Sedução
Capítulo 12
1
Foi como imaginar mil pontos interrogativos surgindo em minha frente.
“Ciúmes?”
Porque eu sentiria ciúmes de Mikael? O que eu sentia por ele havia morrido, juntamente com o significado vazio de suas promessas e o preço de suas mentiras.
- O que aconteceu? – perguntei sem hesitar. 
- Nada de mais. Pelo menos é o que eu acho – ele deu um sorriso abafado e olhou para o lado.
Minha pele queimava, tinha a certeza que meu rosto estava em chamas, tão vermelho quanto o sangue de minhas veias.
- E o quê eu tenho com isso? – tentei apaziguar.
- Nada também. Acho.
Ele sinceramente sabia me irritar. Sempre conseguia. Eu sempre caía, mesmo preparada, quase nos mesmos tormentos e desculpas.
- Srta. Dabroven – chamou o Sr. Patosmik – por favor, estamos em aula.
- Desculpa Sr. Patosmik – falei, virando imediatamente para frente.
- Podemos continuar? – dessa vez ele acenava para Mikael.
- Sim Sr. Com certeza.
- O Sr.?... – pigarreou.
- Mikael.
- Você não pertence a está sala? Pertence? – questionou Sr. Patosmik.
- Não Sr. E por isso já estou de saída – ele levantou e em seguida parou em minha frente – até mais Vs. Majestade – depois deu uma piscadela e um sorriso em direção a Sawl – você também bobo da corte.
- Que bom que se preocupa comigo... Carrasco – revidou Sawlver.
Mikael já estava quase fora da sala, ele simplesmente virou e voltou até Sawlver.
- Bem... Pode até me dar o papel do carrasco. Mas não sou eu que ando matando pessoas por ai – ele ergueu uma sobrancelha para Sawl.
Sawlver permaneceu de cara fechada, seus lábios mantinham a linha regular de antes, seus olhos negros como eram, pareciam absorver a luz no ambiente.
Ele não moveu um único músculo diante de Mikael.
Enquanto eu tentava processar o que Mikael queria dizer com aquilo, o arrepio subia e descia em minha espinha como o vento dando voltas em uma esquina.
Aquilo já estava me incomodando demais. Esses arrepios agora eram frequentes, e não eram normais. Dolorosos, gélidos.
Os dois se fitaram por um segundo, que pareceu durar horas. Olhos nos olhos. Eu senti dentro de mim que alguma coisa, em algum lugar em uma dimensão do mundo que eu talvez não pertencesse, mas que existia, gritava que uma guerra havia sido declarada naquele instante. Uma GUERRA DE VERDADE.
- Por favor Mikael, retires-se, ou o encaminharei para a Direção – disse Sr. Patosmik.
Olhos. Vários olhos presos aquela imagem. Todos na sala observavam confusos o que estava acontecendo ali, sem compreender nada. E como compreenderiam? Nem mesmo eu estava conseguindo entender, como eles entenderiam?
Mikael deu as costas para nós e saiu da sala.
O Sr. Patosmik resmungou alguma coisa inaudível e voltou a falar sobre os Ideais Iluministas, eu esperei por um instante, respirei fundo para que meus pulmões voltassem a se preencher de ar e não de aflição.
Voltei meus olhos para Sawl, ele estava como uma estatua, permanecia da mesma forma de antes me deixando assustada.
- Sawl? – sussurrei – Sawl... você está bem?
Ele não me respondia, permanecia da mesma forma.
- Sawl – dei um grito surdo, puxando-o dessa vez.
Seu corpo se moveu em minha direção, e por último os olhos, se desprendendo da paralisia anterior.
- O quê? – questionou ele, franzindo a testa.
- Você ficou ai paradão. Parecia uma gárgula.
- OH! Hã. Está tudo bem. Não se preocupe.
- O que Mikael quis dizer com aquilo? – questionei.
Nossas vozes juntas sopravam como um vento tranquilo, sussurros. Mantive minha atenção no quadro, simulando uma atenção ao que o Sr. Patosmik escrevia.
- Não sei, para ser sincero, nem imagino.
- Tem certeza, ele parecia num tanto convicto de alguma coisa, te olhou de um jeito que me deu medo.
Sawlver soltou uma gargalhada abafada, mas que ainda foi o suficiente para chamar a atenção do professor. Sr. Patosmik o encarou com um olhar mortal.
- Desculpa – disse Sawl, entre dentes.
Ele revirou os olhos, e parou pousando-os em mim novamente.
- Você me mata com essas – arquejou para mim.
- Desculpa, Sr. Patosmik é...
- Não ele – disse, interrompendo-me – suas piadas.
- Minhas piadas? – retorqui.
- Como se eu estivesse morrendo de medo do seu ex-namorado. Rá-rá.
- AH! Nossa! Desculpa – coloquei minha mão na frente de minha boca, afim de evitar o erro anterior de Sawl – sério.
- Está tudo bem – devolveu ele no mesmo instante.
Eu continuei com minha mão ali, resistindo a tentação de começar a rir de minha própria idiotice.

2

- O que aconteceu ontem a noite? – questionei Vic enquanto andávamos na fila do refeitório.
A comida ali era boa, os cardápios eram feitos de forma convencional seguindo a indicação de um nutricionista.
- Por que você quer saber? – disse ela, voltando-se para trás querendo me observar.
- Talvez porque ele veio me perturbar com alguma ideia insana.
- Insana? – questionou.
- Ele disse que tinha vindo me agradecer por ontem... – minha voz falhou, o vermelho voltava a minha face.
“Ciúmes?” – definitivamente. NÃO. Poderia ser mas eu NÃO aceitaria aquilo, jamais, em hipótese alguma.
- Eu realmente não vejo o porque de ele fazer isso.
- Eu  vejo.
- E o que seria?
- Importunar-me! O que mais? Ele adora fazer isso. Virou um joguinho obsessivo.
Nós duas erguíamos as bandejas para as moças da cantina nos servissem.
- A que ótimo. Amy...
- O quê? – desviei meu olhar de volta para ela.
- Isso está parecendo um ataque de ciúmes.
- Não comesse com isso Vic. Por favor, me poupe dessa hipótese maluca.
- Hipótese? Eu estou vendo isso nos seus olhos e no vermelho de suas bochechas.
- Vic! Para! – ordenei.
- O.K. – disse ela saindo da fila e dirigindo-se para uma mesa vaga.
Eu a segui logo.
- Certo. O que você quer saber? – disse Vic.
- Como assim o que eu quero saber? – retorqui.
- Você que me perguntou sobre o que tinha acontecido...
- Eu perguntei de uma forma geral, não pedi um relato especifico de algum fato. Eu não quero saber o que vocês conversaram, ou...
- Certo. Entendi – disse ela interrompendo-me – a gente terminou de assistir o filme, passeamos um pouco no shopping, conversamos sobre os velhos tempos, comemos algumas besteiras... – ela fez sinal com os olhos como se procurasse por mais alguma coisa – só apenas isso. Acho.
Sawlver surgiu do outro lado logo quando ela terminava de falar.
- Não vai pegar nada? – indaguei em sua direção.
- Não. Estou bem assim.
Sawl estava com uma jaqueta preta e uma blusa vermelho vinho, calças jeans e um sapato esporte – só agora eu parara para notar mais o que ele estava usando, logo quando ele parou bem ali a minha frente, alto e forte.
- Senta aqui com a gente – convidou Vic.
- Sim, claro – Sawl puxou a cadeira próxima a mim e sentou-se.
No mesmo momento o celular de Vic tocou.
- Alô – disse ela.
Um tremido de voz ainda era audível para mim, mas não se podia entender nada.
- O.K. – respondeu Vic – um instante e já estou ai.
Ela desligou o celular.
- Queridos tenho de rir – arquejou, dando uma garfada antes de se levantar.
- Mas você não comeu nada, Vic...
- Está tudo bem Amy, assim como Sawl, estou sem fome. Até mais.
- Ta bom. Tchau.
- Tchau – disse Sawlver também.
Ela fez sinal com a mão e saiu em seguida.
No mesmo momento uma ideia rompeu meus pensamentos, fazendo um raciocínio lógico.
- Sawl, fique aqui, eu volto logo.
- Onde você vai?
- No banheiro, é rápido.
- Certo – aquiesceu.
Saí em disparada querendo acompanhar Vic. Alguma coisa dentro de mim queria que eu fizesse aquilo, e pela primeira vez no dia, eu tinha certeza absoluta de que não se tratava de nada que tivesse haver com ciúmes.
Vic virou em um corredor depois do banheiro feminino ainda interditado, eu não conhecia aquela parte do colégio,ainda não tivera tempo para isso, ela seguiu o caminho até o fim do corredor e virou novamente a esquerda, e logo, ninguém mais estava no mesmo ambiente a não ser ela e eu. 
Uma fileira de portas se estendia, elas não tinham identificações, era como uma área morta, em que os alunos poderiam usar para fazer... Coisas insanas  de vários sentidos.
- Vic... – suspirei para mim mesma – o que você esta fazendo aqui?
- Não pode Vic. Você não pode – exigia uma voz.
Eu me esgueirei por uma parede para ver.
Meus olhos quase nem acreditaram. Mas, ali estavam, Vic e Mikael, o vermelho subiu ao meu rosto. Tentei me conter. Eu precisava ouvir.
- Sabe Mikael, não é tão fácil ser assim normal, é difícil deter algumas coisas.
“Normal?” -  O que ela estava falando?
- Eu sei que é complicado, mais isso, nesse momento.
Ele apontava para seu abdômen, eu quase cheguei a pensar besteira, até que ele pousou sua mão sobre o tecido de seu vestido.
- Isso aqui é demais.
- Mikael eu...
- Espere um minuto – interrompeu ele.
Virei imediatamente de volta para detrás da parede. Ele tinha me visto? 
- Alguém está espiando.
“Droga!” – agora sim eu poderia começar a me preocupar.

Link para o capítulo 13: http://historiasebesteiras.blogspot.com.br/2013/04/seducao-capitulo-13.html
Reações: