Último capítulo do ano! Lembrem-se: Titãs volta dia 11/01/2013! E boas festas!


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Aqueles Que Deixamos Para Trás (parte 3)
                                                                   
           
Último capítulo da primeira temporada


ANTERIORMENTE
Em 2016 d.C. (depois de Cristo), uma Terceira Guerra Mundial arruinou o mundo; a energia nuclear dizimou quase toda a população. Os séculos seguintes foram passados tentando reconstruir o mundo. Milênios depois, em 2036 d.N. (depois de Noble), as repúblicas deixaram de existir: o mundo agora é governado por Impérios. O agente da Guarda Nacional Leon Carter é transferido para a divisão Titãs, uma divisão marginalizada, porém extremamente importante para a segurança nacional. Junto de Mila Cruzi, Tuomas Lane e Allen Foster, o agente investigou o caso da cidade de Chagas, em que uma onda de radiação afetou todos os habitantes, transformando-os em sanguinolentas criaturas. Pouco depois, a Rainha quase foi vítima de um ataque terrorista, que mais tarde se provou uma falsa: seja quem for o terrorista, ele se fingiu alemão para tentar começar uma guerra entre o Império do Brasil e da Alemanha. Além disso, descobriu-se que existem crianças que se dizem ser Cruzi, Carter, Lane e Foster, lançando os agentes numa gigantesca conspiração... agora, os ataques recomeçaram. Os agentes são os principais suspeitos de terem assassinado Felipe Gouveia, um diretor da corregedoria. A única esperança agora está em encontrar as Crianças para lutar contra esses terroristas, e inocentar o nome dos agentes. Depois de extensivas buscas, os agentes encontraram as Crianças num tipo de dimensão diferente... E eles estão sendo caçados por algum tipo de criatura. Agora, só Cruzi poderá decidir: se eles atravessam um portal para um mundo estranho (o mundo onde eles teoricamente nasceram), deixando suas antigas vidas para trás... ou se eles ficam para enfrentar a criatura.

1

A dimensão que as Crianças criaram, tempo desconhecido

                Cruzi se virou. Uma grande luz vermelha se acendia na escuridão. Ela olhou ao redor. Somente ela e as Crianças podiam ver a luz vermelha – afinal, somente eles tinham a Luz ativada. A luz vermelha crescia e crescia cada vez mais... até se revelar um portal, dez vezes maior do que aquele que os havia levado àquela dimensão.
                - O que é isto? – Cruzi perguntou.
                - Nossa única esperança de sobreviver – a Criança-Cruzi respondeu.
                A criatura se chocou contra a porta novamente.
                - O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO? – Carter gritou.
                - Mila – A Criança-Cruzi continuou. – Eu te disse que nós não pertencíamos a este mundo. Esta não é nossa casa – ela apontou para o portal. – Aquela é.
                Cruzi olhou pelo portal, e pôde ver: o céu era azul, e havia inúmeros prédios no chão. Várias pessoas caminhavam, no dia a dia, e o sol brilhava no céu. Era muito parecido com aquele mundo...
                - Que lugar é este? – Cruzi perguntou. – É aí que nós pertencemos?
                - Venha conosco – disseram as Crianças. – É a única maneira de fugirmos. Estávamos esperando vocês.
                - CRUZI! – gritou Carter novamente. – A CRIATURA ESTÁ ENTRANDO!
                - Não temos muito tempo! – disse a Criança-Cruzi. – Venham vocês quatro conosco! Venham conosco e terá todas as respostas que deseja.
                Cruzi olhou novamente para o portal. O mundo do outro lado parecia tão normal, tão parecido com 2036 depois de Noble... mas, ao mesmo tempo, ela sabia que era um mundo diferente. E não fazia ideia do que a esperava por lá.
                - Mila – chamou a Criança-Cruzi. – Por favor. Vocês podem nos ajudar lá. Vocês podem mudar muita coisa. Nós precisamos de vocês.
                - CRUZI! – gritaram os agentes.
                Cruzi olhou para todos os lados. Para seus amigos agentes, para as Crianças, para o portal. O tempo era curto. Houve mais uma batida na porta, e foi o suficiente para ela tomar sua decisão.
                - Eu não posso – disse Cruzi. – Há muitas coisas que eu tenho que tomar conta aqui, a Rainha, o Império... eles precisam de mim. Existe uma guerra chegando, e eu tenho que impedi-la de acontecer.
                - Mas Mila... – A Criança Carter chamou. – Vocês vão morrer se ficarem!
                - A criatura está chegando – disse a Criança-Cruzi, e mais uma batida violenta fez-se ouvir na porta.
                - Nós temos que tentar – respondeu Cruzi. – O Império do Brasil precisa de nós, ou então, vai haver uma Quarta Guerra Mundial, e tudo vai ser destruído... para sempre.
                Então, ouviu-se um grande estrondo. Não era a criatura batendo na porta... o estrondo vinha de todos os lados.
                - O que foi isso? – Foster sussurrou, e então houve novo estrondo, fazendo todos caírem.
                - O que está acontecendo? – Cruzi gritou.
                - Nós temos que ir – disseram as Crianças.
                - O que...
                - Nós nos veremos novamente – disse a Criança-Cruzi, e, num último momento de hesitação, abraçou Cruzi. – Nós nos veremos novamente sim.
                Então, as Crianças pularam no portal. A luz vermelha engoliu a sala, fortíssima, de tal maneira que era impossível olhar diretamente para ela.
                - CRUZI! – gritavam os outros agentes.
                Cruzi estava confusa. O que estava acontecendo? Para onde as Crianças estavam indo?
                Então, ela sentiu o vento chicotear seu rosto. Havia uma ventania dentro do prédio! Logo, ela se sentiu levantada no ar... como se o vento fosse tão forte que a estivesse fazendo voar... e então a luz ficou ainda mais forte. Ela gritou, e ouviu os agentes gritarem... então, poucos segundos depois, sentir a terra firme sob seu corpo. Fora arremessada no chão, com tamanha força que seus braços acabaram arranhados.
                Ela abriu os olhos lentamente, mas não pode se sentir aliviada: logo depois, levou um golpe nas costas que a impediu de se levantar, e seu cabelo foi puxado. Ela sentiu algo frio envolvendo seus pulsos... algemas?
                Ela foi posta de joelhos no chão. Olhou então ao redor: havia inúmeros carros de polícia e vários policiais cercando-a, apontando armas para ela. Ela olhou para Lane, Carter e Foster: eles também estavam ajoelhados, com algemas nos pulsos. Por fim, olhou para trás: o prédio estava destruído. Eles haviam sido puxados para fora da dimensão à força.
                À sua frente, um homem chamou sua atenção. Ele segurava uma grande máquina de metal nas mãos, que atirava um raio azul. O raio atingia o lugar onde ficava o portal que levava para a dimensão que as Crianças haviam criado. Cruzi percebeu: fora aquela máquina que puxara os agentes para fora da dimensão. E agora, aquela máquina estava fechando o portal para a dimensão. Cruzi gemeu de raiva. As Crianças! Ela precisava saber o que acontecera com elas!
                O raio azul então foi apagado, e Cruzi soube que o portal estava fechado para sempre. O homem então botou a máquina no chão, e passou a mão por seu terno, como que para limpar a poeira. Pegou então um megafone, e disse:
                - Mila Cruzi, Leon Carter, Allen Foster e Tuomas Lane. Vocês estão presos por assassinato e crimes contra o Império. Tenho certeza que conhecem seus direitos. – ele então se aproximou, deixando o megafone de lado, para que somente os agentes o ouvissem. – Me chamem de Sr. Saxon.

2

Lugar desconhecido, possivelmente de manhã

                Os agentes viajaram o tempo todo com os olhos vendados, como que para não ver para onde estavam sendo levados. Somente quando chegaram a suas celas que puderam tirar as vendas dos olhos.
                Eles bem que tentaram argumentar, contar a verdade para os policiais – deixando de fora, claro, sobre a Luz, as Crianças e os poderes de Cruzi. Mas não foram ouvidos. Os policiais nem mesmo disseram qualquer coisa.
                Quando foram trancados numa cela só, foram deixados sozinhos. Eles olharam pelas barras: o corredor era longo e aparentemente interminável. Presumiram que era um corredor cheio de celas. Mas era tudo tão silencioso... com espanto, chegaram à conclusão de que não havia ninguém, senão eles, naquele lugar.
                - A questão é – Lane disse. – Por que nos botaram na mesma cela? Certamente não é o procedimento padrão. Eles deviam ter nos separado, para que não pudéssemos conversar nem fazer planos ou qualquer coisa assim.
                - É essa justamente a intenção – respondeu Cruzi. – Eles devem estar nos monitorando. Eles querem que nós conversemos. Querem que revelemos tudo que estávamos investigando, tudo o que fizemos. Por que, no fundo, sabem que nós não matamos Gouveia, mas querem que falemos o que estávamos fazendo.
                - “Tudo o que você disser pode e será usado contra você num tribunal”. – citou Carter.
                Eles ouviram então uma porta se abrir, no fim da sala. Minutos depois, o diretor Noah apareceu de frente à cela.
                - Marco! – Cruzi exclamou, e então agarrou-se às grades. – Marco, graças a Deus.
                O diretor nada respondeu. Ele apenas olhou para ela, friamente.
                - Marco... – Cruzi continuou a falar, e então pigarreou, e recomeçou: - Diretor Noah. O senhor tem que nos tirar dessa. O senhor tem que botar juízo na cabeça deles!
                - Por quê? – Noah perguntou, para o choque de Cruzi. Depois de alguns segundos em silêncio, ela continuou:
                - Por que nós não somos culpados. Nós não matamos Gouveia!... O senhor sabe disso, não sabe?
                - Eu não sei de nada.
                Cruzi então largou as barras, e recuou um pouco.
                - Eu não sabia o que dizer – continuou Noah. – Quando Saxon me disse que você tinha poderes. Que todos vocês tinham poderes. Eu não sabia se deveria acreditar ou não. Mas é verdade, não é?  Senão eu não teria isso.
                Noah levantou então um pedaço de papel, e mostrou a Cruzi por um segundo apenas antes de guardar. Mas foi tempo suficiente para que ela visse: era um exame de sua atividade cerebral, que ela havia feito logo após levar aquele tiro na cabeça. Constatava que seu cérebro trabalhava quatro vezes mais do que o cérebro de um ser humano normal. Por conta de seus poderes.
                Ela engoliu em seco, e permaneceu em silêncio.
                - E agora – Noah continuou dizendo – Vocês nem sequer têm a decência de dizer algo. Digam algo!
                Os agentes permaneceram em silêncio, sem saber o que dizer.
                - Nós estamos sendo monitorados – disse Cruzi, olhando para o teto, porém sem encontrar nenhuma câmera. Noah olhou também, mas voltou-se para ela.
                - Nós fomos atrás das Crianças – sussurrou Cruzi, na esperança de que nenhum tipo de microfone escondido pudesse captar sua voz. – Não temos tempo de explicar o que elas são, mas elas são a única esperança.
                - Esperança de quê?
                - Esperança de parar esta guerra. – Cruzi continuou. – A ameaça da Alemanha é falsa. Não é a Alemanha que está por trás desses ataques terroristas. Alguém está forjando tudo isso pra culpa cair sobre a Alemanha, para começar essa guerra. Mas nós não precisamos entrar em guerra! Os alemães são inocentes!
                Noah recuou, pensativo.
                - Existem pessoas dentro da própria Guarda Nacional que estão tentando fazer justiça por conta própria – Cruzi prosseguiu. – Formando guerrilhas clandestinas. Falta muito pouco para a guerra ser declarada, e a Rainha não poderá fazer nada para impedir. Nós somos os únicos que podemos parar isso, e não poderemos fazer nada se continuarmos aqui!
                - Eu não posso fazer nada – Noah falou. – A Guarda Nacional não quer nem mesmo julgamento para vocês. Quer condenação direta.
                - Mas isso vai contra constituição! – Carter exclamou.
                - Eu sei – Noah disse. – Isso só demonstra o quanto a coisa tá feia.
                Noah suspirou, e disse:
                - Eu vou fazer o que estiver ao meu alcance. Tentar atrasá-los. Mas não posso prometer nada.
                Noah se virou de costas, e pretendia caminhar até a saída, quando Cruzi perguntou:
                - Noah! – ela chamou. – Onde estamos? Que lugar é esse?
                Noah se voltou, e gaguejou:
                - Eu não tenho permissão de revelar...
                - Marco – Cruzi implorou. – Por favor.
                Noah olhou ao redor, com expressão resignada. Suspirou, e então disse:
                - Vocês estão no Paço Imperial.
                Foi só dizer isso que ouviu-se a porta se abrindo violentamente. Noah pulou de susto, olhando para trás. Logo, Cruzi pôde ver: pessoas entravam marchando, homens de uniforme.
                - Mas o que é isso? – Noah exclamou, antes de ser empurrado para fora do caminho.
                Eles abriram a cela, e, grosseiramente, pegaram o braço de Cruzi e a puxaram.
                - CRUZI! – Carter gritou, jogando-se contra as grades. A cela foi novamente fechada.
                Cruzi sentiu suas mãos sendo algemadas, mas não viu nada. Ela olhou para trás, para a cela. Olhou para Carter. A expressão em seu rosto era de verdadeiro desespero. Carter olhava para ela como se nunca mais fosse vê-la. E, em seu peito, Cruzi sentiu o mesmo medo.
                Ela havia dito para si mesma que não usara a Luz para fugir para não piorar a situação. Se ela fugisse com seus poderes, provavelmente seriam os mais procurados do Império em dois instantes. Agora, ela percebia que essa não era a completa verdade. Ela não queria se tornar uma fugitiva – mas queria ainda menos que seus amigos, tão indefesos, fossem caçados. Principalmente Carter. Ela não podia perder Carter.
                A última coisa que Cruzi viu antes que seus olhos fossem vendados foram os olhos de Carter. Eles pareciam dizer o mesmo: Carter não podia perder Cruzi, também.

3

                Cruzi estava sentada e vendada, amarrada à uma cadeira. A venda foi arrancada de seus olhos pouco depois. Estava escuro na sala, mas as luzes logo se acenderam. Era uma sala de interrogatórios – mas agora ela era quem seria interrogada. E Saxon estava ali.
                - Eu tenho certeza que consta na constituição o meu direito de NÃO ter minhas mãos amarradas – disse Cruzi.
                - E eu tenho certeza de que metade da Guarda Nacional está de acordo que mantê-la amarrada e quietinha é para o bem maior – disse ele. – Afinal, você decapitou cruelmente Gouveia.
                - Não fui eu!
                - Culpada até que se prove o contrário – Saxon disse calmamente. – Em poucas horas, você e sua divisão se tornaram alguns dos mais procurados do Império inteiro. Alguns desejavam até mesmo lançar um anúncio à Interpol. Mas nós, claro, conseguimos captura-los antes, com nossa eficiência costumeira.
                - Eu não chamaria de “eficiência” – Cruzi alfinetou –, quando vocês nos impediram de conseguir a ÚNICA coisa que impediria essa guerra com a Alemanha de acontecer.
                - E que coisa seria essa? As “Crianças”? – Saxon disse, e Cruzi ficou pálida. – Oras, é claro que estávamos monitorando vocês nas celas, mas já sabíamos sobre essas “Crianças” há muito tempo. E me diga, você realmente achou que elas ajudariam a impedir a guerra? Teoricamente, a existência delas sequer é possível.
                - Nós temos visto muita coisa impossível ultimamente – Cruzi disse, sem confiança nenhuma em suas palavras.
                - Olha só para vocês. Uma divisãozinha de meia tigela tentando impedir uma guerra. Vocês têm quantos agentes mesmo? Quatro. E investigam os chamados “casos sobrenaturais” em todo o Império de mais de 8 milhões de quilômetros quadrados. – Saxon se aproximou, com um sorriso cruel no rosto. – Quatro, para 8 milhões. Este é o tamanho da importância de vocês.
                Cruzi resistiu à vontade de cuspir na cara dele.
                - E ainda assim – Saxon continuou a dizer. – Vocês continuam tentando impedir uma guerra. Uma guerra! Entre duas das maiores nações do mundo! Quando é algo óbvio que vá acontecer!
                - Nós temos provas! – disse Cruzi, dessa vez desesperada. – Nós podemos provar que a Alemanha é inocente! Que nenhum deles tem tentado começar uma guerra!
                - E me diga, para quem isso vai importar, se agora sua divisão foi comprometida? – Saxon disse. – Quem irá acreditar nas provas de uma divisão que está agora atrás das grades?
                Com pavor, Cruzi engoliu em seco, pálida. Seus olhos verdes expressavam sua surpresa e seu medo.
                - Você sabe que a Alemanha é inocente – disse ela. – E não vai fazer nada.
                Saxon abriu um sorriso.
                - É você! – Cruzi concluiu. – É você que está atrás de todos os ataques! Foi você que ordenou os ataques à cidade de Chagas! Você que estava por trás dos ataques terroristas contra a Rainha! Você que comanda os encapuzados! – Cruzi fez uma pausa, antes de concluir por fim: - Você que capturou as Crianças e as obrigou a fugir! Você precisa delas! Precisa de nós!
                - À longo prazo, sim – disse Saxon. Ele não negou nem confirmou. – Mas, por agora... só preciso da divisão Titãs, adulta como é.
                Eles ficaram um minuto em silêncio.
                - Você sabe o que eu vejo em seus olhos? – Saxon continuou. – Mesmo além de toda sua surpresa? Eu vejo esperança. E, permita-me dizer: sua esperança não tem cabimento. Nada poderá lhe salvar agora. – Ele apontou para o vidro laminado da sala de interrogatórios, que parecia um espelho. – Sabe quem está atrás daquele vidro? Ninguém. Ninguém sabe deste interrogatório. Somos só eu e você, só nós dois sabemos de tudo isso. Ninguém virá lhe ajudar. Esta guerra vai acontecer, e você não poderá impedi-la.
                Cruzi suspirou, surpresa. Por que ele estava fazendo isso? Por que ele queria que aquela guerra acontecesse? Por que ele precisava das Crianças? Eram tantas perguntas que corriam em sua cabeça que ela se sentia tonta. Pior ainda: ela não podia fazer nada para impedir agora.
                “Pelo menos as Crianças estão a salvo”, ela pensou. “Pelo menos elas estão em casa”.
                A raiva de Cruzi era tão grande que ela não pôde se controlar: ela projetou sua cabeça pra frente, fazendo-a bater com força contra a cabeça de Saxon. Ela queria que Saxon sentisse dor. Mesmo que não fosse atrapalhar em nada o plano dele, queria que ele ao menos tivesse algum tipo de castigo.
                No entanto, o que ela não esperava eram os flashes que ela veria. Vieram sem nenhum aviso prévio: ela viu imagens correndo em sua cabeça. Ela sendo levada para a frente de uma multidão, junto com os outros membros da divisão Titãs. Eles seriam executados. Mas a Rainha apareceu para impedir. Ela e Saxon entraram numa sala. Então, a sala explodiu com a radiação que havia sido vista na cidade de Chagas. A radiação era tão grande que acabou por atingir a multidão de mais de vinte mil pessoas, também. Todas elas, assim como a Rainha, viraram as mesmas criaturas que haviam sido vistas em Chagas – todas, menos Saxon e a divisão Titãs.
                Os flashes pararam, e Cruzi voltou a si. Ela ainda estava amarrada na cadeira, e Saxon estava dando passos para trás, segurando a cabeça machucada. Ele tinha olhos arregalados, como se estivesse genuinamente surpreso.
                Cruzi entendeu o por que: os flashes que ela havia visto eram o plano de Saxon. Ele pretendia matar a Rainha – para assim começar a guerra com a Alemanha. Ela entendia o por quê Saxon havia dito tudo aquilo: para que, quando ela tentasse se defender, soasse como louca, e o público desejasse que ela fosse executada.
                - Sua Luz é mais forte do que eu imaginava – disse Saxon, friamente. – Eu pretendia deixar que você visse meu plano ao vivo, para que a surpresa fosse maior. Mas acho que agora não faz diferença, não é?
                Dois homens entraram na sala.
                - Levem-na daqui – disse Saxon. – Joguem-na na cela.
                Cruzi foi desamarrada, e levantada com violência. Os homens a fizeram parar na frente de Saxon.
                - Quando for exatamente 17h30 da tarde, a hora do crepúsculo – disse ele. – Tudo irá acontecer conforme o planejado. Você vai ver.
                Então, Cruzi foi vendada novamente. Momentos depois, foi jogada em sua cela novamente, onde foi recebida pelas exclamações de surpresa e contentamento de Carter, Lane e Foster.
                - Estou bem, estou bem – disse ela, desesperada. Olhou então para as grades. O homem estava trancando a cela.
                Cruzi se jogou nas grades, observando o homem ir embora.
                - Cruzi – chamou Lane. – O que houve?
                Os lábios dela tremiam, e os olhos demonstravam o quão chocada e desesperada estava.
                - A guerra – disse ela. – Eles vão começar a guerra hoje mesmo. Temos que impedí-lo.

4

17h

                As horas haviam passado com rapidez, e nada havia surgido na mente dos agentes. Nenhum plano. Eles nada poderiam fazer.
                Os homens apareceram novamente em frente às celas, e a abriram. Pegaram os agentes, e, por mais que eles resistissem, esperneassem e chutassem, a divisão Titãs acabou capturada, algemada e de olhos vendados, novamente. Cruzi, em especial, sentiu um tremendo choque quando as algemas foram colocadas em seus pulsos: eram algemas anti-Luz. Aquelas algemas impediriam que ela usasse seus poderes.
                Quando as vendas foram tiradas de seus olhos, eles puderam ver. Estavam diante de uma grande multidão – a mesma multidão que Cruzi vira. Era uma assombrosa quantidade de gente... todos ali para ver o que aconteceria com a divisão Titãs.
                - Companheiros! – disse Saxon, e sua voz ecoou para toda a multidão. Deveria haver microfones escondidos por todo lado. – Estamos aqui hoje reunidos para julgar estes homens e mulheres que vocês veem!
                A multidão vibrou lá embaixo. Não por felicidade, mas de dúvidas.
                - Estes homens e mulheres são da chamada divisão Titãs! – disse Saxon. – Vocês já devem ter ouvido falar. Mila Cruzi, Leon Carter, Tuomas Lane e Allen Foster. Uma divisão fajuta e falsificada. Uma divisão criada sob o intuito de investigar “casos paranormais”. Tenho certeza de como isso soa para vocês, e acredita, parece loucura para mim também!
                A multidão concordou com gritos.
                - Que tipo de divisão é essa, que reconhece o paranormal em vez de reconhecer a ciência? Que tipo de divisão é essa, que investiga casos sobre os quais não sabe nada? Se o paranormal realmente existir, quem são esses homens e mulheres para investigar? Esses homens e mulheres que não sabem nada?! Vocês querem saber o que eu acho? Eu acho que esses casos são falsos! Eles criam esses casos! São mentiras, calúnias! Tudo para desviar dinheiro do Império! Dinheiro que vocês pagam com impostos!
                Agora, a multidão gritava de raiva. Saxon parecia tê-los convencido. Cruzi olhou ao redor, e viu o diretor Noah ali em cima, próximo a eles, de cabeça baixa.
                - E agora – Saxon continuou. – Eles são acusados de assassinar um diretor da Guarda Nacional.
                A multidão inteira calou-se e ficou em silêncio.
                - Não só isso – Saxon disse. – Como também conspiraram contra a Rainha. Conspiraram contra o Império, junto ao Império da Alemanha. Tentaram sabotar o Brasil de dentro! Tentaram destruir a todos nós!
                Agora, a multidão não simplesmente gritava, mas o fazia com ódio. Palavrões, juras de ódio e morte eram proferidos. Saxon não pôde segurar um sorriso. Havia manipulado a multidão com sucesso.
                - Vocês lembram – Saxon continuou a dizer. – Da época em que não haviam esperança? 2036 anos atrás, a época em que tudo fora destruído, por causa da Terceira Guerra Mundial. A época mais sombria da humanidade. Uma época que só podemos conhecer por meio de livros de história, pois nós a deixamos para trás. Nós seguimos em frente, e encontramos a paz que temos hoje! E apenas um homem nos levou a essa paz: Noble! O sobrevivente da Terceira Guerra Mundial, que recriou a civilização depois de que tudo foi destruído! O homem que ajudou a reconstruir cidades, que ajudou a fundar novos países, que procurou refazer a paz! – Saxon fez uma pausa. – É por isso que dizemos “2036 d.N., depois de Noble”, não é mesmo? Pois foi Noble que reconstruiu o mundo! E agora, estes homens e mulheres da chamada divisão Titãs querem destruí-lo! Querem acabar com tudo que Noble construiu para nós!
                - E agora, meus companheiros – concluiu Saxon. – Nós vamos pôr estes ladrões, mentirosos e assassinos no lugar deles. Que sirva de exemplo para qualquer um que conspire contra o Império do Brasil a partir deste dia. Nós iremos executá-los agora, diante de vocês e em rede nacional!
                - BASTA! – Uma voz firme e forte reverberou pelo local inteiro. Todos se calaram. Nenhuma voz se ouvia na multidão lá embaixo.
                A Rainha apareceu, caminhando para a frente. Ela olhou para cada um dos membros da divisão Titãs. Olhou para Saxon, e, por fim, olhou para a multidão.
                - Mas que maldita selvageria é esta? – ela bradou, chocando todos ao xingar. A Rainha nunca xingara em público. – Que desumanidade! Que bobagem múltipla!
                - Minha senhora, temo que esteja atrapalhando – disse Saxon.
                - Pois muito bem que estou atrapalhando! – disse ela. – Atrapalhando esta... esta falta de noção! Como assim?! Executar pessoas em público! Sem sequer deixa-los se defenderem ou terem um julgamento digno! Que tipo de pessoas somos nós? Assassinos? Descivilizados? Não são estes os valores que pregamos no Império do Brasil!
                - O Império do Brasil está ameaçado – disse Saxon. – Estamos apenas tentando nos proteger.
                - Calúnias! – disse a Rainha. – Eu acompanho a divisão Titãs de perto. Eu mesma dei o aval para a criação da divisão. E posso garantir: nenhum deles JAMAIS estaria envolvido com qualquer tipo de atividade ilícita contra a nação! Pelo contrário: eles dedicam sua vida a protegerem a nação!
                - A senhora mais parece uma mãe do que uma Rainha falando. – alfinetou Saxon.
                - Pois eu sou uma mãe – continuou a Rainha. – Sou mãe de toda a nação. Venho governando este Império por mais de quarenta anos. Tive que enterrar meus pais, meu marido e meus irmãos, e todos eles também dedicaram sua vida a defender-nos. E nenhum deles, jamais, recorreu a esta barbaridade. Este é o Império do Brasil! Não somos selvagens! Não matamos os nossos em público! Não temos pena de morte! Temos justiça digna!
                Percebendo que estava perdendo a discussão, Saxon decidiu apressar seus planos.
                - Minha senhora, me acompanhe, por favor – disse ele. – Se a senhora insiste, vamos discutir sobre o assunto em particular.
                A Rainha voltou-se para ele, e olhou em seus olhos. Sem dizer nada, caminhou em direção à grande porta do Paço Imperial, mantendo sempre o queixo erguido. Saxon a seguiu.
                - O senhor – disse a Rainha, apontando para o diretor Noah. – Está no comando agora. Não deixe nada... de ruim acontecer.
                E então seguiu para a porta.
                “Não”, Cruzi queria gritar. “Ele está te levando para sua morte”. Mas ela não podia dizer isso, pois pareceria louca. Pior, havia a possibilidade de que acabaria por piorar a situação.
                Mas não havia mais nada a ser feito. Eles foram derrotados. Se não fizessem algo logo, a Rainha seria morta.
                Cruzi estava desesperada. Tinha que manter em seu rosto a expressão calma. Não podia deixar esse desespero se estampar. Tinha que manter a calma e pensar. Mas não conseguia. Ela tinha pouco tempo. O que faria? O que podia fazer?
                Ela não poderia usar a Luz... e não conseguiria fazer nada sozinha. Eram muitos guardas armados. Atirariam nela antes que conseguisse fazer qualquer coisa. Se ao menos pudesse ter uma distração...
                Então, ela percebeu o que tinha que fazer.
                Ela olhou para Carter. Estava na sua cara o tempo todo! Ele também olhou para ela. Ele havia percebido o que fazer.
                Eles precisavam que mais uma pessoa tivesse a Luz ativada. Uma pessoa que quebraria as algemas, inclusive a de Cruzi. E essa pessoa seria Carter, pois as algemas de Carter não eram anti-Luz.
                Cruzi se lembrou do modo como havia ativado sua Luz. Ela precisou levar um tiro na cabeça. Ela precisou morrer, para que a radiação da cidade de Chagas a curasse e, por fim, ativasse sua Luz. Cruzi percebeu mais uma coisa: nos flashes, depois que Saxon matava a Rainha, apenas os membros da divisão Titãs e o próprio Saxon permaneciam vivos, já que eram imunes à radiação... pois a própria Luz era a radiação! Ela se deu conta muito rapidamente. Era por isso que fora a radiação que curara ela quando levara o tiro. Era por isso que era imune à radiação: ela tinha a radiação dentro de si, e era a radiação que causava seus poderes.
                Ela olhou para Carter novamente. Ele precisava ser mortalmente ferido para que a radiação o curasse, e sua Luz fosse ativada.
                Carter olhou para ela. Ele não tinha medo nos olhos. Ele simplesmente assentiu, como se soubesse o que tinha que fazer. Cruzi assentiu de volta. E então, ele fez.
                Carter gritou, levantando os braços, e correu em direção ao Paço Imperial, como se quisesse ataca-lo. Os guardas se surpreenderam por um segundo – um segundo apenas. No momento seguinte, um dos guardas já havia empunhado uma pistola, e atirado contra Carter.
                O som dos tiros ecoou no silêncio. Tudo se calou. Carter caiu, morto, com três manchas sangrentas na área do peito e do abdômen.
                A multidão estava calada. Há poucos minutos, queriam que a divisão Titãs fosse executada. Mas agora, estavam todos chocados de ver um homem morto.
                - QUEM AUTORIZOU ISSO? – Noah gritou, se aproximando do corpo de Carter.
                - Senhor – disse o guarda que atirou. – Ele correu sem nenhum motivo...
                - ENTÃO VOCÊ SIMPLESMENTE ATIRA PARA PARÁ-LO?! – Noah gritou de volta. – VOCÊ MATA UM AGENTE, UM DOS SEUS?
                Mas nenhum dos guardas estava prestando atenção nos gritos de Noah. Estavam todos olhand, boquiabertos, para o corpo de Carter. Noah também olhou, e seu queixo também caiu.
                Uma barreia côncava e colorida envolvia o corpo de Carter – a radiação da cidade de Chagas. As balas saíam dos ferimentos abertos, caindo no chão ao lado, e os ferimentos se fechavam.
                - Mas o quê... – Noah exclamou, surpreso, e olhou para Cruzi. Ela sorria, um sorriso que parecia dizer “Confie em mim”.
                Então, quando a barreira côncava e colorida se apagou, Carter abriu os olhos.
                Lentamente ele se levantou. Todos os guardas estavam muito assustados. Nenhum deles tentou atirar.
                Carter olhou para Cruzi, e sorriu. Os dois sabiam: a Luz dele agora estava ativada. Agora, ele também tinha poderes.
                As algemas que prendiam os pulsos dos quatro membros da divisão se quebraram, libertando-os. Carter e Cruzi olharam para os guardas, e, no momento seguinte, as armas dos mesmos guardas flutuavam no céu. Todas as pistolas, fuzis e todo outro tipo de arma de fogo voaram, e foram destruídos no ar. Agora, ninguém poderia atirar ou ameaçar os Titãs.
                Cruzi olhou ao redor. Olhou para a multidão lá embaixo, para as câmeras de TV que gravavam tudo o que acontecia. Agora, todo mundo sabia que eles tinham poderes. Se eles queriam uma prova de que o paranormal existia, ali estava ela.
                Cruzi se voltou para os outros membros da divisão.
                - Temos que salvar a Rainha – disse ela, e os quatro correram para dentro do Paço.
                - Atrase eles – disse Cruzi para Noah, antes de entrar no Paço.
                Noah obedeceu, e ficou ali, impedindo qualquer um de entrar. Afinal, a Rainha o havia posto no comando.

5

                Os membros da divisão Titãs correram. Cruzi lembrava o que Saxon havia dito a ela: às 17h30, tudo aconteceria. O que significava que eles tinham menos de dez minutos para encontrar a Rainha e impedir Saxon de conduzir um atentado.
                - Parem – disse Cruzi. – O Paço é imenso. Não vamos conseguir acha-la a tempo.
                Ela fechou os olhos, e se concentrou. Imaginou a imagem da Rainha, como se assim fosse conseguir rastreá-la... E então, ela viu: estavam na sala de reuniões. A mesma que Cruzi fora convidada a entrar, meses antes, quando se reunira com a Rainha pela primeira vez.
                - Vamos subir – disse ela, e correram escada acima.
                Quando chegaram à sala de reuniões, encontraram dois homens armados à porta – mas não eram homens da Rainha, eram homens de Saxon. Cruzi e Carter usaram seus poderes primeiro para destruir as armas, esmagando-as no ar, e depois para nocautear os homens.
                Os quatro olharam então para a porta da sala de reuniões. Cruzi se lembrava de tudo que havia aprendido na academia: todas as normas de educação que tinha que utilizar para entrar naquela sala e se dirigir à Rainha. Da primeira vez que encontrara com ela, teve que pôr todas as normas em prática. Agora, a urgência de salvar sua vida era maior.
                Ela abriu a pesada porta dupla com violência, com muito mais força do que deveria ter – novamente, cortesia de seus poderes. A Rainha e Saxon estavam sentados no luxuoso sofá, e ambos se levantaram prontamente.
                - Mas o que está acontecendo? – perguntou a Rainha, porém, muito mais docemente do que havia falado com Saxon.
                Cruzi e Carter apontavam suas mãos para Saxon, como se estivessem prontos para usar a Luz. Lane e Foster, que ainda não tinham seus poderes ativos, se contentaram em sacar suas armas e apontarem para Saxon.
                - Senhora – disse Cruzi. – Se afaste deste homem, por favor. Ele está atentando contra sua vida.
                A Rainha olhou para Saxon, então, com uma expressão fria, e se afastou dele para ficar do lado dos Titãs. Saxon não tentou mentir ou convencer a Rainha de nada; sabia que ela acreditaria em seus queridinhos da divisão Titãs.
                - Bem – Saxon disse. – Tenho que admitir que por essa eu não esperava. Você – ele apontou para Carter. – Se ofereceu voluntariamente para receber a Luz. Eu realmente não esperava por isso. Mas, talvez, vocês não estejam cientes das... complicações que essa Luz possa trazer.
                - Não ouça ele – disse Cruzi. – Ele está tentando nos confundir.
                - Estou mesmo? – Saxon sorriu.
                Cruzi se aproximou. O tempo era curto, ela tinha que ser rápida.
                - Quando eu vi aqueles flashes – disse ela para Saxon. – Quando eu vi o seu plano... você pretendia explodir uma bomba como aquela que explodiu o trem na cidade de Chagas. Uma bomba que lançaria radiação sobre o Paço Imperial e sobre a multidão. Todos morreriam... a exceção de nós. Eu, Carter, Foster, Lane... e você. O que me faz concluir: você também tem a Luz. Você é como nós.
                - Menina esperta – Saxon disse, concordando.
                - Isso quer dizer que você sabe o que é esta Luz – disse ela. – Você sabe o que é esta radiação... você sabe o que são as Crianças, você sabe de onde nós viemos. O lugar a que realmente pertencemos...
                - Eu sei de tudo – Saxon disse, provocando-a. – Eu tenho todas as respostas que você deseja. Eu posso lhe contar tudo isso. Eu posso lhe dizer o motivo pelo qual quero começar esta guerra. Posso lhe dizer qual é minha verdadeira identidade, já que Saxon é um nome falso. Posso lhe dizer por que preciso das Crianças...
                Ele fez uma pausa. Então, no silêncio, uma grande Luz vermelha surgiu na sala, atrás de Saxon: era um portal. O mesmo portal que as Crianças haviam aberto, que levaria para o mundo onde eles pertenciam...
                - Posso lhe dizer tudo isso – continuou Saxon. – Mas, se continuarmos aqui, a radiação irá consumir tudo, e todo mundo irá culpar vocês. Se vocês realmente querem saber todas as respostas para todas as suas perguntas, venham comigo. Venham para o mundo que vocês pertencem. Descubram tudo. Ou fiquem aqui, e observem mais de cinco mil pessoas morrerem, e uma guerra começar.
                Cruzi olhou para o relógio na parede. Eram 17h27. Tinham três minutos antes da bomba explodir.
                - Não – ela respondeu prontamente.
                Saxon riu.
                - Como eu previ, você é fraca demais. E covarde. – disse ele. – Eu agora vou entrar neste portal, e vocês não poderão me impedir. Eu vou fugir. Vocês jamais poderão me capturar. E, assim que eu entrar no portal, eu vou caçar as Crianças, uma por uma. Vou captura-las, e então, eu vou voltar. E meu plano terá continuidade.
                - Não! – Cruzi disse novamente. – As Crianças não serão capturadas. Elas são fortes. Elas vão te derrotar. Elas vão te destruir, e você vai falhar. O único fraco aqui é você. A paz irá continuar. Nós vamos vencer!
                Cruzi levantou a mão. Com um golpe de seus poderes, ela empurrou Saxon para trás. Ele deu dois passos para trás, quase caindo no portal.
                - Eu acho sua coragem uma coisa linda – disse Saxon. – Somente por isso, talvez eu te dê uma das respostas que você tanto deseja... Meu nome verdadeiro.
                Saxon sorriu mais uma vez, antes de dizer:
                - Pode me chamar de Noble.
                O tempo pareceu parar. Todos estavam congelados, em choque. Cruzi não conseguiu se controlar: sua surpresa ficou estampada na cara. Saxon gargalhou alto, antes que Cruzi, num acesso de raiva, usasse seus poderes para empurrá-lo novamente. Saxon caiu no portal, que se fechou prontamente.
                Todos ficaram em silêncio. Ninguém teve nenhuma reação. Foi Cruzi a primeira que disse:
                - A bomba. Onde está a bomba?
                Ela usou seus poderes novamente, rastreando a bomba. Descobriu que estava debaixo do sofá. Ela pegou a bomba então: era um quadrado metálico, de mais ou menos sessenta centímetros.
                Ela olhou o relógio novamente. Eram 17h28. Tinham menos de dois minutos.
                - Rápido! – disse ela. – Temos que nos livrar da bomba!
                Ela foi para a janela, e olhou para baixo. A multidão toda estava ali embaixo. A multidão, os guardas, todo mundo olhou para cima. Olhou para ela. Estavam apreensivos, quase como se soubessem que era questão de vida ou morte.
                - O que nós vamos fazer? – Cruzi perguntou-se, e então olhou para o céu. Era sua única chance: usar seus poderes para fazer a bomba flutuar até o mais longe possível. Assim, quando explodisse, não atingiria ninguém.
                Ela então o fez. Fez a bomba levitar no ar, fazendo-a ir cada vez mais longe... cada vez mais alto no céu... Ela podia sentir. Estava cinquenta metros lá em cima... cem... duzentos... mas ainda não era o suficiente. Ela tentou fazer subir mais, mas não conseguia.
                - Eu não consigo – gemeu ela, e percebeu que sua voz estava fraca e falhando. Ela sentia uma gota de sangue escorrendo por seu nariz. Sabia que isso não era bom. Mas ela tinha que continuar tentando... tinha que fazer a bomba flutuar ainda mais alto... Mas não conseguia. Ela não tinha forças. Sua Luz não era o suficiente.
                Então, ela sentiu uma mão segurar a sua, e olhou para o lado. Carter. Ele estava ali, do seu lado. Ele sorriu para ela, e então olhou para a bomba no céu. Com esforço, se concentrou também. Juntos, os dois fizeram a bomba flutuar ainda mais alto... quinhentos metros... um quilometro... dois quilômetros...
                E então, aconteceu. A bomba explodiu no céu.
                Cruzi e Carter abriram os olhos, e viram. Uma grande barreira côncava e redonda havia se formado no céu, afastando as nuvens. Era a radiação. A bomba havia explodido no céu, muitos metros acima da multidão. A radiação estava longe de qualquer ser humano. Não faria mal a ninguém.
                Todos olharam para cima, vendo a barreira côncava que era a radiação. Era algo perigosíssimo, sim, mas era algo lindo de se ver. Estava tudo bem agora. Estavam todos seguros.
                Eles ficaram olhando para cima por um bom tempo – talvez por dez minutos – quando a radiação parou. A barreira côncava sumiu. Acabara. Tudo acabara.
                Carter e Cruzi se olharam. O nariz dele também estava sangrando. Cruzi sorriu. Estava mais cansada do que tudo. Ela encostou a cabeça nos ombros de Carter, como se assim pudesse dormir por muitas horas seguidas. Tudo o que ela queria agora era isso mesmo: dormir.

6

Salão de encontros do Paço Imperial, 18h
                - Vocês fizeram um ótimo trabalho – disse a Rainha. – Salvaram a todos nós, mais uma vez.
                - Em parte – disse Cruzi. – Nós ainda não temos metade das respostas para nossas perguntas. Parece que, a cada resposta que aparece, surgem mais mil perguntas.
                - E o que Saxon quis dizer, com “Pode me chamar de Noble”? – perguntou Carter. – Você não acha que ele é...
                - Não – Lane respondeu prontamente. – Impossível.
                - Ele estava só tentando nos provocar – disse Cruzi, apesar dela mesma não se sentir segura assim.
                - O que importa – A Rainha disse. – É que, por hora, estamos todos vivos e salvos. Graças a vocês.
                - Sim – disse Cruzi. – Mas nossa missão ainda não acabou. Saxon, ou Noble, ou seja lá quem for ainda está solto por aí. Ele vai atrás das Crianças, e disse que vai voltar. Temos que estar preparados. Temos que impedi-lo!
                - Isso sem contar a impressa – disse Lane. – As câmeras de TV gravaram tudo. Todo mundo sabe agora dos seus poderes... dos nossos poderes. Eles vão querer nos interrogar, talvez queiram até mesmo fazer experiências em nós! E não vamos nos esquecer do que Saxon disse: que existem complicações em ativar e usar a Luz...
                - Mas não hoje – disse a Rainha. – Se vocês me permitem, prefiro gastar o resto do meu dia comemorando o fato de eu estar viva. E sugiro que façam o mesmo. E, não se preocupem. Da impressa, eu posso cuidar. E qualquer complicação com a Luz que possa existir, nós contrataremos os melhores médicos de todos os Impérios. Tenho lá meus contatos. – A Rainha olhou para eles mais uma vez, e sorriu. Não um sorriso de Rainha, mas o sorriso de uma senhora idosa que poucas vezes via felicidade na vida, e que estava vendo agora. – Ora essa, vamos lá. O dia ainda não acabou. Façam o que quiser, se divirtam. Não é como se fôssemos lutar novamente agora. E é bom aproveitarmos o tempo que temos. Amanhã teremos que fazer um comunicado especial, desmentindo tudo sobre a Alemanha, explicando sobre a radiação, etc. Claro, sem os detalhes sórdidos.
                Ela então saiu do salão, deixando os quatro agentes a sós.
                - Certamente foi uma jornada – disse Foster.
              - Não acabou ainda – Carter respondeu, e então olhou para Cruzi. – Nós vamos continuar a lutar.
                - Vamos salvar as Crianças. – disse Cruzi. – E vamos encontrar Saxon.
                Eles permaneceram em silêncio, olhando um para o outro. Cruzi devolveu o olhar para Carter. Nenhum deles precisava completar aquela frase. Eles continuariam a lutar, e o fariam juntos.
                Então, de repente, eles sentiram um grande tremor sob seus pés.
                - O que foi isso? – perguntou Lane.
                A atenção de todos eles foi redirecionada para a janela. Eram pouco mais de 18h, de modo que o céu já deveria estar escuro. Mas uma luz se reacendeu – uma luz vermelha.
                Os quatro agentes olharam pela janela. As nuvens, antes negras, agora estavam vermelhas. O céu estava vermelho. As pessoas lá embaixo também olhavam para o céu. Algumas gritavam.
                Então, Cruzi viu alguns pontinhos pretos se movendo no céu. Eles se aproximavam mais e mais... e então, ela percebeu: eram naves. Do tamanho de helicópteros.
                Luzes azuis brilhavam dentre o céu vermelho. O som de um chiado impregnava o ar. Todos olhavam para cima – para as naves, para o céu vermelho, para as luzes azuis. E ninguém sabia o que dizer.
                - O que está acontecendo? – Cruzi perguntou a si mesma. – O que diabos está acontecendo?
                Os membros da divisão Titãs se entreolharam. Ninguém sabia responder.
A luta não acabara.

TITÃS ENTRA EM PAUSA PARA AS FESTAS DE NATAL E ANO NOVO AGORA, E ESTARÁ DE VOLTA NO DIA 11/01/2013.
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