Sedução
Capítulo 04
1

Luzes. Vultos. Rostos apreensivos.
Eu ainda estava recuperando a minha visão. As imagens ainda apareciam embaçadas à minha frente.
- Amy? Amy? Ela está acordando enfermeira (dizia minha mãe, atônita).
- Sim ela está açodando (disse a enfermeira, uma mulher alta, eu sabia disso por que quando olhei turvamente para ela e minha mãe, ela permanecia mais alta, e minha mãe já era uma mulher muito alta, conclui assim então).
- Querida está tudo bem. Certo? Não se preocupe (minha mãe parecia bastante preocupada).
A enfermeira voltava com uma bandeja e algumas agulhas.
“Eu odiava aquilo”.
- Vai ter que tomar um pouco de soro antes de sair mocinha (disse ela colocando a agulha em minha veia, eu podia sentir a sensação do soro percorrendo minhas veias, era como se o sangue estivesse sendo retirado de mim).
- O que aconteceu?
Meus olhos não paravam quietos, rondavam todo o ambiente, até encontrarem... Cabelos castanhos... Pele branca como neve... Azul celeste! Eram os olhos de Mikael.
- Mika... (fui interrompida).
- Não... Não... Querida não fale. Tente descansar mais. Você teve uma queda de pressão. Parece que não se alimentou direito ontem. Você desmaiou na frente de casa, subitamente, sorte que Mikael estava lá para ajudá-la e chamar por mim.
- Mikael...? (só Mikael?) Onde está Sawl?  
- Ele teve que sair assim que você desmaiou, recebeu uma ligação, parece que a mãe dele teve certa piora, ele saiu logo em seguida, pediu para que eu chamasse sua mãe e trouxesse você ao hospital (disse Mikael).
Minha cabeça ainda estava muito confusa. O mundo dava voltas. Não conseguia compreender nada.
- Que horas são? Quanto tempo eu dormi?
- Qual parte do “você não deve falar” que a senhorita não compreendeu? (questionou minha mãe).
Agora meus olhos se mantinham no teto. Branco. Lembrei do sonho, mais que sonho estranho, esse sim, fugia completamente do convencional, o que havia sido aquilo?
- Vou pegar um copo com água. Já volto (disse minha mãe, saindo logo em seguida).
- Porque você está aqui? (perguntei a Mikael logo quando a porta do quarto se fechou e eu fiquei a sós com ele).
- Você queria que eu não estivesse?
Aqueles olhos azuis pareciam cortar minha alma... Eles me penetravam, ditames invadiam minha mente.
- Você me trouxe ao hospital com minha mãe, já fez o que devia, porque ainda está aqui?
Olho para o lado e vejo um jarro cheio de flores brancas, não eram margaridas, eu não conhecia aquelas flores.
- Fui eu quem às trouxe. E continuo sim aqui. Fiquei preocupado quando vi você desmaiar tão de repente, não sabia se você estava...
- Certo. Eu agradeço, mas, você pode ir agora (falei interrompendo).
- Não sabia se você estava bem... (continuou ele mesmo assim) Então resolve ficar até você acordar e também porque sua mãe poderia precisar de ajuda e...
- Certo. Eu agradeço sua ajuda. Por mim e por minha mãe, mas você pode ir agora. (interrompe novamente, e de forma mais brusca que antes).
Ele apoiou os braços em minha cama, e me encarou, olho no olho.
- Está querendo se livrar de mim Amy? (ele deu um de seus sorrisos debochados) Não quer que ELE me veja aqui?
- Eu quero que você vá embora daqui. AGORA!
- Eu... Não... Vou!
- Mas... Mas o que... Saia daqui! (titubeie).
- Não enquanto eu ver a cara daquele babaca de novo.
- Mas que droga Mikael. O que você quer? (falei irada, eu já estava me alterando).
- Eu quero aquilo que eu nunca tive por completo. VOCÊ! (os olhos de Mikael ficaram mais penetrantes do que nunca).
- Você está louco (eu realmente não sabia como reagir, infelizmente só agora minha visão e meus outros sentidos estavam mais compreensíveis.
- Sim eu estou louco. Porque você me deixou assim. Você é meu veneno e minha cura. Estou louco por você.
- O que você ta falando? Mikael sai daqui! (eu berrei na esperança de alguém ouvisse e tirasse ele dali).
- Eu nunca deixei de te amar Amy. Eu continuei te amando. Agora mais do que nunca (eu percebia a sinceridade de suas palavras, mas eu não as aceitava).
- Pode ficar com todo esse amor pra você. Seu amor não vale nada. Pra mim ele não vale mais (meu rosto se contorcia em forma de mostrar o desprezo que eu sentia).
- Sua forma de tentar me ignorar só mostra que eu ainda mexo com você. E muito.
- Esqueça-me Mikael. Eu não quero saber mais de você. Eu tenho nojo de você.
- Será? Será mesmo? Porque, afinal de contas, fui eu quem terminou nosso namoro. Você quase ficou louca quando te disse que não te queria mais.
- E por que você me quer agora. Para brincar comigo, com os meus sentimentos, você não presta Mikael, você não me faz bem, você só me trouxe o mal.
- Não é como você esta pensando Amy (ele se apoiou ainda mais sobre a cama, o rosto dele estava bem próximo ao meu agora).
- Não? Como poderia ser diferente? Você ficou comigo por um tempo depois me jogou fora como se fosse lixo. Dizia que me amava e depois me desprezou. Disse que eu não era nada pra você. E agora vem dizer-me que me ama. Novamente. Parece que você não é homem o suficiente pra manter uma palavra não é mesmo? Mesmo que seja uma palavra de dor.
- Amy eu jamais... (suas palavras foram interrompidas).
A minha frete abria-se a porta do quarto. Minha mãe voltava com um copo descartável cheio de água.
Meu coração deu um pulo dentro de mim ao vê-la. Mikael começou a se afastar, levemente alguns dos fios escuros de seu cabelo levemente crescido, foram à frente de seus olhos, ele os afastou para traz e olhou diretamente para minha mãe.
- Tome querida (disse minha mãe entregando-me o copo e ajustando a cama para que ele pudesse me deixar em uma posição mais agradável para tomar a água).
Mikael cruzou os braços. Encarou-me fixamente. Depois as flores estranhas no vaso, e em seguida a janela do quarto, nessa, ele demorou mais.
Será que havia algo lá fora que o chamava atenção.
- Eu tenho que ir agora Sra. Grecie (disse Mikael subitamente ainda olhando para fora).
- Ah. Oh sim querido. Obrigada por sua atenção e ter-me ajudado com Amy. Como posso agradecer-lhe?
- Não... Não precisa de nada Sra. Grecie. Eu tenho que ir.
- Obrigada (insistiu minha mãe).
- Até mais Amy (olhou para mim duvidosamente).
- Tchau (respondi).
Ele saiu apressado. Estranho.

2

No dia seguinte eu já estava de volta a minha casa, e agora a caminho do colégio.
Eu estava preocupada com Vic, a um bom tempo não falava com ela, seu celular sempre estava na caixa de mensagem e até agora ela ainda não tinha me informado onde estava morando, qual rua, qual casa, o que era bem típico dela, me deixar sem informações.
Sexta-feira. Ainda não era o fim da primeira semana de aula, também havia o sábado incluído em nossa carga horária, um dia reservado para pesquisas e cursos em particular, até o momento eu não havia me matriculado em nenhum curso e duvidava muito que fosse fazer algum, pelo menos por enquanto não, quando eu pensava em tudo o que havia acontecido em tão pouco tempo, se tornava até quase inacreditável, primeiro dia de aula, rever Vic, conhecer Sawl, e depois ainda topar com a figura desagradável de Mikael. 
Minha mente estava muito confusa, inclusive porque desde a noite do desmaio eu estava sem noticias de Sawl.
Esperava desesperadamente que pudesse vê-lo hoje, saber o que tinha acontecido por sua boca e perguntar se ele realmente teria pedido a Mikael para que ajudasse a mim e a minha mãe. Eu ainda duvidava muito disso. E como estaria sua mãe? Melhor? Pior?
Para falar a verdade por um momento eu queria esquecer todas as coisas inusitadas que haviam acontecido em minha vida. Voltar ao passado. Só que parece que o relógio trabalha com o tempo, mas que ele não é seu amigo. Podemos voltar os ponteiros, mas o tempo não vai voltar junto. NUNCA.
Naquele instante eu queria que a palavra “nunca”, nunca tivesse existido. Ironia da vida.
Eu ainda não tinha visto Sawl, mas o colégio era grande, havia toda a possibilidade de ele estar por qualquer lugar ali, e a primeira aula seria de Biologia com a Sra. Carmem, nossa última aula semanal juntos.
Eu estava em meu armário pegando os livros das próximas duas aulas, isso incluía e de Biologia no caso, um livro de capa verde enorme.
Quando fecho a porta do armário mais uma vez, vejo Mikael encarando-me, como no dia anterior.
- O que você quer? Vai ficar me perseguindo agora? (questionei-o).
Ele me deu um de seus sorrisos de deboche.
- Eu não consegui falar a você o que eu queria.
- E eu não quero ouvir o que você tem a falar. Pra mim pouco importa.
E já ia saindo, iria seguir o corredor em frente quando ele me pegou pelo braço fortemente, evitando que eu prosseguisse.
- Solte-me (ordenei).
- Você precisa me ouvir Amy.
Eu olhei em seus olhos, eu não devia ter olhado. Olhar nos olhos de Mikael era como olhar nos olhos de medusa. Você virava uma pedra. Apreciando-os.
- E você precisa me soltar (avisei).
- Solte-a (gritou uma voz atrás de Mikael).
Sawlver.
Mikael soltou minha mão e virou-se para encarar Sawl de frente.
- Eu pedi para que cuidasse dela ontem. Mas hoje esta tudo bem, eu cuido dela aparte de agora, (Sawl falou puxando-me para perto dele, seus olhos fixos aos olhos de Mikael, os dois se encaravam) agradeço por ter ido com ela ao hospital, mas agora ela fica comigo.
- Que ótimo esse cara que você encontrou Amy, quando você precisa dele ele não está, quando está tudo numa boa ele aparece. Tudo bem se você o prefere, se acha ele melhor do que eu, só não se esqueça de quem sempre segurou sua mão nos momentos difíceis, de quem sempre enxugou suas lágrimas, de quem sempre estava por perto quando precisava, de quem te amou, e de quem você disse que era o seu mundo, e de quem estava ontem com você, substituindo aquele que você acha que gosta, acha que ama. Por essa pessoa sou eu.
Naquele momento uma lágrima tão pesada quanto os meus pensamentos desceu de meus olhos, percorrendo meu rosto. Eu sabia que o que ele falava era verdade.
Sawlver não aguentou a provocação, colocou-me para traz de si, e foi em direção de Mikael, eu ainda tentei puxá-lo de volta pelo braço, mas foi altamente inútil a tentativa.
Sawl empurrou Mikael e em seguida deu o primeiro soco de muitos que viriam, Mikael revidou no mesmo instante, dando um soco que aparentou ter ainda mais força que o de Sawl, os dois ficaram a trocar socos no meio do corredor que em segundos estava lotado para presenciar a briga.
Todos gritavam o óbvio.
“Briga, briga, briga, briga, briga, briga, briga, briga, briga...”
Era impressionante a força dos socos desferidos um contra o outro.
Aquilo não era normal. Eu achava.
De repente Mikael acerta um gancho de esquerda em Sawl. Ele Sangra. Muito.
Sawl revida com um golpe que dessa vez pareceu ser mais potente que o de Mikael, algo me dizia que ele não havia gostado da ideia de Mikael ter tirado sangue dele, mas, porém, Mikael permaneceu ileso, Sawl já sangrava demais e Mikael continuava intocável. Como isso era possível? A briga se tornava cada vez mais violenta. Eu pedia ajuda para que alguém ajudasse a parar com aquilo, mas todos pareciam deslumbrados com o MMA no corredor. Eu gritava, berrava, para que eles parassem. Tolice minha, querer tentar.
Os seguranças finalmente apareceram e separaram os dois, que ainda assim tentavam se soltar para continuar com tudo.
- Vamos parem com isso os dois agora (exigiu o segurança).
Os dois pararam de estrebuchar nos braços dos seguranças.
Eu olhei para Sawl, em seguida para Mikael, e não sabia o que dizer, quando finalmente ia abrir a boca para me pronunciar perante aquilo, fui surpreendida assim como todos ali presentes por um grito ensurdecedor.
- Meu Deus. O que foi isso (perguntou uma garota que estava ao meu lado).
O grito horroroso vinha do banheiro feminino, todos foram em sua direção.
- Oh meu Deus, mas o que é isso?
- O que aconteceu aqui?
Todos se questionavam. Tentei passar entre as pessoas para ver o que estava acontecendo, quando consigo entrar no banheiro assim como os que comentavam, deparei-me com uma cena horrenda.
As paredes e espelhos do banheiro feminino se encontravam totalmente sujos de sangue, e acima da pia de frente para os sanitários jazia o corpo de uma garota loira, morta.
Seus pulsos e seu pescoço na altura da jugular estavam altamente trucidados, como se ela tivesse sido mordida por um animal feroz em pleno ataque de raiva.
No chão estava uma rosa tão vermelha quanto o sangue da garota derramado, seus espinhos eram grandes e pontudos.
No canto esquerdo, estava a garota autora do grito paralisante, ela provavelmente deveria já ter encontrado o local assim.
O medo vestia tão bem sua face, quanto o preto vestia a morte.
   
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