RENEGADOS


CAPÍTULO 2

Quando estava próximo à rua da minha casa, comecei a caminhar, pois correr da estação do metro, até aqui, é muita coisa ainda que não pareça. É incrível, como em poucas horas as pessoas se locomovem rápido. No subúrbio temos alguns carros. Velhos e meio que acabados, mas ainda andam. Passando por eles em ruelas do meu bairro, vi que alguns estavam abandonados. Sim, abandonados, pois alguns estavam com portas ou vidros abertos, e isso, é um sinal de “podem me roubar que eu deixo” aqui no Subúrbio. O hilário que eu ainda não contei, é que cada bairro tem um nome, e o nome do meu bairro, é Tilem, porém, é mais conhecido como Subúrbio mesmo.
Chegando a minha casa, já na minha rua, vi alguns moleques pichando o muro de um barzinho que vivia aberto. Quando eles me viram, começaram a correr. Será que por medo? Creio que não, deviam estar apenas preocupados em que alguém os pegue e os castiguem pelo erro. Aqui no Subúrbio, os filhos parecem não ter pais. Qualquer que seja a criança que esteja fazendo merda, a pessoa corajosa vai até elas e as castigam. Algumas vezes isso se resulta em morte, outras as pessoas deixam pra lá, mas também, nunca mais oferece ajuda para a pessoa que castigara seu filho. - Não creio que o momento seja propício para aprender a caçar pai. Meu pai ficou pasmo olhando para o berrante e para mim. Acho que ele nunca havia visto um ainda, e muito menos, com a cabeça despedaçada depois de um bom e certeiro tiro no crânio. - Sim Marcos, eu estou! Acho que estou perto de algum galpão mestre. Conhece esse lugar?

- Mãe? Pai? – Chamei enquanto entrava em casa.
Quando entrei, vi apenas meu pai, sentado junto à mesa de jantar, limpando uma espingarda. Nunca tinha visto uma, e muito menos com meu pai. Ele era meio misterioso sobre seu trabalho, mas creio que minha ficha estava caindo.
- Limpando uma espingarda, certo? – Perguntei me sentando a mesa.
- É, - Disse ele parando de limpar sua espingarda e me olhando por cima dos óculos. – era do seu avô. Ele me ensinou a caçar quando pequeno e antes de morrer, ele me deu isso para fazer o mesmo com você.
- Meu avô te ensinou a caçar? – Perguntei surpreso. – Porque nunca me contou sobre isto?
- Não era interessante. Pelo menos não era, agora já não sei. – Ele continuava a limpar sua espingarda.

- E a mãe e o irmão? Onde eles estão? – Perguntei.

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- Seu irmão levou sua mãe para um lugar seguro.
- Como assim lugar seguro?
- Pronto! – Disse ele olhando a espingarda como se estivesse sonhando. – Toma! – Disse ele me entregando a espingarda.
- Pra que isso?
- Antes de eu morrer, tenho que cumprir uma promessa ao meu velho. Vou te ensinar a caçar.
Aprender a caçar? Nossa! Que incrível! Olhei e analisei a espingarda. Devia ser mais velha que meu pai, provavelmente meu avô ganhou ela do meu bisavô. Não duvido muito não, pois era velha e apesar de a arma estar bem conservada seu cheiro de ferrugem não me enganava.
Apesar de eu ter gostado da ideia de aprender a atirar, de fazer algo que meu avô fez com o meu pai, eu não estava tão interessado no assunto. Caçar seria ótimo, mas estávamos vivendo algo que eu não sabia direito o que era. Precisava encontrar meu irmão, pois ele teria as respostas.
- Errado. – Disse ele enquanto se levantava com agilidade e pegava sua bolsa. – O momento propício já passou, agora é o momento necessário para aprender a manejar uma arma.
- Espere um momento. – Pensei no que ele estava dizendo, e cheguei à conclusão de que ele deveria saber o que estava ocorrendo. – O Senhor sabe o que está havendo na cidade?
- Sei. A cidade não é segura, e os militares levantaram uma enorme muralha ao sul da nobreza.
Droga! Quando eu estava lá na cidade, quando eu estava no morro, eu estava perto da muralha, só não tinha ideia de que ela seria atrás do morro em que eu estava.
- E o que iremos fazer? – Perguntei um pouco em pânico.
- Caçar ué.
Ok! Não ia discutir com meu pai, se ele insiste tanto em ir caçar, que seja, mas eu não sabia se conseguiria me concentrar da maneira certa para aprender a manejar uma arma.
Saímos de casa e fomos em direção há rua do galpão mestre do subúrbio. Ali era um lugar onde ficavam as bugigangas da cidade. Tudo que estivesse ruim, totalmente estragado, ou até mesmo um pouco danificado, iria para o galpão mestre. Esse galpão tinha um dono, senhor Martinez. Ele nasceu no país vizinho ao nosso, mas veio para cá quando ainda tinha uns dez

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anos de idade. Seu pai era ótimo com manutenções de ferramentas estragadas, transformava tudo que era velho, em algo novo. Modificava aparelhos e devolvia na melhor forma para quem quer que tenha pedido o conserto. Dizem até, que o metro só chega até aqui, por causa dele. Muitos ricos queriam consertar relíquias e não tinham como, pois eles eram uma negação para qualquer tipo de conserto, então traziam até aqui, mas como eram ricos, viam de metro e quase sem roupa, para disfarçarem sua tamanha riqueza. Então ele morreu, faz uns quarenta anos, e o senhor Martinez, pegou o galpão para si e o nomeou como o galpão mestre. Infelizmente, hoje em dia, consertos não são tão necessários para os ricos, então o senhor Martinez começou a ser pouco procurado e então, seu galpão mestre entrou em crise, e agora, guarda um monte de bugigangas.
- Estamos indo aonde exatamente? – Perguntei ao meu pai que andava rápido e mostrava tal disposição que me impressionava.
Ele não me respondeu, mas ao invés de andar rápido talvez por pressa, comecei a perceber que ele poderia estar andando rápido por precaução. Estava mostrando muita disposição, porém, já estava começando a ficar ofegante.
- Pai?
- Se acalma Marcos, que nós já estamos chegando.
Continuamos andando, como se estivéssemos indo para o galpão mestre. Há poucos metros de onde estávamos, avistei o galpão e comecei a acreditar seriamente que seria ali o nosso ponto de chegada. Meu pai tirou uma pistola de trás de sua calça, e continuou andando com ela na mão. Estava mais atencioso, o que me fez ficar atencioso também, e como resultado disso, peguei a espingarda que ele me deu e me preparei para qualquer que fosse a ocasião.
- Fique em silêncio. – Disse meu pai em um sussurro rápido.
Abaixamos um pouco e continuamos andando na direção do galpão mestre. Ao chegar bem perto, nos dirigimos para o lado, e então, fomos andando pelo lado direito do galpão. Há uns cinco metros, havia uma escada que dava para uma porta que ficava do lado de fora do galpão, e ia para o terceiro andar. Subimos lentamente as escadas nos precavendo de alguma coisa, que talvez, só meu pai soubesse. Nesse momento eu estava querendo muito perguntar ao meu pai, quando eu ia aprender a caçar, porque eu já estava ficando com medo.
Chegamos à porta do terceiro andar do galpão. Meu pai abriu a porta bem devagar deixando apenas um frasco de visão para o lado de dentro. Ele olhou a brecha e então pareceu que não tinha visto nada de perigoso ali dentro. Ele se levantou e entrou de vez. Em seguida eu entrei. Ele foi até a beirada do corredor que estávamos para olhar lá pra baixo, enquanto isso, eu fechei lentamente a porta para que se alguém estivesse aqui, não soubesse da gente.
Grhung!
Ouço esse familiar barulho, e logo vejo um berrante saltando para cima de meu pai. Sem nem pensar no que poderia acontecer de ruim, eu mirei e atirei com a espingarda que meu pai me deu.

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- Pai! Você esta bem? – Perguntei tirando o berrante de cima dele, e o ajudando a se colocar de pé.
- Estou bem... – Disse ele me segurando pelo ombro e olhando nos meus olhos. – Obrigado, mas o barulho desse tiro, pode ter nos complicado um pouco.
Ele sacudiu meu cabelo e sorriu, como se nos colocar em perigo fosse engraçado.
- Anda, vamos logo! – Disse meu pai começando a correr. Então corremos para o final do corredor, onde daria em uma escada que descia para o segundo andar. Fizemos o caminho, correndo e com as armas em mãos. Meu pai parecia saber manejar bem uma arma, ou pelo menos, ter ciência de como manejar uma. Ele já estava destravando a sua arma e apontando para a sua frente.
Octávio/Ock
O corredor do segundo andar era um pouco diferente. Ele ia até a metade do galpão, depois virava uma ponte para o outro lado do galpão. Corremos até a travessia para o outro lado, e quando chegamos do outro lado, viramos a esquerda que levava até a escada para o primeiro andar. Quando chegamos à escada do primeiro andar, ouvimos um grunhido e depois vimos outro berrante. Eu me preparei para atirar, mas quando vi o berrante já estava caído no chão com uma bala da arma do meu pai na cabeça.

- Show! – Falei sorrindo.
- Não fique tão feliz. – Respondeu meu pai. Depois de sua resposta, ele parou, e então entendi o porquê eu não deveria ficar tão feliz. O primeiro andar estava com alguns berrantes nos olhando e grunhindo para agente. Para ser exato, tinham nove deles.
- O que faremos? – Perguntei.
- Só fique perto de mim.
Eu estava sendo protegido, acho que isso era um instinto de pai. Proteger os filhos em primeiro lugar. Mas naquela situação, eu não deveria me deixar ser apenas o protegido. Eu deveria dar cobertura ao meu pai, para que ele pudesse me proteger, então, atirei no primeiro berrante a nossa frente.
Iniciou-se um confronto interessante. Pude perceber que eles não pensavam, e sim, agiam por instinto. Depois que acertei o primeiro na cabeça, veio outro e logo em seguida, mais um. Meu pai deu um tiro certeiro na cabeça de cada um deles. Outro veio segundo depois e mais uma vez meu pai acertou ele na cabeça. Hora de recarregar. Meu pai teve de recarregar sua arma, e enquanto isso veio dois berrantes para cima de nós. Um estava tampando o outro, não propositalmente, isso era visível, mas sem querer o primeiro tampou o segundo berrante.

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Mirei no peito do primeiro e atirei. Ele caiu e atrasou um pouco o que estava atrás dele, que tropeçou no berrante que caiu. Mirei na cabeça do segundo berrante e atirei, acertei, mas não me dei conta de que o berrante que caiu, levantou tão rápido e que já estava em cima de nós. Meu pai recarregou sua arma e atirou, mas o espaço era pequeno e só acertou na barriga dele, o que não adiantou, enquanto isso eu mirei na cabeça dele, mas quando atirei, era a minha vez de recarregar.
- Merda! – Gritou meu pai.
O berrante socou a mão do meu pai que deixou a arma cair, socou a parede atrás do meu pai e berrou a poucos centímetros do rosto dele. Quando achei que meu pai ia morrer, o berrante cai do nada. Quando olho para onde deveria ter mais berrantes, vejo Martinez com a arma apontada e saindo fumaça de seu bico.
Martinez
 - Estão todos bem? Creio que sim, venham! Rápido!
Ouvimos o Martinez e corremos na direção dele. Entramos na porta do primeiro andar que deu em uma sala totalmente escura. Martinez trancou a porta e acendeu a luz. Quando vi o que estava escondido naquela sala, logo disse:
- Outra escada? Não era de se imaginar algo diferente.
- Haha! Relaxa pequeno Marcos, lá embaixo é que esta a surpresa.
Pra quem não sabe, meu pai é amigo de Martinez, e toda vez que ele me via, já que me via desde que nasci me chamava de pequeno Marcos. E olha que estou no tamanho certo para a minha idade.
Quando chegamos ao andar debaixo vi que realmente era incrível aquele lugar. Uma estante cheia de armas, granadas e se não me engano, minas terrestres. Uma TV pequena e um sofá que dava para dois sentarem. Um tapete sujo porem admissível para alguém do subúrbio.  Binóculos, óculos de visão noturna, silenciadores de armas, facas e até espadas pendurada pela parede. Um pôster de uma mulher pelada pendurado em cima da parede, com uma faca prendendo o pôster. E o mais incrível, uma toca de motoqueiro preta com uma caveira desenhada na frente na cor branca.

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- Gostou não é? – Perguntou Martinez rindo.
Conversamos um pouco, e logo pedi para tomar um banho. Fui tomar banho e debaixo do chuveiro vi meu cotovelo sangrar. Por sorte foi um ralado e nada de grave. Fiquei pensando em como a Bia poderia estar e então pensei em ligar para ela. Pena que dentro do galpão não tinha área, então, pedi ao Martinez para ir lá em cima, e ele me mostrou uma escada que até então, nem meu pai sabia.
- Essa escada vai direto ao terraço. – Disse Martinez me parando antes que eu subisse. – Não demore no telefone. Use apenas por um minuto e se puder, menos que isso.
 Ele falou tão sério, que apenas fiz que sim com a cabeça. Subi e logo estava lá. Meu celular coberto de área o que era novidade e então logo disquei para a Bia.
Enquanto chamava, observei o subúrbio. Era incrível como dali dava para ver praticamente, todo o Subúrbio. Estava de noite, e tudo parecia mais escuro. Era como se não houvesse lua. As ruelas que ficavam próximas tinham apenas dois ou três postes em mais de cinquenta metros. Ou seja, praticamente todas as ruas estavam escuras.
- Marcos? – Disse a Bia atendendo rapidamente o celular.
- Bia! Como você está? Estou preocupado. Esta vendo o que esta acontecendo por aqui? – Perguntei desesperado.
- Sim, estou bem, e também estou vendo o que tudo esta acontecendo. Acho que ouvi meu pai dizendo algumas coisas sobre isso, mas não sei ao certo o que podem significar.
- Bom pelo menos você esta a salva. – Disse aliviado.
- E você também Marcos. A não ser que não esteja no subúrbio. – Disse ela esperando uma resposta minha.
- Como assim? – Perguntei sem entender nada.
- Marcos, - Disse Bia entrando em uma pausa, mas logo continuou a dizer. – o subúrbio é a área que menos tem essas coisas. A área da nobreza e a da classe média está em ruínas, tudo horrível e muito mais que assustador. Vi tudo quando peguei o helicóptero com meu pai e viemos para o subúrbio. Parece que aqui a cidade esta tão tranquila.
- Espera um pouco, - Disse, mas parei, pensei e então retomei a dizer. – você esta aqui?

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Galpão mestre? Perto do galpão mestre? Não podia acreditar que aqui, onde quase morri o dia todo, seria o lugar mais seguro da cidade. Não acreditei que a Bia estaria aqui, tão perto de mim. Onde será que ela estaria? Droga! Tenho que vê-la, tenho que pegar essa oportunidade antes que eu morra, e não possa mais dizer o que estaria entalado em minha garganta, durante anos.
- Conheço. E estou dentro dele. 

Marcos

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