CAPÍTULO 17
Quando abro meus olhos, me sinto bem melhor. Vejo se tem alguém comigo ali e não tem apenas a Isa que continua imóvel ao meu lado. Ainda parece como da última vez que nos vimos um anjinho dormindo. Tento mexer minha mão direita e consigo. Estico meu braço o mais próximo que consigo dela e ofereço minha mão mesmo que ela nem esteja acordada. Seria como chama-la para dançar. Chama-la para sair, ou ajuda-la a descer de um lugar alto. Estendo minha mão para ela, só pra que Deus saiba que eu ainda quero cuidar dela.
- Ei Tonny! – Diz Carlos entrando pela porta do quarto onde estou.
- Carlos... – Digo devagar, mas consigo falar.
- Nossa, vejo que esta bem melhor. – Fala sorrindo pra mim. – É, sei que deve estar tendo dificuldade de falar então vou explicar algumas coisas. Primeiro aqui não é um hospital, aqui é a nova sede dos heróis. É isso aqui é bem grande, e não roubamos de ninguém para pagar por tudo isso. Apenas desenvolvi uma peça de avião e ganhei milhões com ela. – Diz ele rindo. – Nem sei como a construí e nem sei o porquê de ter me rendido tantos lucros, mas é isso. Agora temos uma nova casa.
- Entendi. – Digo fazendo que sim com a cabeça.
- Cara, preciso que você se recupere logo, precisamos conversar. Seu pai ligou para o Wilson e ele não soube dizer onde você estava.
- Fala que estou, - Enquanto falo, começo a chorar. Não consigo suportar. É uma dor muito grande no peito, e maior ainda na alma, por dizer ao meu pai que estou morto, sendo que estou vivo. – morto. Não quero que ele corra perigo por minha causa.
- Tem certeza? – Pergunta Carlos achando estranho.
- Por favor! – Digo. – Fala isso e o esquece. Ele vai conseguir superar isso. Ele é bem forte.
- Tonny... – Diz Carlos olhando bem nos meus olhos, mas parece que depois de analisar o que falei, viu que era uma boa coisa a se fazer. – Que seja.
- Obrigado.
No dia seguinte, Carlos veio me xingando por ter pedido para ele dar a péssima e falsa notícia a minha família. Doe meu coração, eu até pensei em pegar o telefone e ligar para o meu pai dizendo que havia sido um engano, mas eu não podia. Deveria ser assim, desse jeito. Mais tarde eu percebi que estava me recuperando bem, menos em uma parte do corpo. Minhas pernas, eu não as sentia.
- O que houve com minhas pernas? – Pergunto ao Charles calmamente e já imaginando o que deveria ter ocorrido.
- Tonny, - Começa, mas ainda sim percebo que ele não quer me dizer nada. – os médicos não tem certeza, mas... – Ele parece engolir as palavras, mas logo termina a frase. – Você pode não voltar a andar.
Era provável. Ser um modificado da terra, não te faz imortal e nem imune às coisas naturais da vida. Era óbvio desde a minha primeira queda que resultou em uma forte dor na coluna, e quando eu caí... Apesar de não saber como e onde eu fui cair.
- Como isso aconteceu? Você sabe? – Pergunto ao Charles que está comovido com a situação.
- Cara, - Diz ainda sem querer falar muita coisa. – quando você caiu, naquela velocidade... Sinceramente, você ficar paraplégico é o menor dos seus problemas.
Para quem não queria dizer nada, ele falou bem à vontade em dizer isto tudo.
- Fica tranquilo Charles. Pode me dizer com tranquilidade.
- Bem, vamos lá. Você começou a cair em uma velocidade incrível, e tivemos que intervir na sua queda. A Lorena criou um campo de energia e lançou em você te mandando para o oceano. Só que, sei lá... Acho que ela estava muito nervosa e quando te mandou para o mar, foi como se você tivesse se chocado com o chão, porque foi uma pancada muito forte que você deu no campo de energia.
- E quando eu caí no mar, nada mais aconteceu?
- Aconteceu. – Diz e então eu olho para ele dizendo para continuar, e ele continua. – Não conseguimos te encontrar, pois não vimos onde você tinha caído. Então do nada surgiu um cara saindo de dentro do mar com você no ombro.
- No ombro? – Pergunto.
- Indelicado ele não é? – Diz em tom de piada. – Sim cara, ele te colocou no ombro e veio andando para fora do mar, te deixou na areia e disse que você estava bem, só que tinha percebido sua lesão na coluna. O Carlos conversou um pouco com ele, acho que queria chamar ele para se juntar a nós, só que ele não quis.
- E como ele era? Quais seus poderes?
- Ele era baixo, forte, moreno e com uma pinta estilo Eri Johnson na cara. Eu ri demais quando vi aquilo.
- Eu no chão quase morto e você estava rindo de uma pinta parecida com a do Eri Johnson? – Falo sério, porém estou brincando com ele.
- Poxa...
- Eu também ia rir. – E dei uma fraca risada. – Qual o nome do individuo?
- O nome dele é Douglas. Lerdo pra caramba cara, só você vendo mesmo. E creio que ele controla a água. Sabe? Tipo filho de Poisedon?
- Seria um ótimo integrante para o grupo.
- Então você vai continuar com agente, mesmo depois de tudo? – Perguntou Charles.
- Eu, - Olho para a Isa que ainda não acordou. – vou. Tenho pessoas para proteger e já estou morto para a minha família.
- Ei Tonny! – Diz Carlos da porta. – Quer sair daqui que horas? – Pergunta sorrindo.
- Pode ser ontem? – Digo e sorrio de volta.
O clima ainda é pesado. Toda vez que vejo a Lorena, me lembro dela vendo seu pai morrendo, e ai, eu lembro que é o professor Marcelo, um grande amigo nosso que nos ensinou muita coisa. Era como um pai pra gente, e esse lugar não pode ser substituído nunca.
Passam dois meses e estou em uma cadeira de rodas. Descobri uma coisa que esta acontecendo no mundo a fora, e sei agora onde é que estou.
Agora os heróis ficam enfurnados em uma pequena ilha longe de tudo e de todos. Carlos é uma pessoa muito inteligente, e fez o melhor que pode para nos tirar da mira de qualquer vilão que esteja nos caçando. Estamos nos recuperando ainda. Perdemos um integrante muito querido e nunca iremos tira-lo de nossas mentes e coração. Tivemos outra perda também, mas foi a duas semanas atrás. Isabela se foi. Acordou e não reconheceu ninguém que estava aqui. Sua pancada na cabeça apagou uma boa parte da sua mente. Agora ela esta com os pais em sua casa, e nem sabe que é uma modificada como agente. Como estou? Bem, afinal, não terei de vê-la morrer algum dia. Minha família recebe um dinheiro todo o mês, como algo para ajudar com a minha perda. Coisa do Carlos pediu para que desse uma boa vida para eles, talvez assim, amenizasse a dor de minha perda. Minha ideia agora é tira-lo do país de alguma forma. Eu quero que eles vão morar no Estados Unidos, pois tem algo forte e grande vindo ai.
Na última batalha, um míssil iria destruir uma boa parte do Brasil. Não, ele não ia destruir nenhum centímetro do Brasil. Carlos descobriu que o que havia naquele míssil era um vírus. Esse vírus mexia com todo o cérebro humano, e então, criando algum tipo de pânico nas pessoas. Bom, o gás não chegou a terra, o que revoltou os caçadores de heróis. Agora estamos sendo caçados e os vilões estão tomando conta do Rio de Janeiro. Não pode ter um herói sequer na rua, e se algum cidadão vir um e não avisar é sentenciado a pena de morte. Sem tirar no toque de recolher que criaram. 8 horas da manhã as pessoas podem sair de casa, e 8 horas da noite, ninguém na rua, se não é morto.
Estamos sem fazer nada ainda. Carlos, Charles, Lorena, Luca e eu estamos trancafiados nessa ilha, sem poder sair daqui, pois estamos escondidos, e quem quer que seja que esteja lá fora, está nos caçando. Mais eu não quero isso. Ficar trancafiado em uma ilha? Nem pensar. Abri mão da minha vida para ajudar as pessoas, e teremos mesmo com muita dificuldade de ajudar o próximo. Deus me deixou sair daquele lugar onde eu era uma cobaia, e se ele me deixou sair de lá, é porque eu tenho coisas a fazer pra ele aqui na terra.
Passam mais dois meses e então, penso comigo mesmo. Ser um herói não é como vemos na TV. Não é só a parte legal que todos gritam e berram, “É isso ai” “Esse é meu herói!”. Ser herói é sofrer a dor das pessoas, é arriscar a vida para defendê-las, só que o pior de tudo, é que pra ser herói, não pode se amostrar para o mundo. Não pode dizer quem você é por trás da mascara. Heróis têm pais, tem família e os seus inimigos buscam essa fraqueza, que por sinal, é universal, atinge a todos, pessoas normais ou modificadas. Nossa real fraqueza é a família, é o amor que temos pelo outro. O Mascarado me tirou a pessoa que talvez, fosse se tornar a mais importante para mim. Pois é, a Isa... Com o impacto que ela sofreu na cabeça, ela perdeu toda a memória e agora, não se lembra de mim e nem que tem poderes. Agora depois desses três meses, que se passaram, muitas coisas mudaram. Eu aprendi a ter esperança nas pessoas, pois todas, no fundo no fundo, são realmente boas. Os médicos que me acompanham pra tentar recuperar minha coluna sabem que sou, mas mesmo assim, continuam mantendo em sigilo, e me tratam como uma pessoa normal, o que faz me sentir normal de novo. Apesar de muita coisa ruim ter acontecido, eu tento achar o lado bom. Salvamos milhões, bilhões de vidas! Valeu a pena cada sacrifício, cada suor, cada surra, cada sangue que saiu de nós, valeu a pena, porque agora, nos chamam de heróis! Uma vez me perguntaram se eu acredito em final feliz, eu respondi que acredito que meu final será feliz.
- Tonny, eu vim aqui lhe trazer uma ótima notícia. Você voltara a andar!
                                   FIM
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