiando.
- Amy, você agora tem 18 anos, é maior de idade. Mas, tome cuidado. Você chegou aqui a um mês mais ou menos, e, já estar com um desses garotos. Você não acha que foi um pouco cedo demais?
- Eu sei disso mãe, mas, não se preocupe. O.K.? Está tudo bem. Pode ficar tranquila.
- Tomara que você esteja certa.
- É sério. Está tudo bem.
Tomei um gole de café e comecei a mordiscar algumas torradas, tirando o fato acontecido mais cedo em meu quarto, eu até poderia dizer que o dia estava ficando perfeito, de certa forma.

2

Quando cheguei próximo ao meu armário na Great Falls High School, Sawl já estava ali, parado, esperando-me.
- Bom dia – disse, cumprimentando-me, e em seguida dando-me um suave beijo.
- Bom dia – devolvi.
- Como esta sendo os primeiros momentos da Rainha do Inverno.
- Rainha do Inverno? Eu detesto o inverno – retorqui, ele riu levemente deixando covinhas se formarem nos cantos do seu rosto.
- Saudades do sol tropical da Flórida?
- Muita, você nem imagina o quanto. Mas, até agora tudo bem. Nada de anormal – menti, e que bela mentira. Nada de anormal?
- Vou leva-la ao parque próximo de sua casa hoje a tarde.
- Nossa! Adivinhando meus planos?
- Você estava planejando isso também.
- Bem. Minha mãe estava querendo que eu criasse uma rotina de atividades comemorativas, eu disse que me limitaria a uma visita ao central-parque. É meu aniversário, tudo bem, mas não precisa dizer isso para toda a cidade.
- Então parece que teremos um programa a dois hoje a tarde – disse ele, alegremente.
- Sim – sorri.
Virei para pegar o material em meu armário, procurei o que precisava entre a pilha de livros e pus tudo dentro da mochila.
Quando fechei a pequena porta e girei o cadeado, olhei para frente, em direção a entrada do corredor principal, e vi Mikael e Vic juntos, vindo em nossa direção. Vê-los ali tão próximos, fez o ardor subir novamente a minha pele e aquecer meu rosto.
“Como eu posso sentir ciúmes de Mikael e Vic? Isso é tolice. Eu detesto ele e ela é minha melhor amiga, mesmo que os dois estivessem juntos e se beijassem ou seja lá o que fosse ali naquele instante, essa não deveria ser minha reação. Não mesmo” – minha cabeça parecia pinicar.
De repente o calor começou a ficar maior e mais forte, senti que aquilo já não era normal, algo estava errado, muito errado. Meu rosto estava em chamas, minha cabeça doía, e a sensação de se sentir traída olhando para Mikael e Vic ali juntos só parecia crescer monstruosamente.
Um apito soou em meus ouvidos, e doeu cruelmente.
- Aí – oscilei.
Uma chuva rompeu os corredores, todos começaram a correr para sair do colégio.
- Incêndio? – perguntou Sawl, passando a mãos envolta de mim e tendendo me tirar de onde eu estava, mas minha pernas não cediam.
O sistema de alarme de incêndio tinha sido acionado.
- Vamos Amy, precisamos sair – gritava Sawl.
Eu voltei rapidamente do meu quase transe e comecei a correr com ele para fora do colégio.
Fiquei um pouco molhada, mas logo eu estaria seca novamente, principalmente se Sawl continuasse a ficar abraçado como ele estava comigo ali, debaixo de uma das árvores fora do prédio. Seu calor, era incrível, irreal.
No chão estendias-se uma fina camada de neve, parece que havia nevado por uns cinco minutos enquanto estávamos lá dentro.
- O que será que aconteceu? Não me parece que tenha acontecido algum tipo de incêndio.
- Uma explosão no laboratório de química, talvez – sugeri.
- Não. Não – ofegou Sawl – o laboratório tem um sistema individual, se algo pegou fogo para ativar o sistema geral, deve ter sido nos corredores ou no refeitório.
Comecei a raciocinar o que tinha acontecido, os alarmes tinham sido acionados no mesmo momento em que eu tinha sentido o apito doloroso em meus ouvidos, e por algum motivo, minha memória devolveu-me a cena das plumas em meu quarto.
O conhecido e árduo arrepio subiu por minhas costa e desceu em meus braços até a ponta dos dedos onde pareceu queimar.
- Você está bem? Acho que ouvi você reclamar de alguma coisa lá atrás. 
- Sim, estou bem.
- Espero que alguém venha logo explicar o que está acontecendo.
- Eu também – concordei.
Minha cabeça começou a doer novamente, uma dor que parecia circular em minha têmporas. E com a mesma velocidade que apareceu, sumiu.
- Eu estou tendo umas dores de cabeça um pouco estranhas - reclamei.
- Dores de cabeça? Desde quando? – questionou ele.
Eu estava prestes a dizer que tinha tido vários lampejos de dor de cabeça durante o dia quando um sussurro veio aos meus ouvidos
Não conte a ele. Não pode falar disso.
“Mas o que foi aquilo?” – comecei a procurar por quem estava próximo a mim, mas só eu e Sawl estávamos naquele local, as demais pessoas estavam distantes. E como sabiam que eu estava prestes a contar algo a ele?
Não conte. Ele não pode saber de nada.
Quem é? Onde está? Sinto o cheiro... cheiro de...
Silêncio! Não a confunda.
É podre, meu deus, como fede.
Perigo! Perigo!Fuja!

Eu não fazia a menor ideia de onde as vozes estavam vindo, mas comecei a sentir medo, os arrepios não paravam, meu sangue parecia queimar em minhas veias.
“Mas o que está acontecendo?”
Corra. Corra. Corra! Agora!
Fuga querida, não a tempo para esperar, fuja.

Comecei a me encolher sobre o abraço de Sawl, lágrimas de medo e desespero estavam prestes a romper de mim.
“Eu estou ficando louca” – minhas mãos subiram sobre o peito dele e pousaram em seus ombros, minha cabeça encolhida. Ele não tinha percebido nada.
NÃO. Não. Corra!
Corra!
Corra! Ele irá sentir seu cheiro!
Sim. O Cheiro. OH! O Cheiro, tão doce, algo tão puro. Corra!

Minha cabeça doía como nunca pensei que pudesse doer, uma espada parecia transpassar meu cérebro e entrega-lo a um canil cheio de rottweilers.
A visão de tudo a minha frente começou a embaçar, meus olhos ardiam, o piado havia voltado aos meus ouvidos.
Corra! – exigia a voz.
Com esforço, muito esforço. Imaginei as palavras se formando em minha mente.
“Quem esta falando isso? Deixe-me em paz!”
Aqui, aqui bem próximo, olhe para mim.
Tentei buscar a minha frente, mas, não havia ninguém. Sawl e eu continuávamos ali, embaixo da árvore no pátio, mais ninguém estava conosco.
O raciocínio veio imediatamente para mim, minha cabeça doía desesperadamente, mas foi como fogo ateado em gasolina.
Eu olhei para frente.
“Você?”
Sim. Corra querida. Fuja agora! Enquanto pode.
“Eu estou falando com uma árvore?”
Fuja. Vá! AGORA!
”Não! Saia da minha cabeça, isso não pode ser verdade, eu estou louca, isso não é verdade, saiam da minha cabeça.”
Fuga! Fuga!
Não deixe-o toma-la para si. Corra.
“Ele quem? Sawl” – meus ouvidos iam explodir.
Corra!
Corra! Corra! – continuavam a exigir.
“SAIAM DA MINHA MENTE AGORA!” – exigi o mais alto que pude.
Corra! Amy! Cor...
Você tem que ir agora que ...
As vozes começavam a diminuir e junto com elas as dores em minha mente e pelo resto de meu corpo. Mas eu ainda pude ouvir o que última delas falou.
Fuja! Fuja enquanto pode! Salve-se nephilim.

Reações: