Sedução
Capítulo 11
Great Falls High School – Great Falls, Montana 2010

1

A tempestuosa nevasca parecia não querer deixar Great Falls.
Depois da noite passada, parecia que o mundo conspirava para que tudo aquilo de que eu não gosto começasse a acontecer.
Na saída do cinema, fui salva por um fio de ter que presenciar uma outra briga violenta entre Sawl e Mikael, tudo graças a Vic.

- Então é você – disse Sawl.
- E você já saiu da cadeia? – retrucou Mikael.
- Sim. Posso até voltar – analisou – mas primeiro vou quebrar sua cara.
Sawlver saiu em direção a Mikael e esse fez o mesmo.
- Isso de novo não – suspirei.
Vic apareceu rompendo a porta de saída da sala do cinema.
- Calma rapazes – bradou Vic – sem violência. O.K.?
Os dois automaticamente pararam onde estavam e ficaram trocando olhares furiosos.
- Amy já teve acontecimentos demais para uma semana só. E vocês já querem começar a encher a cota dessa, antes de praticamente ter começado. Por favor – teve uma vontade enorme de pular em Vic naquele instante e dar-lhe um abraço para agradecê-la.
Contive-me em apenas falar.
- Obrigado Vic.
- Amigas são para essas coisas – seus olhos cautelosos percorreram o ambiente, partindo de mim, depois para Sawl e pousando-os por último em Mikael.
- Sawlver? – disse ela finalmente depois de um tempo de silêncio, acho que ela esperava que o animo de todos se acalmasse.
- Sim – respondeu ele.
- Leve Amy para casa. Ela precisa descansar e já esta muito tarde.
- Como você quiser- sinceramente eu pude sentir a alegria de Sawl naquelas palavras, era visivelmente perceptível sua felicidade em poder me levar para casa de novo, depois de tudo aquilo.
- Eu ficarei por aqui e farei companhia a Mikael.
- Você o quê? – questionei atônita.
- Algum problema se eu passar o resto da noite na companhia do seu “ex-namorado” – ela deu uma ênfase nessa palavra – Amy.
- De forma alguma – retruquei.
- Então? O que esperam? Que eu dê uma benção final antes de que vocês partam?
Sawl deu uma leve risada por trás das costas das mãos que pousavam charmosamente a frente de seus lábios. Tudo nele, cada ato, cada palavra, cada gesto,  parecia ser capaz de tocar o lado mais intimo de minha mente e encher-me de desejos.
Comecei a andar em direção ao final do corredor de saída. Sawl logo me acompanhou em passadas rápidas.
- É uma pena que não tenhamos terminado de ver o filme. O final era interessante – sussurrou ele.
-Então por que você não me conta quando chegarmos  em casa, não tenho sono e acho que fiquei bem curiosa agora – pensei ter uma boa aptidão para mentirinhas, mas, naquele momento, com o arfar risonho de Sawl, era evidente que não. Minha desculpa esfarrapada tinha deixado claramente todas as intenções por detrás daquelas palavras.
Olhei momentaneamente para trás e percebi que Vic havia voltado para a sala do cinema com Mikael.
“O que será que ela queria em passar o resto da noite com ele?”
Não que eu me importasse com aquilo. Mas os dois juntos me deixavam nervosa e num tanto preocupada.
A manchete do dia seguinte no jornal poderia ser: Casal de loiros incendeiam shopping e saem dançando pelas ruas de Great Falls.
Os dois formavam um perfeito casou de loucos juntos.
Minhas memórias de quando estávamos sempre juntos, os três, não eram de pessoas normais que passeavam pelas ruas da Flórida e jogavam conversa fora em parques. Tínhamos uma admiração por encrencas.

Se o ar não estivesse tão frio e cortantemente gélido, juraria que naquele instante gotículas de suor estariam descendo em minha testa ao lembrar-me daquilo.
“Foi por pouco” – pensei.
Eu estava a caminho de meu armário, descendo as escadas da biblioteca preste a entrar no corredor onde ficavam os mesmos. Quando terminei de descer a escada avistei o banheiro feminino do outro lado, ainda interditado.
O inevitável arrepio desceu por minhas costas ao ver Sawl vindo em minha direção pelo outro lado.
- Bom dia.
-Bom dia – sorri de volta.
Ele segurou em volta de mim, ali, na frente de todos, e deu-me um beijo quente. Quente o suficiente para me fazer esquecer  todo o frio. Foi quase como se tornasse desnecessário o casaco e toda a roupa pesada que eu estava usando.
Por um momento eu queria que minha pele tocasse a dele, e que tudo que aconteceu anteriormente, que nos fez nos unir pela primeira vez, acontecesse de novo.
- Estava indo pegar os livros para a primeira aula?
- Sim. Me acompanha?
- Claro que sim.
Os olhos de Sawl saltavam de pessoa em pessoa, parecia procurar alguém.
- Está procurando alguém? Algum problema? – perguntei.
- Não. Por quê? – ele fez uma cara estranha. Sawl não sabia muito bem disfarçar mentiras assim como eu.
- Me parece que você está um pouco preocupado com algo.
- Preocupado? Hã. Sim. – afirmou.
- E o que está te incomodando assim? – seu rosto demonstrava sérias linhas de aflição agora.
Ele começou a andar em direção ao corredor dos armários, eu fiquei ali um instante, parada, reflete sobre o que ele tinha tido.
Por um momento me senti completamente estúpida em não ter percebido. Era obvio. Dei passos rápidos para acompanha-lo.
- É sua mãe. Certo?
- Sim. Ela não tem feito muito progresso ao tratamento. Apesar de estar se sentindo melhor, mesmo assim, seu quadro não apresenta melhoras.
- Mas, você tinha me dito que ela estava melhor naquele dia. Que só tinha adoecido um pouco.
- Eu só não queria te preocupar.
- Bem, agora você me deixou preocupada. O que ela tem afinal?
Do fundo de meu coração desejava que não fosse algo grave.
- Para ser sincero. Não sei.
“O quê? Como assim ele não sabia?”
- Como? – questionei simplesmente. Minha cabeça deu um bip surdo interno. Ela parecia alerta a queima de um neurônio ao processar o que séria algo meio irônico.
- Meu pai não me fala sobre. Ele tenta me evitar. Evitar que eu saiba de alguma coisa.
De repente até cheguei a me sentir culpada em ter pensado aquilo. Dar tom de ironia. A situação era séria então. Já que seu pai não queria lhe falar o assunto, algo ele estava a esconder. O por quê, é bem questionável. Uma doença grave? Algo contagioso? Ou, simplesmente ele não queria preocupar o filho?
- Estou pensando em viajar nesse fim de semana.
- Para Nova York? Para vê-la?
- Sim. Realmente estou preocupado. Você notou isso bem – ele cedeu um leve sorriso deixando crescê-lo nos cantos dos lábios.
E de repente, tão rápido o quanto aquele leve sorriso surgiu, desapareceu. Seus lábios se curvaram em uma linha séria e sem vida. Sua pele pareceu perder a cor por um instante.
- O.K. Prometo não tocar no assunto.
- Não. Está tudo bem, fique a vontade – seus olhar continuava vago, ele não olhava para mim, sempre estava mantendo eles distantes.
Soquei de leve o armário a minha frente. Girei o código no cadeado, até que a pequena porta cedeu com um silvo suave.
Puxei o livro de História de dentro.
- E pensar que hoje fazem apenas sete dias desde que te conhece – arfei.
- Podem até ter sido sete dias. Mas para mim parece que se passou toda uma vida. Foram muitos acontecimentos para poucos dias.
- Com toda certeza – afirmei, inquieta.
Pus o livro dentro de minha mochila e peguei a mão de Sawl no exato momento em que o primeiro sinal rompeu o barulho dos corredores.
Era quase como se dar um sinal para o inicio de uma corrida. Todos disparavam frenéticos em direção a suas salas.
- Pronto? – disse Sawl.
- Sim. Vamos.
Seguimos em direção a sala de História onde o professor baixinho e careca esperava na porta.
Antes que chegássemos Sawl cochichou em meu ouvido.
- Onde está Vic?
Eu realmente fiquei surpresa pela pergunta. Por dois motivos. Primeiro: como eu poderia ter esquecido da própria amiga. Segundo: quando me peguei com a resposta.
“Mikael” – pensei, atônita.
- Provavelmente – fiz ar de quem ainda processava a pergunta – Ainda eu sua cama dormindo, recuperando-se de uma possível ressaca.
Olhei para Sawl, ele estava fazendo um esforço enorme para conter o que seria uma grande gargalhada.
- O quê foi? – interroguei sem compreender onde estava a graça.
- Quem estava de ressaca? – disse Vic, aparecendo do nada.
“Minha nossa! Vic!”
- Eu falei de “uma possível ressaca” – fiz um gesto com os dedos para indicar as aspas.
- Sei... – Vic deu um perfeito ar de incrédula.
Ela vestia um curto vestido branco, as bordas feitas de crochê, alças finas e uma flor estampada ao lado. Aquela não era a forma mais aconselhável a se vestir em um dia como aqueles, onde parecia que as nuvens do céu tinham decido para a terra. 
- Gostou do meu vestido novo? – perguntou-me ela quando percebeu que estava a analisa-la.
- Sim. Muito bonito. Mas, só uma pergunta...
- Sim – disse rapidamente, enquanto eu ainda pensava se devesse questiona-la ou não.
- Não está sentindo nenhum pouquinho de frio?
- Não.
- Jura? Com essa neve toda lá fora – apontei para trás com o polegar por cima do ombro.
- Hurum – murmurou ela de volta.
- Por quê você não passa comigo no médico quando estivermos voltando do colégio? – sugeri.
- Para quê? – questionou ela, com ar de esnobe.  
- Para pegarmos seu atestado de louca, vai ficar doente assim. Olha para você, está tão pálida e gélida – peguei em seu braço para checar, e eu estava certa – está tão gelada que a confundiriam facilmente com um cadáver no necrotério.
- Amy. Eu estou bem. Sério.
- É bom que realmente esteja – puxei o braço de Sawl e andei para entrar na sala, que por sua vez, estava lotada, como sempre.
Tomei as cadeiras da frente. Vic veio logo atrás e em seguida se dirigiu para sua carteira ao fundo.  
Sawl afagava levemente meus cabelos ao meu lado, enquanto isso, o Sr. Patosmik dava continuidade no assunto sobre a Revolução Francesa. Tudo parecia tranquilo, até que alguém me cutucou nas costas, próximo ao ombro.
Virei um pouco para ver quem era.
- Bom dia, Rainha das Circunstâncias – falou Mikael, com seu sorriso de deboche.
- Você. Aqui! Que ótimo, meu dia estava muito agradável para ser verdade.
- Calma ai – adveio ele – essa não é minha sala, está bem?
- Se não é sua sala... Então o que está fazendo aqui? – fiquei surpresa ao ouvir aquilo.
- Só aproveitando para agradecer por ontem.
“Agradecer?” – como assim agradecer?
- O quê?
- Por que você não pergunta para sua amiguinha Vic, lá atrás.
Algo correu meu corpo. Uma sensação estranha, ela me aquecia. Olhei para trás em busca de Vic, e a vi ali, bem ao fundo, diminuta como estava, encolhida sobre a mochila na cadeira.
Por um instante o calor subiu a minha cabeça, então entendi o que seria aquilo.
“Ciúmes?”

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