RENEGADOS


Já ouviram dizer que na hora em que vemos a morte, nossa vida se passa diante dos nossos olhos em segundos? Justamente quando eu cheguei ao meu destino. Mesmo deste jeito, ainda cheguei e por isso, venci minha batalha. Dor, saudades, medo, pavor, coragem, amor, ódio, esperança, sono, fome, tudo isso eu passei. Mas que eu olhe pelo lado bom, estou aqui. Eu estou aqui!
Quem sobreviveria há um fim de mundo apocalíptico? Apenas as pessoas que secam seus rostos suados com uma nota de cem reais. Os demais não têm dinheiro o suficiente para fazer parte das pessoas que devem ser resgatadas e protegidas.
Sortudos são os militares que podem ser ricos ou pobres, mas serão salvos. Na verdade, não sei são ao certo, pessoas sortudas, se olhar para o nosso ponto de vista, eles são sortudos sim, pois não temos nada e daríamos o nosso nada para proteger os ricos dos nossos novos amigos. O único azar dos militares, é que ao defender os ricos, eles se colocam de frente ao campo de batalha, e em todas as suas lutas, um deles morrem.
Azarentos somos nós. Sociedade da classe baixa e média. Não somos importantes para o país, não temos dinheiro para ajudar na reconstrução da infraestrutura do nosso lugar. Somos pobres. Acho que agora, não nos damos o luxo de participar de três tipos de classe social, pois agora, somos os do lado de fora da muralha, e os ricos, são os que ficam do lado de dentro da muralha, a salvos de qualquer aberração descomunal que possa aparecer. Esse é o nosso fim do mundo, e não sei se nós vamos sobreviver a isso, não sei se teremos um final, mas a cada dia que se passa, estamos correndo atrás de abrigos e mais pessoas para nos juntar e então, defendermos as pessoas do lado de fora da muralha.
Quem nós somos? Somos os renegados. Como tudo começou? Irei contar a vocês a minha história, pois não tenho muitos amigos por aqui, apenas nos protegemos das aberrações e só. Não compartilhamos sentimentos ou boas lembranças.
Tudo começou uma semana antes do termino das minhas últimas provas do colégio. É, sou novo ainda. Não se passaram anos para eu precisar deixar a minha história pra alguém qualquer que pegue esse livro. Sim, escrevo tudo aqui, para que alguém um dia, saiba como tudo começou, ou pelo menos, tenha alguma ideia de como foi o inicio do fim do mundo, pelos olhos de alguém que foi deixado do lado de fora da muralha. Escrevo aqui como se fosse um livro, pois não quero que ninguém mude nada, e isso fica a quem quer que pegue isto. Peço por favor. Pois a emoção de alguém que fica do lado de cá, não será igual há alguém que não passou pelo que passamos.

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CAPÍTULO 1

Lembro como se fosse ontem de como era a escola. Ainda estou estudando para ser sincero, mas antes isso aqui tinha vida, hoje tudo é obscuro e assustador. No lugar de bolinhas de papeis, existem canivetes ou qualquer coisa que possa perfurar as aberrações. Isso é de alguns alunos, claro. Tem os que têm medo e andam preparados para qualquer coisa, e tem os mais tranquilos, que não acham que vai acontecer alguma coisa. Eu sou do tipo que acha que vai acontecer alguma coisa a qualquer momento, porém, não tenho nenhum tipo de arma em mãos. Sei lá, parece idiotice andar assim em plena escola, tantos alunos, quero dizer, eram muitos, hoje já não são tantos, mas ainda temos pessoas aqui, e com tudo isso acontecendo eles podem ficar mais assustados, então prefiro manter a calma e ficar apenas observando.
 - Oi Marcos. – Disse Bianca. Sou apaixonado por ela, só que ela nem imagina isso. Somos melhores amigos e nunca disse sobre meus sentimentos para ela. Mas nem preciso pensar em tentar algo, sei que as coisas são diferentes para nós, ela classe alta e eu, estou no mesmo colégio que ela graças a muito esforço meu, e sorte para ter pegado essa bolsa escolar.
- Oi Bia. Como está? – Perguntei.
Converso um pouco com ela, mas logo temos que prestar atenção na professora. Ela diz que sentem muito por tudo o que esta acontecendo, mas ela não quer parar de dar aula, pois é tudo o que ela mais ama e a única coisa que tem. Muitos professores, zeladores e até mesmo o pessoal da direção, foram embora, mas alguns ficaram para manter a ordem e continuar dando as últimas aulas do colégio.

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- Será um orgulho ver esta turma tão querida para mim se formar. É um sonho, e eu amo muito isso. Fazer parte da história de cada um de vocês é gratificante para mim como professora. São importantes para mim e jamais me esquecerei de seus rostinhos tão belos.
Parecia enterro, mas na verdade, não demoraria muito para alguns de nós sermos enterrados. Eu ainda não estava por dentro do que estava acontecendo, só sabia que tinha um tipo de vírus que transformava pessoas em aberrações sanguinárias, e que talvez devessem evacuar a qualquer momento.
Por enquanto ainda estávamos em um ambiente tranquilo, tudo de pé, nada atacado ou pinchado como está agora. O mundo mudou bastante e em muito pouco tempo.
No dia do meu último exame escolar, eu chamei a Bia para conversar. Acho que já tinha em mente o que iria acontecer e com certeza iríamos nos separar por muito tempo e talvez até para sempre.

- Vamos dar uma volta comigo depois da formatura? – Perguntei e ela disse rapidamente um belo de um sim. Gostei muito, mas apenas sorri de leve para ela e me despedi, dizendo um até o dia da formatura.
Em casa, eu tive o melhor jantar em família que alguém poderia ter tido. Frango assado, batatas-fritas em dois pratos, linguiça calabresa, empanados e até hambúrgueres por toda a mesa. Comemos tudo. Meu irmão, meu pai e minha mãe. Um jantar completo em família.
- Como foi à última prova na escola meu filho? – Perguntou minha mãe, que sempre mostrou ter orgulho de mim. Ela era professora e me ensinava tudo o que sabia, e quando disse a ela que eu queria ser médico ela achou isso lindo. Ela me apoiou e me ajudou a passar no melhor colégio na cidade, que davam apenas três bolsas escolares por ano.

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Ao meu irmão ela perguntava como foi no serviço, pois ele era militar e estava faltando dias para ele passar a ser cabo da marinha. Ele estava contente com isso e disse que iria comprar um carro logo depois que esse alvoroço todo passasse.
Minha mãe e meu pai, não diziam muito sobre eles, apenas que estavam orgulhosos de nós e que teríamos um futuro brilhante pela frente. Pena que erraram feio sobre isso.

Chegado o dia da minha formatura, eu coloquei a minha melhor roupa, comprei um perfume novo e fiz um novo corte de cabelo. Em minha opinião eu estava bem gato, como diriam as meninas eu acho. Enfim, ao chegar à escola, coloquei minha beca e minha fita de primeiro lugar do terceiro ano do ensino médio da escola.

- É com orgulho, apesar de todos os acontecimentos, que estamos aqui para apresentar nossos formandos de 2012. – Aplausos. Acho que foram muitos, mas não tantos como deveriam ser. Fui chamado à frente para os dizeres que eu deveria pronunciar aos pais dos formandos e assim eu fiz. Uma cerimônia completa, com luzes, músicas, fitilhos dourados e prateados voando pelas nossas cabeças. Alunos se abraçando e desejando um ótimo futuro uns aos outros e marcando para se encontrar em alguma casa de show pela cidade, ou até mesmo para alguns, ir ao iate de algum amigo, o que era comum para os alunos da minha turma.

Eu ainda não havia visto a Bia em lugar nenhum, e estava ansioso para o nosso encontro, e acho que isso, estava me fazendo suar muito, então fui até o banheiro para me ajeitar. Chegando ao banheiro, fui direto ao espelho, joguei água no rosto para tirar o suor, passei um pouco do sabonete liquido que sempre ficava ao lado da pia e então comecei a me observar no espelho. Meu rosto estava liso, e isso nem era normal, pois vivia com espinhas e cravos. Estava crescendo algum tipo de barba em meu queixo, o que não era nada demais, mas em pouco tempo me daria uma expressão de homem brabo. Meus olhos estavam claros, cor de mel como os olhos de meu pai. Minha boca tem algo que sempre gostei e que muitas meninas já disseram ser um dos meus charmes. Uma pinta no meu lábio inferior. Meu novo penteado me dava um visual bem elegante, baixo do lado e atrás e em cima grande jogado para o lado. Sorri com aquela imagem, mas logo em seguida, vi algo estranho atrás de mim. Continuei olhando para o espelho e vendo aquilo atrás de mim. Ele estava a uns cinco metros de mim. Sim, ele. Uma aberração, um berrante. Ele estava grunhindo atrás de mim, e em seguida, mostrou os dentes podres que eram cobertos apenas por lábios rasgados. Ele era careca e pálido, alto e forte, e eu, pequeno e 


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magro. Ele iria me estrangular ali, mas sei lá, acho que algo estava me deixando no controle da situação. Continuei encarando ele através do espelho, até que então, ele me ataca. Ele vem correndo pra cima de mim e quando chega perto, ele pula e por sorte, eu já havia pensando em pular para o lado, então foi tudo no tempo certo. Eu pulei para o lado e ele pra cima de mim. Ele bateu com a cabeça no espelho e ali ficou. O barulho foi enorme, com certeza o impacto também fora, ali eu tinha certeza de que ele estava morto, pois além do espelho, ele quebrou os azulejos que ficavam atrás do espelho.
- BERRANTE! BERRANTE! – Saí correndo do banheiro gritando para todos os lados e procurando pela Bia.
O lugar da cerimônia dos formandos esta praticamente vazia. As pessoas hoje em dia, vão aos lugares, mas logo querem ir embora, para casa, onde estão certos de que é seguro. Militares aparecem e pedem para que agente, nos acalme, pois foi apenas um berrante que fugiu de um dos caminhões deles, e que eles lamentam pelo ocorrido.
- O que era aquilo? – Perguntou um moço com sua filha nos braços, apavorada e soluçando de tanto chorar.
O militar que pede para agente nos acalmar, é o mesmo que diz ao senhor com a filha nos braços, que não é nada demais, e que está tudo sob controle.
- Não precisam se preocupar, foi um descuido nosso. Prometo que isso não ocorrerá outra vez. – Dizia o militar. Seu nome eu não sabia, porém, em sua farda, havia escrito “TENENTE BARBOSA”.
- O que está acontecendo, - Parei e verifiquei outra vez seu nome em sua farda. – Tenente Barbosa? Por favor, tudo parece estar mudando, existe algum motivo para tomarmos cuidados? Pessoas andam armadas com medo uma das outras, ou então, de coisas que até então, eu não sabia distinguir como poderiam ser. Nos dê alguma informação.
- Novos tempos amigos. Novos tempos!
Essa foi à resposta do Tenente Barbosa. O que eu deveria esperar disso? Nada, eu ainda estava absorvendo o que havia ocorrido comigo, e minha preocupação com a Bia, estava me deixando com a cabeça quente. Preciso encontra-la.
- E ai, vamos dar uma volta ou não? – Perguntou a Bia, bem atrás de mim.
- Onde esteve todo esse tempo? – Perguntei e em seguida dei um abraço nela.
Eu parecia ofegante, e meu coração ao vê-la, entrou em disparo. Minha preocupação se tornou um rio de correnteza forte. Suave e rápida e forte. Parecia que meu sangue estava recebendo um pouco de gelo, 


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pois fiquei tão tranquilo em ter ela em meus braços, que qualquer que fosse o vento que batesse em mim, eu sentiria todo o seu frescor e ela apenas, sorriu.
Bia me disse onde estava. Falou que tinha ido fazer um lanche com seu pai e sua mãe em uma lanchonete próxima dali. Disse então que eu devia ter me preocupado sem motivos. Acho que foi o berrante que me deixou essa preocupação. Parecia que eu já estava vendo a merda que ia dar no futuro, e então acreditei que poderia ser o inicio de tudo.
Passando as horas, Bia e eu, fomos até um morro bem alto ver o por do sol. Ela adorava isso, e eu também. Mas subir morros altos, nunca foi o meu forte, só enfrento isso, por causa dela.
O momento estava bom, e o céu começava a ficar alaranjado. Parecia a única coisa normal que estava acontecendo por ali. Ficamos vendo a cidade e como ela estava ficando obscura. Mas se eu soubesse como ficaria não me preocuparia ainda.
 - Já teve medo de dizer algo que você guarda há muito tempo pra alguém? – Perguntei.
Não sei se foi à maneira certa de dizer, mas ela só olhou para mim e depois voltou a olhar para o céu. E como rápida resposta, ela disse:
- Não quero perder o por do sol agora.
Uma frase coberta com seu sorriso. Continuamos ali, deitados um do lado do outro, olhando para o céu, e pelo menos, estava pensando em como tudo deveria estar. Ainda não tinha ideia do que iria acontecer, mas já estava ficando um pouco preparado. Então, depois de uns cinco minutos olhando o por do sol, ela vira e diz que se ela tivesse medo, acharia que era a hora de enfrenta-lo, mesmo que o tempo tenha passado tão depressa.

Olhei para ela e sorri. Fiquei calado, sem dizer nada, talvez ela tenha até pensado que eu queria dizer algo a ela, só que depois do silencio, eu deveria ter dado a impressão, de que era outra pessoa que eu estaria me referindo.
Não sei, eu não deveria estar preparado para aquilo. É certo que o nosso tempo de amizade, era longo, já se passavam seis anos que nos conhecemos, no mesmo colégio e sempre na mesma turma. Ao contrário de mim, ela tem um pai rico, dono de uma grande empresa no


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país, e nem sequer, deve saber de minha existência, e mesmo que soubesse, não gostaria de saber, com certeza. Muitos fatores estariam contra agente. O engraçado é que a minha família, vive dizendo para eu não ligar pra isso. Se ela é o meu grande amor, eu devo ir e correr atrás dela.
- Como reagiu ao ver o berrante? – Perguntou Bia.
Penso um pouco naquela cena. Em como o berrante estava atrás de mim, me olhando dentro dos olhos e seus dentes se serrando uns nos outros. A vontade dele com certeza era me comer vivo e chupar até meus ossos depois que acabasse com a minha carne e órgãos.
- Não sei como dizer ao certo.
- Como ele era?
- Bia...
Paro e olho para ela, e então respondi:
- Ele parecia estar lutando contra aquilo. Não sei, parece loucura, mas ele parecia alguém lutando contra seus instintos, e seus instintos pareciam loucos pra matar alguém. Consegui desviar por pouco dele, mas o que mais eu achei estranho era o sangue dele.
- Porque estranho?
- Era negro. Bem escuro e parecia grosso, como se fosse uma gosma daquela bem grudenta.
- Que nojo! – Disse Bia soltando uma risadinha.
Conversamos mais um pouco e quando vimos já estava de noite e a única luz que tem naquele morro, é a luz do poste, que ilumina apenas ao seu redor. Descemos o morro cuidadosamente. Sim, com cuidado, não pelos berrantes, que até então, não era um problema, mas sim pelos animais que ficavam ali. Sem contar que se a Bia visse uma cobra ou até mesmo o barulho dela, ela pirava e começava a gritar.
Era pra ser um por do sol romântico, mas não foi. Talvez até por minha causa, mas fazer o que, não creio que era a hora certa, e somente o lugar certo.
Ao chegarmos perto de uma cyber-café, ouvimos o rádio tocar uma música que a Bia não se continha em cantar. Ela cantava e se envolvia com a música. Até fechar os olhos ela fechava o que era engraçado. Então, a música parou de tocar e ruído alto começou a surgir.
- Poxa, logo na minha música! – Disse Bia indignada.
E então, no rádio começou a surgir uma voz. Ela falava alguma coisa para os ouvintes tomarem cuidado, só que estava saindo muito cortado então não entendemos quase nada, segundos depois, a voz ficou limpa e parecia estar repetindo o que havia dito pouco antes, e ela dizia bem assim:
“– Interrompemos esta programação, para avisar a todos os nossos queridos ouvintes, que hoje, a meia noite, a rádio será fechada, por causa dos acontecimentos na cidade. Atenção!

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Protejam-se, não confiem em ninguém, às coisas vão piorar logo, logo! Vão para suas casas e fiquem com suas famílias. Im...” – E então, foi cortada a voz e nada mais era ouvido.
- Marcos, eu estou ficando assustada. – Disse Bia.
Levei Bia até em casa, o mais rápido possível. Para o drama ficar ainda melhor, começou a chover e relampear. Pessoas correndo de um lado para o outro, todas pareciam assustadas e isso, piorava a situação da Bia que já estava ficando apavorada. Quando chegamos à casa da Bia, ela parou, e me olhou nos olhos, e me agradeceu por eu ter trago ela até aqui. Então, peguei sua mão e olhei diretamente nos olhos dela, e parecia que ela tinha entendido o que eu queria dizer, mas não tinha coragem para tal coisa. Ela me abraçou forte, tão forte que consegui sentir seu coração pulsar em um ritmo bem acelerado.
- Bia! Entra agora! – Berrou seu pai da janela do segundo andar. Deveria ser o escritório dele, pois ele via tudo de lá. Sua janela era do teto até o chão, e com uma ampla visão do lado de fora.
- Vai. – Disse para ela.
Ela me soltou devagar e foi andando para trás sem soltar minha mão, até que não havia mais como ela continuar conectada a mim, e então, sua mão foi deslizando pela minha até que a ponta de nossos dedos disse o tão esperado adeus.
O que estava acontecendo ao certo? Acho que poderia saber com alguém, e esse alguém, mora bem na minha casa. Meu irmão, militar, marinheiro, servidor da pátria amada.
Comecei a correr na direção contraria a casa da Bia. Era uma longa rua, e quando eu ia virar a esquina, olhei para trás, e vi-a entrando no carro de seu pai, e então, deram partida à rua a esquerda.
- Provavelmente, irão para alguma base militar, tenho de correr para encontrar meu irmão. – Pensei alto, mas continuei correndo.
Ia demorar se eu fosse correndo da casa da Bia até a minha. Afinal de contas, ela mora no bairro nobre, e eu no subúrbio. Era mais fácil ir até o centro da cidade e pegar um metro. Fiz isso, e quando chego ao metro, vejo que por sorte, tudo está vazio. Nem guardas, nem passageiros, nem camelôs, nem ninguém. Sorte a minha que não vou precisar usar dinheiro para pegar o metro, alias, estou sem nenhum trocado. Isso me deu motivo para rir. Pulei a catraca do metro e corri para entrar em um que havia acabado de parar ali.
O metro sempre foi lotado. Pessoas que trabalhavam no centro da cidade, eram na maioria, pessoas que moravam no subúrbio. O centro da cidade baseava-se em coisas pequenas, porém, grandes. Como assim? Uma grande lanchonete, um grande salão de beleza, um grande supermercado, um grande “várias coisas”. Mas desta vez, o metro estava vazio. Meu vagão tinha apenas eu e mais um homem, sentado em uma ponta, bem longe de mim. Ele usava uma toca e tinha barba grande. Parecia um bêbado, e creio que seja esse o motivo de ele estar aqui.

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 - Sorte nossa ainda estar funcionando. – Disparou o homem na outra ponta do vagão.
- Por quê? – Perguntei desconfiado.
Ele deu de ombros e em cinco minutos as luzes do vagão começaram a piscar. Continuei tranquilo, o velho homem não estava mais me assustando. Não tinha ganhado minha confiança, mas não me assustava mais. Fiquei olhando pela janela, e vendo as casas bonitas desaparecendo, e as casas de classe média surgindo, e depois, elas desapareceram para entrar no meu terrível território. O subúrbio da cidade era realmente um lugar falido. Eu creio que minha família poderia se mudar para o local de classe média, mas meu pai acha que eles não nos receberiam bem, pois para eles, um pobre é sempre um pobre, e somente as classes médias podem subir na vida e então, entrar na área nobre.
Ouço um grunhido no vagão, e então, penso no homem que esta ali. Viro rapidamente para ele, e então vejo algo assustador. O homem que estava na outra ponta do vagão, começou a grunhir e a contorcer os dedos das mãos. Começou a entortar o pescoço e então, se levantou. Eu fiquei ali parado, sem ação nem reação. Ele começou a caminhar na minha direção, devagar, e parecendo um bicho, diferente de um berrante. Logo pensei que morreria ali, mas por sorte, o metro parou na minha estação, e abriu a porta. Eu me joguei para fora e quando a porta fechou o homem que não me assustava mais, apareceu na janela ao lado da porta em que sai, e me encarou sem nem piscar os olhos, e sem nem se acalmar. Continuou com os dentes a mostra, e provavelmente, meu momento de sorte estava acabando.
Ouço um latido atrás de mim, e quando olho, vejo um cachorro esquelético, e em carne viva. Todo arrebentado e nada normal. Parecia estar bem, mas não estava, e isso é o que me preocupava. Nesse momento, entrei em duas situações. O metro, quando para, abre a porta e fecha e depois de dez segundos, abre novamente e fecha. Isso é para causar menos acidente e deixar que os primeiros passageiros se acomodem no metro para ai então, os outros entrarem e para a maioria pelo menos, ficar confortável. As situações eram, ou virar comida de cachorro, ou virar comida de um talvez, futuro berrante.
Grhung!
A porta do metro abriu, e eu continuei ali caído. O ainda não berrante, eu acho, pulou em cima de mim, mas na verdade, não pulou. Ele foi pra cima do cachorro, e começou a comê-lo. Só pude ouvir o cachorro gemendo e grunhido para ele. Não tive coragem de olhar para o animal, mas olhei para o homem, que parou de comer o cachorro e me olhou bem no fundo dos olhos. Ele pareceu ter encontrado algo dentro de mim, ficou ali, paralisado, só que depois de certo tempo, ele piscou e voltou a comer o animal. Aproveitei a situação e corri para longe dali, para a minha casa.

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