RENEGADOS


CAPÍTULO 4


Agora era apenas minha espingarda e eu. O lado de fora, caso eu ainda não tenha comentado, era muito quente. De uns anos para cá, o sol foi parecendo cada vez mais próximo, e no ano que tudo 
começou, ele parecia ainda mais próximo.



Tudo parecia bem calmo, as desertificadas. As únicas vidas por ali, talvez fossem alguns pequenos animais. Igual a um cachorro que ficou parado me olhando e latindo enquanto eu passava por ele. Já havia saído da rua do galpão, não tinha mais nada que eu conhecesse tão bem por ali. Deveria ser bem cedo ainda, mas mesmo assim, resolvi ligar para a Bia logo.
- Oi Bia! Conseguiu descobrir onde você exatamente está? – Perguntei esperançoso de que não ia ter tanto trabalho sozinho.
- Não Marcos... Sinto muito, não sei onde estou. – Respondeu Bia com voz de quem havia acordado há pouco tempo.
- Ok. Vou dar meu jeito, mas eu vou te achar.
- Não se preocupe, estou segura. – Disse ela tentando talvez, me tranquilizar.
Desliguei o celular imediatamente, pois eu acreditava no que Martinez disse sobre a segurança de redes por aqui. Só gostaria de saber o porquê do perigo. Isso só me deixava mais preocupado com a Bia. Sei lá, ela poderia correr risco de vida a qualquer instante e mesmo com toda a segurança que o pai dela deve ter, ainda sim é arriscado.
- Mas o que estou pensando? – Falei baixo, pensando alto. Realmente, o que estou pensando? Que ela estaria mais segura comigo? Fala sério, se com o pai dela que com certeza, tem mais homens ao seu redor protegendo ele, não conseguir, quanto menos eu!
Eu podia até ter ficado pensante na questão da Bia, mas logo tive de despertar para o mundo de novo. Avistei um berrante pouco mais de dez metros a minha frente. Fui até um caixote antes que ele me visse e me agachei. Fiquei ali por mais ou menos sete minutos. O berrante parecia estar cheirando as coisas atrás de cheiro humano. Isso poderia ser um problema. O estranho é que ele batia nas casas que estavam fechadas. Parecia que sabia que tinha gente ali dentro, mas eu não sabia dizer isso.

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Ele passou para trás da casa que ficava na minha frente, e então essa foi à oportunidade que vi para correr dali antes que ele chegasse a mim.
Comecei a correr, pena que as ruas do subúrbio, eram ruins e mal construídas. A cada pisada que eu dava na minha correria era uma “Quase” torção que eu ganhava. Sem contar nos barulhos que fazia. Se o berrante não ouviu, é porque é surdo, ou então achou algo melhor atrás da casa do que correr atrás de mim.
Parei em uma rua não tão distante da rua em que fugi do berrante. Ele pelo visto, não tinha me seguido, o que era até um alivio. Eu precisava saber onde a Bia estava o que não era para ser tão difícil, já que devia estar por perto. Comecei a andar cautelosamente e olhando para um lado e para o outro, parando e continuando a andar, me escondendo para ver se havia algo ou alguém por onde eu estava passando. Enfim, cuidado, eu estava tomando muito cuidado. Apenas eu e minha espingarda e sem muita munição. Só que o pior de tudo era estar sozinho.
Passei por uma antiga praça, onde no inicio tinha árvores e era infestada de planas e mato, mas agora, é barro.
- Desgraça! – Sussurrei.
Era realmente uma desgraça aquilo. Por sorte eu não ficava quase nada aqui no subúrbio. Sempre fiquei na escola, onde graças a Deus, me proporcionava lugares confortantes e agradáveis. Agora aqui, que já era ruim, parece ter ficado pior. Eu poderia ter poucos problemas, mas talvez esse momento em que passei, possa ter me dado mais coisas a me preocupar com a vida. Como a minha própria vida. E agora, me preocupar com o porquê tem um carro de rico, limpo e brilhante em frente há um prédio pequeno, porém o melhor lugar para se morar aqui no subúrbio.
- Bia! – Pensei e logo afirmei. É lógico! Só pode ser o pai da Bia que esta aqui e consequentemente ela também.
Peguei rápido meu celular e liguei para ela. Assim que ela atendeu eu disse: - Cheguei!

Ela desligou o telefone e por um segundo pensei no porque ela fez isso, mas não deu nem tempo para eu ficar com raiva dela, pois a porta da frente abriu com um empurrão dela, e quando me viu, correu até mim e me abraçou forte.

- Que bom que está bem! – Disse ela me abraçando ainda mais forte.
- Eu falei que iria te achar, - Falei e desgrudei a Bia de mim, olhei nos olhos dela e 


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 terminei minha frase. – achei!
Ela me abraçou novamente como se aquilo fosse tão aguardado por ela. Antes que o nossa sorte de estar ali fora sem sermos atacado acabasse, ela me puxou para dentro do prédio, no qual até então, eu nunca havia entrado.
Era incrível. Parecia um sinal de vida em um corpo praticamente morto. Subúrbio, o lugar mais pobre de nosso país, e com um prédio pequeno, que por fora, aparenta ser simples, mas por dentro, se é que alguém que mora aqui, teve a sorte de ver, é lindo!
A primeira coisa que vejo é um moço de bigodes com um chapéu pequeno e um terno acompanhado de um par de luvas. Com certeza era um mordomo. Os trabalhos que gente simples pega, eu sei como se sentisse pelo cheiro. Subimos as escadas e percebi que o prédio apesar de ter apenas seis andares, era bem largo, mas o que eu ainda não havia notado era sua profundidade. Imenso era como eu poderia descrever ele. E calmo, claro, isso deveria ser acrescentado. Alguns quadros pendurados pelas paredes. Jarros de flores em algumas pontas dos cômodos. Janelas com uma visão na qual ninguém do Subúrbio tem. E móveis do qual jamais sonharam.
Comi alguma coisa, pois estava faminto. Depois tomei um banho, o que já era necessário. Correr de berrante é resultado de muito suor, e não ter um lugar pra ficar, é resultado de você não pode comer, não pode beber, não pode se banhar, nem ao menos descansar. E isso eu pude ver em poucas horas de solidão.
Depois de um cochilo de uma ou duas horas no máximo, me levantei e fui procurar a Bia, e a encontrei em uma sala cheia de livros, o que pelo que sei por causa da minha escola, seria uma biblioteca. Ela estava ali, lendo um livro com a maior serenidade, talvez com tanta certeza da sua segurança que não havia porque se preocupar com um bando de berrantes do lado de fora.
- Ah, você esta ai! – Disse a Bia fechando seu livro e se levantando da cadeira. – Vem, vamos ali para o meu quarto.

Opa! Quando ela me chamou para ir ao quarto dela, fiquei nervoso e suando frio. Não sabia o porquê me chamara para ir até lá. Talvez pra me mostrar algo, ou contar algum segredo que ela não quer que ninguém mais ouça, ou então pode ter me chamado pra... 
- Vem Marcos! – Disse ela me apressando e me puxando pela mão.
Entrei no quarto dela, e estava um tanto bagunçado. Coisas de garota. Camisa, short, saia e tudo quanto é roupa jogada pela cama. Notebook, algumas revistas e até mesmo um livro estavam em cima da sua escrivaninha. Um livro de álgebra, e aquele eu conhecia porque eu também o tenho, estava em cima de sua cama.
- Estudando? – Perguntei.
- É, nada de bom pra fazer. É algo pra exercitar a mente.

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Chegamos perto da cama dela, e sua mão ainda segurava a minha. Meu coração começou a bater com mais rapidez, só que então, passamos da cama e fomos em direção à janela. Ela abriu a janela do quarto dela e então vi a varandinha que tinha do lado de fora do quarto dela. Fomos pra varanda, o céu estava ficando laranja, o sol descendo cada vez mais e minha mão entrelaçada na dela.
- Vamos ver o pôr do sol? – Perguntou a Bia me olhando e sorrindo.
- Claro que sim. – Respondi e sorri de volta.
Ficamos ali, quietos, de mão dada, apenas olhando o pôr do sol. E eu pensando besteira. Que coisa, hehe. Se ela soubesse o que eu estava achando que ela iria fazer comigo, com certeza eu levaria umas tapinhas no braço. 


- Como você ficou ao chegar aqui? – Perguntou a Bia.
- Assustado. – Respondi com rapidez. – Muito até. No vagão que eu estava tinha um... Berrante?
- Não entendi.
- Não sei Bia. No dia da formatura eu vi um berrante bem de perto, ele queria me matar o tempo inteiro, eu pude sentir isso vindo dos olhos dele. Mas quando eu peguei o metro pra cá, tinha um moço, ele falou comigo, mas quando eu já estava chegando aqui, ele começou a grunhir, e então se levantou e veio andando na minha direção. Por sorte o metrô chegou à minha estação, só que ao sair correndo do vagão, eu tropecei e cai de frente com um cachorro um tanto raivoso e destroçado. Eu ia morrer...
- Como saiu vivo disso Marcos? Dois te cercando, eu não sei como pode ter escapado. – Pergunta ela não mostrando acreditar muito em mim.
- Pois é Bia, eu não sei o que houve, mas o cachorro e apenas o cachorro queria me matar. E antes que ele pudesse fazer isso, o moço que estava grunhido o atacou e começou a comê-lo na minha frente.
- Nossa!
- O olhar dele... Parecia tão humano. Parecia que ele estava perdendo o controle de si.
Conversar isso não pareceu ter sido muito bom. Eu não queria lembrar esse momento, e nem queria chegar ao ponto da conversa em que eu teria que dizer que matei uns três ou mais berrantes. Já tive de explicar o porquê eu estava armado com uma espingarda, mas dizer que havia matado eu não queria. Não me orgulhava disso, nem mesmo por serem algo que queriam apenas minha carne, meus órgãos e meu cérebro.

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O céu escureceu o sol já havia partido. Essa seria minha segunda noite depois que tudo começou só que estando ali, eu me sentia mais seguro que quando eu estava no galpão. Talvez porque eu estivesse com a Bia por ali e isso me deixava mais corajoso ou ter em mente a segurança do pai dela que estava presente ali e não ia sair de modo algum.

Teve um momento em que a Bia me olhou e eu a olhei, e ficamos assim por um bom tempo. Até que ela sorriu para mim e não resisti. Sorri de volta. Eu não conseguia dizer nada, mas minhas ações foram saindo devagar e com calma. Acariciei seu rosto e levei uma mecha do seu cabelo para trás da orelha, caminhei minhas mãos até sua nuca e então, a puxei. Não tirei os meus olhos dos dela enquanto eu ia em direção ao momento tão esperado por mim e talvez até por ela. Antes de tocar seu lábio, parei centímetros de um beijo, senti seu calor e seu perfume doce, olhei pra ela e a janela abriu em um estrondo.
- Quem é esse mendigo? O que ele esta fazendo aqui dona Bianca? – Falou gritando o pai da Bia.
- É, olá! – Disse eu em um tom baixo.
- Bianca, é melhor você tirar esse moleque daqui!
- Mas pai, lá fora é perigoso, ainda mais a noite! Eu não vou deixa-lo lá fora, ele é meu amigo! – Disse a Bia gritando de volta com seu pai.
Depois de ela dizer que é perigoso lá fora, eu pensei que realmente era muito mais perigoso, e então comecei a torcer muito para que a Bia convencesse o pai dela a me deixar passar a noite ali, só que isso não foi feito. Ele não me queria de modo algum ali. Talvez porque me viu quase beijar sua filha, ou nem chegou a ver, porque assim que ouvimos o barulho nos afastamos. Mas lá fora eu não poderia ficar então eu fui pedir a ele, só que pareceu ter sido uma ideia ainda pior. A Bia estava chorando já e eu sendo colocado para o lado de fora da casa. E o pior, aos chutes e socos, como se eu fosse um bicho, e depois de me apontarem uma arma ameaçando a me atirar se eu tentasse voltar, eu me senti como um berrante.
Quando me virei, dando as costas para o lugar de onde eu tinha acabado de ser expulso, vi a escuridão que estava me aguardando. Os becos tinham apenas a fraca iluminação dos postes. As casas estavam tão escuras e sombrias. Berrantes por alguns lugares a vista. De repente, um homem aparece grunhido, talvez estivesse vindo à minha direção, mas por sorte minha e muito azar dele, um berrante voou nele e começou a comê-lo.
Enquanto eu estava parado, eu analisei. Do meu lado esquerdo tem um berrante no fim da segunda esquina. Na minha frente tem dois berrantes aparentemente tentando entrar em alguma casa. Na minha direita, havia o berrante que estava comendo o homem que antes de virar comida, grunhia. Qual seria a minha saída? Eu me lembrei de quando eu estava saindo do 

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metrô, e o homem que grunhia pra mim, ficou totalmente dominado pelo efeito da fome, e tenho certeza que ele não sairia dali enquanto não terminasse a sua refeição. Foi nesse momento que eu corri para o meu lado direito.
- Que Deus me ajude. – Sussurrei para mim mesmo.
 


Comecei minha corrida na esperança de que eu me salvasse. Pena que o percurso era curto. Passar por ele não seria o problema, pois havia muito mais me esperando em outro canto qualquer do Subúrbio.
Um berrante comendo um homem. Um berrante na esquina. Um berrante quebrando uma janela de uma casa e eu correndo para o nada. Naquele momento eu não sabia o que seria de mim. Pior ainda, quando vi um berrante entrar na rua em que eu estava. Quis continuar correndo, mas com certeza ele ia me ver e me perseguir. Se bobear eu seria pego por ele, pois eles têm uma velocidade muito grande que chega a assustar. Enquanto um berrante é veloz e ágil, um... Como vou dizer. Alguém que come pessoas e grunhi pra você, é um lerdo e nada ágil.
Parei de correr e instantes depois, ele me viu. Pulei para o lado de uma casa, tentando me esconder. Ele pareceu ter ficado confuso, pois viu um vulto indo para o lado da casa, não viu o que era realmente. Enfim, esse nem foi o real problema. Ele foi chegando mais perto e mais perto até que chego onde eu estava. Eu me agachei e fui andando de costas para trás da casa bem devagar, sem que ele percebesse. Quando eu cheguei atrás da casa, segurei minha espingarda e me preparei para atirar. Taquei uma pedra em madeira próxima a mim para atrair a atenção dele. Mirei no canto na parede para quando ele aparecesse eu atirasse bem no crânio dele.
- Está maluco? Quer nos matar? – Disse alguém atrás de mim me puxando para dentro do barraco.
Tudo estava escuro, e quando tentei perguntar quem era que estava ali, uma pessoa tapou minha boca e sussurrou bem baixinho para eu ficar quieto por causa do berrante. A ideia não era ruim, então resolvi ficar calado mesmo. Pude ver por um pequeno buraco na parede do barraco onde eu estava o berrante caminhar, cheirando as paredes e tocando ela como se estivesse querendo saber por onde eu havia passado. Eu me aproximei mais ainda daquele buraco, para que eu pudesse analisar ele melhor, só que alguém me puxou para trás e nisso, o berrante parou e tocou na porta por onde me colocaram para dentro. Nós ficamos apreensivos, eu acho. Pelo menos eu fiquei, e muito. Um homem pelo que parece me puxou 


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lentamente para o lado. Fomos caminhando e agachados até uma mesa e ficamos atrás dela. O berrante tocou a maçaneta daquela porta, e abriu. Ainda era escuro, mas uma pequena claridade entrou pela porta e clareou o barraco onde estávamos. Por sorte, parecia que quem quer que seja que me encaminhou para trás da mesa, sabia que luz nenhuma tocaria ali. Enquanto o berrante olhava para dentro, eu consegui ver uma fotografia que estava em cima de uma estante pequena. Um homem barbudo, negro, com uma mulher com um cabelo bem curto e também negro. No meio da foto, havia uma pequena criança. Uma menininha, e seu cabelo era todo encaracolado, e lindo, tão negro quanto sua pele, mas tal beleza, com certeza jamais fora vista. Era uma criança divina. É assim que são chamadas as crianças mais belas que nascem no Subúrbio.
O berrante se virou para onde estávamos, e depois deu de costas. Saiu pela porta deixando ela aberta. Segundos depois, o homem que estava do meu lado, se levantou devagarzinho e foi até a porta e em seguida a fechou. Só que quando ele chegou à porta, eu pude ver seu rosto por causa da claridade que ali entrava. E ele era o homem do retrato. Então pensei comigo mesmo. São três na foto, mas juro, que só percebi duas pessoas comigo ali. Um homem que seria ele, e uma mulher que só pude perceber pelo toque de sua mão. Mas agora, qual é a mulher da foto que estava faltando ali conosco? Ou será que estava ali e eu ainda não tinha percebido? Afinal, quem eram eles?
- É melhor que deite aí e durma um pouco. – Disse em um sussurro o homem da foto. – Não vamos nos arriscar a nada nesse momento. De noite é o momento deles, e temos que respeitar.
Tentei dizer algo, mas logo ele me tapou a boca e disse:
- Xiu!


O momento não era bom para uma discussão. Eu poderia não estar sabendo o que estava acontecendo, mas sei que de noite é mais perigoso lá fora, e eu estava dentro de algum lugar, onde poderia servir como proteção para mim. Falar ou fazer qualquer barulho poderia atrair a atenção de algum berrante ou algum quase berrante e isso não era o que eu queria. Eu me deitei ali mesmo. O chão não era uma cama macia que tinha na minha casa, ou no lugar onde a Bia estava, mas era algo. Um solo, um pedaço de calma, um pouco de paz quem sabe? Era o que eu tinha no momento, e eu deveria aproveitar.

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