Mundus Sine Velum – Um Mundo Sem Véu

2

Cidade de “Não-Humanos”


“Não houve tempo para resistir... Não ouve como escapar... Mãe... Não foi em vão... Vai acabar...”


Acordo mais uma vez nesse lugar imundo. Olhando em volta meus amigos.

Todos estavam presos num quarto úmido e muito escuro. A única luz por agora, vinha do lado de fora da grade de ferro, minúscula e quase na altura do teto. Nas paredes, não havia nada além de bolor causado pela umidade que vinha do mar, próximo a nós.

Sonhei novamente com aquele dia em que a minha felicidade foi sequestrada e destruída por causa de vários sentimentos humanos. Dois anos depois de tudo, e todos ainda estavam aqui. Presos como pequenas presas que são usadas.

- Bom dia Jeff – ouço e me viro para trás. Eric havia acabado de despertar também.

- Bom dia... – respondi a ele tentando passar tranquilidade. Sem êxito.

- Sonhou com aquele dia novamente...? – me perguntou ele se levantando e vindo até próximo a min, passando por cima e com cuidado pelos outros garotos que dormiam e assim como agente, estavam usando roupas leves e já gastas, algumas calças rasgadas mas nada que os humanos não troquem da gente com frequência.

- Sim... – me levantei com cuidado para não acordar os demais e fomos até próximos da grade de ferro – como sempre... – comento, subindo até ficar com a cabeça na altura da janela e vendo o mar, segurando nas barras de ferro com as pernas e pés apoiados na parede lisa – o mar e a nossa casa, tão perto... E tão longe – termino de falar e volto para o chão.

Logo, Eric e eu começamos a conversar para passar o tempo. Contei a ele sobre o sonho como de costume e sobre outro detalhe que eu havia sonhado.

 Alguns minutos após a nossa conversa, outros de nós foram acordando e levantando do chão, para ao invés de ficar deitado, se sentar e espreguiçar até eles chegarem, como sempre tem sido.

- Sério? Você foi avisado novamente? – me perguntou Kany, mais um dos garotos que estavam conosco no quarto. Éramos a grande maioria contra as garotas.

- Sim. – Respondi a ele virando-me, e olhando-lhe. – No sonho, uma voz me falou que hoje seria o nosso último dia nesse lugar.

- Sério?! – me perguntou Kany ficando um pouco eufórico.

- Sim... Mas só falou isso... – falei sendo interrompido por uma mão me puxando a calça sem muita força. Era a Lilly, a garota mais nova de todos nós, garotos e garotas com apenas 13 anos. E a mais levada para as salas onde os humanos faziam estudos.

Diziam que ela era especial.

Eu agora com 18, sendo o mais velho de todos no quarto, tentava cuidar de todos, apesar de a grande maioria não precisar ser cuidado.

- Estou com fome Jeff... – falou-me Lilly.

Me abaixei para arrumar a roupa rasgada dela enquanto sorria para ela.

- Logos eles viram para trazer a nossa...

Fui interrompido novamente com o barulho da porta de metal reforçada se abrindo e iluminando o quarto com a luz de fora. Eram os guardas trazendo a nossa primeira de duas refeições ao dia.

Como sempre eles vinham, geralmente quatro ou cinco deles, cada um trazendo em cada mão um objeto com comida para nós. Deixavam ali no chão mesmo e saiam.

Não nos olhavam, e eram estranhos. Tinham aparência humana mas, nenhum de nós sentia um humano naquilo.

Após eles fecharem a porta, todos iam comer o que eles traziam, seja lá o que fosse.

***

Após comermos, os guardas realmente humanos vinham nos buscar.

Mandavam ficar em fila e em silêncio e em fila. Andávamos um corredor e passávamos sempre por uma passarela de vidro que dava acesso a um outro local onde éramos obrigados a nos transformar no que somos realmente.

Lilly sempre era separada do grupo e ficava muito apreensiva me olhando.

- Preciso fazer algo... – Pensei e falei no tom mais baixo que pude para nenhum dos humanos ouvir.

- Todos nós queremos ajudar Jeff... – Eric me respondeu atrás de min.

Após caminharmos um pouco. Chegamos a um grande local, todo fechado e com várias janelas de vidro no alto.

Muitas coisas estranhas esplanadas pelos cantos e na parede a frente, um palco longe foi improvisado. Lá chegava andando e cercada por vários humanos a mulher de dois anos atrás que até hoje, não havia aparecido para nós.

Todos ficaram tensos olhando para ela, alguns mais amedrontados e outros, assim como eu, Eric e Kany, mais nervosos.

- O que ela vai fazer conosco agora...? – perguntou uma garota para um garoto atrás de min, aonde rapidamente dei-lhes sinal com o dedo para que ficassem em silêncio para evitar problemas.

A mulher, agora que estava apenas acompanhada de um homem alto de vermelho e um velho vestido de branco, pegava algo na mão e chegava perto de boca.

- Bom dia, queridos bichinhos – a mulher falou no objeto. Percebemos que o objeto aumentava a voz dela para todos nós ouvirmos bem. – Depois de dois anos estudando vocês e a sua espécie – ela começou a falar em um tom que nenhum de nós estava gostando – percebi que, alguns de vocês tem habilidades muito uteis as quais estou disposta a usar a meu favor.

Em um espanto, todos olharam para o lado esquerdo onde a Lilly estava gritando com um guarda não-humano a segurando firme e sem emoção pelos braços.

- Droga... – comentei baixo, tentando não perder o controle para a raiva enquanto a mulher ainda falava tranquilamente.

- Bem... como fui interrompida queridos... – ela falou e continuou – aprendi que vocês possuem o que nós humanos chamamos de ‘magia’ incorporados a vocês.

“Droga!” Pensei comigo.

- E os mais jovens possuem essa magia bem acentuada... Por isso mesmo... – nesse momento, coisas grandes de aspecto muito perigosos e feias se levantaram de trás da mulher. – Estes lindos robôs, fruto da tecnologia humana, ira matar vocês e levar os mais novos daqui para um lugar bem longe... Onde a reclusão e a dor de todos vocês, mais novos, irão acabar.

Eu não estava acreditando no que a humana falou.

Rapidamente vários humanos correram para pegar os mais jovens que haviam no pequeno grupo que estava comigo, deixando eu e apenas mais sete ali.

“Droga!”. Continuava eu a pensar.

 “O que essa mulher quer com tudo isso?!”. Eu me perguntava freneticamente olhando tudo aquilo nos cercando, para nos matar.

“Desculpe mãe... Mas é pela nossa sobrevivência após tanto tempo aqui...”. Me desculpei em mente para a nossa Mãe enquanto meus olhos mudavam e o meu corpo ligeiramente se transformava.

- Jeff! – Gritava Lilly de longe.

Eric, Kany e as duas garotas mais velhas que estavam comigo, além dos outros dois garotos a mais, se transformaram ligeiramente.

- Reptus-Aquas! – falei na nossa própria língua para os outros a minha volta – Salvar Lilly e ir embora daqui! – Ordenei a todos.

Estando de escamas abertas e presas para fora. Saltamos em direção aos inimigos.

Vamos conseguir! Eu sei que vamos!
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